1 de setembro de 2018

Capítulo 6


LUCIA
AURANOS

As paredes estavam se fechando em volta dela.
Por muito tempo, Lucia ficou confinada no palácio. A preocupação do pai com sua saúde a havia impedido de perambular livremente do lado de fora. Ela tolerava a natureza superprotetora do rei, sabendo que ele a mantinha confinada apenas porque a amava, mas, conforme as semanas passavam, seu desejo de liberdade aumentava.
E agora estava forte demais para ignorar. Ela precisava ser firme hoje, exigir permissão para respirar ar puro além dos limites do pátio do palácio, explorar o reino que havia ajudado a conquistar. E não permitiria que ninguém — nem mesmo o rei — a controlasse.
Pediu à deusa Valoria a força e a sabedoria necessárias e então saiu de seus aposentos, confiante em seu objetivo.
Só de pensar na liberdade já sentia um sopro de vida, enquanto se dirigia à sala do trono, onde uma reunião do conselho tinha acabado de terminar. Lucia parou e esperou os membros do círculo de confiança de seu pai passarem por ela na entrada.
— Fico feliz em ver que está se sentindo melhor, princesa — disse um homem careca e atarracado, meneando rapidamente a cabeça em sua direção.
— Obrigada — ela murmurou.
Magnus estava entre os conselheiros, mas não a cumprimentou — nem de maneira simpática, nem de maneira nenhuma — quando saiu da sala como uma sombra. Além dos gracejos que trocavam durante as reuniões formais, para manter as aparências, toda a interação recente entre eles tinha se tornado fria.
Não era culpa dele o relacionamento dos dois ter azedado — não totalmente. Pensar no laço rompido lhe doía o coração.
Assim que o último conselheiro saiu, seu pai a cumprimentou.
— Lucia, é maravilhoso ver você, minha querida.
Ela havia ensaiado as palavras enquanto percorria os corredores ainda pouco familiares. Agora só precisava dizê-las.
— Gostaria de permissão para sair do palácio hoje — ela disse, apressando-se para falar antes que começasse a duvidar de si mesma.
Ele ergueu a sobrancelha escura.
— É mesmo?
— Sei que não acha seguro, mas discordo. A cidade é murada e bastante protegida. Levarei vários guardas comigo. Mas… mal consigo expressar o quanto preciso sair daqui e respirar um pouco de ar puro. Ver algo novo. Até mesmo o pátio e os jardins me parecem opressivos a esta altura. Me sinto uma prisioneira aqui dentro.
— É claro que você não é uma prisioneira, Lucia. — O rei se aproximou com uma expressão de preocupação genuína. — Acha que eu lhe negaria esse pedido?
— Não tenho ideia. Sei que se preocupa com minha segurança.
Ele tocou o rosto da filha, esboçando um sorriso na linha fina da boca.
— Eu vi o que você é capaz de fazer. Não tenho dúvidas de que seria capaz de se proteger se fosse ameaçada.
O coração dela saltitou.
— Então está me dando sua permissão?
— E se eu disser não?
Uma fagulha de raiva se acendeu dentro dela.
— Por que faria isso? Eu fiz tudo o que me pediu. Tudo! Você mesmo disse que sei me proteger. E eu sei! Peço uma única coisa em todos esses meses, e você quer me negar…
— Lucia — ele disse, interrompendo-a. — Foi apenas uma pergunta retórica para ver se você estava disposta a brigar pelo que quer. Agora percebo que está e que veio até aqui sabendo que só aceitaria uma resposta de minha parte. Ótimo. Gosto de ver esse fogo em você, essa força. Se alguém tentar impedi-la de obter algo que queira, você pode simplesmente tomá-la, não importa quem seja. Está claro?
Lucia relaxou. O rei estava apenas transmitindo um ensinamento, que ela aceitou de bom grado.
— Está bem, pai.
— No entanto, sugiro que consulte um guia versado para não perder seu valioso tempo em lugares medíocres.
Ela concordou avidamente, o coração batendo de expectativa.
— Farei isso.
— Ótimo. — O rei foi até a longa mesa do conselho e observou os pergaminhos, cartas e documentos formais da reunião ainda espalhados por ali, depois voltou a olhar para Lucia. — Mas, diga-me, como está sua magia? O controle sobre ela?
O rei perguntava as mesmas coisas todos os dias. Sabia que as habilidades dela lhe haviam causado problemas no passado e tentara encontrar tutores para auxiliarem Lucia — até agora sem sucesso. A magia dela era mais poderosa do que qualquer coisa que os tutores já tivessem visto.
— Melhor, acho. Pratico todos os dias. — Tentando reprimi-la, impedir que mate mais alguém, ela pensou. — Estou me esforçando.
— É claro. Não esperaria nada diferente disso. Um dia, espero que muito em breve, precisarei solicitar seu dom de novo para me ajudar. — Ele meneou a cabeça. — Agora, vá aproveitar seu dia na cidade, tomar um pouco de sol. Vejo você de novo na hora do jantar.
— Obrigada, pai.
Justo quando ela o pintara como rígido, cruel e opressivo, o rei mostrou que podia ser o oposto. A maneira como tinha acabado de olhar para ela, a mesma maneira como a olhava desde a primeira vez que demonstrara o uso de seus elementia, com orgulho, admiração e amor…
Começou a derreter o gelo que se formava em seu coração.
Não havia dúvidas de que o rei tinha sido duro com Magnus no decorrer dos anos, para garantir que o filho crescesse e se tornasse um herdeiro forte e digno. Mas com Lucia, sempre fora gentil e paciente.
Ela queria desesperadamente acreditar que ele a amava como se tivesse seu próprio sangue.
Mas você não tem, uma voz relembrava. Ele a roubou de sua verdadeira mãe por causa da profecia. Porque queria sua magia para si e para mais ninguém.
Apesar desse lembrete constante no fundo da cabeça, o rei era quem mais a apoiava. Mesmo nos momentos mais desafiadores, quando ela não tinha mais ninguém a quem recorrer, ele sempre reassegurava que Lucia era uma boa pessoa, que seus poderes não eram cruéis, malignos, obscuros ou odiosos. Eram bons.
Ela era a princesa Lucia Eva Damora, filha do rei Gaius, em todos os aspectos que importavam.
E tinha a permissão dele para sair do palácio.
O rei havia pedido para ela consultar um guia familiarizado com a cidade. Mas não chegara a especificar quem deveria ser esse guia.
— Sinto muito, princesa Lucia, mas ela não está autorizada a atravessar os portões da cidade sem a permissão do rei.
Lucia alternou o olhar entre o guarda e Cleo, que estava bem ao seu lado, exasperada.
— Tudo bem — disse Cleo. — Eu fico. Não quero causar problemas.
Lucia ainda não estava muito certa sobre Cleo, mas, se havia alguém que conhecia bem a cidade, era ela. E se havia alguém além de Lucia que sabia como era se sentir presa dentro do palácio dia e noite, também era Cleo.
Ela se virou para o guarda e lançou o que esperava ser seu olhar mais gélido.
— Tenho a permissão de meu pai para sair do palácio e vou levar a esposa de meu irmão comigo. Deixe-nos passar, ou não ficarei nada satisfeita.
— Mas, princesa…
Ela levantou a mão, silenciando-o.
— Você sabe o quanto meu pai me adora?
— É claro, vossa alteza. Mas recebo ordens. Por favor, entenda.
— Entendo perfeitamente. Você vê a princesa Cleiona como filha do antigo rei. Mas, na verdade, ela é minha cunhada e será sua futura rainha quando meu irmão assumir o trono. Em vista disso, você deve tratá-la com respeito. E vai sair da frente e nos deixar passar enquanto ainda me resta um pouco de paciência.
Como o rei disse, se alguém tentasse impedi-la de obter alguma coisa, devia apenas tomá-la, não importava quem fosse.
Ela concordava plenamente.
Lucia viu o rosto do guarda se franzir enquanto travava uma batalha interna.
Finalmente, ele se curvou.
— Como quiser, vossa alteza.
Os guardas abriram os portões, deixando Lucia e Cleo — e os quatro guardas que as acompanhavam — entrarem na Cidade de Ouro. Lucia respirou fundo, desfrutando o momento.
Era como entrar em um sonho.
O dia estava quente, o céu, azul e sem nuvens. O sol brilhava no rosto delas enquanto transformava a estrada adiante em uma fita cintilante de ouro que se trançava pela cidade. Apenas os cidadãos mais importantes e privilegiados de Auranos tinham a honra de chamar essa região de lar. A maioria das quintas ficava ao sul do palácio; as lojas e centro industrial, ao norte. Cercando tudo isso, como uma enorme coroa cravada de joias, uma imponente muralha dourada, vigiada dia e noite por sentinelas.
Não havia nenhuma cidade palaciana como aquela em Limeros. Lá, o castelo real ficava na beira de um penhasco frio, privado e isolado. Pontuando a paisagem, havia quintas que pertenciam aos nobres e pequenas vilas. O Templo de Valoria e a capital, Pico do Corvo, ficavam a meio dia de viagem. Nada em Limeros era tão conveniente como ali no sul. Tudo o que um auraniano pudesse desejar estava disponível à distância de uma curta caminhada do palácio.
— É tão estranho — disse Cleo, apressando-se para acompanhar os passos longos de Lucia.
— O quê?
— A cidade mudou muito pouco. Não sei por quê, mas esperava que estivesse diferente. Vi uma coisa ou outra quando saí para a excursão de casamento, mas parece a mesmíssima cidade de sempre.
Lucia parou para pensar. Um novo rei no poder, totalmente diferente daquele que substituiu, e, ainda assim, aos olhos de uma pessoa que sempre vivera ali, a vida cotidiana parecia não ter mudado. Ela ficou surpresa por seu pai não ter feito mais ajustes naquele lugar frívolo e hedonista. Todos aqueles excessos lhe pareciam repugnantes — ouro e prata e joias brilhantes no pescoço de quase todos os cidadãos, ouro nas próprias ruas, reluzindo sob o sol.
Limeros não era pobre como Paelsia, mas parecia inaceitável ostentar sua riqueza como faziam os auranianos. Ela achava a cultura ali um pouco nauseante, mas depois de tudo o que ouvira sobre o lugar, não era de todo inesperado.
— A verdadeira mudança levará tempo — Lucia finalmente respondeu.
— É claro, você tem razão — Cleo disse em voz baixa.
Talvez essa não fosse a resposta reconfortante que Cleo procurava.
Elas continuaram caminhando, atraindo a atenção das pessoas que passavam. Alguns apontavam e sussurravam, parecendo satisfeitos e até mesmo exultantes, incapazes de tirar os olhos de Cleo, que retribuía os acenos e sorrisos sem hesitar.
Mas as expressões mudavam ao verem Lucia. Muitos não a reconheciam, mas os poucos que o faziam sabiam se tratar da filha do rei. E as expressões passavam de felicidade a preocupação, cautela. E medo.
Ou talvez fosse apenas a imaginação de Lucia.
Por onde quer que passassem, havia algo novo e belo para encher os olhos, e Cleo fazia comentários rápidos e divertidos sobre tudo — tavernas, comércios, parques, jardins. Um jardim em especial fez Lucia se lembrar do labirinto em Limeros, encomendado por um lorde como presente de aniversário quando ela completara um ano. Só que esse jardim era verde e viçoso, não branco e gelado como o seu. Pássaros de todas as cores voavam pelo ar, pousando sobre gigantescas árvores frutíferas e salgueiros-chorões. Borboletas rodopiavam com a brisa.
Tudo era tão lindo.
Mas não era seu lar.
— Cleo! — gritou uma voz. Lucia virou e viu três garotas desconhecidas correndo na direção delas. Os guardas se prepararam, mas Lucia pediu que se contivessem. Quando as meninas se aproximaram, Lucia as observou com curiosidade.
Uma delas, loira com cara de raposa, logo abraçou Cleo.
— Nunca pensei que voltaria a me aproximar o suficiente para abraçá-la! Você está linda!
— Obrigada — Cleo disse, sorrindo para o trio.
— Sua irmã… — disse uma menina de cabelos escuros e óculos de armação redonda, com os olhos cheios de lágrimas. — Sinto muito pelo que aconteceu com Emilia. E com seu pai… Ah, Cleo. É tudo tão horrível!
A terceira menina, que tinha o cabelo castanho-escuro e o rosto cheio de sardas, parou diante da amiga.
— Sim, é terrível. Não achei que fossem deixar você sair daquele castelo, pobrezinha! Há rumores de que o príncipe a deixa trancafiada em uma torre!
— Ah, que absurdo. Eu estou bem. Está tudo bem. — Mas havia algo estranho na voz de Cleo. — E muito obrigada, Maria, pelas condolências. Sinto tanta falta de minha família que mal consigo expressar. — Ela abriu um sorriso firme e pegou no braço de Lucia. — Meninas, quero que conheçam a princesa Lucia Damora. Lucia, essas são Dana, Ada e Maria, três de minhas amigas mais antigas.
As garotas se entreolharam com surpresa, depois fizeram uma reverência. Lucia fez questão de não demonstrar, mas aquilo lhe causou um enorme desconforto. Ela era uma forasteira, uma visitante que não tinha sido convidada e estragara a festa daquele círculo íntimo.
Bem, fazer o quê, não é? A cidade agora pertencia ao seu pai. O reino todo, na verdade. E todos os que estavam nele.
Elas precisavam aprender a ter mais respeito.
— É um honra, vossa alteza — Ada, a sardenta, disse, fazendo outra reverência. — Espero que não a tenhamos ofendido.
— Não foi nada — Lucia respondeu.
Era mentira, é claro. Mesmo que seu pai acreditasse ter aquelas pessoas nas mãos, ela tinha certeza de que não esqueceriam facilmente o acontecido. E poucos sabiam, mas Lucia havia desempenhado um papel crucial na tomada de poder e utilizado seus elementia para romper a proteção mágica das portas do palácio por onde ela e Cleo tinham acabado de passar.
Aquele momento havia mudado tudo.
Ela teria feito o que o pai pedira se pudesse prever os resultados?
Se não fizesse, seu pai com certeza teria sido derrotado. Ele e Magnus teriam, sem dúvida, sido mortos. Ela teria perdido tanta coisa.
Sim, pensou. Faria de novo se fosse preciso, se isso significasse salvar as pessoas que amava.
E, para ser honesta, garotas como as amigas de Cleo tinham sorte de estar vivas. Deviam ficar agradecidas.
— Foi maravilhoso ver vocês — Cleo se apressou em dizer, claramente tão ávida quanto Lucia para encerrar o pequeno encontro. — Espero revê-las em breve.
As meninas murmuraram despedidas enquanto Cleo e Lucia passavam. Lucia manteve o olhar orgulhoso diante de suas expressões desconfiadas, até que as três desviaram o olhar, focalizando o chão.
Assim é melhor.
— Peço desculpas se elas pareceram rudes — Cleo disse. — São apenas uma pequena parte do grupo com quem eu costumava socializar. Talvez estejam confusas e magoadas já que faz muito tempo que não recebem um convite para ir ao palácio.
E nunca mais receberão, Lucia pensou.
— Você é muito próxima delas?
— Será que é possível ter amigos fora do palácio em que podemos confiar?
Não. Não era possível. Lucia não tinha muitas amigas em Limeros; seu pai não permitia que se relacionasse com pessoas pouco importantes. Em vez disso, criara laços com seus professores, além de alguns pretendentes em potencial, vindos de famílias nobres, que encontrava em banquetes e eventos formais. E, é claro, Magnus.
Um nó se formou em sua garganta. Lucia costumava considerar Magnus não apenas um irmão mais velho, mas seu amigo mais querido. A maneira fria como a tratava agora era muito dolorosa.
Mas não podia amá-lo como ele queria. E tudo o que ela tinha feito ou dito desde a confissão dele só havia prejudicado ainda mais a relação dos dois.
— Lucia? — Cleo apertou o braço dela. — Parece que está a quilômetros de distância. Está se sentindo bem?
De algum modo, o toque da princesa ajudou a afastar a escuridão.
— Estou bem. É esse calor. É um tanto opressivo, não é?
— Está bem quente hoje. Vamos parar um pouco. — Cleo sorriu. — Conheço um lugar perfeito para descansarmos.
Ela as conduziu por uma rua estreita de pedras, repleta de lojas, depois virou em uma viela, que as levou para longe da área de comércio, na direção de uma clareira cercada de árvores. O gramado era do tamanho do pátio do palácio, com pelo menos cem passos de diâmetro, ao redor do qual havia bancos sombreados por árvores altas e frondosas.
— Minhas amigas e eu costumávamos vir sempre aqui — Cleo explicou. — Era muito divertido, devo dizer.
Ao redor da clareira, pelo menos duas dúzias de belos jovens praticavam esgrima com espadas de madeira. Ao lado, isolada por cordas, havia outra área onde lutavam corpo a corpo. A maioria ria. Eles tinham os rostos sujos, flexionavam os músculos e avançavam uns contra os outros.
— Eles não estão usando camisa — Lucia observou, surpresa.
Cleo sorriu para ela.
— Não, não estão.
Lucia nunca tinha visto nada assim em Limeros.
— Deveríamos estar assistindo? — ela perguntou.
— Por que não? Acredite, eles gostam de ser observados. Isso os faz lutar com mais determinação.
Em volta do campo, pequenas multidões olhavam com grande interesse.
— Guarda! Vá buscar algo gelado para bebermos — Cleo disse. — Tem uma taverna no fim da travessa que estoca o vinho de morango que gosto.
O guarda olhou para Lucia, que acenou em aprovação. Vinho de morango parecia uma ideia excelente.
— Pode ir.
— Sim, vossa alteza — o guarda disse, apressando-se.
— E então, o que achou? — Cleo perguntou.
Lucia foi atrás de Cleo, sentou-se à beira do campo, sob um grande carvalho, e observou as atividades diante dela. A ideia de que seu pai reprovaria tudo aquilo a divertia. Tratava-se de uma exibição desnecessária, nada além de uma desculpa para se mostrar, e os limerianos sempre rechaçaram a vaidade.
— Eles parecem muito bons.
Cleo concordou.
— Fico feliz em ver que a prática continua. Os guardas auranianos costumavam ensinar essas habilidades aos garotos locais quando estavam de folga. Agora parece que os garotos estão ensinando uns aos outros.
— Garotos auranianos aprendendo técnicas de batalha. Por qual motivo? — Lucia perguntou, cética. — Para armar uma rebelião contra o meu pai?
Cleo riu, e Lucia olhou para ela, sem saber ao certo o que era tão engraçado.
— Não. Acredite, é só por diversão. Conheço garotos como esses desde que nasci. À exceção de pequenos torneios para chamar a atenção das meninas, não estão interessados em batalhas. Além disso, se o rei visse essa prática como uma ameaça, certamente colocaria um fim nela.
Isso era verdade. E, Lucia tinha que admitir, a exibição diante dela sem dúvida era… interessante.
Ainda assim, mesmo agora, cercada pela luz do sol, pelo verde e por homens bonitos, Lucia sentia a escuridão de sua magia agitando-se dentro dela. Estava sempre com ela, sempre presente, mas, quando estava com Cleo, não a atormentava tanto como quando ficava sozinha.
A magia elementar devia ser natural e bela, como a própria vida. Mas sempre que Lucia a deixava assumir o controle, parecia causar apenas dor e morte.
E parte dela, uma parte bem pequena, não se importava nem um pouco.
A ideia a fez estremecer.
Cleo estendeu o braço e apertou sua mão. O calor de sua pele penetrou o corpo frio de Lucia. Imediatamente, seus pensamentos obscuros desapareceram, como num passe de mágica.
Ela olhou para o céu, protegendo os olhos. Um falcão dourado as sobrevoava, e o coração dela deu um salto ao vê-lo. Tinha visto muitos falcões nas últimas semanas. Cada um trazia um pouco de esperança, que logo lhe escapava por entre os dedos como areia.
— Você parece tão triste hoje — Cleo disse. — Conte-me o que a incomoda.
Lucia ria baixinho das tentativas contínuas de Cleo para se tornar sua amiga.
— Você não acreditaria se eu contasse.
— Tente.
— Acha que Magnus aprovaria que você estivesse aqui olhando para esses garotos sem camisa? — Lucia perguntou de maneira irônica, tentando mudar de assunto e retomar o controle.
Uma sombra passou pelos olhos verde-azulados de Cleo.
— Você teria que perguntar a ele.
Para isso, Lucia teria de encontrá-lo e falar com ele, algo que Magnus gostaria de evitar a qualquer custo.
— Você sente pelo menos alguma coisa por ele? — Lucia perguntou.
Cleo fez uma pausa.
— Foi um casamento arranjado, Lucia. Eu não o escolhi, nem ele me escolheu.
— Se eu fosse você, sentiria ódio dele. — As palavras soaram mais diretas e eram mais verdadeiras do que ela gostaria. Talvez fosse um sinal de que ela estava ficando mais confortável perto de Cleo, afinal. — Eu odiaria todos nós. Meu ódio cresceria a cada dia em que eu fosse forçada a me sentar ao lado dos meus inimigos. — Sua garganta ficou tensa e contraída. — Deve entender por que fico na defensiva quando estou perto de você. Não tenho nenhum motivo real para acreditar que suas intenções sejam amizade e não vingança.
— Você tem toda a razão. Não tem mesmo. — Os olhos de Cleo brilharam, e ela os fechou. — Mas que outra escolha eu tenho além de aceitar o que aconteceu e tentar tirar o melhor desta situação?
Aquilo pareceu sincero aos olhos de Lucia. Cleo não tentara negar suas suspeitas, mas Lucia podia culpá-la por se sentir e agir assim? Ela realmente achava que Cleo era mais que uma menina perdida, procurando algum tipo de ligação, mesmo com aqueles que lhe roubaram tanta coisa?
A pergunta era: podia ser uma amiga? Uma amiga de verdade, a quem Lucia pudesse confiar seus segredos mais profundos, mais obscuros?
Lucia mordeu o lábio e se concentrou no garoto à sua frente, mas depois de um tempo voltou a olhar para o falcão que as sobrevoava em círculos.
— Você já se apaixonou? — ela perguntou.
— Já — Cleo disse depois de um instante, em voz baixa.
— Onde ele está agora?
— Morto.
Dezenas de perguntas surgiram na cabeça de Lucia. Morto? Como? Um acidente? Em batalha? Era de lorde Aron que ela falava, ou de outra pessoa? Ela esperou a história comovente ser revelada, mas Cleo não disse mais nada.
No silêncio, Lucia sentiu um ímpeto avassalador de compartilhar a própria perda com alguém que pudesse entendê-la.
— Em toda a minha vida, só amei de verdade um garoto. — Lucia sacudiu a cabeça, quase distraída. Garoto parecia uma descrição muito trivial para ele. — Você… acredita nos vigilantes?
— Sim.
Tantas pessoas zombariam de algo assim, mas a resposta rápida e definitiva de Cleo, bem como sua expressão calma, carregavam a mesma seriedade que Lucia sentia no coração.
Ela nunca havia contado isso a ninguém. Ninguém.
E agora as palavras surgiam porque se sentia incapaz de contê-las.
— Quando fiquei presa em meu sono, um vigilante chamado Ioannes visitou meus sonhos. Era o garoto mais bonito que já vi. Ele prometeu me visitar de novo depois que eu acordasse, mas não o vi mais desde então. E agora… agora nem tenho certeza se foi real.
Foi só quando sentiu a umidade no rosto que se deu conta de que estava chorando. Enquanto se lembrava da última vez que o vira, do beijo, a dor retorcia seu coração, e a escuridão pesada crescia dentro dela.
Nesse momento, um raio crepitou sobre o campo, e nuvens negras de tempestade fecharam o céu, bloqueando o sol. Os garotos olharam para cima, surpresos. Seus cabelos e suas roupas ficaram encharcados em segundos.
— Princesa, precisamos ir agora — um guarda a aconselhou.
Lucia olhou para cima, atônita. Auranos costumava ter um clima perfeito, moderado.
— Você fez isso? — Cleo sussurrou.
— Não sei. — Seus elementia lhe davam o poder de fazer tantas coisas incríveis, tanto maravilhosas quanto apavorantes, mas controlar o clima… A ideia era ao mesmo tempo assustadora e empolgante.
Cleo deu o braço para Lucia, e ambas se levantaram juntas.
— Sei o que é amar alguém diferente de você. Alguém encarado com desprezo, ou considerado proibido. Causa mais dor que felicidade, principalmente se aquele que ama é roubado de você antes da hora.
— Sim — Lucia sussurrou.
— Antes de meu pai morrer, ele me disse para acreditar na magia. E é o que faço. Acredito em coisas que as outras pessoas consideram impossíveis, e isso me fortalece o bastante para enfrentar o que vier. Acredito que seu Ioannes é real e que, neste exato momento, está pensando no quanto sente a sua falta.
Lucia não podia negar. Cleo estava se aproximando dela, rompendo a muralha escura que a cercava.
Acreditar na magia. Acreditar no impossível.
Acreditar, temporariamente, nessa frágil nova amizade com Cleo.
E acreditar que um dia veria Ioannes de novo.

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