29 de setembro de 2018

Capítulo 5

CORRI PARA FORA DA LOJA COM TANTA PRESSA que quase colidi com Tamid.
— Vim te procurar. — Ele estava sem fôlego e se apoiava na muleta. — É melhor voltar para dentro da loja.
— É um… — comecei a falar.
— Buraqi — ele confirmou, assentindo com a cabeça. Meu coração pulou no peito.
Um cavalo do deserto. Um ser primordial criado numa era anterior aos mortais, feito de areia e vento. Capaz de correr até o fim do mundo sem cansar. Uma criatura que valia seu peso em ouro, se capturada. Eu não ia voltar para a loja de jeito nenhum.
Apertei os olhos para observar o limite da cidade. Como imaginava, dava para ver uma nuvem de pó e homens se aproximando, conduzindo a criatura com barras de ferro. Ela devia ter acionado uma das antigas armadilhas.
— Deve ter sido por causa do incêndio em Tiroteio — Tamid disse, com sua voz de pregador. — Seres primordiais são atraídos pelo fogo.
Vi um prego torto espetado no batente e o arranquei. Antes o povo ganhava dinheiro coletando metal nas montanhas e enviando suas filhas para as areias com luvas de ferro para capturar e domar os buraqi. Para transformá-los de areia e vento em carne e osso, para que homens pudessem levá-los até as cidades e vendê-los. Até que o sultão construiu a fábrica. As dunas se encheram de pó de ferro. Até a água tinha gosto de ferro. Buraqis se tornaram mais raros, tendas viraram casas, comerciantes de cavalos viraram operários.
O ferro conseguia prender seres primordiais. Ou matá-los, como se fazia com carniçais. Era possível trazê-los à mortalidade. Mas a única coisa que podia transformá-los em carne e osso para sempre éramos nós.
Tamid tinha lido em algum texto sagrado que não havia fêmeas entre os seres primordiais. Eles não precisavam de filhos. Podiam viver para sempre. Não precisavam de nós.
Mas se conhecimento era poder, o desconhecido era a grande fraqueza dos seres imortais. Todos sabiam as histórias. Djinnis se apaixonavam por princesas e concediam todos os seus desejos. Garotas bonitas atraíam pesadelos direto para as lâminas dos homens. Filhas corajosas de mercadores capturavam buraqis e os cavalgavam até os confins do planeta.
Eles eram atraídos por nós, mas também vulneráveis a nós. Éramos capazes de transformá-los em carne e osso.
Naquele momento, as pessoas saíam para a rua, uma ponta de empolgação nervosa percorrendo a todos. Um buraqi significava um monte de ouro para quem o capturasse, ou um massacre. Ou ambos.
Já dava para vê-lo chegando à cidade.
Alguém gritou. Portas bateram. Mas a maioria das pessoas se inclinou para a frente, tentando ver melhor. Estiquei o pescoço na frente da loja.
Ele não ia se entregar tão fácil.
Num instante parecia um cavalo normal. No outro era areia pura, mudando de dourado brilhante para vermelho violento, fogo e sol no meio da ventania do deserto. Um arrepio de empolgação vindo de uma longa linhagem percorreu meu corpo. A fábrica tinha mudado nossas vidas. Não éramos mais tribos do deserto caçando buraqis. Mas ainda assim enchíamos o lugar de armadilhas de ferro. Quando uma delas pegava algo, todo mundo sabia o que fazer.
Um arrastar de correntes atraiu minha atenção. A jovem viúva Saira prendia uma ponta sob a caixa de za’atar na sua janela, enquanto a outra era presa à casa de oração pelo pai sagrado. Metade da cidade jogava pó de ferro da janela, uma reserva que todos mantinham em caso de ataque de carniçais. Ele se misturou com a areia e o ar até que toda a cidade se transformasse numa prisão para um ser primordial.
O buraqi levantou com um relincho. Os homens tentavam controlá-lo com as barras de ferro, lutando para evitar que mergulhasse de volta na areia. Seus cascos desceram com força e um grito ecoou, interrompido pelo som de um crânio esmagado pelo casco. Sangue esguichou na areia. Dourado e vermelho como os pelos dele.
Tio Asid cutucou o buraqi com a ponta afiada de sua barra de ferro. O cavalo recuou, a ferida se materializando em carne somente por tempo suficiente para sangrar. Tempo suficiente para os homens recuarem para trás das correntes de ferro com todos os demais. O trabalho deles tinha terminado.
Os homens haviam levado o buraqi para a cidade juntos. Mas agora era cada mulher por si. Se uma mulher capturasse um buraqi e conseguisse mantê-lo por tempo suficiente em sua forma mortal, então ele pertenceria a ela — ou melhor, ao seu marido ou seu pai. Ou tio, no meu caso. E o dinheiro da venda pertenceria a ele também.
Não que eu planejasse entregá-lo, se conseguisse capturá-lo. Eu precisava de um jeito de sair dali, e lá estava ele. Só faltava capturá-lo.
As outras mulheres esperavam à beira das correntes de ferro. A viúva Saira lambeu os lábios rachados. Até Shira tinha saído de casa. Ela parecia rezar, com os dedos agarrados à corrente de ferro. Eu sentia os batimentos do meu coração por todo o corpo — estômago, pescoço… qualquer lugar menos onde ele ficava.
Com dois passos me aproximei da fronteira da corrente de ferro. Essa era minha chance. Minha oportunidade de escapar.
— Amani… — Tamid chamou. Me virei para responder. Um relance de khalat rosa chamou minha atenção. Tia Farrah gritou o nome de Shira, e vi minha prima passar por baixo da corrente e correr em direção ao buraqi.
Maldita. Ela tinha que escolher justo aquele momento para finalmente tomar uma iniciativa. O buraqi, que estava se debatendo freneticamente ora como areia ora como pele, virou e acelerou em sua direção.
Shira não ia vencer aquela luta.
Me abaixei e rolei sob a corrente de ferro. Levantei e comecei a correr antes que Tamid conseguisse gritar tentando me impedir.
Dei um encontrão em Shira e caímos no chão. Um casco resvalou na minha cabeça, irradiando uma dor capaz de turvar meu campo de visão.
Tentei levantar, mas Shira segurou meu calcanhar, me puxando pra baixo. Seus olhos estavam quase tão furiosos quanto os do buraqi.
— Mamãe vai acabar com você por isso — minha prima sibilou, as unhas perfurando meus punhos.
— Ela vai ter que me pegar primeiro. — Enfiei o calcanhar em sua barriga antes que nós duas morrêssemos por culpa dela. Enquanto Shira tossia, levantei rapidamente.
Meia dúzia de mulheres tinha entrado no círculo de ferro enquanto eu e Shira brigávamos como se estivéssemos na escola. Elas estavam mantendo distância. Os cascos do buraqi começavam a afundar de novo na areia. Se demorássemos muito mais, ele conseguiria voltar à sua forma imortal e se tornar parte do deserto.
Assoviei. Ele virou.
Nos encaramos durante algumas batidas de coração. Dei um passo. Então outro. E mais dois. O buraqi ainda não tinha se movido.
De repente, Saira mergulhou na direção dele, segurando um punhado de ferro. O buraqi desviou.
E então avançou para cima de mim.
Eu me forcei a manter a posição. Como se estivesse cara a cara com a bala de Jin novamente. Não ia morrer naquele dia, sabia disso mesmo com o buraqi acelerando na minha direção com toda a força.
Saí do caminho um instante antes de ele me alcançar. Estiquei a mão, segurando o prego; meu toque roçou seu couro, e então pressionei seu flanco. Ferro e pele.
O grito do buraqi era o som de alguma coisa rasgando, e eu o senti dentro de mim. Me movi junto com a fera imortal enquanto ela lutava furiosamente. Acompanhava seus movimentos, me esforçando para manter pele contra espírito. Vi a angústia no rosto da criatura. Ele não queria ser preso. Eu entendia isso. Tampouco queria. O prego caiu da minha mão, mas já não fazia diferença.
Envolvi com as mãos o pescoço dele, que se transformava em músculo. O mundo parecia ter sumido enquanto o buraqi bufava contra meu peito. Sol e areia se tornaram carne e osso sob meus dedos. Senti a força dele, antiga como o mundo, mais antiga que a morte, a escuridão e o pecado.
Tudo o que precisava fazer era subir em suas costas e deixar que me carregasse até o fim do deserto.
O buraqi relinchou e senti seu desespero como um rasgo dentro de mim, fazendo meus pensamentos se dispersarem.
Alguém me puxou para trás enquanto vários homens cercavam o buraqi, liderados pelo meu tio.
Minha chance de fugir tinha passado. O ser primordial relinchou fracamente quando um freio de ferro foi enfiado em sua boca e ferraduras foram postas em seus cascos. Três sapatos de ferro, ferro suficiente para ancorá-lo à sua forma física permanentemente, e um de bronze, para que fosse obediente.
Homens gritavam para que uma mensagem fosse enviada, avisando que tínhamos um buraqi.
Curiosos celebravam e riam. Crianças batiam palmas. Eu já tinha sido esquecida. A fera virou a cabeça, olhando para mim como se eu a tivesse traído.
Havia sangue no meu cabelo e nas minhas roupas. Não. Eu não ia deixar que o levassem tão fácil. Comecei a abrir caminho pela multidão antes que pudesse pensar duas vezes.
Alguém segurou meu braço e me puxou para um vão entre duas casas. Uma mão cobriu minha boca, impedindo que eu gritasse.
— Ora, ora… — Uma voz desagradável rastejou pelo meu ouvido — Aonde vai a Bandida?

3 comentários:

  1. Achei q ela ia ficar com o cavalo,afi
    Iiiiiiih, quem é esse???

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  2. Obrigado pelo capítulo, Karina! =)
    Pô, tadinho do bichinho.
    E que guria lerda, esperava que ela fosse tão rápida em ação quanto é com a boca, mas me decepcionei...
    e quem é esse cretino aí? kkkk

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    1. De nada, Victor. E não previsa agradecer em todos os capítulos não kkk

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Boa leitura, E SEM SPOILER!