1 de setembro de 2018

Capítulo 7

IOANNES
O SANTUÁRIO

Nos dois mil anos de existência de Ioannes, nunca quis tanto uma coisa como naquele momento.
Ele se deitou na grama de seu prado favorito com os olhos fechados e estendeu os braços na escuridão, procurando por ela.
Onde está você?
Nenhuma resposta. Tentou até a cabeça começar a doer e o corpo se enfraquecer. Até ficar tão frustrado a ponto de querer gritar. Mas, mais uma vez, não funcionou.
A princesa estava perdida para ele — solta em algum lugar do mundo mortal, sozinha, sem ninguém para guiá-la ou protegê-la.
A ideia o fez gargalhar, e o som ecoou profundamente em seu peito.
Protegê-la.
— Ioannes.
Ele se levantou ao ouvir a voz de Timotheus.
— Saudações — ele conseguiu dizer com a voz rouca. Não havia dito nada em voz alta o dia todo.
Timotheus, amigo e mentor de Ioannes, assim como um dos Três que compunham o conselho de anciãos, ficou olhando para ele com os braços cruzados e paciência nos olhos dourados.
— Estou interrompendo sua meditação diária? Ou você estava tentando visitar um sonho?
— Nenhum dos dois — ele mentiu. — Só estava descansando. — Admitir que tentava visitar os sonhos de um mortal só resultaria em mais perguntas. Perguntas que ele não podia responder.
— Tem alguma coisa diferente em você — Timotheus disse, desenhando um círculo lento ao redor de Ioannes e analisando sua figura alta e esguia. — Notei há meses, desde que começou a passar mais tempo com Melenia.
— Não sei do que está falando.
— Seja cauteloso com ela.
Um raio de preocupação atingiu Ioannes, e ele se esforçou para que seu rosto não demonstrasse.
— Sou cauteloso com todos aqui no Santuário.
— Isso faz de você um sábio.
— Estava dando uma volta? Ou veio aqui me procurar?
— Nenhum dos dois. Estou procurando Phaedra. Ela ainda está desaparecida.
Ouvir o nome de sua amiga mais querida foi um golpe inesperado.
— Eu sei.
— Sabe aonde ela foi quando desapareceu?
— Não.
Timotheus não rompeu o contato visual. Apesar dos séculos de amizade, apesar de toda a orientação e o conhecimento que o ancião havia compartilhado, Ioannes ainda precisava guardar alguns segredos dele.
Segredos terríveis.
— Acho que Melenia tem algo a ver com o desaparecimento — Timotheus disse. — Pode perguntar a ela da próxima vez que a vir, o que, imagino, será hoje?
Ioannes preferiu não confirmar.
— Vou perguntar da próxima vez que a vir.
Na Cidade de Cristal, circulavam rumores de que ele era o mais novo amante da líder, o que atraía olhares de inveja e ciúmes dos imortais aonde quer que fosse.
Mas aquele rumor não podia estar mais distante da verdade.
— Preciso ir agora. — Ioannes ficou tenso quando Timotheus tocou seu ombro. A preocupação obscureceu seu rosto eternamente jovem.
— Ioannes, você pode confiar qualquer segredo a mim. Como sempre fez. Espero que saiba disso. Se precisar me contar alguma coisa, não hesite.
Ioannes sorriu e meneou a cabeça, desejando que tudo fosse simples assim.
Ele precisava saber o que havia acontecido com Phaedra. A questão voltou a consumi-lo enquanto seguia para o alto do palácio de cristal para encontrar Melenia. A bela vigilante o cumprimentou com um sorriso, escancarando as portas de ouro para permitir que entrasse em seus aposentos, repletos de luz e belas flores — colhidas todo dia por seus servos devotos.
— Você chegou cedo — ela disse, beijando-lhe as duas faces antes de fechar as portas. Seu cabelo claro e longo estava solto, cheirava a açafrão morno e refletia a luz da janela que ia do chão ao teto e dava para o resto da cidade que os imortais chamavam de lar.
Ele não deu mais de um passo dentro do cômodo e logo tocou no assunto.
— Preciso saber o que aconteceu com Phaedra.
— Ela desapareceu.
— Disso eu sei. Ela ainda está viva?
Melenia piscou, surpresa.
— Minha nossa, Ioannes. O que significa isso? Não acha que tive algo a ver com o desaparecimento dela, acha?
Ele reuniu toda a coragem possível.
— Na verdade, acho. Sei que você a considerava um problema, pois sabia muito e estava perigosamente perto de descobrir ainda mais.
— E por isso você acha que eu… o quê? Eu a assassinei? — Ela sorriu com doçura. — Garanto que não toquei em um único fio de cabelo dela.
— Mas sabe o que aconteceu.
— Venha sentar. Temos muito que discutir hoje. Infelizmente, essa conversa terá de esperar até meu outro visitante sair.
— Outro visitante?
Ouviu-se uma batida na porta.
— Sim. Danaus estava desesperado para falar comigo hoje.
Danaus, o último membro dos Três, era um imortal bastante desagradável que Ioannes evitava sempre que possível.
— Não o deixe entrar.
— Não seja tolo. Na verdade, preciso dele hoje.
Cerrando os dentes, Ioannes viu Melenia praticamente flutuar sobre o chão prateado cravado de joias brilhantes. Seu vestido bordado com diamantes era feito de um material que parecia tecido com platina, e seu cabelo longo e ondulado brilhava em diferentes tons de dourado. Era a vigilante mais bela de todas.
Como Ioannes havia passado a odiá-la.
Ela abriu a porta para Danaus.
— Ah — a voz dele soou. — Vejo que não está sozinha.
— Não. — Melenia abriu mais a porta e fez um gesto para que ele entrasse. — Mas entre. Por favor, eu insisto.
Danaus podia ser tão belo quanto qualquer um de seus semelhantes, mas sua expressão eternamente mal-humorada o tornava feio aos olhos de Ioannes.
Danaus o olhou com claro desdém.
— Ioannes não é um de nós — ele disse.
— É claro que é. Não seja grosseiro, Danaus. Não é do seu feitio. Por favor, diga a que veio. Parece que algo está lhe causando um profundo incômodo.
— Muito bem. — Ele bufou, impaciente. — Recebi notícias de uma sentinela dizendo que um de nossos exilados está usando magia para ajudar o rei mortal a construir uma estrada. Acredito que Xanthus era um de seus mais devotos subordinados, não era?
Ioannes quase se encolheu ao ouvir o nome do irmão de Phaedra, que deixara o Santuário vinte anos antes. Tinha sido amante de Melenia e seu protegido mais favorecido e talentoso. Ela o havia instruído como nunca fizera com mais ninguém no Santuário, o que levara todos, inclusive Ioannes, a suspeitarem dele e o invejarem.
Agora ele sabia que não devia invejar ninguém que aquela imortal selecionasse. No momento tinha pena dos que eram escolhidos a dedo por ela.
Incluindo ele próprio.
“A bela aranha em sua teia prateada, contando histórias para enroscar a todos nós.” Um alerta de Phaedra que ele havia ignorado. Ela estava sendo mais esperta do que qualquer um poderia imaginar.
Melenia assentiu.
— Me lembro muito bem de Xanthus.
Danaus franziu os lábios, visivelmente irritado por ela não ter ficado enfurecida com a notícia.
— Acredito que alguém aqui do Santuário o visita em sonhos, guiando seus atos.
Ela arqueou as sobrancelhas.
— É mesmo? Quem?
— Ainda não sei.
Apesar de Danaus ser muito velho e ter uma vasta riqueza de conhecimento, ele, na verdade, era profundamente burro. Mas talvez Ioannes estivesse tirando conclusões precipitadas. Como Timotheus, Danaus era um ancião. Se ao menos Ioannes descobrisse uma forma de encontrá-los a sós, dizer o que Melenia estava planejando às escondidas, seriam dois contra uma…
O pensamento rebelde fez surgir uma dor repentina e intensa em seu peito. Diferente da pontada vaga da culpa ou do arrependimento, tratava-se de uma dor de fato, causada pelo feitiço de obediência que Melenia havia lançado sobre ele para garantir sua lealdade. Estava lutando contra isso havia semanas, mas tinha acabado de descobrir que era inquebrável. Gemeu em voz alta, cedendo à dor.
— Está tudo bem com você, rapaz? — Danaus perguntou, olhando para ele com cautela.
— É claro que sim — ele respondeu, fortalecendo-se até a dor começar a desaparecer.
— Ignore-o, Danaus, e deixe-me dizer quem está guiando Xanthus — Melenia disse com a voz calma e serena. — Já estou ciente do que está acontecendo e sei quem acessa seus sonhos.
Ele ficou totalmente surpreso.
— Quem?
— Eu. — Ela sorriu. Havia um quê de crueldade em seus olhos azul-safira.
Ioannes estava mais do que chocado. Por que Melenia compartilharia um segredo tão valioso com o imortal em quem, de acordo com sua confissão, confiava menos?
— O quê? — Danaus deu um passo à frente, aproximando-se bastante de Melenia. — É impossível. Anciãos não podem visitar sonhos.
— Você não pode. Mas eu posso — ela afirmou. — Visito os sonhos de Xanthus e do rei mortal Gaius. Ambos fazem parte de um plano elaborado com todo cuidado. O rei quer a Tétrade, tanto que está disposto a fazer qualquer coisa, dizer qualquer coisa, ser qualquer coisa para tê-la em suas mãos gananciosas. E é por causa dessa ganância que, de todos que já conheci, ele é o mais fácil de manipular. Neste exato momento, ele aguarda ansioso minhas próximas instruções em mais um sonho.
Os olhos de Danaus brilhavam de inveja.
— Como isso é possível? Você precisa me dizer. Fugir deste lugar, nem que seja pelos olhos de outra pessoa… eu desejo muito isso.
Claro, Danaus agarraria qualquer oportunidade, mesmo que imoral, que o beneficiasse. Ele nem parecia se importar que Melenia tivesse escondido esse segredo dele até o momento.
— Quer mesmo saber? — ela perguntou suavemente.
— Sim. Você precisa me mostrar!
Um alerta soou dentro de Ioannes, e sua garganta se fechou. Ele queria falar, mas não conseguia.
— Está bem. — Melenia segurou o rosto de Danaus entre as mãos. — Olhe bem dentro de meus olhos.
Não. Não faça o que ela está pedindo.
Mas o desejo de Danaus por aquela habilidade transformara o justiceiro que havia entrado nos aposentos em alguém tão cego e ganancioso quanto o rei Gaius.
— Estou surpresa por não ter descoberto sozinho — Melenia disse. — Se bem que eu mesma descobri por acaso.
— Descobriu o quê? — Danaus indagou.
— Que vigilantes são capazes de tirar magia uns dos outros para se tornar mais poderosos. É um poder que nos permite fazer várias coisas interessantes, inclusive visitar sonhos.
O coração de Ioannes começou a bater com força, mas a dor lancinante em seu peito o manteve imóvel e em silêncio.
Os olhos de Danaus se iluminaram.
— Mostre-me como fazer.
— Já que insiste…
Melenia olhou fixamente nos olhos dele, e suas mãos começaram a brilhar.
— Estou sentindo — Danaus sussurrou. — Sinto o poder me deixando e entrando em você. Incrível. Esse tempo todo… como eu não descobri?
— Existe um porém, é claro. Sempre existe um porém. Se tirar mais do que apenas uma amostra, uma marca é deixada no doador.
Danaus recuou. Ioannes podia ver que ele estava começando a sentir a dor enquanto sua magia fluía para Melenia, enfraquecendo-o e a fortalecendo.
— Chega. Pare.
— Mas, veja só, é impossível. Já tirei demais — ela sussurrou alto o bastante para Ioannes escutar. — Não quero deixar que sofra e desvaneça. Estou lhe fazendo um favor hoje, meu amigo.
Os dedos de Ioannes afundaram no estofado macio da cadeira enquanto observava Danaus começar a brilhar, contorcendo o rosto.
— Pare! — Danaus gritou. A dor devia ser insuportável. — Por favor, pare!
— Fico grata por seu sacrifício, Danaus. A magia que roubei de outros imortais é pobre. Mas você, um ancião, um dos originais, como eu, tem muito mais a oferecer. Farei bom uso dessa magia quando finalmente me libertar desta prisão.
Ele gritou quando seu corpo foi engolido por chamas azuis e brancas, e, finalmente, Melenia se afastou dele, observando-o desaparecer em um lampejo de luz que cegou momentaneamente Ioannes.
Danaus existiu por milênios e então desapareceu — para sempre — em questão de minutos.
— Isso foi incrivelmente prazeroso — Melenia disse, passando a mão no cabelo brilhoso.
Não podia ser. Melenia tinha que sentir pelo menos um pouco de remorso, e, se não sentia, era ainda mais monstruosa do que Ioannes suspeitava.
Não era tarde demais. Ioannes encontraria uma forma de chegar a Timotheus e contar a ele o que havia acontecido. Ele e Melenia eram os únicos anciãos originais que restavam.
Ela precisava ser detida.
Enquanto pensava nisso, a dor tomou conta dele.
— Agora, onde estávamos? — Ela o encarou fixamente e sentou com rigor na espreguiçadeira. — Ah, sim, Phaedra. Você acredita que eu a assassinei porque sabia demais?
Os olhos dela resplandeciam tanto que Ioannes achou que poderiam transbordar em um mar de poder cor de safira.
Melenia estava mais perigosa do que ele já tinha visto, e Ioannes não conseguiu conter o medo.
Então abaixou a cabeça.
— Peço desculpas, minha rainha, eu nunca deveria ter sugerido algo assim.
— Não, não deveria. — Ela sentou ao lado dele, tão perto que podia sentir a crepitação da magia que agora recobria sua pele dourada. — Mostre aquilo que fizemos outro dia.
Por uma fração de segundos, ele hesitou. Mas a dor voltou a aumentar, forçando-o a obedecer. Ele soltou os laços da camisa e revelou o peito. A espiral dourada sobre seu coração havia enfraquecido desde que Melenia começara a consumir sua magia, assim como havia feito com Danaus, mas com menos severidade. Ela tirava um pouco todos os dias, apenas o suficiente para impedi-lo de visitar os sonhos de Lucia ou observá-la no mundo mortal na forma de falcão. Agora ele também era um prisioneiro ali, em todos os sentidos.
— Sei que fui dura com você — ela disse com tranquilidade. — Mas não tenho escolha. Não posso arriscar que nada dê errado.
— E nada vai dar, minha rainha.
Ioannes só podia culpar a si mesmo pela posição em que se encontrava. Concordara generosamente em colaborar com ela, acreditando que poderia ajudar a salvar seu mundo — a salvar todos os mundos. Entendia desde o início que certos sacrifícios deveriam ser feitos por um bem maior, mas suas intenções sempre foram puras.
Ele ainda não sabia de toda a verdade.
Melenia inspecionou os símbolos que havia marcado no peito dele com uma lâmina dourada, inoculada com sua magia. Ao passar os dedos pelas feridas, infundiu mais um pouco do feitiço de obediência nele. As quatro figuras — símbolos de cada elemento — eram tão simples, mas tão poderosas, principalmente quando gravadas tão fundo na carne de um imortal.
E mesmo quando as cicatrizes finalmente desaparecessem por completo, continuariam controlando-o.
Ela o controlaria.
— Acha que está pronto? — Melenia perguntou.
As palavras borbulharam e escaparam antes que ele pudesse contê-las.
— Existo apenas para servi-la, minha rainha.
Ela passou as mãos pelo peito e pela garganta de Ioannes, depois pela face. Segurou o rosto dele entre as mãos, como havia feito com Danaus. Ele não teve escolha além de olhar nos olhos dela, sem saber se Melenia o deixaria viver ou o mataria e acabaria com tudo.
Não, ela não faria isso. Tinha passado muito tempo preparando-o para o que estava para acontecer. Precisava dele.
— Você cumprirá minhas ordens sem hesitar. Eu lhe darei um presente como retribuição por tudo o que fez e fará por mim, meu lindo menino. Entende e concorda com isso?
Ioannes podia senti-la observando-o em busca de sinais de protesto. Se hesitasse, ela fortaleceria ainda mais o feitiço. Mais dor, mais tortura. Ele perderia uma parte ainda maior de si mesmo. A necessidade de obedecê-la já era uma serpente enrolada em seu pescoço, apertando até quase não deixá-lo respirar.
Ele se apegou à imagem de uma bela garota com cabelo bem preto e olhos azuis como o céu, a menina que um dia jurou proteger com a própria vida.
Acreditava nela. A garota lhe daria forças para sobreviver a isso.
— Sim, minha rainha. Entendo completamente.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!