3 de setembro de 2018

Capítulo 5

FELIX
AURANOS

Era divertido voltar a ser um dos bandidos. Sem remorso, sem consciência pesada. Livre para ser cruel e indiferente. Provocando o caos e despertando medo aonde quer que fosse, sem nenhuma preocupação.
Bons tempos.
Felix tinha acabado de passar três dias muito agradáveis em Pico do Falcão, a maior cidade de Auranos. Primeiro, tinha espancado um homem sem nenhum motivo e roubado suas roupas, descobrindo depois que os sapatos de couro nobre eram, infelizmente, muito apertados. Tinha levado duas lindas loiras — gêmeas idênticas, por sinal — para a cama sem nem se preocupar em saber o nome delas. E, depois, tinha roubado quase duzentos cêntimos de uma taverna movimentada quando o atendente estava de costas.
Felix Graebas, que tinha sido um assassino de grande valor para o Clã da Naja antes de tirar uma pequena licença, tinha retornado à vida a que havia sido destinado.
Jogou o cristal da Tétrade para cima e o pegou, apreciando o peso já familiar nas mãos.
— Aonde vamos? — ele perguntou à magia do ar que girava dentro da   esfera de selenita, e depois a segurou perto do ouvido. — Para a Cidade de Ouro? Que ideia excelente! Vamos, eu e você, fazer uma visita para o rei.
Da última vez que encontrara o rei, tinha recebido uma missão muito especial: encontrar Jonas Agallon e se infiltrar em seu grupo de rebeldes, descobrir seus planos, matar Jonas e retornar sem demora para relatar as descobertas ao rei.
Em vez disso, Felix tinha decidido que era o momento perfeito para se redimir dos erros do passado e se tornar um cidadão de bem, honrado, e não um assassino frio a serviço do Rei Sanguinário.
Que piada.
Com sorte, apesar do atraso inesperado, o rei o receberia de braços abertos. Ele voltaria a cortar gargantas e incendiar vilarejos na semana seguinte.
Felix estava passando por um pequeno vilarejo no meio de uma floresta quando ouviu alguém chamar por ele.
— Meu jovem! Meu jovem! Por favor, preciso de sua ajuda!
Ignore-a, Felix disse a si mesmo. Você não ajuda as pessoas, você as mata. Até mesmo velhinhas indefesas, se forem tolas o bastante para ficar em seu caminho.
— Meu jovem! — A velha correu até ele e agarrou a manga de sua camisa. — Minha nossa, menino, você não me ouviu? Aonde está indo com tanta pressa?
Ele guardou o cristal do ar no bolso.
— Em primeiro lugar, senhora, não sou um menino. Em segundo, não é de sua conta aonde estou indo.
Ela colocou as mãos na cintura e olhou para ele.
— Bem, não importa. Só sei que preciso de ajuda, e você é alto e parece forte o bastante.
— Forte o bastante para quê?
Ela apontou para uma árvore.
— Lá em cima!
Felix franziu a testa e olhou para a árvore densa, carregada de folhas. Empoleirado de modo precário em um galho bem acima da cabeça deles, havia um gatinho cinza e branco.
— Não sei como minha gatinha querida foi parar ali — explicou a velha, apertando as mãos. — Agora ela não consegue descer. Ela está muito assustada, está vendo? Eu também. Ela vai cair ou ser pega por um falcão!
— É preciso ficar de olho nos falcões — Felix disse, e gargalhou. A mulher ficou olhando para ele, sem entender. — Ficar de olho. Falcões. Entendeu?
Ela apontou para cima de novo, dessa vez de modo mais frenético.
— Você precisa subir na árvore e salvar minha gatinha antes que seja tarde demais! — A gata soltou um miado baixo, mas lastimoso, como se enfatizasse o dilema.
Tinha sido uma infelicidade para essa mulher justo Felix ter aparecido em um momento de necessidade. Se fosse Jonas Agallon, provavelmente já teria resgatado a gata e agora estaria ocupado ordenhando uma cabra para o jantar do bichano.
Até mesmo a lembrança passageira do líder rebelde fracassado conseguia estragar o humor de Felix.
— Eu não salvo gatinhos, senhora — ele resmungou.
Os olhos dela se encheram de lágrimas.
— Por favor. Não tem mais ninguém por aqui para ajudar. Por favor, faça isso em nome da deusa Cleiona. Ela amava os animais. Todos: os grandes e os pequenos.
— É, bem, sou limeriano, e nossa deusa Valoria só gostava de animais que comiam gatinhos no desjejum.
Um falcão passou voando, e sua sombra cruzou o caminho de Felix. A mulher protegeu os olhos do sol forte ao olhar para cima, em pânico.
Felix não sabia ao certo se era um falcão verdadeiro ou um Vigilante, mas parecia ávido para devorar felinos.
Cruel e indiferente, lembra?
Ele olhou de relance para a mulher com o rosto virado para cima cheia de esperança de que ele pudesse ajudá-la.
Droga.
Não demorou muito para ele subir na árvore, pegar a gata e descer.
— Aqui está — ele disse com rispidez, afastando a bola de pelos.
— Ah, obrigada! — Com gratidão, ela pegou a gatinhas nos braços e a beijou diversas vezes. Depois segurou o rosto de Felix e deu dois beijos barulhentos em suas bochechas. — Você é um herói!
Ele olhou feio para a mulher.
— Definitivamente não sou nenhum herói. Agora, faça um favor para mim e esqueça que me viu.
Sem dizer mais nada, ele começou a se afastar da velha, da gata e da maldita árvore da vergonha.


Ele chegou à cidade no fim daquela tarde, quando o sol começava a descer no horizonte, pintando o céu com faixas vermelhas e laranja.
Felix respirou fundo ao se aproximar da primeira entrada do palácio. Dois guardas cruzaram as lanças pontiagudas diante dele, impedindo-o de dar outro passo. Ele os observou de cima a baixo. Os dois homens enormes faziam a figura alta e musculosa de Felix parecer insignificante.
— Saudações, amigos — ele disse com um sorriso. — Está um lindo dia, não está?
— Vá embora — disse o guarda gigante da esquerda.
— Não querem saber quem sou e o que vim fazer aqui?
— Não.
— Bom, vou dizer mesmo assim. Meu nome é Felix Graebas, e estou aqui para ver sua majestade, o rei. Não é necessário marcar hora. Ele não está me esperando, mas garanto que vai saber quem sou e vai querer falar comigo pessoalmente.
Duas lanças agora apontavam direto para sua garganta.
— E por que ele faria isso? — perguntou o guarda menor.
Felix pigarreou, determinado a demonstrar coragem.
— Por causa disso.
Sem fazer nenhum movimento brusco que os incitasse a usar as lanças, Felix puxou a manga da camisa para mostrar a tatuagem de serpente no antebraço, que o marcava como membro titular do Clã da Naja.
— E? — O guarda não parecia conhecer a importância do que estava vendo.
— Você pode não saber o que significa esta marca, mas é melhor acreditar em mim quando digo que o rei vai ficar muito zangado se descobrir que vocês me dispensaram. Sou um de seus assassinos favoritos e mais talentosos. Sei que não vão querer deixar o rei zangado, não é? Vocês dois parecem homens que dão valor a ter todos os membros intactos.
Os olhos do guarda maior se arregalaram ao olhar de novo para a tatuagem, apertando os lábios. Depois de um silêncio um tanto quanto torturante com a ponta das duas lanças ainda apontadas para Felix, o guarda assentiu.
— Venha comigo — ele disse.
Felix foi conduzido até uma sala escura do vestíbulo principal. O pequeno cômodo era adornado com um piso de mosaico de prata e bronze e tapeçarias gigantescas em todas as paredes. Na frente e no centro ficava o brasão auraniano, composto por um falcão e os dizeres: NOSSO VERDADEIRO OURO É O POVO.
Felix imaginou que a sala não devia ser muito utilizada, uma vez que ainda exibia relíquias da família real anterior.
Depois do que pareceu uma eternidade, um homem apareceu na passagem arqueada e olhou para ele. Tinha nariz pontudo e cabelo preto que ficava grisalho nas têmporas.
— Foi você que pediu uma audiência com sua majestade?
Felix endireitou os ombros e tentou parecer formal.
— Fui eu.
— E você diz que é... — Ele olhou para um pedaço de pergaminho que tinha nas mãos. — Felix Graebas.
— Isso mesmo.
O homem franziu os lábios.
— Que negócios tem a tratar com o rei?
— É algo que preciso discutir pessoalmente, apenas com ele. — Ele cruzou os braços. — Quem é você? Um lacaio?
Ao dizer isso, recebeu um sorriso bastante desagradável.
— Sou lorde Gareth Cirillo, grão-vassalo e estimado conselheiro do rei.
Felix assobiou.
— Parece pomposo.
Ele nunca tinha encontrado lorde Gareth, mas conhecia muito bem seu nome e sabia que era o homem mais abastado de Limeros, à exceção do próprio rei.
Lorde Gareth piscou devagar.
— Guardas, prendam este rapaz agora mesmo.
— Espere... O quê? — Felix mal conseguiu mover um músculo antes de vários guardas se aproximarem por trás da passagem arqueada e o segurarem.
— Existe uma ordem de prisão em seu nome.
— O quê? Sob quais acusações?
— Assassinato. E traição. Foi muito gentil de sua parte se entregar hoje. — Lorde Gareth apontou para a passagem. — Levem-no para o calabouço.
Felix se recusou a andar mesmo com os empurrões violentos dos guardas, então foi arrastado. Os sapatos roubados rangeram e arranharam o piso luxuoso.
— Traição? Não, espere! Preciso falar com o rei. Ele... ele vai querer me ver. Tenho algo que ele quer. Algo de grande valor — Felix hesitou, não querendo mostrar suas cartas tão cedo, mas constatando que não tinha outra escola. — Tenho um cristal da Tétrade.
Lorde Gareth deu ordens para os guardas pararem e ficou observando Felix por um instante em silêncio contemplativo. Depois começou a rir.
— A Tétrade não passa de uma lenda.
— Tem certeza? Se eu estiver mentindo, vou acabar no calabouço de qualquer modo. Mas, se estiver dizendo a verdade e você não informar ao rei, vai acabar tendo a própria cabeça decepada.
— Se estiver mentindo, não vai nem chegar ao calabouço — disse lorde Gareth, com os olhos semicerrados.
Com um sinal do grão-vassalo, um guarda bateu o punho pesado da espada na cabeça de Felix, e o mundo dele escureceu.


Quando Felix voltou a si, teve um único pensamento: o calabouço não cheirava tão mal quanto esperava. Ao abrir os olhos, se deu conta de que era por um bom motivo: ele não estava no calabouço.
Estava na sala do trono, deitado de costas na base dos degraus que levavam à plataforma real. E o rei estava sentado no trono dourado que havia roubado.
Ou conquistado, dependendo do lado em que se estava.
Essa sala do trono era quase idêntica à do norte, só que onde a limeriana era escura, cinzenta e dura, esta era dourada, clara e... dura.
Felix levantou e fez uma reverência exagerada, ignorando a dor lancinante na cabeça.
— Vossa majestade.
À direita do rei Gaius estava lorde Gareth. Seus braços estavam cruzados, e seu rosto enrugado estava sério enquanto observava Felix sobre o nariz pontudo.
— Felix Graebas — o rei se dirigiu a ele. — Fiquei muito decepcionado por não receber notícias suas durante todo esse tempo. Muitos acreditavam que estivesse morto, o que seria uma perda e tanto para o clã quanto para Limeros. Mas aqui está você, vivo e bem.
Felix estendeu as mãos.
— Deixe-me explicar meu prolongado silêncio, vossa majestade.
— Você só continua respirando porque eu gostaria muito de uma explicação — o rei afirmou, inclinando para a frente no trono. — E uma boa. Nos últimos meses, fiquei decepcionado várias vezes com aqueles que tinha na mais alta estima.
A expressão de lorde Gareth ficou sombria.
— Vossa majestade, não entendo por que optou por dar a este rapaz idiota e insolente momentos de seu precioso tempo. Ele cometeu traição, e a punição para isso é a morte.
— Em que momento cometi traição, posso perguntar? — Felix arriscou. — Não consigo me lembrar.
A atenção do rei permaneceu fixa em Felix, o olhar cerrado e examinador.
— Não consegue se lembrar de ter auxiliado Jonas Agallon a libertar dois prisioneiros rebeldes que eu pretendia executar? Não se lembra de ter sido responsável pelas explosões que causaram a morte de muitos cidadãos leais?
Felix piscou.
— Não tenho ideia do que está falando, vossa majestade.
Lorde Gareth bufou, exasperado.
— Você foi visto, idiota. Os uniformes da guarda que você e o rebelde roubaram não cobriam seu rosto.
Ah, merda.
— Posso explicar — ele começou a dizer.
— Poupe seu fôlego — o rei bufou. — Eu lhe dei a tarefa de se aproximar do rebelde, e não de ajudá-lo a lutar contra mim.
Felix achava mesmo que seria fácil entrar no palácio e voltar à vida de antes depois de tudo o que tinha feito?
Sua boca estava seca, mas ele tentava encontrar as palavras certas para falar. Para explicar.
— Servi ao senhor e ao clã muito bem por vários anos, vossa alteza. Dediquei minha vida ao reino e aprendi a sobreviver, a prosperar naquele ambiente, e a matar em seu nome sem questionar. Tinha apenas onze anos quando o clã me acolheu.
— Onze, isso mesmo — o rei confirmou. — Eu me lembro de você, Felix, com mais clareza do que dos outros. Quando foi apresentado a mim, um menino apenas um ano mais velho que meu próprio filho, que havia visto sua família ser assassinada, sua vila ser destruída, você não me olhou com medo. Me encarou nos olhos com rebeldia e força. Onze anos. Eu sabia que havia algo especial em você. Um espírito bruto que eu poderia canalizar para criar algo grandioso. E achei que tinha conseguido. Ficou claro, dadas as suas últimas escolhas, que eu estava errado. Admita seus crimes, rapaz, e vamos acabar logo com essa tolice.
Havia um membro do Clã da Naja, um velho que era como sábio guardião do grupo. Em seu leito de morte, ele havia dito que, na vida, um homem se depara com algumas encruzilhadas que podem definir seu futuro para o bem ou para o mal. Às vezes, é possível reconhecer essas encruzilhadas e parar para pensar na decisão certa. Mas, outras vezes, a escolha só pode ser vista com a clareza que vem depois.
Aquela encruzilhada estava bem iluminada, e era impossível Felix não a reconhecer.
Ao mesmo tempo que se considerava um bom mentiroso, ele sabia que o rei talvez fosse a única pessoa capaz de enxergar a verdade nele.
Ele respirou fundo e reuniu cada grama de coragem e ousadia que lhe restava.
— É verdade, ajudei Jonas a salvar seus amigos e, ao fazer isso, cometi traição contra vossa majestade. Abandonar o clã era uma coisa que eu não pretendia fazer por muitos anos, mas aconteceu. Cometi um erro. Confiei nas pessoas erradas, acreditei que podia fazer uma escolha sobre meu futuro. Mas estava errado. Sou exatamente o que está vendo, seu servo leal que se arrepende dos últimos atos e deseja implorar seu perdão.
— Entendo. — O rei franziu os lábios. — E onde está Jonas Agallon agora?
Felix hesitou.
— Não sei. Só sei que ele é um tolo desafortunado e despreparado que mergulha de cabeça no perigo sem pensar. É um milagre que tenha se mantido vivo até agora. Ele não é ameaça à vossa majestade. E sua única seguidora remanescente é uma garota igualmente idiota.
Felix não gostava de pensar em Lysandra. Desde o momento em que ajudara a resgatá-la da execução, eles discutiram e brigaram por tudo. E ele adorou cada minuto. A garota tinha um comportamento difícil e era hostil o bastante para reduzir qualquer garoto normal a um chorão covarde. Mas Felix não era um garoto normal.
E logo começou a se apaixonar por Lysandra, sem saber se ela percebia ou não.
Mas no primeiro momento de dúvida, a garota havia ficado do lado de Jonas. Lysandra estava apaixonada por ele, o que era uma infelicidade para ela, pois Jonas já estava apaixonado pela princesa Cleo.
— Em resumo, vossa majestade, agora aprendi, sem sombra de dúvida, que não fui feito para nenhum outro tipo de vida. Já estava vivendo a vida para a qual nasci e tinha um trabalho que executava com habilidade. Estou aqui hoje como seu servo leal, com um comprometimento renovado para com o senhor, o clã e meus deveres. E trago comigo a prova mais absoluta dessa lealdade, algo que não teria obtido sem a associação de curto prazo ao rebelde.
Ele enfiou a mão no bolso em busca do cristal da Tétrade, mas não encontrou nada.
— Está procurando por isso?
Felix olhou imediatamente para o trono e viu a selenita na palma da mão do rei Gaius.
— Hum, sim. Era exatamente isso que eu estava procurando. — Felix ficou surpreso com a própria burrice. É claro que lorde Gareth havia mandado os guardas o revistarem depois que ele alegou estar com um cristal da Tétrade.
— E você, por acaso, sabe o que é isso? — o rei perguntou.
— Sei. — Felix confirmou. — O senhor sabe?
— Dirija-se ao rei com respeito — lorde Gareth bradou.
— Lorde Gareth — disse o rei Gaius com calma —, talvez devesse nos deixar conversar a sós.
O grão-vassalo franziu a testa.
— Não pretendo desrespeitá-lo, vossa alteza. É ele que está sendo desrespeitoso.
— Neste momento, meu filho está sentado no trono de Limeros. Mas só depois de ter que explicar seu lugar de direito a seu desrespeitoso filho. Se quiser permanecer em minhas boas graças, lorde Gareth, faça o que eu disse. Não vou pedir de novo.
Sem dizer mais uma palavra, lorde Gareth desceu os degraus e saiu da sala do trono.
Felix observou o acontecido com uma combinação inebriante de interesse e medo.
O rei levantou do trono e desceu as escadas. Parou a poucos centímetros de Felix e levantou a esfera de selenita à altura dos olhos.
— Isto, Felix, é uma coisa que desejei a vida inteira. Mas é uma grande surpresa, para dizer o mínimo, você tê-la trazido para mim dessa maneira. Como a conseguiu?
— Jonas recebeu uma mensagem com a localização e instruções para o acesso. Fomos bem-sucedidos na busca, e depois roubei a esfera dele.
Felix não ia admitir que ele e Jonas também haviam encontrado o cristal da terra, e que a mensagem tinha sido enviada pela princesa Cleo. Não porque queria proteger alguém — e com certeza não estava tentando proteger a princesa Cleo, que ele não conseguia distinguir de uma mancha loira no chão. Mas preferia não entregar de uma só vez todos os segredos valiosos àquele poderoso homem.
O rei ficou olhando para o cristal do ar como se fosse um amor havia muito perdido que finalmente tinha voltado. Estava tão absorto que Felix imaginou que poderia escapar da sala sem ser notado — se não fosse por uma dúzia de guardas atrás dele.
— Tem só um pequeno problema — Felix admitiu. — Não faço ideia de como fazer isso, hum, funcionar. Até o momento, não passa de uma pedra bonita com uma coisa girando dentro.
— Sim. Tem uma coisa girando dentro. — Um canto da boca do rei esboçou um sorriso. — Não tem problema, Felix. Sou um dos poucos mortais que sabem como acessar a magia.
Felix arregalou os olhos.
— Como?
O rei deu uma gargalhada.
— Não importa como. O importante é que agora ela está comigo, e tenho que agradecer a você por isso.
— Não duvida da autenticidade?
— Nem por um instante. Sei que é verdadeira. Posso sentir. — Os olhos escuros do rei brilhavam. — Agallon sabe onde encontrar as outras três?
— Não que eu saiba. — Ao soltar essa mentira descarada, Felix prendeu a respiração.
Mas o rei apenas assentiu, com a atenção ainda fixa na esfera.
— Guardas, tragam o outro prisioneiro — ele ordenou, depois se virou e voltou para o trono.
Felix aguardou em silêncio enquanto os guardas traziam outro homem, sujo e acorrentado. Apesar da barba cheia e emaranhada e do olhar selvagem, Felix o reconheceu como um companheiro Naja.
— Felix... é você? — o homem murmurou. — Você está vivo. Seu canalha!
— É ótimo ver você também, Aeson. Como tem passado?
Felix nunca tinha sido muito próximo de Aeson, mas o conhecia bem o bastante para saber que era um dos assassinos mais brutais e eficientes que conhecia.
— Estou vendo que se reconheceram — disse o rei. — Bem, então vão ficar felizes em saber que têm algo em comum: ambos abandonaram suas responsabilidades para com o clã por um tempo. Aeson está no calabouço aguardando sua execução há... quanto tempo, Aeson?
— Três longas semanas — ele disparou.
Felix olhou com desconfiança para o rei.
— E então? Vou ser o novo companheiro de cela dele?
— Não, tenho algo muito mais interessante em mente. — Ele fez um sinal para os guardas. — Soltem Aeson e lhe deem uma arma.
Perplexo, Felix olhou para os guardas que executavam sem demora as ordens do rei. Livre das correntes, Aeson esfregou os pulsos esfolados e agarrou a espada que um dos guardas lhe ofereceu.
— Ouvi suas explicações — o rei Gaius disse. — Ganhei a esfera de presente. Agora, Aeson vai tentar matar você. Se conseguir, será libertado. Se fracassar, posso pensar em perdoar você pela aliança momentânea com o paelsiano.
Felix estava certo de que o teto tinha desmoronado sobre sua cabeça. Ele procurou palavras no impressionante silêncio que se fez na sala do trono.
— Mas, mas... espere. Onde está a minha arma?
O rei respondeu com um sorriso paciente.
— Você não vai receber nenhuma arma. Considere isso um teste de suas habilidades e de seu desejo de sobreviver.
Aeson não perdeu tempo. Saiu em disparada, diminuindo a distância entre eles, investindo com a lâmina. Felix sentiu a brisa fria gerada pela espada ao conseguir, por pouco, sair do caminho.
Nenhuma arma para se defender, apenas as próprias mãos.
Era um teste para fazê-lo fracassar.
— Da última vez que tive notícias, todos pensavam que você estava morto — Aeson resmungou. — Mas eu sabia que você tinha ido embora por vontade própria. Dava para ver em seus olhos, sempre esteve ali... aquele desejo de viajar.
— Você interpretou bem minha personalidade. E qual é sua desculpa? — Felix andava com cuidado, desenhando um círculo ao redor de Aeson, observando cada movimento, para depois abaixar, desviando de um golpe lateral.
— Percebi que era muito mais lucrativo ser mercenário do que matar pelo reino — Aeson sorriu, revelando uma fileira de dentes quebrados e amarelados. — Por acaso sabe quanto certos indivíduos estão dispostos a pagar pelo assassinato do Rei Sanguinário?
— Bastante, com certeza — Felix respondeu com firmeza.
— Uma pequena fortuna, na verdade. Também ouvi muitas coisas no calabouço... rumores interessantes de todo tipo. — Seus olhos brilhantes se estreitaram, e ele virou muito de leve na direção do rei. — É verdade que seu filho recentemente cometeu traição, vossa alteza? Que ele libertou uma prisioneira que o senhor tinha condenado à morte, e depois ambos fugiram para Limeros? Talvez esteja perdendo o controle sobre seu reino depois de todo esse tempo. Posso afirmar que é uma grande queda para alguém em sua posição.
— Os rumores dos condenados... — As palavras do rei não eram muito mais do que um sussurro gelado. — Triste. Muito triste.
Aeson deu mais um sorriso desvairado para Felix, depois se virou e disparou na direção da plataforma, acertando com a espada dois guardas que estavam em seu caminho.
Felix foi atrás dele em um instante. Pegou a espada de um dos guardas caídos e saltou sobre o inimigo, que rapidamente se aproximava do rei. Então, em um único movimento instintivo, enfiou a lâmina de uma vez no peito de Aeson. A espada que havia sido emprestada a ele caiu.
Felix puxou a lâmina. O corpo inanimado de Aeson caiu para trás, pelos degraus, amontoando-se no chão.
Os guardas restantes foram todos para cima de Felix. Um deles posicionou a espada em sua garganta, perto o bastante para atravessar a pele e fazer um filete de sangue quente escorrer pelo pescoço, enquanto outro o desarmou, e um terceiro o arrastou para baixo.
O rei ainda estava sobre a plataforma, mas agora em pé, segurando a selenita.
— Soltem-no — ele ordenou.
Os guardas obedeceram, mas mantiveram os olhos ardentes fixos em Felix.
O rei Gaius ficou observando Felix em silêncio por um momento longo e tenso. Parecia perfeitamente calmo para um homem que quase havia sido assassinado.
— Muito bem, Felix. Eu sabia que Aeson usaria essa oportunidade para tentar tirar minha vida.
— E simplesmente ficou aí sentado? — Felix perguntou sem pensar.
— Estava mais do que preparado para me defender — disse o rei, tirando uma adaga do sobretudo de couro. — Mas você agiu com rapidez e optou por me proteger. Passou em meu teste.
A percepção do que o rei havia acabado de dizer se assentou aos poucos.
— Bem, ótimo, então. E como ficam as coisas? O que isso significa? Serei perdoado?
O rei voltou a embainhar a adaga e guardou a esfera no casaco.
— Vou deixar Auranos amanhã cedo e partir em uma importante viagem. Você vai me acompanhar como meu guarda pessoal.
A declaração inesperada surpreendeu Felix como um tapa. Ele se esforçou para encontrar a própria voz.
— Para onde vamos?
O rei sorriu, mas os olhos continuaram frios.
— Kraeshia.

2 comentários:

  1. Essa eu não entendi.. O rei sabe que o Magnus está em Limeros, e não fez nada?

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  2. Eu sei que não devia mas eu gosto do Felix, é tipo gostar do Magnus, eu não tenho controle sobre isso.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!