23 de setembro de 2018

Capítulo 6

JONAS
PAELSIA

Jonas tinha ficado no complexo real por muito mais tempo do que pretendia.
Ele ficou por Cleo, Taran, Enzo e Nerissa. E por Felix, que tinha conseguido ser preso mais uma vez.
Ao que parecia, ficou para ajudar a procurar seu ex-inimigo.
Lucia acreditava que o príncipe Magnus estava morto, mas a busca ainda continuava. Quando ela pediu a ajuda dele, Jonas percebeu que não poderia recusar.
Depois de um dia longo, extenuante e infrutífero de buscas pelas terras áridas de Paelsia e para além dos portões do ex-complexo de Basilius, Jonas caiu no sono mais profundo de que conseguia se lembrar. Felizmente, sem nenhum pesadelo.
Mas então aconteceu. Como se arrancado de um mundo e lançado em outro, ele se viu no meio de um campo gramado, diante de um homem que vestia uma longa túnica branca cintilante. Um homem que ele reconhecia bem demais.
Timotheus não era velho — ou, pelo menos, não parecia velho. Seu rosto não tinha mais rugas do que o irmão de Jonas, Thomas, teria aos vinte e dois anos, se estivesse vivo. Seus olhos, no entanto, entregavam sua verdadeira idade. Eram antigos.
— Bem-vindo, Jonas — disse Timotheus.
Jonas observou ao redor e não viu nada além do campo gramado em todas as direções.
— Achei que não tivesse mais nada para falar comigo.
— Ainda não.
Jonas virou e encarou Timotheus nos olhos, recusando-se a ser intimidado pelo imortal.
— Desafiei sua profecia. Lucia ainda está viva.
— Sim, está. E teve uma criança, uma filha chamada Lyssa cujos olhos brilham com uma luz violeta de vez em quando. — Timotheus balançou a cabeça ao ver o olhar chocado de Jonas. — Tenho meios de saber muitas coisas, então não vamos perder tempo recontando o que já aconteceu. Tenho muito interesse pela criança, mas não foi por isso que precisei falar com você agora.
Uma indignação tomou conta de Jonas. Aqueles imortais místicos tinham passado séculos vigiando os mortais pelos olhos de falcões, mas ofereciam pouca ajuda. Ele preferia quando os Vigilantes eram apenas mitos que podia ignorar a seu bel-prazer, e não uma realidade irritante.
Jonas começou a andar nervoso de um lado para o outro. Aquilo não parecia um sonho. Nos sonhos, tudo era indistinto, difícil de definir. Ali, podia sentir o solo coberto de musgo sob os pés, o calor do sol no rosto. Podia sentir o cheiro das flores que o cercavam, tão perfumadas quanto as do pequeno jardim de sua irmã Felícia.
Rosas, ele pensou. Mas um pouco mais doces. Mais parecido com os biscoitos açucarados que comia em ocasiões raras quando criança, feitos por uma mulher gentil de seu vilarejo.
Ele balançou a cabeça para se livrar das sensações que o distraíam.
— Então você sabe que os deuses da Tétrade estão livres — ele afirmou. — Dois deles, pelo menos. E Cleo e Taran… estão com problemas. Problemas sérios. — Ele parou e esfregou a testa. — Por que deixou isso acontecer?
Timotheus desviou o rosto do olhar acusatório de Jonas. Não havia nada ao longe em que pudesse se concentrar; o campo verde e viçoso parecia infinito por todas as direções.
— Lucia está com todas as esferas de cristal?
— Por que eu deveria lhe contar, se parece saber de tudo?
— Diga — Timotheus falou da forma mais dura possível.
Algo se mexeu dentro do peito de Jonas, algo estranho e desagradável que o fez lembrar da capacidade que Lucia tinha de arrancar a verdade independentemente de ele querer ou não contá-la.
— Ela está com três — ele revelou. — Âmbar, selenita e obsidiana. A esfera de obsidiana estava rachada, me disseram. Mas não está mais.
— Ela se regenerou — Timotheus disse.
— Não sei. Imagino que sim.
Timotheus franziu as sobrancelhas.
— E a esfera de água-marinha?
Mais uma vez, Jonas sentiu uma estranha compulsão de responder a verdade.
— Está com Cleo.
— Ela consegue tocar o cristal sem grandes dificuldades?
— Não, ela… o carrega dentro de uma bolsa — Jonas respondeu.
Timotheus assentiu com uma expressão contemplativa.
— Muito bem.
A magia estranha que agia sobre a garganta de Jonas deu uma trégua.
— Tem ideia de como é irritante ouvir mentiras e ser manipulado?
— Sim. Na verdade, eu sei. — Timotheus, os braços cruzados diante do peito, começou a caminhar devagar em círculos ao redor de Jonas, espiando o rebelde com olhos estreitos.
— Se sabe de tudo — Jonas disse —, sabe que Lucia está de luto pelo irmão. Se você quer a ajuda dela para deter Kyan, pode nos dizer onde está Magnus, ou se existe alguma chance de ele ainda estar vivo.
— Está preocupado com alguém cuja morte desejava há pouco?
Era uma pergunta mais complicada do que ele gostaria.
— Me preocupo com o sofrimento de Lucia. E Magnus… mesmo com todos os defeitos… pode ser útil na guerra que se aproxima.
— A guerra contra a Tétrade.
Ele assentiu.
— Contra a Tétrade e contra a imperatriz. Contra tudo o que cruzar nosso caminho no futuro.
— Não estou aqui para isso.
Jonas soltou um suspiro de frustração.
— Então está aqui para quê?
Timotheus ficou em silêncio por um instante. Jonas percebeu que, apesar da juventude eterna, o imortal parecia cansado e abatido, como se não dormisse havia semanas.
Será que imortais precisavam dormir?, ele se perguntou.
— Já está quase no fim — Timotheus disse finalmente, e Jonas podia jurar que percebeu dor em suas palavras.
— O que já está quase no fim?
— Meu período de vigilância. — Timotheus suspirou e, com as mãos nas costas, começou a se mover pela grama alta. Levantou os olhos para o céu desprovido de sol, porém azul. — Fui criado para proteger a Tétrade, zelar pelos mortais, zelar por meu próprio povo… Falhei em todas as frentes. Herdei as visões de Eva, e elas não me servem de nada além de me mostrar versões do que poderia acontecer. E agora tudo se resume a isso.
— A quê? — Jonas questionou.
— Um punhado de aliados que convoquei para lutar estupidamente contra o destino. Eu o vi em minhas visões anos atrás, Jonas. Vi que você seria útil. E cheguei à conclusão de que é um dos poucos mortais em que posso confiar.
— Por que eu? — Jonas perguntou, estupefato. — Eu… eu não sou ninguém. Sou o filho de um vendedor de vinhos paelsiano. Fiz a besteira de entrar em uma guerra contra um bom rei e ajudei a colocar Mítica nas mãos do Rei Sanguinário. Levei amigos à morte por causa das minhas escolhas idiotas de me rebelar contra aquele rei. Perdi tudo o que já amei. E agora tenho essa magia estranha dentro de mim… — Ele passou a mão pelo peito, onde a marca em espiral tinha aparecido fazia apenas um mês. — E ela é inútil. Não consigo canalizá-la direito para ajudar ninguém. Nem eu mesmo!
— Você pensa demais, Jonas Agallon.
Jonas deu uma gargalhada nervosa.
— Ninguém nunca me acusou disso antes.
Um pequeno sorriso apareceu nos lábios de Timotheus.
— Você é corajoso. É forte. E é digno disso.
Das dobras da túnica, Timotheus tirou um objeto. Era uma adaga dourada, linda, diferente de tudo o que Jonas já tinha visto. A lâmina estava coberta de gravuras. Símbolos — alguns dos quais pareciam representar a magia elementar.
Algo cintilou na lâmina. Jonas não conseguiu ver direito, mas sentiu.
Magia. Mas não qualquer magia — magia ancestral.
Timotheus colocou o cabo dourado e pesado na mão dele. Jonas respirou fundo quando um tremor frio causado pela magia ancestral subiu por seu braço.
— O que é isso? — ele conseguiu perguntar.
— Uma adaga — Timotheus respondeu apenas.
— Posso ver. Mas que tipo de adaga? O que ela faz?
— Ela pode matar.
Jonas lançou um olhar irritado para o imortal.
— Pode ser claro comigo pelo menos dessa vez?
O sorriso de Timotheus aumentou, mas seu olhar permaneceu extremamente sério.
— Essa adaga foi empunhada por vários imortais no decorrer de milênios. Ela contém magia que pode escravizar e controlar mentes e desejos. É capaz de matar um imortal. Pode absorver magia. E pode destruir magia.
— Destruir magia? — Jonas franziu a testa e olhou fixamente para a lâmina dourada. A luz bateu no metal e refletiu um prisma de cores sobre o gramado. — Lucia disse que a Tétrade não pode ser destruída. Mesmo que eu tivesse a oportunidade de chegar perto o suficiente para cravar a adaga no peito de Kyan, só estaria matando Nic.
A expressão de Timotheus ficou tensa.
— Não posso lhe dizer exatamente o que precisa fazer.
A frustração ardia no peito de Jonas.
— Por que não?
— Não funciona assim. Meu envolvimento direto, para além do que já fiz, não é permitido. Sou um Vigilante. Eu vigio. Só tenho permissão para isso. Estou impossibilitado de dizer qualquer outra coisa. Mas ouça, Jonas Agallon. Lucia é e sempre será a chave disso tudo. Kyan ainda precisa dela.
Jonas balançou a cabeça.
— Lucia não o ajudaria. Ela está diferente. Faria qualquer coisa para detê-lo.
O maxilar de Timotheus ficou tenso, e seu olhar se fixou na adaga.
— Essa arma pode detê-la também, mesmo no auge de seu poder.
Jonas piscou, entendendo perfeitamente o que o imortal queria dizer.
— Não vou matar Lucia — ele vociferou.
— Eu vi a morte dela, Jonas. Vi o momento exato no futuro em que essa mesma lâmina está no peito dela, e você está sobre o corpo. — A expressão dele se fechou. — Já falei demais. Já encerramos por aqui. O restante de minha magia está quase no fim, e não posso desperdiçá-la entrando nos sonhos de mortais. Você deve prosseguir sozinho agora.
— Espere. Não! — O pânico surgiu no rosto de Jonas. — Você precisa me contar mais. Não pode parar agora!
Timotheus virou para a direita do campo colorido, sem parecer olhar para nada.
— Estão precisando de você em outro lugar.
Jonas franziu a testa.
— O quê? O que você…?
O extenso campo verde se espatifou, caindo como cacos de vidro. Jonas percebeu que alguém sacudia seu corpo para acordá-lo.
— Jonas, acorde — ele dizia.
— O que foi?
— Felix vai ser executado.
A bruma do sono desapareceu em um instante.
— Quando?
— Agora.
Jonas sentou tão rápido que foi atingido por uma onda de tontura. Ele notou algo frio e pesado na mão e olhou com espanto quando percebeu que segurava a mesma adaga dourada que Timotheus havia lhe entregado no sonho.
Mas… como?
Ele a soltou como se estivesse coberta de animais peçonhentos. A arma ficou sobre o cobertor, cintilando sob a pouca luz do quarto.
— Rápido — Taran gritou enquanto ele vestia uma camisa.
Por um instante, a mente de Jonas ficou vazia, como se não conseguisse tomar nenhuma decisão, se mexer nem racionalizar o que havia acontecido.
Mas então ele se deu conta do que Taran tinha dito. Seu amigo estava em perigo. Nada mais importava naquele momento.
Jonas pegou a estranha adaga nova, enfiou-a na bainha vazia do cinto e saiu com Taran do pequeno quarto que a imperatriz havia cedido para eles durante sua estadia no complexo.
— Achei que você detestasse Felix — Jonas disse enquanto os dois corriam na direção da prisão.
— Apenas no início. Ele agora é meu amigo, assim como você.
— Como você ficou sabendo?
Taran franziu bem a testa.
— Ouvi vozes… no ar. Guardas discutindo dar fim a um prisioneiro difícil. Estavam falando alto o bastante para me acordar.
Jonas não soube como responder. Ele sabia que o deus do ar estava dentro de Taran, assim como a deusa da água estava dentro de Cleo, mas seu amigo mal tinha tocado no assunto desde que chegara.
Eles chegaram a uma pequena clareira bem diante da prisão do complexo justo quando guardas arrastavam Felix acorrentado. Uma pequena multidão de guardas e criados tinha se reunido para assistir, enquanto Felix era obrigado a se ajoelhar e tinha sua cabeça imobilizada sobre um cepo.
Jonas abriu caminho pela multidão enquanto o carrasco levantava o machado.
Felix o encarou nos olhos.
A derrota no único olho de Felix dizia tudo.
Amara tinha vencido.
Eles tinham chegado tarde demais. Não havia tempo para gritar, lutar nem tentar impedir a execução. Jonas só podia observar, horrorizado, quando o machado desceu com tudo…
… e parou a um milímetro da pele de Felix. Os músculos do guarda se contraíam na tentativa de empurrar o machado contra a barreira invisível.
Jonas se virou para Taran e viu que sua testa estava coberta de suor. Seus olhos irradiavam uma luz branca. Linhas parecidas com teias de aranha apareceram sobre suas mãos, envolvendo seus punhos.
— É você que está fazendo isso — Jonas disse.
— Eu… eu não sei como — Taran respondeu com dificuldade.
O machado saiu voando, acertando a lateral de um prédio com tanta força que a lâmina se enterrou por completo na superfície de pedra. Então o guarda foi arremessado para trás como se tivesse sido empurrado por uma mão invisível.
— Magia do ar! — uma mulher exclamou por perto. Todos os presentes começaram a falar, gritar, e todos os olhares se voltaram a Taran.
Ele estava com os olhos arregalados diante da marca em espiral que brilhava sobre sua mão direita. Estava cercada de linhas brancas, se espalhando e enroscando em sua pele.
— Não fique aí parado de boca aberta olhando para mim — Taran disse entredentes. — Pegue o Felix.
Jonas fez o que Taran disse e correu até a plataforma de execução, cortando rapidamente as cordas que atavam Felix com sua nova adaga. Ele estendeu a mão para ajudar Felix a se levantar, que o rebelde aceitou sem hesitar.
— Duas vezes — Felix disse a Jonas com a voz áspera. — Você salvou minha pele duas vezes.
— Pode agradecer Taran dessa vez. — Jonas abraçou o amigo, dando um tapinha em suas costas.
Os guardas, que deviam ter intervindo àquela altura, recuaram quando Taran se aproximou. Jonas notou que o rosto de Taran estava pálido; sua pele bronzeada estava totalmente branca. Olheiras escuras como hematomas tinham surgido sob seus olhos.
— Não me olhem assim — Taran disse, recuando. — Odeio isso.
— Eu, não — Felix respondeu sem hesitar. — É muito bom ter um deus ao meu lado.
— Não sou deus nenhum.
Ainda assim, quando Taran olhou para as dezenas de espectadores, todos deram um passo para trás, tanto guardas quanto criados.
— Não posso ficar aqui — Taran resmungou.
— Você tem razão — Jonas disse. Aquele não era lugar para nenhum deles. Ele precisava falar com Cleo, com Lucia. Tinha que convencê-las a seguir em frente, a se afastar dos olhos da imperatriz.
Amara não as impediria. Tinha medo delas.
Ele avistou o capitão da guarda, Carlos, se aproximando, destemido, espada em punho.
— Não vamos lutar com você hoje — Jonas disse, mostrando as mãos. — Mas não vai executar meu amigo. Nem agora, nem nunca.
— Foram ordens da imperatriz — Carlos disse.
Felix murmurou algo muito sombrio sobre a imponente imperatriz. Depois repetiu mais alto:
— Se a imperatriz deseja minha morte, que saia e cuide disso pessoalmente.
Jonas olhou feio para ele.
— Faça-me o favor de calar a boca.
Felix também olhou feio para Jonas.
— Odeio ela.
— Eu sei. — Jonas se virou para Carlos de novo. — Você está vendo que temos poder, temos força. Não vamos ficar parados e deixar vocês aprisionarem nossos amigos por mais tempo. Estamos indo embora, e o príncipe Ashur vai conosco.
Jonas tinha feito um grupo estranho de amigos nos últimos meses. Tarus tinha lhe contado que o príncipe Ashur não os tinha traído, afinal, quando deixou o grupo em Basilia sem dizer nada. Ele tinha procurado a irmã para convencê-la a dar um basta em suas maldades. Claramente, Amara o ignorara.
O príncipe Ashur Cortas era tão rebelde quanto o próprio Jonas.
— Tenho certeza de que a imperatriz não vai ter problemas com sua partida — Carlos disse, os olhos semicerrados e cruéis. — Mas o príncipe Ashur não vai com vocês.
— Talvez não tenha escutado direito o que ele falou — Felix disse, cerrando os punhos. — Vá buscá-lo agora, ou meu amigo Taran vai reduzir esse complexo a uma pilha de pedras. Certo, Taran?
Jonas lançou um olhar para Taran, que também parecia pronto para lutar. Seus olhos ainda brilhavam.
— Certo — ele respondeu.
Jonas ponderou por um instante se Taran de fato conseguia controlar o poder que havia dentro dele, se tinha acabado de utilizar para salvar Felix ou se estava blefando.
— Vou falar mais uma vez — Jonas disse, encarando o guarda corpulento e armado. — Liberte o príncipe Ashur imediatamente.
Carlos se recusou.
— É um pedido impossível.
— Por quê?
— Porque o príncipe — Carlos começou a dizer, carrancudo — escapou da cela na noite passada.

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