29 de setembro de 2018

Capítulo 6

— QUE DROGA, FAZIM. — Eu o empurrei para longe. Pelo visto ele tinha escapado com vida da arena. E tinha me chamado de Bandida, então sabia de tudo. — O que você pensa que está fazendo?
Fazim me largou, enfiando as mãos nos bolsos. Ele se afastou dois passos de mim, até o limite das sombras entre as duas casas. Não precisava ficar tão perto para me vigiar. Ambos sabíamos que eu não tinha para onde correr.
— Você sempre arrasta garotas para trás da sua casa para se vingar por terem dado uma joelhada na barriga da sua namoradinha? — Me inclinei para trás, encostando na fraca estrutura de madeira.
— Casa comigo. — Fazim disse isso tão de repente que por um momento apenas o encarei de boca aberta.
E então caí na risada.
Não havia como evitar. Ele parecia tão satisfeito consigo mesmo. Como se realmente esperasse que eu dissesse sim.
— Que me pintem de roxo e me chamem de djinni se isso não for a coisa mais idiota que ouvi hoje.
Tirei uma mecha de cabelo ensanguentado do rosto.
Ele ainda estava sorrindo.
— Você tem olhos bonitos, sabia? Tinha alguém com olhos iguais aos seus em Tiroteio ontem à noite. O Bandido de Olhos Azuis, foi como o chamaram. Então pensei… poucas pessoas no deserto têm olhos assim.
Péssima hora para ele começar a usar o cérebro.
— Está dizendo que eu tenho algum irmão perdido por aí?
— Você sabe o que estou dizendo, Amani. — Fazim deu um passo na minha direção, e eu lutei contra tudo em mim que dizia para recuar. A apenas alguns metros de distância, o tumulto em torno do buraqi concentrava a atenção, mas naquele momento parecia que o mundo se resumia a Fazim e eu. — E vai se casar comigo para que ninguém mais descubra.
— E qual é o próximo passo? — Olhei de relance para a abertura entre as duas casas. Vi de relance um khalat colorido quando alguém passou correndo. Torci para que a próxima pessoa olhasse na nossa direção. — Você vai me contar que está apaixonado por mim e que todos esses meses com Shira foram uma grande armação enquanto esperava pelo aniversário da morte da minha mãe?
Fazim deu um sorrisinho. Como se estivesse esperando que eu fizesse essa pergunta.
— Bem, até você capturar aquele buraqi, Shira era minha melhor chance na cidade de enriquecer.
— E ela vai te ajudar ainda mais nisso quando meu tio fizer a venda. — Então era por isso que Shira tinha se atirado na disputa? Para forçar um idiota a se casar com ela, por amor ou dinheiro?
— Veja bem, eu já pensei em tudo. — Fazim bateu com o dedo na cabeça. Ele era muito burro se estava se achando o cara mais inteligente do mundo. — Claro, se eu me casasse com Shira, conseguiria um pouquinho desse dinheiro. Mas, como foi você que o capturou, se você se casasse, o buraqi não pertenceria mais ao seu tio.
Ele pertenceria ao meu marido.
Maldito. Ele não era dos mais espertos, mas estava certo. E o pior de tudo: estava falando sério.
Agora eu me encontrava na mesma situação da qual estava tentando escapar, só que desta vez a culpa não era do meu tio.
A raiva expulsou o medo de mim.
— Eu preferiria atirar em mim mesma.
Eu preferiria atirar em você.
— Não precisa se dar ao trabalho. — Fazim ainda estava sorrindo, os dentes parecendo grandes demais para seu rosto bonito. — O Exército provavelmente vai se encarregar disso quando eu contar que você estava com aquele forasteiro que estão procurando. — Ele me despiu com o olhar, dos meus olhos azuis às minhas botas. — É claro que provavelmente vão te torturar primeiro.
Sorri para Fazim em vez de quebrar o nariz dele.
— Ainda parece melhor do que passar a vida inteira casada com você.
Ele socou com força a parede atrás de mim, arrancando meu sorriso do rosto.
— Sabe, não preciso casar com você agora. — Sua voz era baixa, seu sorriso fixo na cara, como se achasse que estava me conquistando. — Posso te usar antes e acabar com a sua dignidade. Então você não teria escolha. Poderia se casar comigo ou ser enforcada. Se você puxou a sua mãe, então tem o pescoço perfeito para isso.
Sua mão traçou uma linha ao longo do meu pescoço. Eu poderia acabar com praticamente qualquer homem naquele deserto se tivesse uma arma. Mas estava desarmada e vulnerável.
— Fazim — a voz de Shira me salvou. — O que você está fazendo?
Ele se afastou só o suficiente para que eu pudesse ver Shira, de pé na abertura estreita entre as duas casas. Ela apertava os lábios como quando éramos pequenas e ela tentava não chorar. Me afastei de Fazim e corri em direção à rua. Diminuí o passo quando passei por Shira. Achei que ela ia me parar, exigindo saber o que eu estava fazendo entre uma parede e seu namorado. Mas ela deu um passo para o lado no último instante, seu olhar fixo no chão.
Corri em direção à casa do meu tio.
Eu tinha que fugir. Fazim era burro demais para blefar. Ele iria até o Exército e contaria que eu sabia sobre o traidor. Eu não ia implorar pela ajuda de Jin. Ia obrigá-lo a me levar com ele.
Parei na entrada da casa do meu tio, prestando atenção em qualquer barulho que significasse que eu não era a primeira a voltar para lá. Quando tive certeza de que era, entrei. As tábuas de madeira do chão rangiam sob minhas botas, e eu rezava para que aquela fosse a última vez que eu atravessasse a soleira. Peguei tudo que pude encontrar que julgava que era meu no caos do chão do quarto, e algumas coisas que eu sabia que não me pertenciam.
Corri para o quarto dos garotos. Era ainda pior do que o nosso, com roupas empilhadas até metade da altura das paredes. Agarrei a camisa que parecia mais limpa, considerando as opções. Ouvi a porta da frente se abrir com força e tia Farrah chamar meu nome. Prendi a camisa no pescoço enquanto saía pela janela, caindo na areia antes que ela pudesse pensar em dar uma olhada no quarto dos garotos.
A rua principal estava cheia de pessoas pendurando lampiões, montando barracas de comida e afinando instrumentos sob os últimos fiapos de luz do dia. Não tivéramos motivo para comemorar desde a Shihabian, a noite mais longa do ano, quando lembrávamos a época em que a Destruidora de Mundos trouxe escuridão e comemorávamos o retorno da luz. Isso já fazia quase um ano. O Último Condado estava sedento por comemorações. Haveria bastante à noite. Eu só não estaria ali para ver.
Ninguém notou quando entrei sorrateiramente na loja, fechando a porta e abafando o barulho da rua. Assim que fiz isso, soube que o lugar estava silencioso demais. O chão de madeira rangia sob meus pés. Poeira dançava entre as prateleiras.
— Jin? — sussurrei. Me senti idiota.
Era tarde demais.
Ele já tinha ido embora.
Não sei por que tinha achado que ficaria.
A camisa pendia solta nos meus dedos. De qualquer forma, era tolice pensar que ele me ajudaria. Jin não me devia nada. Além do mais, no deserto era assim: cada um cuidava dos próprios interesses.
Por um momento insano pensei em correr até o jovem comandante. Poderia entregar Jin antes de Fazim me entregar. Não. Rejeitei o pensamento assim que ele apareceu. Nunca entregaria alguém para o Exército.
Enfiei a camisa na sacola. Eu teria que achar outra maneira de escapar da cidade antes que me achassem.
O sol tinha terminado de se pôr quando saí pelos fundos da loja, e a Vila da Poeira estava iluminada para as comemorações. Pequenos lampiões estavam pendurados entre as casas, e tochas queimavam na rua, iluminando o espetáculo patético. O que restava da nossa comida estava exposto em barracas para vender, mas a bebida fluía livremente conforme as pessoas dançavam e cantavam. Mais algumas doses e alguém começaria uma briga.
Metade do Último Condado estava ali. Tinham ido ver o buraqi, amarrado no centro da cidade, sacudindo a cabeça irritado. Tio Asid estava tentando acalmá-lo, mas o cavalo ficava cada vez mais incomodado com a multidão que se aglomerava para encostar nele. Finalmente meu tio o conduziu para longe, para onde não pudesse dar um coice e rachar a cabeça de alguém. Eu mantinha um olho nele e com o outro procurava Fazim enquanto abria caminho pela multidão, desviando de bêbados e pessoas dançando.
Alguma coisa bateu forte nos meus tornozelos, e uma dor lancinante irradiou pela minha perna. Chutei em resposta, sem pensar, e quando virei vi Tamid parado um pouco além do meu alcance, no meio da multidão, apoiado na muleta e parecendo inocente, como se não tivesse acabado de me acertar com ela.
— Você não vai bater em um aleijado, vai? — ele disse, brincando. Eu queria sorrir de volta, mas sentia como se alguém tivesse drenado minhas forças. O próprio bom humor dele vacilou. — Bem, hã, eu estava te procurando. — Tamid tropeçou nas palavras. Era doloroso para mim. Eu ia sentir muita saudade dele. Sempre soubera que um dia eu ia partir e ele ia ficar pra trás, mas não imaginava que esse dia chegaria tão rápido. — Toma. — Ele colocou algo na minha mão. — Parece que você apanhou bastante daquele buraqi. — Era uma pequena garrafa de vidro com pílulas brancas. Pílulas contra a dor. Pílulas com as quais o pai dele ganhava dinheiro, vendendo-as para operários que se machucavam na fábrica, ou que atiravam uns nos outros durante uma briga.
— É forte, não é? — Eu conhecia remédios melhor do que gostaria. Tinha levado várias surras no ano anterior por ser metida a espertinha. — Não posso tomar isso. — Tentei devolver as pílulas. — Vou tentar fugir no buraqi. Quer vir?
Tamid sorriu.
— Claro, aonde vamos? — Ele achava que eu estava brincando. Levantei minha sacola para ele ver. Aos poucos sua expressão mudou. — Amani… — Tinha algo no seu tom de voz quando disse meu nome, como se ele precisasse ter medo suficiente para nós dois. — Você vai acabar enforcada.
— Eu provavelmente acabaria morta se ficasse aqui também. — Puxei-o para o lado, para longe da multidão, perto da escola. Uma impetuosidade selvagem tinha se acumulado em mim durante horas. Dias. Semanas. Anos. E preenchia uma parte grande demais para deixar qualquer outra coisa entrar agora. — Eles podem fazer coisas muito piores do que me enforcar.
A verdade veio em uma onda, enquanto as comemorações continuavam à nossa volta. A verdade sobre tudo: meu tio, Jin, Fazim, como Jin havia partido sem me levar com ele, e como Fazim me chantageara para casar com ele ou morrer caso eu ficasse. E eu não ia casar com ninguém. Não com ele. Não com meu tio.
— E em que parte desse brilhante plano você ia me contar que estava indo embora? — Tamid parecia ofendido.
— Eu não pensei… — Engoli em seco, sentindo a culpa se acumular. Eu não tinha pensado nisso. Essa era a verdade. Não houve tempo para pensar em qualquer coisa a não ser em Fazim e em fugir.
— Você nunca iria comigo, Tamid — eu disse suavemente. — Ia tentar me fazer ficar, e estou em apuros demais para isso.
— Para começo de conversa, você não estaria em apuros com o Exército se tivesse ficado aqui em vez de escapulir para a arena de tiro. Por que não falou comigo? Poderíamos ter pensado num jeito de lidar com seu tio, eu e você, juntos. Por que você sempre…? — Tamid parou, soltando um suspiro frustrado. — Você sempre precisa tornar as coisas tão difíceis. — Um longo silêncio caiu sobre nós em vez da mesma discussão de sempre. — Eu sei o que fazer. — Ele não estava olhando para mim. O lampião projetava uma sombra oscilante na casa, tornando difícil identificar a expressão em seu rosto. Olhei em volta nervosa, procurando por algum sinal de Fazim. — Você poderia… casar comigo.
Minha atenção voltou para ele.
— Quê?
— Fazim não poderá fazer nada se você já estiver casada. — Ele parecia tão sério que me fez sentir pena. — Posso manter você segura. Dele. Do Exército. De sua família. Você não precisaria mais viver sob o teto de Farrah. Eu estava mesmo pensando em pedir ao seu tio. — Ele não conseguia olhar nos meus olhos, constrangido. — Daqui a um tempo. Eu não queria parecer afobado, logo depois do aniversário da morte da sua mãe. Queria te dar tempo. Mas eu nunca deixaria você casar com seu tio, Amani. Se tivesse me contado, teria feito o pedido antes.
Ele estava planejando me pedir em casamento? Desde quando? A ideia nunca havia passado pela minha cabeça. Achei que ele sempre soubesse que eu planejava ir embora. Ou talvez só achasse que eu nunca conseguiria.
— Tamid. — Baixei a voz, incerta sobre o que dizer. Eu não sabia como explicar o que queria. Pensávamos de maneiras muito diferentes.
Fazim apareceu na multidão. Ele não estava sozinho. Uniformes dourados e brancos o seguiam, abrindo caminho entre as pessoas.
Senti o coração na boca e me escondi rapidamente nas sombras. Tamid olhou de relance para o lado. Ele viu o que eu vi. Quando virou para mim, devia ter visto a resposta à sua proposta estampada na minha cara. Eu não podia ficar. Ele não podia me proteger.
— Vai.
— Tamid… — Eu não queria deixá-lo com raiva de mim. Mas ele não estava com tanta raiva a ponto de querer que eu morresse.
— Vai!
Pelo menos daquela vez fiz o que me mandaram.
A rua estava cheia de gente. Desviei do velho Rafaat, que se apoiava com força no braço da neta, e passei por um desconhecido tocando cítara desafinado antes de colidir com a lateral da casa do meu tio. Eu estava a meros passos do estábulo. Se conseguisse chegar ao buraqi…
— Aí está você! — Tia Farrah me puxou com força para encará-la. Ela ia gritar comigo por ser espertinha, por derrubar sua filha, por não ajudar com o jantar, e eu nem sabia pelo quê mais. Talvez aquilo tivesse relevância pela manhã, mas eu já não me importava mais.
— Me solta. — Tentei arrancar o braço das mãos dela, mas ela segurou mais forte.
— Aonde pensa que vai?
— Para longe. — Parei de lutar e a encarei. — Para longe dessa cidade e de você. Você não me quer aqui. Não quer que seu marido me deseje. — Os dedos dela me apertaram. — E eu não quero pertencer ao seu marido ou a qualquer outro. — Olhei rapidamente para o lado, mas não consegui ver ninguém através da multidão. Era uma cidade muito pequena. Fazim logo me encontraria. — Larga o meu braço e eu vou embora. — Me virei de novo para tia Farrah. O ódio que ela normalmente sentia por mim vacilava. Eu estava certa, e ela sabia. Naquele momento, éramos aliadas. — Por favor.
Seus dedos me soltaram.
Era tarde demais. Braços uniformizados me seguraram, me arrancando dela. Fui erguida do chão e soltei um grito. Então me arrastaram de volta para a rua. O ritmo das comemorações tinha diminuído, a folia se transformando em pânico conforme o Exército conduzia pessoas em fila até a parede das casas. Soldados marchavam pela rua, com os lampiões erguidos, analisando o rosto de cada um.
— Procurem em todas as casas por ele. — Reconheci o tom cuidadoso do jovem comandante Naguib. Ele andava pela cidade como se fosse dono do lugar.
Estavam atrás de Jin por traição. Era um mercenário, pelo que diziam. Não enviariam tantos homens para levar um traidor à justiça. Então ou não estavam ali por Jin ou ele era muito mais do que um mercenário.
O soldado me largou na frente do jovem comandante. Naguib me olhou de cima a baixo antes de virar o rosto para Fazim.
— É ela?
— Sim. Estava com o forasteiro em Tiroteio. — A luz instável do lampião deixava Fazim horroroso conforme ele se esticava sobre o ombro do comandante. Eu já havia sentido medo antes, mas aquele era um novo tipo de terror. — Eles estavam conspirando. Ela é o Bandido de Olhos Azuis.
Um soldado deu uma risadinha.
— Da arena de tiro? Essa menina?
— Ele é um idiota. — Finalmente consegui falar alguma coisa. Eu estava tentando ser corajosa.
Mas era a palavra de Fazim contra a minha. Sempre acreditariam no homem, não na mulher.
O comandante segurou meu queixo e levou o lampião tão perto da minha cabeça que achei que fosse me queimar.
— Você tem belos olhos. — Não adiantava fingir. Eu tinha sido traída pelo meu próprio rosto. — Agora, onde está nosso amigo estrangeiro?
— Se eu soubesse, não estaria aqui respondendo perguntas estúpidas.
O comandante Naguib bateu na minha cara com tanta força que fiquei com medo de que tivesse quebrado meu pescoço, mas estava surpresa demais para morrer. A dor irradiou pelos meus dentes e ossos.
— Onde ele está? — A voz do comandante superou o zumbido no meu ouvido. Eu só me mantinha de pé porque havia um soldado me erguendo. Lutei para encontrar o chão novamente. O comandante segurou meu queixo. — Diga. — Havia uma arma na minha têmpora. — Ou vou atirar.
Minha mandíbula doía, mas consegui movê-la.
— Isso não seria muito inteligente, porque aí você jamais saberia o que tenho a dizer.
O clique de uma bala sendo inserida no tambor de uma arma era um som que eu conhecia tão bem como a minha própria voz. Mas nunca o escutara tão próximo do meu ouvido.
— Isso não vai funcionar com ela — Fazim disse. — Se quiser assustá-la de verdade, precisa pegar o aleijado.
A raiva tomou conta de mim, expulsando o medo. Me atirei na direção dele com tanta rapidez que escapei do soldado que me segurava. Agarrei o pescoço de Fazim, mas me arrancaram antes que eu pudesse causar algum dano. Alguém me deu um tapa. Quando minha visão voltou, Tamid estava ajoelhado na areia, no meio do círculo de lampiões. A perna ruim parecia torta, e havia uma arma encostada na nuca dele.
Eu odiava Fazim, mas me odiava ainda mais. Tamid tinha me avisado que aquilo acabaria mal. Eu só não esperava envolvê-lo.
— Agora — o comandante disse com seu sotaque refinado. — Que tal nos dizer se estava junto com nosso amigo do oriente em Tiroteio?
Engoli o xingamento que subiu automaticamente. A vida de Tamid valia mais que aquilo.
— Eu não estava com ele — falei entre os dentes cerrados. — Só estávamos no mesmo lugar.
— E onde ele está agora?
— Não sei. — Achei que ele ia bater em mim de novo. Mas o comandante só apertou os lábios, como se estivesse desapontado com um aluno. Ele andou até Tamid. O medo voltou com tudo.
— O que aconteceu com a sua perna?
— Deixe Tamid em paz!
Tanto Tamid quanto o comandante me ignoraram.
— Nasci com ela assim — Tamid respondeu, cauteloso. Tínhamos um público de cerca de vinte soldados e algumas centenas de pessoas do Último Condado. Todos assistiam com um misto de horror e fascínio.
O comandante andou até ficar atrás de Tamid.
— Então ela não é muito útil para você, não é mesmo?
A bala acertou o joelho de Tamid em cheio. Gritei tão alto que não consegui ouvir o choro dele quando desabou no chão. Outro grito, agudo, prevaleceu sobre o burburinho. Era a mãe de Tamid.
Dois soldados a seguravam.
— O que você acha, Bandida? — o comandante Naguib falou mais alto que o barulho da multidão. — Um aleijado pode ficar sem perna nenhuma, não faria muita diferença. — Ele mirou a arma na perna boa de Tamid.
— Não! — gritei abruptamente.
— Então me diga a verdade. E rápido. Onde ele está?
— Eu não sei!
A mãe de Tamid gritou.
— Não! Não! Eu realmente não sei! Ele estava aqui. Veio aqui. Mas foi embora.
— Quando? — O comandante veio com tudo na minha direção, a raiva fervente que vivia embaixo da aparência fria subindo à tona novamente.
— Hoje, quando o sol se pôs. Faz algumas horas.
— Para onde ele foi?
— Eu não sei! — gritei. Ele bateu com a arma na minha cabeça. O sangue inundou meu campo de visão. Vi uma explosão de vermelho e luz antes de me recuperar e enxergar de novo os lampiões balançando sobre a minha cabeça.
— Onde ele está? — o comandante perguntou.
— Não sei — repeti, porque a verdade era tudo o que eu tinha agora, por mais insignificante que fosse.
— Vou atirar nele de novo, e desta vez talvez não seja na perna.
— Não estou mentindo! Ele não me contou. Por que me contaria? — Eu estava gritando agora.
— Para qual direção ele foi?
— Não sei!
— Mentir é pecado, sabia? — A arma foi pressionada contra a minha bochecha e pude sentir o metal quente.
Então o mundo explodiu em luz e barulho.


Zumbindo.
Tudo estava zumbindo.
Meu primeiro pensamento foi de que alguém tinha levado um tiro.
Tamid?
Eu estava de cara no chão. Usei meus cotovelos de apoio.
No escuro, tudo o que eu conseguia enxergar era um incêndio onde deveria estar uma parede de tijolos negros.
A fábrica de armas estava pegando fogo.
De repente comecei a ouvir os sons novamente. Os gritos primeiro. O povo da Vila da Poeira estava jogado no chão, rezando, ou tinha apenas coberto a cabeça; alguns cambaleavam para ficar de pé, outros olhavam fixamente. O comandante Naguib estava gritando ordens, Tamid e eu esquecidos. Os soldados montavam rapidamente, cavalgando a toda velocidade em direção ao incêndio.
Tamid.
Ele estava largado na areia, imóvel. Quando chamei seu nome, levantou a cabeça para me olhar.
Naquele mesmo instante alguém mais chamou por ele. Sua mãe estava encolhida na areia, chorando e tentando rastejar até ele.
Então ouvi o relinchar inconfundível de um buraqi. O cavalo do deserto vinha pela rua. Montado nele estava Jin, cavalgando diretamente na minha direção. Armas miraram nele, hesitantes. Ele deu um tiro, e um soldado caiu.
Me virei para onde Tamid estava.
O buraqi se aproximava.
Tinha segundos para decidir. Minhas pernas estavam travadas, meu impulso me guiava imprudentemente em direção a Tamid. A uma morte quase certa. Meu coração me guiava para Jin, para a fuga e o desconhecido.
Jin se inclinou sobre o cavalo, estendendo a mão. O barulho de um tiro ecoou aos meus pés.
Não foi uma decisão. Era mais do que um desejo.
Era um instinto. Uma necessidade.
A mão de Jin entrou no meu alcance. Segurei com força e dobrei o corpo conforme ele me puxava. Captei um relance do rosto de tia Farrah me observando. Vi Tamid desabado na areia. Vi o comandante Naguib recarregando a arma. Indefeso. Jovem.
Seria um tiro fácil. E Jin estava armado. Um tiro e o comandante estaria morto. Jin sabia disso, dava pra sentir na tensão de seus ombros. Mas ele virou o cavalo, abaixando a arma, e minhas mãos agarraram sua camisa um segundo antes de o buraqi disparar na velocidade de uma fera de vento e areia.

4 comentários:

  1. Obrigado pelo capítulo, Karina! =) 1º!
    Oh a Friend Zone, já era certo isso, só foi mais rápido do que eu esperava. kkkkkk

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    Respostas
    1. mano, acho que todo mundo percebeu que tu gostou dos capitulos. não precisa comentar isso a cada capitulo
      falou?

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  2. Acho que esse Jin é o príncipe rebelde ou e da turma do príncipe. E muito exército atras dele.
    Coitado do Tamid, eu gosto dele e da bondade dele tbm, apesar dele ser meio alienado

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Boa leitura, E SEM SPOILER!