3 de setembro de 2018

Capítulo 6


AMARA
KRAESHIA

Vou encontrá-la!, era o que Ashur gritava em todos os pesadelos que ela tinha desde que deixara a costa de Limeros. E, quando conseguir, vou destroçá-la por sua traição. Vou fazê-la gritar por perdão, mas ninguém vai ouvir.
Ela acordou assustada, se lembrando histericamente de que, não, seu irmão não a encontraria. Nunca mais. Tentou se concentrar em afastar qualquer dúvida que ainda tinha a respeito de suas novas responsabilidades, e o que precisava ser feito para executá-las. Nada mais importava.
Finalmente, o navio passou pelas barreiras marítimas e atracou no porto. Ela havia retornado para Joia do Império, capital de Kraeshia.
— Bem-vinda, princesa — disse uma voz conhecida. Mikah, um guarda do palácio, esperava por ela no fim da prancha de desembarque. Como todos os guardas kraeshianos, Mikah começou a ser treinado aos doze anos — depois de ter sido vendido pelos pais ao imperador —, e já estava baseado na residência real havia uma década. De certo modo, ele e Amara tinham crescido juntos.
Ela levantou o queixo e não sorriu para saudá-lo.
— Me leve até meu pai.
Mikah se curvou.
— Sim, princesa.
O trajeto até o palácio passou como um borrão. Ela não se preocupou em olhar a paisagem por onde a carruagem passava — já tinha visto um milhão de vezes, e mesmo a longa estadia em Mítica não havia conseguido apagá-la de sua memória. É possível se entediar até com a beleza quando se está constantemente cercado por ela.
Os auranianos achavam que sua Cidade de Ouro era o lugar mais bonito do mundo, mas só porque nunca tinham estado em Joia. Ali, não era o ouro espalhafatoso ou o mármore frio que dominavam, mas as variadas cores vivas da natureza.
Para onde se olhasse, era evidente que o imperador Cyrus Cortas gostava de tons de ametista e esmeralda. Murais enormes retratando o próprio imperador adornavam as paredes de todas as quadras, em todas as regiões, pintados predominantemente com essas duas cores fortes. As ruas eram pavimentadas com paralelepípedos roxos e verdes, em padrões belos e elaborados, e tantos cidadãos de Joia usavam túnicas dessas mesmas cores para tentar agradar seu governante que visitantes de fora podiam pensar que se tratava de um uniforme oficial do país.
O imperador era apaixonado pela natureza e insistia que as condições fossem tais que ela sempre pudesse florescer, mas também insistia que cada arbusto, cada folha e pedaço de grama fossem bem cuidados e podados à exaustão. Ele importava plantas e flores raras de terras conquistadas. Um exército de jardineiros estava o tempo todo aparando cercas vivas e árvores em formas geométricas precisas. Paisagistas do mundo todo eram chamados para usar suas habilidades na terra kraeshiana. A estrada que Amara percorria parecia uma manta de beleza infinita, que levava direto à residência real: uma enorme torre verde, como uma lança de esmeralda perfurando o céu. Então era apropriado que a estrutura levasse o nome de Lança de Esmeralda. Muitos dos que nunca a tinham visto antes chamavam a torre de milagre da arquitetura, construída com ângulos tão impossíveis que só podia haver magia envolvida.
Mas nada era impossível quando se tinham recursos para recrutar os melhores entre os melhores, pessoas que realmente tinham visão e experiência para fazer o trabalho. O imperador procurava esses artistas e arquitetos em reinos que ainda não havia conquistado e lhes pagava pequenas fortunas por seus dons. Eles sempre voltavam para casa sorrindo, ávidos e dispostos a retornar a qualquer momento para fazer mais. Joia do Império tinha levado mais de vinte anos para chegar a esse nível de beleza, mas o pai de Amara ainda não estava satisfeito. Assim como em todos os aspectos da vida, ele sempre ansiava por mais.
Depois de crescer cercada por tanta beleza fabricada, Amara acabou desejando algo diferente. Algo que não fosse necessariamente belo. Algo imperfeito, interessante e talvez até mesmo feio.
Mas feio não era permitido em Joia.
— Fez boa viagem, princesa? — Mikah perguntou depois de um longo silêncio.
— Sim. E agora estou muito feliz por estar em casa.
A esfera de água-marinha estava no bolso de seu manto de seda. Amara envolveu a superfície fria com os dedos. No navio, tinha passado vários dias tentando descobrir seus segredos e aprender como dominar a magia da água, mas havia falhado sempre. Por fim, ficou tão frustrada que quase a jogou no mar.
Amara inspirou devagar e depois soltou o ar, contando até dez no processo. Precisava ficar calma, ignorar toda decepção ou dúvida que pudesse se instaurar.
Mente lúcida, olho vivo. Nada mais podia ajudá-la agora.
O cristal é real. E é meu.
Ela repetiu esse mantra diversas vezes, até sentir que o cristal da água lhe pertencia total e completamente. Teria preferido ficar em Mítica para encontrar os outros três, mas um teria que bastar por enquanto. Só precisava descobrir seus segredos.
— Seu pai está ansioso por seu retorno — Mikah comentou.
— Verdade? — Um sorriso tocou seus lábios de leve. — Ele sentiu muito a minha falta?
O guarda levantou as sobrancelhas escuras.
O sorriso dela se abriu, parecendo mais genuíno.
— Não se preocupe, Mikah. Só estou brincando. Sei o que esperar de meu pai. Ele raramente me surpreende.
Mikah a conhecia fazia tempo suficiente para responder apenas com um aceno de cabeça compreensivo.
Os dois chegaram à Lança de Esmeralda, e Mikah conduziu Amara até a sala de mapas do imperador.
— Espere aqui fora — ela disse quando Mikah abriu a porta pesada.
Ele se curvou.
— Sim, princesa.
A sala de mapas tinha um nome apropriado. Sob o teto abaulado, ocupando a maior parte do imponente espaço, havia um mapa tridimensional do cada vez maior Império Kraeshiano, que agora correspondia a um terço do mundo conhecido. Especialistas em cartografia viajavam para Joia duas vezes ao ano para atualizar o mapa e incluir quaisquer reinos ou porções de terra recém-adquiridos.
Do outro lado da sala, em meio a um grupo de guardas e conselheiros, estava o pai de Amara. Ele estava imerso em uma conversa sussurrada com o irmão dela, Elan, quatro anos mais velho que a princesa e pelo menos dez centímetros mais baixo. Elan era muito magro e frágil, e tendia a grudar no pai como craca em um navio. Muito diferente do irmão mais velho, Dastan, primogênito e herdeiro, que era alto e belo, parecido com Ashur. Seriam gêmeos idênticos se não tivessem seis anos de diferença.
Amara estava agradecida por Dastan estar no mar, a caminho de casa depois de reivindicar uma nova porção de terra para o império. Ainda não se sentia pronta para ver alguém que a fizesse lembrar tanto de Ashur.
— Pai — ela o chamou. Ele não tirou os olhos de Elan, então Amara repetiu mais alto: — Pai!
O imperador voltou o olhar intenso a ela.
— Então você finalmente voltou.
— Voltei. — Seu coração batia tão forte que ela mal conseguia pensar. Havia muito a dizer, e muito mais a esconder.
Os conselheiros do imperador a olharam como se a julgassem, mas ninguém disse nada nem sorriu. Aqueles homens sempre a deixavam nervosa. Eram como abutres esperando para bicar os restos dos mortos.
— Venha aqui. — O imperador fez um sinal na direção dela. — Deixe-me ver minha bela filha de perto.
Talvez o que ela dissera a Mikah sobre o imperador não fosse muito preciso — o pai chamá-la de bela era uma grande surpresa, de fato. Ele raramente a elogiava, especialmente dessa forma. Amara deu a volta no mapa, passando a mão esquerda pela borda lisa.
Se ao menos pudesse compartilhar todas as suas conquistas com ele, se ao menos ele escutasse, Amara tinha certeza de que ficaria orgulhoso. Mesmo não tendo encontrado os quatro cristais da Tétrade, considerando que estavam perdidos havia um milênio, conseguir um deles já era uma vitória incrível.
— Minha irmã — Elan disse, saudando-a com um tom monótono.
— Meu irmão — ela respondeu com um meneio de cabeça.
O imperador olhou para ela, os braços cruzados diante da túnica verde-escura intrincadamente bordada com flocos de ouro e fênix e dragões violeta — símbolos de Kraeshia e da família Cortas.
— Diga, filha, como foi a viagem à pequena Mítica?
— Movimentada.
— Vejo que veio sozinha. Ashur planeja voltar para casa algum dia? Ou vai continuar a perambular pelo mundo, perseguindo suas borboletas mágicas?
Em Limeros, Amara tinha ameaçado voltar para seu pai e acusar Magnus de ter assassinado Ashur. Naquele momento de paixão, pareceu uma escolha lógica, mas agora que tinha tido muitos dias para considerar as opções, tinha decidido não dizer nada — por enquanto.
Ela forçou um sorriso.
— Sim, meu irmão tem alma de viajante. Mas foi encantador poder passar um tempo com ele. Tenho certeza de que vai voltar logo, só não disse quando.
Talvez na próxima vida, Amara pensou. Os kraeshianos acreditavam em reencarnação. Assim como a fênix que representava o império, eles também ressurgiam depois da morte para iniciar uma nova vida.
— Estou certo de que você teve a oportunidade de conhecer o rei Gaius durante sua estada.
Ela assentiu.
— O rei foi muito gentil comigo e com Ashur. Até nos ofereceu uma quinta.
Ela não mencionou que a quinta ficava o mais afastada possível do palácio. Ou que o rei quase a prendeu, junto com Ashur, para tentar usá-los contra o imperador. Ou que bastou um único encontro para ela ter certeza de que ele teria cortado a garganta dos dois sem remorso se sentisse que isso o favoreceria.
Todos os rumores sobre Gaius Damora eram verdadeiros. Ele era uma cobra: peçonhento e sangue-frio. É claro que Amara não tolerou suas tentativas de transformá-la em uma presa enquanto estava em Mítica, mas agora, com alguma distância entre os dois, achava que, na verdade, era capaz de apreciar sua brutalidade.
— E que tipos de coisa discutiu com o rei? — o imperador perguntou, pegando distraidamente um pequeno modelo de navio da costa do mapa.
— Nada em especial, foi tudo muito cortês. — Amara tentou se lembrar de qualquer conversa memorável que tivera com o rei. — Ele nos apresentou aos conselheiros do palácio, falou um pouco sobre as atrações de Auranos, nada útil nem esclarecedor. E obviamente não foi nada surpreendente. Os habitantes de Mítica não falam o que pensam e sentem como nós. Tudo não passa de amabilidade vazia e insinuações passivo-agressivas.
— Não são nada parecidos conosco. — O imperador segurou o rosto dela entre as mãos grandes e sorriu.
— Definitivamente diferentes de nós.
— Então me permita ser direto, filha. — Ele apertou o rosto dela, e a expressão agradável desapareceu de seu rosto envelhecido. — Que segredos compartilhou com o Rei Sanguinário que podem ser usados contra mim?
Ela arregalou os olhos.
— O quê? Eu não disse nada, é claro.
— É mesmo? — ele perguntou, o olhar firme e fixo. — Porque me pergunto por que, exatamente, recebi uma mensagem de Auranos informando que o rei estava a caminho daqui, para se encontrar comigo. Não acha que é muita coincidência ele ter escolhido fazer essa pequena viagem agora, logo depois que você partiu de Mítica?
Uma dor profunda se espalhou por suas têmporas, onde o imperador continuava apertando cada vez mais.
— Pai, juro que não disse nada.
— Talvez você fale dormindo, então? — Ele levantou uma sobrancelha em resposta à expressão aturdida da filha. — Sei que acha que não presto atenção em você, Amara. Mas presto atenção no que dizem a seu respeito. Que você leva para a cama qualquer homem que sorri para você. Que minha filha, a princesa de Kraeshia, não é melhor do que uma prostituta qualquer.
— Pai! — O rosto dela se incendiou, e Amara agarrou as mãos dele, cravando as unhas. — Não sou uma prostituta! E não dormi com o rei. E não contei nada sobre você nem sobre o império. Eu nem conheço nenhum segredo a seu respeito. Lembre-se, não sou um de seus filhos. Sou sua filha, apenas uma garota. Sei muito bem que sou pouco mais que um ornamento para você.
Ele a analisou por um longo momento. Seus olhos azuis acinzentados eram exatamente da mesma cor dos dela, só que aquosos e contornados pelas rugas que tomavam conta do rosto velho. Finalmente, o rei a soltou.
— Você sempre me decepciona, sua garota inútil. Se ao menos eu tivesse conseguido me livrar de você anos atrás...
A dor tomou conta do peito de Amara.
— É, bem, infelizmente as leis ancestrais só lhe deram uma chance de assassinar uma filha indesejada, não é?
Ela estava tentando provocá-lo, mas o rei nem piscou.
— Retire-se da minha presença para eu poder me preparar para a chegada de nosso convidado inoportuno.
— Talvez o rei Gaius queira conquistar você — ela disse em voz baixa.
Fez-se um instante de silêncio antes da gargalhada retumbante do imperador preencher a grande sala.
— Eu gostaria de vê-lo tentar.
— Um reizinho patético conquistar seu império, pai? — Elan se juntou ao imperador no momento de diversão tempestuosa. — Que ideia absurda!
Amara se virou, as mãos cerradas em punho, unhas perfurando a carne, e deixou a sala de mapas.
Sim, que absurdo alguém pensar que tinha alguma chance contra aquele conquistador magnífico e grandioso.
— Algo a incomoda, princesa? — Mikah perguntou quando Amara passou apressada na direção de seus aposentos, na ala leste da Lança.
Estava constrangida por achar que seu pai ficaria satisfeito em vê-la depois da viagem. É claro que ele não estava satisfeito. Por que tinha achado que alguma coisa mudaria em semanas, quando tinha sido assim toda sua vida?
— Meus problemas não são da sua conta — ela respondeu de maneira brusca. Talvez brusca demais. Amara parou por um instante e virou para ele. — Estou bem, Mikah — ela disse com mais suavidade dessa vez. — De verdade.
— Espero que sim. Não gosto de vê-la tão triste.
Ela lhe dispensou outro olhar e viu que Mikah a observava atento com seus olhos escuros, curiosos e examinadores. Os outros criados costumavam ficar de cabeça baixa na presença de sua família e não falavam a menos que fosse solicitado.
— Por que é sempre tão gentil comigo? — ela perguntou. — Nenhum outro criado se preocupa com meus sentimentos.
Ele ficou pensativo.
— Acho que, quando vejo alguém sofrendo, quero ajudar.
— Alguns animais feridos mordem a mão de quem tenta ajudá-los.
— Então ainda bem que você não é um animal. — Ele se permitiu um pequeno sorriso. — Um dia, talvez nos tornemos próximos o bastante para você se sentir à vontade para me confidenciar todo tipo de sentimento e segredo.
— Confiar em um homem kraeshiano? — ela disse, mais para si mesma. — Não sei se isso é possível.
— Talvez eu seja diferente dos outros homens kraeshianos.
— Uma frase que muitos homens kraeshianos poderiam dizer — ela rebateu.
Os dois chegaram aos aposentos dela e pararam na entrada. Amara ficou na porta por um instante, olhando para o belo rosto de Mikah.
Era difícil para ela vê-lo como mais do que um servo, ainda trabalhando para quitar a taxa pela qual seus pais venderam o filho forte e saudável para o Império. E ainda que ele sempre tivesse sido gentil e atencioso com ela, Mikah era kraeshiano. Em Kraeshia, todos os garotos — e garotas — eram criados para acreditar que apenas os homens eram dignos de honra e respeito, enquanto as mulheres existiam como meros ornamentos e brinquedos, sem influência sobre outras pessoas nem sobre o mundo como um todo.
Ela se recusava a se apaixonar por um kraeshiano apenas para ser enganada por ele.
— Preciso descansar depois da longa viagem — disse Amara. — Mas antes, mande chamar minha avó. Preciso falar com ela.
Ele fez uma reverência.
— Como desejar, princesa.
Amara entrou, fechou a porta e encostou nela. Todas as emoções turbulentas que tinham sido empurradas para bem fundo de seu ser durante a viagem agora se apressavam para subir até a superfície. Ela correu até o espelho e o segurou pelas laterais.
— Estou viva — ela falou para o reflexo de olhos arregalados. — Dezenove anos depois, e ainda estou aqui. Posso fazer tudo o que quiser. Posso ter tudo o que quiser.
— Sim, minha querida. Com certeza pode.
Ela se virou e viu a avó, Neela, sentada perto da janela que dava para o mar.
— Vovó! — A alegria de vê-la espantou todas as dúvidas e a tristeza. Ela adorava aquela mulher enrugada e grisalha, sua única confidente, que ainda fazia questão de se vestir de maneira impecável, com a mais fina seda e as melhores joias. — Estava esperando por mim?
Neela assentiu e levantou, abrindo os braços. Amara correu para um abraço apertado, sabendo que, apesar de aparentar fragilidade, sua avó era a mulher mais forte que conhecia.
— Você conseguiu? — Neela sussurrou, acariciando os cabelos brilhosos da neta.
— Sim.
Fez-se um instante de silêncio.
— Ele sofreu?
Amara engoliu o nó que havia se formado em sua garganta e se afastou da avó.
— Foi rápido. Como a senhora suspeitava, ele me traiu na primeira oportunidade, optando por depositar sua confiança e lealdade em um rapaz que mal conhecia em vez da própria irmã. Vó, sei que precisava ser feito, mas tenho tantas dúvidas...
Neela assentiu, os lábios apertados e a expressão melancólica.
— Seu irmão tinha bom coração. Mas esse foi seu defeito fatal. Confiava em estranhos com muita facilidade; via o bem naqueles que só tinham o mal dentro de si. Poderia ter sido um valioso aliado seu, nosso, mas, quando chegou o momento crucial, ele não provou seu valor.
Amara sabia que Neela estava certa, mas aquilo não tornava as coisas mais fáceis.
— Ele passou seus últimos momentos me odiando.
Neela encostou a palma da mão fria e ressecada no rosto quente da neta.
— Então use aquele ódio para se fortalecer, dhosha. Ódio e medo são os sentimentos mais poderosos que existem. Amor e compaixão enfraquecem. Os homens sabem disso desde o princípio dos tempos e usam esse conhecimento para benefício próprio.
Sua avó falava sem nenhum traço de raiva ou dor na voz. Em vez disso, fazia sua afirmação com simplicidade, como uma verdade transmitida para a geração seguinte por uma mulher que tinha passado a vida toda tendo que se subordinar a homens opressores e controladores.
Uma pergunta que Amara guardou no coração a vida inteira queimava em sua língua, trazida à tona depois de ser insultada e dispensada pelo pai. Ela precisava perguntar naquele momento — precisava de uma resposta que a ajudasse a entender tudo aquilo.
Madhosha... — Era a palavra em kraeshiano para avó, assim como dhosha significava neta. Ao continuar a agregar novos reinos a seu império nas últimas três décadas, o imperador Cortas havia permitido que a língua deles desaparecesse em favor dos dialetos falados na maior parte do mundo. Neela sempre lamentou a perda de sua língua nativa e tinha ensinado a Ashur e Amara, em segredo, várias palavras em kraeshiano para garantir que mantivessem parte de sua cultura. A garota tinha um amplo vocabulário kraeshiano, mas a língua era complexa, e ela não chegava nem perto de ser fluente.
— Sim? — Neela respondeu com delicadeza.
— Eu... eu sei que não devemos falar sobre as leis ancestrais, mas... por favor, tenho dezenove anos e preciso saber. Como sobrevivi ao ritual de afogamento? Como isso foi possível?
— Minha querida, sofro muito por você ter conhecimento daquele dia terrível.
A lembrança já estava enevoada, pois Amara não tinha muito mais que cinco anos quando ouvira a avó e o pai conversando sobre ela — a avó falando em voz baixa, o pai quase gritando.
— Está dizendo que ela é especial — o rei resmungou. — Não vejo nada especial nela.
— Ela ainda é uma criança — a avó respondeu, a voz fina, porém calma, em um pequeno navio no meio de um mar afrontado por um furacão iminente. — Um dia vai entender por que os deuses a pouparam.
— Ora! Tenho três filhos ótimos. Que utilidade terá uma filha?
— Uma filha significa um casamento com o filho de um rei importante, para ajudar nas negociações políticas.
— Não preciso de negociações, só preciso mandar minha frota para a costa desse rei importante e tomar sua terra em nome de Kraeshia. Mas... o sangue. Sem dúvida um sacrifício de sangue apropriado me seria útil como oferenda aos deuses, para manter meu império forte.
— Você já teve sua chance com Amara — Neela sussurrou. — Uma chance, apenas uma. Mas ela sobreviveu, porque é especial e destinada à grandiosidade. Faça qualquer nova tentativa contra a vida dela, e haverá uma marca negra em sua alma. Você sabe que é verdade. Nem você seria tão ousado a ponto de arriscar tanto.
Neela falara com uma força calma que nem o imperador era capaz de ignorar.
Quando Amara tentara abordar a avó para falar sobre o que havia escutado, Neela tinha ficado furiosa e a mandado sair, dizendo que não havia nada com que se preocupar.
— Por favor, me diga, madhosha — Amara agora insistia. — Por que não me afoguei? Mesmo se eu fosse especial de alguma forma... Eu era apenas um bebê. Bebês não são peixes. Não nascem sabendo nadar como se fosse magia.
Magia — Neela repetiu devagar. — É uma palavra importante, não é?
Amara observou os olhos sábios e acinzentados da avó, e seu coração parou por um segundo.
— Minha sobrevivência teve algo a ver com magia?
— Está na hora de você saber a verdade. — Neela foi até a janela e olhou para o cintilante Mar Prateado. — Sua mãe a amava muito. Ela quase não sobreviveu à violência que sofreu por ter dado à luz uma menina. — O rosto de Neela se contorceu, como se doesse relembrar. — Minha filha odiou o marido, seu pai, desde que soube que se casariam. O rei tinha fama de ser especialmente cruel com mulheres que tinham opinião própria e discutiam com ele. Gostava de acabar com essa propensão, até que concordassem com cada palavra que dissesse. Durante anos, ela tolerou seu comportamento agressivo. E, depois que você nasceu, sabia que ele invocaria o ritual para se livrar de uma menina, símbolo de sua suposta fraqueza. Ela já tinha parado de tentar se defender, mas jurou proteger você a qualquer custo. Encontrou um boticário em um reino recém-conquistado supostamente capaz de preparar uma poção muito rara e muito perigosa que verteu em seu ouvido pouco antes do ritual acontecer.
Amara não sabia quase nada sobre a mãe, que tinha morrido pouco depois de seu nascimento. Seu pai, que ainda não havia se casado de novo, tinha muitas amantes, e se recusava a falar sobre ela, assim como todas as outras pessoas no palácio.
— A poção... foi o que me manteve viva?
— Não exatamente. Era uma poção de ressurreição.
Amara encarou Neela com olhos arregalados.
— A poção não a manteve viva — Neela disse com seriedade. — A poção a trouxe de volta da morte.
Amara levou a mão à boca para conter o choque. Sempre achou que devia existir uma resposta simples para não ter se afogado — talvez a água não fosse funda o bastante, talvez tivesse conseguido boiar, ou uma ama-seca tivesse feito algo em segredo para ajudá-la a ficar viva.
Existiam muitas poções para uma variedade de doenças, mas Amara nunca havia ouvido falar de nada tão poderoso.
— Qual o preço de uma magia dessas? — ela perguntou com a voz rouca.
Neela entrelaçou os dedos em um medalhão que trazia no pescoço.
— É a magia mais cara de todas. Uma vida por outra.
Uma onda de vertigem roubou o ar de Amara e quase a fez cair de joelhos. Sem pensar, a princesa pegou uma cadeira e se sentou fazendo barulho.
— Minha mãe deu a vida dela pela minha.
Neela virou para a neta com os olhos brilhantes, mas sem lágrimas. Amara nunca a tinha visto chorar, nem uma vez.
— Como eu disse, sua mãe a amava demais. Sabia que você se transformaria em uma pessoa forte e corajosa, como ela. E foi o que aconteceu. Posso ver em seus olhos, minha doce dhosha. É por isso que, assim que você começou a falar e a aprender as coisas, eu lhe ensinei todas as habilidades específicas e o conhecimento que tenho. E juro pela minha vida, esta e a próxima, que continuarei a guiá-la na direção de seu destino.
Neela estendeu o braço, e Amara levantou da cadeira e segurou a mão da avó.
— Obrigada, vovó.
A revelação arrepiante só deixou Amara mais comprometida com seu objetivo principal. Matar seu irmão e roubar o cristal da água tinham sido apenas os primeiros passos. Não importava quanto tempo levasse para ela ter sucesso. Não importava o que custasse. Não importava quantas mentiras teria que contar e quanto sangue teria que derramar.
Um dia, Amara Cortas seria a primeira imperatriz de Kraeshia. E dominaria o mundo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!