16 de setembro de 2018

Capítulo 6


JONAS
MAR PRATEADO

No terceiro dia no mar, Jonas estava com Nic na proa do navio do Rei Sanguinário, as velas pretas e vermelhas recebendo o vento que os levaria de volta a Mítica em mais quatro dias. Olivia, em forma de falcão, o vigiava de cima, como fazia durante a maior parte do dia, com as grandes asas prateadas abertas enquanto planava.
Ele desejava se transformar em falcão também para poder retornar bem mais rápido. A vida a bordo de um navio não era para ele; o balanço constante sob seus pés era desnorteante e fazia seu estômago revirar. Mas, era preciso admitir, estava melhor do que alguns outros. Felix estava pendurado na amurada à direita, o rosto com um péssimo tom esverdeado.
— Ele não estava brincando quando disse que enjoava em navios — Nic disse.
— Não mesmo — Jonas respondeu.
— Estou com pena dele.
— Ele vai sobreviver.
— Assassino terrível, você disse? Ele não era matador de aluguel do rei Gaius?
— Isso mesmo. Ex-assassino terrível que trabalhava para o rei Gaius. Atualmente luta por uma boa causa ao embarcar em um caminho longo e árduo rumo à redenção. E também vomita o café da manhã no mar como oferenda para os peixes que possam nos ajudar.
— Vocês sabem que estou ouvindo tudo, não sabem? — Felix conseguiu dizer, ainda agarrado à amurada do navio.
Jonas tentou conter um sorriso, o primeiro que surgia em muito tempo.
— Sim, nós sabemos.
— Não tem graça — Felix resmungou.
— Não estou rindo. Não alto, pelo menos.
Felix disse algo ininteligível, mas inquestionavelmente desagradável, depois resmungou:
— Alguém pode, por favor, me matar e acabar com esse sofrimento?
— Eu me ofereço — disse Taran ao descer da gávea. Ele tinha insistido em subir a bordo, tirando o lugar de um membro da tripulação, para ficar de olho em qualquer navio kraeshiano.
— Cale a boca — Felix retrucou. Em seguida, sua expressão ficou tensa, e ele se jogou de novo contra a amurada para vomitar.
Jonas fez uma careta.
— Posso fazer alguma coisa para ajudar?
— Apenas… me deixe… morrer…
— Muito bem. — Ele deu as costas para o amigo mareado e viu Taran pegar a espada que tinha deixado perto do mastro. — O que você pretende fazer agora, posso perguntar?
— Vou afiar minha espada.
— Parece que está afiando essa lâmina desde que zarpamos.
Taran olhou para ele.
— E…?
— Deve ser a lâmina mais afiada do mundo, pronta para matar quem merece — Nic disse, compartilhando um olhar de cumplicidade com Taran. — Muito bem.
Jonas suspirou e pegou Nic pelo braço, levando-o para onde Taran não pudesse ouvir.
— Precisamos conversar.
Nic se desvencilhou de Jonas.
— Conversar sobre o quê?
— Seu ódio por Magnus está te consumindo, e isso está se tornando um problema.
A expressão de Nic se fechou.
— Sério? Que estranho você dizer isso, uma vez que não menciono o nome daquele canalha há dias. Além disso, desde quando você se tornou guarda-costas de sua majestade?
A ideia soava ridícula.
— Não sou nada disso. Mas o príncipe me mandou para Kraeshia para matar o pai. Estamos aliados a ele.
— Você pode estar aliado àquele monstro, mas eu não estou. — O rosto de Nic corou ao apontar na direção de Taran. — Magnus matou o irmão dele. Sua suposta aliança não tem nada a ver comigo nem com ele.
Jonas tinha ouvido falar sobre a morte de Theon Ranus e de como o ex-guarda auraniano estava envolvido com Cleo antes de Magnus matá-lo pelas costas.
Mais um motivo para Cleo desprezar Magnus, ele pensou. Ele não fazia ideia de nada disso, mas o fato de Cleo ter perdido alguém importante… assim como Jonas perdera Lys… só o fazia se sentir mais próximo dela.
Taran tinha todo o direito de querer se vingar do príncipe, mas aquilo não passava de uma distração do problema maior, Amara e o rei, as três esferas mágicas de cristal que aprisionavam deuses elementares, e a necessidade do próprio Jonas de se vingar do deus do fogo por matar Lysandra.
— Tudo bem — Jonas disse, coçando o peito distraidamente. — Você e Taran podem fazer o que quiserem com o príncipe. Mas não quero me envolver nisso.
— Combinado.
Jonas passou os olhos pelo convés e avistou Taran, Felix e alguns membros da tripulação, mas notou que faltava uma pessoa.
— Onde está aquele outro príncipe com quem temos que nos preocupar?
Nic não respondeu por um instante.
— Deve estar em seus aposentos, meditando ou o que quer que a fênix da profecia faça para passar o tempo quando está em alto-mar.
A cada dia que passava, Jonas tinha mais certeza de que permitir a presença de Ashur no navio tinha sido um erro. Na melhor das hipóteses, ele era apenas o irmão desorientado da imperatriz louca por poder, que tinha usado e manipulado Felix até quase matá-lo. Na pior, ele era completamente maluco e acabaria matando todos.
Jonas nunca tinha sido muito otimista.
— Você acredita que a lenda é verdadeira? — Jonas perguntou.
— Não sei — Nic disse, revelando exaustão e tristeza na voz. — A única certeza que tenho é que o vi morrer, e agora ele está aqui, vivo, a bordo do mesmo navio que nós.
— Você já ouviu aquela lenda antes? De alguém que voltou dos mortos para ser o salvador do mundo?
Nic deu de ombros.
— Quando eu era criança, lembro de ter lido uma história parecida. Mas existem milhares de lendas que não são verdadeiras.
— A lenda dos Vigilantes é verdadeira — Jonas comentou.
— Sim, e é possível que essa história da fênix também seja. — Ele notou que Jonas ainda coçava o peito. — Você está com alergia?
Jonas fez uma careta.
— Não. Acho que esta longa viagem a Mítica está me fazendo coçar de impaciência. — Ele fez uma pausa. — Ouça, você conhece o príncipe Ashur melhor do que qualquer um de nós, não conhece?
— Bem, eu o conheço há mais tempo — Nic explicou.
— Preciso saber mais sobre os planos dele. Se ele o vir como amigo, vai confiar em você. Você precisa descobrir o verdadeiro motivo para ele não ter simplesmente ido atrás da irmã malvada e tomado seu lugar de direito como imperador.
— Posso dizer o motivo: Amara tentaria matá-lo mais uma vez. Além disso, acho que ele não vai gostar de ser interrompido enquanto está meditando.
A palavra “meditando” enfurecia Jonas. Era o que o chefe Basilius dizia estar fazendo quando acreditava ser um feiticeiro profetizado que salvaria o mundo. Ele tinha certeza de que a crença do chefe tinha a ver com a profecia da princesa Lucia, mas talvez essa lenda da fênix tivesse um alcance maior em Paelsia.
— Fale com Ashur — Jonas disse. — Peça orientação a ele. Recupere a amizade de vocês.
— Está dizendo que quer que eu o espione para você.
— Sim, exatamente.
Nic soltou um suspiro longo e trêmulo.
Jonas franziu a testa.
— A menos que haja algum motivo para você preferir evitá-lo. Preciso saber de alguma coisa?
— Não, não — Nic disse, talvez um pouco rápido demais, Jonas achou. — Vou fazer isso agora mesmo. Vou ver quais os planos dele. Pode contar comigo Jonas. Tudo o que eu tiver que fazer para garantir a segurança de Cleo, farei.
Jonas assentiu.
— Fico feliz em saber.
Ele observou Nic assentir e sair, com passos hesitantes no início, mas mais resolutos ao virar um corredor e desaparecer.
— Tem alguma coisa entre esses dois — Felix disse, chegando por trás de Jonas. — Não sei o que é, mas vou descobrir.
O cheiro azedo de vômito atingiu Jonas como um tapa e, instintivamente, ele cobriu o nariz com a manga da camisa e olhou feio para o amigo.
— Você está fedendo — ele disse.
Felix deu de ombros.
— Desculpe.
— Você disse que vai descobrir o que está acontecendo entre Nic e Ashur?
— Sim.
— Amizades podem ser confusas… Principalmente quando envolvem membros da realeza.
— Não posso opinar. Nunca fui amigo de ninguém da realeza.
— E Amara? — Jonas se arrependeu da pergunta assim que a proferiu. O rosto de Felix foi tomado por uma expressão dura, acabando com qualquer suavidade e alegria. — Peço desculpas. Esqueça que mencionei o nome dela.
— Gostaria de ser capaz de esquecer que ela existe. — Um músculo no lado direito do rosto de Felix se contraiu. Ele passou a mão pelo tapa-olho enquanto seu olho bom ficava vidrado e reflexivo. Era o mesmo olhar perturbador e vazio que Jonas já tinha visto várias vezes no rosto do amigo. Era o olhar que Felix assumia pouco antes de matar alguém.
Olivia tinha curado os ferimentos superficiais de Felix, mas algumas feridas iam além da pele e dos ossos. O jovem que Jonas tinha encontrado naquele calabouço escuro não era o Felix de que ele se lembrava. Quando foi resgatado, havia alívio em seu olhar, mas também uma angústia profunda. E aquela angústia permanecia.
— Se está preocupado que eu ainda tenha sentimentos por ela, pode ficar tranquilo — Felix finalmente disse. — Eu ficaria feliz em rasgá-la ao meio com minhas próprias mãos se tivesse a oportunidade.
Jonas apoiou a mão sobre o ombro de Felix.
— Você vai ter sua vingança.
Felix riu sem achar graça.
— Sim, esse é o plano. Se eu conseguir pôr as mãos nela, e depois pôr as mãos naquele cretino ser do fogo também… Bom, seria tudo o que eu poderia esperar do que sobrou desta minha vida desgraçada.
— Kyan é perigoso. — Jonas ainda não tinha descoberto como lidar com o deus do fogo. Na verdade, ele ainda precisava se acostumar com a ideia de um cristal da Tétrade transfigurado em carne e osso.
— É? Eu também sou. — Felix estalou os dedos. — Só preciso de alguns minutos com ele. Se parece um homem, anda e fala como um homem, deve ter um coração como um homem, um que eu possa arrancar de dentro do peito.
— Você morreria antes de conseguir encostar um dedo nele.
— Então ficarei feliz de me encontrar com Lys no além muito antes do que imaginava.
Jonas surpreendeu a si mesmo ao soltar uma gargalhada, o que lhe rendeu um olhar julgador e fulminante de Felix.
— Lys ficaria surpresa em saber o quanto você se importava com ela.
— Não só me importava com Lys. Eu a amava.
— Claro que amava. — O que aconteceu com Lysandra ainda era uma ferida aberta. Até mesmo o nome dela dito por outra pessoa o fazia se encolher. — Você mal a conhecia.
— Eu sei o que sentia. Não acredita em mim?
Jonas sabia que seria melhor não perder a compostura entrando em uma discussão sobre Lys, mas temia estar perto demais do limite para se controlar.
— Se realmente a amava, talvez devesse ter ficado por perto para protegê-la.
Felix franziu a testa, tornando seu olhar ainda mais ameaçador.
— Você não vai querer discutir isso comigo agora.
— Talvez eu queira. Afinal, você de repente veio dizer que a amava. — Jonas o encarou por um instante longo e silencioso, e sua testa foi ficando quente. — Mas fui eu que tive que ficar lá e vê-la morrer.
— Sim, você a viu morrer. Se estivesse comigo, sabe que Lys ainda estaria viva. — Felix deu um passo ameaçador na direção dele, e Jonas viu seu olhar se tornar vazio como do assassino habilidoso que era.
Mas Jonas não sentiu medo. A conversa logo fez a indignação se acender dentro dele.
— Amor verdadeiro, não é? Estava pensando em Lys enquanto ia para a cama com Amara? Ou só fez isso depois que ficou sabendo que ela estava morta?
Ele só viu o punho de Felix depois que já tinha atingido seu nariz. Ouviu um estalo, sentiu uma onda de dor e depois o sangue quente escorrendo pelo rosto.
— Sabe o que é pior? Lys não me amava, ela amava você — Felix vociferou. — E você a deixou morrer, seu inútil de merda!
A dor intensa do nariz quebrado — das acusações de Felix, da lembrança dos terríveis momentos finais de Lys — atingiu Jonas como uma bola de canhão. Em vez de cair de joelhos devido à dor, ele cerrou os punhos e lançou um olhar de ódio puro para aquele que o acusava, por tornar tudo ainda mais doloroso do que já era.
De repente, sem Jonas fazer um único movimento, Felix começou a respirar com dificuldade. O olhar convencido desapareceu de seu rosto e então ele voou para trás, como se um gigante invisível o tivesse levantado do convés de madeira do navio e o arremessado como um boneco de pano. Felix teve que se segurar na amurada para não cair no mar.
— Que droga é essa? — A voz de Taran gritou atrás de Jonas. — O que aconteceu?
Jonas não conseguia encontrar palavras para responder. Só foi capaz de olhar para baixo, para seus punhos cerrados. Sob a fraca luz do anoitecer, ele percebeu, perplexo, que estavam brilhando.
Ele virou para Taran com os olhos arregalados. Taran, segurando a espada com pouca firmeza, encarou Felix, boquiaberto.
Ele não notou os punhos brilhantes de Jonas.
Felix se levantou com cuidado, sem tirar os olhos de Jonas, milhares de perguntas por fazer guardadas em sua expressão confusa.
Sem dizer nada, Jonas se virou e foi às pressas para sua cabine, tropeçando nos próprios pés. Ele abriu a porta e no mesmo instante foi até um espelho manchado que ficava num canto do cômodo, perto da pequena escotilha.
Suas mãos, embora não brilhassem mais, tremiam violentamente. O peito de Jonas queimava e se revirava, a sensação de um monte de vermes tentando perfurar seu coração. Ele agarrou a camisa e a rasgou, sem se preocupar em desabotoá-la, para expor as criaturas que o atormentavam.
Mas não havia nada.
Em vez disso, havia uma marca. Uma marca que não estava lá antes. Uma espiral do tamanho do punho de um homem, no centro de seu peito.
A marca de um Vigilante.
O som de um suspiro agudo desviou sua atenção do reflexo no espelho para a porta aberta. Lá estava Olivia, agora na forma mortal, envolta em uma túnica cinza-escuro.
— O que está acontecendo comigo, Olivia? — ele conseguiu perguntar.
Os olhos verde-esmeralda de Olivia estavam arregalados e brilhantes enquanto ela alternava o olhar entre o peito descoberto de Jonas e seu rosto.
— Ah, Jonas… — ela sussurrou. — Timotheus estava certo.
— O que é esta marca em mim?
Ela respirou fundo e fechou os olhos com uma calma forçada. Depois, levantou um pouco o queixo e o encarou bem nos olhos.
— Sinto muito.
Ele estava prestes a perguntar por que quando a imagem de Olivia ficou borrada e escurecida nas bordas. Jonas percebeu ter caído, mas sentiu o chão duro no rosto por um breve momento antes de perder a consciência.

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