23 de setembro de 2018

Capítulo 5

AMARA
PAELSIA

Amara apertou na mão a mensagem que tinha chegado de Kraeshia enquanto mancava pela prisão do complexo real pela segunda vez em dois dias.
Carlos continuava sendo uma presença sólida, porém silenciosa, e ela apreciava seu guarda mais do que estava disposta a reconhecer. De todos os homens que a cercavam naquele momento, era nele em quem mais confiava. E confiança, devido aos acontecimentos recentes, estava em falta.
Ela detestava aquela prisão. Odiava o cheiro de umidade e mofo, como se o odor de décadas de prisioneiros tivesse impregnado para sempre as paredes de pedra.
— Ora, ora, se não é a prepotente destruidora de reinos agraciando a nós, criaturas desprezíveis e patéticas, com sua presença.
A voz dolorosamente familiar de Felix Gaebras fez Amara tencionar os ombros. A imperatriz virou para a esquerda e viu que ele tinha sido aprisionado em uma cela com uma pequena janela na porta de ferro que mostrava parte de seu rosto, inclusive o tapa-olho preto que cobria seu olho esquerdo.
Ela se lembrava com muita clareza de quando ele tinha dois olhos que a miravam com desejo.
— Eu até responderia, mas não vou gastar saliva com você.
Felix riu.
— No entanto, isso me pareceu uma resposta. E para alguém desprezível e patético como eu. A sorte deve sorrir para mim hoje.
Seu tom sarcástico, não muito tempo atrás, era uma de suas características mais cativantes. Agora não passava de um lembrete das decisões que ela havia tomado no passado e do ódio que o ex-assassino nutria por ela.
Ele não deveria mais ser sarcástico com ninguém. Se tudo tivesse corrido como planejado, ele já estaria morto há muito tempo e não seria mais um problema para Amara resolver.
— Respeite a imperatriz — Carlos gritou, cruzando os braços grandes. — Você só não foi executado pela bondade dela.
— Pela bondade dela? — Felix pressionou a testa contra as barras de sua janela e abriu um sorriso frio. — Ah, talvez ela ache que podemos ficar juntos de novo. Mas sinto muito, não compartilho minha cama com víboras.
— Vamos mudar de assunto — Amara disse com firmeza.
Felix deu um sorriso amarelo.
— Teve notícias de seu bom amigo Kyan? Sobre quando ele pretende terminar de reduzir este mundo a cinzas com sua ajuda? Um sinal de fumaça? Qualquer coisa?
— É só dizer, imperatriz — Carlos disse —, e eu mesmo acabo com a vida desse assassino.
Felix lançou um olhar rápido para o guarda.
— Se servir de parâmetro, foi ela que envenenou o pai e os irmãos sem nenhum pingo de arrependimento nesses olhos com longos cílios. Mas sei que não vai acreditar em mim. Diga, princesa, é Carlos que está aquecendo sua cama ultimamente? Você vai mandá-lo para a câmara de tortura para desviar a atenção de seu próximo crime?
As palavras eram a única arma que lhe restava, mas ele era um assassino talentoso. Cada uma delas provocava uma ferida.
— Talvez seja melhor que sua execução seja rápida — Amara disse devagar. — Não sei por que estou prolongando o inevitável.
— Ah, eu não sei. Culpa?
Ela o ignorou e, apoiando-se na bengala, começou a mancar pelo corredor rumo a seu destino, querendo deixar Felix Gaebras e suas acusações para trás.
— Sabe o que vou fazer com você quando sair daqui? — Felix gritou para ela. — Eu ia contar, mas não quero que tenha pesadelos.
Felix tinha se transformado em um caco de vidro, que machucava quanto mais entrava na pele.
Carlos falou em seguida, rompendo o silêncio:
— Ele está causando muitas dificuldades com os guardas. É violento e imprevisível.
— Concordo.
— Querem saber o que deseja fazer com ele.
Amara resolveu reservar seus pesadelos para alguém muito mais merecedor.
— Deixo essa decisão para você, Carlos.
— Sim, vossa graça.
Era hora de remover aquele caco de vidro e descartá-lo para sempre.
O humor de Amara tinha ficado bem mais sombrio quando eles chegaram ao destino. A prisão do complexo estava, em grande parte, ocupada por rebeldes. Ao contrário de muitos paelsianos que tinham aceitado o domínio de Amara depois de sofrerem nas mãos do rei Gaius, aqueles rebeldes não queriam ser governados por ninguém.
Tolos ingratos.
Ela estava pronta para dar fim a vários deles. E com a chegada da feiticeira e a libertação de Gaius, quanto antes, melhor.
Carlos parou no fim do corredor e meneou a cabeça para o guarda mais próximo, indicando que destrancasse a porta de ferro.
— Imperatriz… — ele começou a dizer.
— Quero falar com meu irmão sozinha.
A expressão dele era de incerteza.
— Não sei se isso é prudente, vossa graça. Mesmo desarmado, seu irmão é perigoso. Tão perigoso quanto o assassino.
— Eu também sou.
Ela abriu a parte da frente do manto e revelou a lâmina que trazia em uma bainha presa a um cinto de couro. Sua avó tinha lhe dado a arma no dia em que ela se casara com Gaius Damora. A adaga nupcial tradicional kraeshiana devia ser passada de mãe para filha no dia do casamento como símbolo da luta feminina em um mundo dominado pelos homens.
Carlos hesitou.
— Como quiser, vossa graça.
O guarda abriu a porta — que não tinha janela como a de Felix —, e ela entrou. A porta foi fechada e trancada.
O olhar de Amara encontrou o do irmão no mesmo instante. Ashur não se levantou da cadeira em que estava sentado, em frente à porta. A cela era pelo menos três vezes maior que a de Felix, e mobiliada com peças tão belas quanto as de um quarto na residência real. Tinha sido usada, claramente, para prisioneiros importantes de status elevado.
— Minha irmã — Ashur disse apenas.
Ela demorou um pouco para encontrar a voz.
— Sei que está surpreso em me ver.
Ele demorou para responder.
— Como está sua perna?
Amara fez uma careta ao ser lembrada do ferimento. Não que precisasse do lembrete.
— Quebrada.
— Logo vai se curar.
— Você parece tão calmo. Eu esperava…
— O quê? Raiva? Revolta? Choque por você ter me prendido por um crime cruel de que não participei? — Ele elevou a voz. — O que é isso? Uma última visita da imperatriz antes que eu seja executado em segredo?
Ela balançou a cabeça.
— Longe disso. Pretendo libertar você.
O olhar do irmão foi de total descrença.
— Verdade?
— Muitas coisas aconteceram desde que Kyan roubou o corpo de seu amigo.
Uma dor repentina surgiu em seus olhos azul-acinzentados.
— Dois dias, Amara. Esperei aqui por dois longos dias, querendo informações, mas ninguém me disse nada. — Ele respirou fundo. — Nicolo está bem?
— Não faço ideia.
Ele se levantou, e Amara segurou a adaga com mais força por instinto. Ashur olhou para ela, franzindo a testa.
— Você quer me libertar, mas está claro que também está com medo de mim.
— Não tenho medo de você. Mas sua soltura depende de chegarmos a um acordo. Um acordo bem específico.
— Você não entende. Não há tempo para negociações — ele disse. — Tenho que ser solto para encontrar as respostas de que preciso. Há magia lá fora, minha irmã, que possivelmente pode ajudar Nicolo. Mas não posso encontrá-la enquanto estiver preso aqui.
Uma frustração familiar surgiu em Amara. Seu irmão — rico, belo e influente — tinha se apaixonado por um ruivo insignificante, um ex-escudeiro do rei de Auranos. Amara era uma das poucas pessoas que sabia — e aceitava completamente — as preferências românticas de Ashur no decorrer dos anos, mas Nicolo Cassian não era digno das afeições de seu irmão.
— Você acha que pode salvá-lo? — ela perguntou.
Ashur cerrou os punhos.
— Não trancado atrás de uma porta.
— Espere mais uma semana e vai se esquecer dele. — Amara ignorou a escuridão que tomou conta do olhar de Ashur ao dizer aquilo. — Conheço você, meu irmão. Alguma coisa ou alguém novo vai atrair seu interesse. Na verdade, tenho algo bem aqui que pode ajudar.
Amara mostrou o pergaminho para o irmão.
Ele o arrancou das mãos dela e lançou um olhar intenso antes de ler a mensagem.
— Uma mensagem da nossa avó — ele disse. — A revolução foi exterminada em sua raiz, e ela diz que está tudo bem.
Amara assentiu.
— Pode ver que ela pede que eu retorne imediatamente a Joia para minha Ascensão.
— Sim, até agora você foi imperatriz só no nome, não é? É necessário realizar a cerimônia de Ascensão para oficializar por toda a eternidade. — Ele amassou a mensagem e a deixou cair no chão. — Por que está me contando isso, Amara? Quer os parabéns?
— Não. — Ela tirou a mão da adaga e começou a mancar a passos curtos e agitados, considerando a dor em sua perna uma distração providencial. — Vim aqui para dizer que eu… eu me arrependo das poucas decisões que tomei nesses últimos meses, mas me arrependo profundamente da maneira como tratei você. Fui péssima.
Ashur ficou boquiaberto.
— Péssima? Você me apunhalou no coração.
— Você me traiu! — A exclamação foi quase um grito, mas ela conseguiu controlar as emoções inúteis. — Você preferiu se aliar a Nicolo… Cleo e Magnus… e não à sua própria irmã!
— Você chegou a conclusões precipitadas, como sempre — Ashur resmungou. — Não me deu a oportunidade de me explicar. Se eu não tivesse tomado a poção de ressurreição, teria morrido permanentemente. — Ele parou de falar, respirando fundo para se recompor. — Assim que soube que eu estava vivo, você colocou a culpa do assassinato de nossa família em mim e me jogou em um fosso para servir de comida para um monstro. Por favor, minha irmã, diga como posso perdoar e esquecer?
— O futuro é mais importante que o passado. Sou imperatriz de Kraeshia, e isso será um fato gravado para sempre na história depois da minha Ascensão. Eu faço as regras agora.
— E que regras gostaria que eu seguisse, vossa graça?
Amara se contorceu diante do tom afiado dele.
— Desejo consertar as coisas entre nós. Quero mostrar que me arrependi do que fiz com você. Eu estava errada. — As palavras tinham um gosto amargo, o que não as tornava menos verdadeiras. — Preciso de você, Ashur. Isso me foi provado várias vezes nos últimos meses. Preciso de você ao meu lado. Quero que volte comigo para Kraeshia, onde vou perdoá-lo oficialmente dos crimes de que foi acusado.
Amara levantou o queixo e se obrigou a encará-lo nos olhos. Ele a olhou, extremamente chocado.
— Foi você que me acusou desses crimes — ele disse.
— Vou dizer para todo mundo que foi um plano estabelecido por Gaius. Fui obrigada a libertá-lo, então não me importa se houver um alvo nas costas dele.
— Por que foi obrigada a libertá-lo?
— Lucia Damora chegou — ela respondeu. — Achei melhor não contradizer uma feiticeira.
Amara detestava ter tanto medo de Lucia, mas sua magia era realmente incrível como diziam. Em Auranos, Amara teve apenas um vislumbre do poder de Lucia, que tinha se fortalecido desde então. Ela sabia que não podia derrotá-la.
E a criança…
Lucia não tinha fornecido nenhuma informação sobre a bebê que tinha nos braços, mas os boatos se espalhavam rapidamente.
O próprio Carlos tinha escutado o jovem com que Lucia havia chegado conversando com um amigo sobre a bebê, dizendo que era filha legítima de Lucia. Filha dela com um imortal.
Se fosse verdade, aquela informação seria incrivelmente útil.
Entre Lucia, Gaius e a ideia de que Kyan estava em algum lugar esperando para voltar e queimar tudo à sua volta, Amara já estava farta daquele reino que só tinha lhe trazido tormento.
— Só quero ficar longe daqui, longe de Mítica — ela disse a Ashur. — Não vou me colocar nem colocar você em risco por mais um instante sequer. Vou para casa para a cerimônia de Ascensão, como pediu nossa avó. Talvez não acredite, tendo em vista tudo o que eu fiz, mas você é o único membro da nossa família que eu valorizo.
A expressão de Ashur se tornou melancólica.
— Nunca nos encaixamos, não é, minha irmã?
— Não como nosso pai gostaria. — Amara ficou observando o irmão, com a guarda baixa, enquanto se lembrava de como era bom acreditar em alguém por inteiro, confiar sem restrições. — Deixe os problemas do passado para trás. Venha comigo, Ashur. Vou dividir meu poder com você, e apenas com você.
Ele a encarou por um longo instante.
— Não.
Ela tinha certeza de que havia escutado mal.
— O quê?
Ashur riu com frieza.
— Você se pergunta por que me aliei a Nicolo conhecendo-o por apenas algumas semanas? Porque ele tem o coração mais puro que já conheci. Seu coração, minha irmã, é negro como a própria morte. Nossa avó lançou mão de um tipo particular de magia para manipular você de acordo com os desejos dela, não é? E você ainda nem se deu conta.
O rosto de Amara ficou quente.
— Você não sabe do que está falando.
— Vou ser o mais direto possível para não deixar margem para mal-entendidos — Ashur afirmou. — Eu nunca, nem em um milhão de anos, vou voltar a confiar em você, Amara. As escolhas que você fez são imperdoáveis. Prefiro viver como um camponês a aceitar qualquer poder que queira compartilhar comigo, sabendo que a qualquer momento você pode enfiar uma adaga em minhas costas se lhe convier.
Amara tentou conter as lágrimas que fizeram seus olhos arderem.
— Você é tolo a ponto de abrir mão da oportunidade que lhe ofereci hoje?
— Não quero mais fazer parte da sua vida. Você escolheu seu caminho, minha irmã. E ele a levará à destruição.
— Então você tomou sua decisão. — As palavras saíram como um grito abafado. — Carlos! Me deixe sair daqui!
Um momento depois, a porta se abriu.
Como se as palavras fossem adagas em sua garganta, ela olhou para Ashur uma última vez.
— Adeus, meu irmão.
Fora da prisão, o céu estava escuro e carregado de nuvens de chuva. Amara encostou na parede de pedra, tentando se recompor.
Ela se perguntou o quanto a magia da água de Cleo tinha a ver com o clima imprevisível dos últimos dois dias. A princesa estava de luto pelo marido perdido.
Magnus Damora estava morto.
Mais um que você traiu em benefício próprio, ela pensou.
Amara fechou bem os olhos, desejando ignorar o mundo.
A imperatriz sabia que deveria comemorar a morte de Magnus — deveria agradecer a lorde Kurtis, se ele algum dia voltasse a aparecer, por remover mais um inimigo de sua lista.
Após um instante, Amara abriu os olhos. Seu estômago se revirou. Nerissa Florens estava caminhando em sua direção.
A ex-criada da imperatriz e espiã secreta rebelde em tempo integral — secreta, pelo menos até muito recentemente — parou diante dela.
Mais uma pessoa que Amara preferia evitar.
— Voltou da busca? — Amara perguntou com firmeza.
Nerissa assentiu.
— Os outros vão voltar ao anoitecer, mas eu queria ver como a princesa Cleo está.
— É muita gentileza sua.
— Você estava chorando.
Amara conteve o ímpeto de secar os olhos.
— Tem muita poeira no complexo, só isso.
— Foi visitar seu irmão, não foi?
Amara abriu um sorriso sarcástico.
— Sim, fui mesmo. Na mesma prisão onde você estaria presa por traição se Cleo não tivesse intercedido a seu favor. Não me dê motivos para mudar de ideia.
Nerissa não reagiu à rispidez no tom de voz de Amara.
— Sei que a magoei.
— Você me magoou? — Amara riu daquela afirmação. — Isso é um tanto quanto improvável.
Nerissa distraidamente ajeitou uma mecha do cabelo curto e preto atrás da orelha.
— Preciso que saiba, vossa graça, que fiquei contra você apenas porque não tive outra escolha. Sou e sempre serei leal à princesa Cleo.
Amara apertou a bengala com força.
— Sim, isso ficou bem claro, Nerissa.
A traição a tinha machucado mais do que Amara era capaz de admitir. Nerissa logo se tornara mais do que uma criada para ela, mais ainda do que uma amiga.
Nerissa piscou.
— Eu vi, sabia?
— Viu o quê?
— Seu verdadeiro eu. Uma parte sua que não é dura, cruel nem ávida apenas por poder.
A dor na perna de Amara passou para o coração por um instante. Mas apenas por um instante. Ela forçou um pequeno sorriso de novo.
— Você estava apenas vendo coisas. Foi um erro seu.
— Talvez — Nerissa disse com calma.
Amara olhou para a garota com desdém.
— Eu já tinha ouvido histórias sobre você. Achei que a maior parte não passasse de boato. Parece que sua habilidade de seduzir e se infiltrar em camas influentes não tem comparação. A perfeita espiãzinha rebelde, não é?
— Seduzo apenas aqueles que estão dispostos a serem seduzidos. — Nerissa a encarou nos olhos por uma pequena eternidade antes de abaixar a cabeça. — Se me der licença, vossa graça, preciso ver a princesa.
Amara observou a garota caminhar na direção da residência real. Seu coração era um nó apertado dentro do peito.
Ela estava decidida. Estava na hora de deixar Mítica.
Estava na hora de planejar seus próximos passos.

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