16 de setembro de 2018

Capítulo 5

CLEO
LIMEROS

Cleo, Magnus e os outros dois guardas atravessaram cuidadosamente a superfície do lago congelado até o alto do penhasco. Lá, Cleo fez uma careta ao olhar para o barranco e calcular a queda do rei até o fundo — uma queda que ela também teria sofrido se Magnus não a tivesse puxado de volta.
Ela se virou para Magnus, pronta para expor suas preocupações sobre os planos do rei em voz alta, mas algo a impediu. Magnus estava sangrando.
Ela imediatamente puxou uma tira de tecido da barra do vestido vermelho — que, graças às desventuras do dia anterior, já tinha vários rasgos — e pegou o braço machucado dele.
Magnus se virou, surpreso.
— O que foi?
— Você está machucado.
Ele olhou para a manga de seu manto preto, rasgada até a pele, e relaxou.
— É só um arranhão.
Cleo olhou para os guardas de uniforme vermelho que combinavam perfeitamente com a cor de seu vestido. Eles estavam a uns dez passos de distância, conversando em voz baixa. Ela podia imaginar os assuntos: poções de bruxas, magia elementar, reis mortos voltando à vida…
A princesa preferia se concentrar em algo tangível naquele momento.
— Fique parado — ela disse, ignorando o protesto de Magnus. — Na verdade, deixe-me ver melhor o ferimento. Quero ter certeza de que não é muito sério.
Relutante, Magnus tirou o manto dos ombros e arregaçou a manga da túnica. Cleo recuou involuntariamente ao ver o machucado sangrando, mas se recompôs em um instante e começou a cobri-lo com a faixa de seda.
Ele a observava com interesse.
— Você tem muito mais jeito com isso do que eu imaginava. Já tratou de ferimentos antes?
— Uma vez. — Foi tudo o que ela disse, preferindo se concentrar na tarefa.
— Uma vez — ele repetiu. — Você fez curativos no ferimento de quem?
Cleo ajeitou com cuidado as pontas do tecido no curativo improvisado e encarou os olhos do príncipe.
— Ninguém importante.
— Então vou tentar adivinhar. Jonas? Parece que ele é a pessoa com maior probabilidade de se machucar a qualquer momento.
Ela limpou a garganta.
— Acho que há assuntos mais urgentes para discutirmos no momento do que o rebelde.
— Então foi Jonas. — Ele soltou um suspiro. — Muito bem, isso é assunto para outro momento.
— Ou nunca — ela disse.
— Ou nunca — ele concordou.
O rei tinha deixado instruções. Dirigindo-se somente para Magnus — para Cleo, apenas lançou olhares de desprezo — ele dissera que os encontraria aquela noite em uma hospedaria do vilarejo a meio dia de viagem em sentido leste. Gaius explicara que o vilarejo ficava no caminho para onde estava sua mãe.
Para Cleo, tudo o que o rei dizia eram mentiras.
— Tem certeza de que não posso convencê-la a ir para Auranos? — Magnus perguntou, admirando o curativo improvisado que ela havia feito em seu braço. — Você ficaria mais segura lá.
— Ah, sim, é tudo o que quero no momento. Ficar sã e salva e totalmente fora do caminho. Talvez você possa mandar esses guardas comigo para garantir que eu faça exatamente o que mandarem.
Ele arqueou as sobrancelhas e voltou a atenção para o rosto dela, em vez das mãos.
— Sei que está chateada.
Ela só conseguiu soltar uma risada vazia diante do eufemismo.
— Aquele homem — ela apontou na direção em que o rei e os guardas tinham seguido para voltar à quinta onde Amara estava — será responsável pela morte de nós dois. Na verdade, ele quase já foi!
— Eu sei.
— Ah, sabe? Que maravilha! É de fato maravilhoso. — Ela começou a andar de um lado para o outro com passos curtos e preocupados. — Ele está mentindo para nós. Você deve saber disso.
— Acho que conheço meu pai. Melhor do que qualquer outra pessoa, com certeza.
— E então? Está esperando que ele sinta peso na consciência? Que de repente decida mudar seus hábitos? Que, magicamente, escolha ser a solução para todos os nossos problemas?
— Não. Eu disse que o conheço, o que significa que não confio nele. As pessoas não mudam, não tão rápido. Não sem antes terem provado que são capazes de mudar. Ele foi duro, cruel e ambicioso durante toda minha vida… — Ele franziu a testa e ficou em silêncio de novo, percorrendo o lago congelado lá embaixo com o olhar.
— O que foi? — Cleo perguntou com o máximo de delicadeza para não o desencorajar. O modo como franziu a testa… ele devia ter se lembrado de alguma coisa.
— Tenho essas lembranças… São muito confusas e distantes. Nem consigo ter certeza se são lembranças ou sonhos. Eu era pequeno, mal conseguia andar sozinho. Lembro de ter um pai que não era nem um pouco frio como minha mãe. Que me contava histórias antes de dormir.
— Histórias sobre demônios, guerras e tortura?
— Não. Na verdade… — Ele voltou a franzir a testa. — Lembro de uma sobre… um dragão. Mas era um dragão cordial.
Ela o encarou sem entender.
— Um dragão cordial?
Ele deu de ombros.
— Talvez tenha sido apenas um sonho. Muitas coisas do meu passado parecem sonhos agora… — Ele parou de falar, e sua expressão ficou séria. — Não quero que se envolva nisso. Como posso convencê-la a ir para Auranos?
— Não pode, e essa é a última vez que falaremos sobre isso. Estou nessa jornada com você, Magnus. Não importa o que acontecer.
— Por quê?
Cleo olhou para ele, sentimental.
— Você sabe por quê — ela disse com suavidade.
O rosto dele foi tomado pela dor.
— Essa linguagem cifrada sempre me confundiu. Talvez você ainda não confie o suficiente em mim para falar com clareza.
— Achei que já tivéssemos deixado essas preocupações de lado.
— Em parte, talvez. Mas está tentando me convencer de que não achou que eu não fosse obedecer ao comando do meu pai e acabar com sua vida na beira daquele penhasco? Porque não vai conseguir. Eu vi nos seus olhos o medo, a decepção. Você acreditou que eu a mataria só para cair nas graças dele de novo.
Os guardas não estavam perto o suficiente para ouvir, mas mesmo assim aquela discussão parecia mais apropriada para um momento mais privado.
De qualquer forma, ele tinha pedido para Cleo ser franca.
— Admito, você foi muito convincente.
— Eu estava tentando ser convincente, uma vez que a vida de nós dois estava em risco. Mas você não me ouviu? Eu a chamei de Cleiona, e esperava que percebesse isso como um sinal para não duvidar de mim. — Ele balançou a cabeça. — Mas, ao mesmo tempo, por que não duvidaria? Não dei muitos motivos para confiar em mim.
Magnus encarou o chão, a testa franzida, até levantar a cabeça e encará-la nos olhos.
— Você está determinada a ir comigo até minha avó.
Cleo assentiu.
— Ela pode ser a resposta para tudo.
Ele rangeu os dentes.
— Espero que esteja certa.
Então a bruxa encontraria sua irmã, eles iriam atrás dela e implorariam para Lucia ajudá-los a livrar Mítica de Amara. Cleo tinha que admitir que não gostava da ideia de contar com a ajuda da jovem feiticeira.
— Você realmente acha que sua irmã vai nos ajudar? — ela perguntou. — Da última vez que a vimos… — Ela estremeceu ao se lembrar de Lucia e Kyan chegando de surpresa no palácio limeriano. Kyan quase matou Magnus com sua magia do fogo.
Lucia o havia impedido, mas depois virou as costas para o irmão quando ele lhe pediu para ficar.
— Espero que ela ajude — Magnus respondeu com firmeza. — Essa escuridão que surgiu com a magia de Lucia… não é ela de verdade. A irmã que eu conheço é gentil e doce. Ela vai bem nos estudos, muito melhor do que eu, e devora todos os livros que vê pela frente. E sei que ela se preocupa com Mítica e seu povo. Quando souber de tudo o que Amara está pretendendo, ela vai usar seus elementia para acabar com isso.
— Bem — Cleo disse, esforçando-se muito para ignorar o veneno que vazava de seu peito ao ouvir tais elogios fraternos —, ela parece perfeita, não é?
— É claro que ela não é perfeita. Ninguém é. — Ele esboçou um sorriso. — Mas Lucia Damora chega bem perto disso.
— Que pena, então, que ela esteja sob a influência de Kyan atualmente.
— Sim. — A pequena alegria que havia em seu olhar desapareceu e foi substituída por dureza. — Ele está com o cristal do fogo. Você, com o da terra. Amara tem o da água. Meu pai está com o do ar há um bom tempo.
De repente, Cleo deixou de se preocupar com todas as outras coisas.
— Há quanto tempo ele está com o cristal? Ou talvez seja melhor perguntar: por que eu não sabia disso até agora?
Magnus piscou.
— Tenho certeza de que já mencionei isso antes.
— Não, sem dúvida não.
— Hum… Sei que alguém estava presente quando recebi a notícia. Nic, talvez.
Ela não conseguia acreditar no que estava ouvindo.
— Nic sabe que o rei está com o cristal do ar, e nenhum de vocês me falou?
— Jonas também sabe.
Ela ficou boquiaberta.
— Isso é inaceitável!
— Peço desculpas, princesa, mas faz menos de um dia que concordamos em compartilhar mais do que ódio e desconfiança.
As lembranças do chalé no bosque voltaram a ela no mesmo instante: uma noite de medo e sobrevivência que levou a um encontro muito inesperado.
Cleo mordeu o lábio, deixando de lado sua indignação.
— Minha cabeça ainda está girando com tudo o que aconteceu.
— A minha também.
Ela olhou para os guardas e viu que um deles andava de um lado para o outro, agitado.
— Vamos para o ponto de encontro — ela disse com firmeza. Abriu a parte da frente do manto e olhou para o vestido carmim. — Espero encontrar roupas novas no vilarejo. Isso é tudo o que tenho, e está rasgado.
Magnus passou os olhos devagar por ela.
— Sim. Me lembro de rasgar esse vestido.
O rosto de Cleo ficou quente.
— Ele devia ser queimado.
— Não, esse vestido nunca será destruído. Será exibido por toda a eternidade. — Ele curvou os lábios em um sorriso. — Mas concordo, você precisa de vestimentas melhores para viajar. A cor é um tanto quanto… chamativa.
Ela sentiu o calor de Magnus quando ele deslizou a mão por seu braço, observando o vestido que Nerissa tinha encontrado no palácio para Cleo usar durante o discurso. Quanto mais Magnus se aproximava, mais o coração dela acelerava.
— Talvez possamos discutir isso mais tarde, na hospedaria, ou em nosso… quarto? — ela disse em voz baixa.
Então, de uma hora para a outra, Magnus tirou as mãos dela. Ela sentiu uma onda repentina de ar frio quando ele deu um passo para trás.
— Na verdade, vou garantir que nos deem aposentos separados.
Ela franziu a testa:
— Separados?
— Eu e você não dividiremos o quarto tão cedo.
Cleo o encarou confusa por um longo momento, sem encontrar sentido em suas palavras.
— Não entendo. Por quê? Depois da noite passada, eu achei…
— Achou errado. — O rosto dele ficou muito pálido. — Eu não colocaria sua vida em risco.
Magnus falava em enigmas que ela não conseguia decifrar.
— Por que minha vida estaria em risco se compartilhássemos um quarto? — Ela observou a expressão atormentada dele, que passou a mão pelo cabelo. — Magnus, converse comigo. Qual é o problema?
— Você não sabe?
— É óbvio que não. Me diga!
Com relutância, ele atendeu o pedido.
— Sua mãe morreu no parto por causa da maldição de uma bruxa. E é por causa dessa maldição que você também vai morrer se ficar grávida.
Cleo só conseguiu encará-lo, absolutamente chocada.
— Seu pai disse isso?
Ele assentiu, tenso.
— E você simplesmente acreditou nessa história ridícula?
— Não fale como se fosse uma tolice qualquer. Não sou idiota, sei que existe a possibilidade de que ele esteja mentindo. Mas ainda assim me recuso a correr o risco.
— Que risco? — Ela franziu a testa, sentindo-se idiota por não entender.
Ele a segurou pelos ombros com firmeza, encarando-a com intensidade.
— O risco de perder você.
A confusão dela se desfez, substituída por um calor crescente no coração.
— Ah…
— Minha avó é uma bruxa. Se existe mesmo uma maldição em você, ela vai desfazê-la.
Parecia impossível que ela nunca tivesse ouvido falar de algo tão sério, mas seu pai sempre fora reservado, em especial no que dizia respeito à magia. Ele nunca havia contado a Cleo que tinha mandado uma bruxa lançar um feitiço de proteção sobre a entrada do palácio auraniano, o qual Lucia foi poderosa o bastante para quebrar. Talvez tivesse lidado com esse assunto da mesma forma.
Cleo começou a pensar em sua mãe, e seu coração se partiu ao lembrar da mulher que nunca conheceu, destinada a morrer dando vida a ela.
— Se isso for verdade — ela disse depois de um instante, ainda se recusando a acreditar por completo em uma possibilidade tão absurda —, ouvi falar de outros métodos para evitar uma gravidez.
— Não vou arriscar sua vida até a maldição ser quebrada. E não dou a mínima se meu pai estiver mentindo para mim. Não vou correr o risco de que ele esteja certo. Entendeu? — A voz de Magnus ficou mais grave e baixa, fazendo-a sentir um arrepio.
Ela assentiu.
— Entendi.
Poderia ser verdade? Ela odiava pensar que a mínima possibilidade pudesse existir. Por que seu pai não tinha mencionado algo tão horrível?
Ela precisava de respostas, tanto quanto Magnus. Mais um motivo para visitarem a avó bruxa.
Cleo notou que o guarda que estava agitado de repente se aproximou deles.
— Vossa alteza… — ele chamou.
Cleo tirou os olhos de Magnus para virar para o guarda, chocada ao ver que ele havia desembainhado a espada e a apontava para eles.
Magnus deixou Cleo atrás de si.
— O que é isso? — ele perguntou.
O guarda balançou a cabeça, parecendo tenso e um pouco exaltado.
— Acho que não posso cumprir as ordens do rei. A imperatriz e seu exército estão no controle de Mítica agora. Os limerianos não têm mais influência sobre seu próprio futuro. Continuar aliado àqueles que enganam e se opõem à imperatriz seria cometer traição. Dessa forma, preciso entregá-los a ela.
Cleo o encarou com perplexidade.
— Seu covarde repugnante!
Ele lançou um olhar seco para ela.
— Sou limeriano. Você é inimiga, não importa com quem tenha se casado. Você — ele disse, retorcendo a palavra com desgosto — é o motivo de tudo o que cultivamos em Limeros por gerações ter sido destruído.
— Minha nossa, você me atribui muito mais poder do que de fato tenho. — Ela endireitou os ombros e semicerrou os olhos. — Abaixe a espada imediatamente e talvez eu não exija sua execução.
— Não recebo ordens de nenhum auraniano.
— Você recebe ordens de mim? — Magnus perguntou em um tom ácido.
— Receberia — o guarda respondeu. — Se tivesse algum poder por aqui.
Com os punhos cerrados, Magnus deu um passo à frente, mas o guarda respondeu encostando a espada no pescoço da princesa. O medo deixou Cleo boquiaberta.
— Ao menos sabe o meu nome, vossa alteza? — O guarda olhou para ele com desprezo. — A imperatriz sabe. Ela sabe o nome de todo mundo.
— Amara Cortas sem dúvida tem uma habilidade incrível de lembrar fatos inúteis. — Magnus olhou para ele com raiva. — E então? Pretende nos fazer marchar até ela? Espera que ela aceite o generoso presente de braços abertos e o indique para capitão da guarda? Não seja idiota.
— Não sou idiota. Não mais. Agora, venham comigo. Se resistirem, vão morrer.
O guarda então gemeu quando a ponta de uma espada atravessou seu peito. Ele perdeu o equilíbrio e caiu no chão.
Atrás dele estava o outro guarda, limpando de sua espada o sangue do colega com um lenço. Ele olhou para o guarda caído com repulsa.
— Criatura fraca. Tive que ouvir suas baboseiras, seus planos… Discordei de tudo. Por favor, perdoe sua deslealdade, vossa alteza.
Embora estivesse tão aliviada que suas pernas quase cederam, Cleo trocou um olhar preocupado com Magnus.
— Qual é o seu nome? — Magnus perguntou ao guarda de cabelo escuro.
— Milo Iagaris, vossa alteza.
— Você tem minha mais profunda gratidão por essa intervenção. Suponho que possamos contar com a sua lealdade?
Milo assentiu.
— Até o fim.
Cleo soltou a respiração que nem tinha percebido que estava segurando.
— Obrigada, Milo — ela disse, lançando um olhar de ódio para o guarda morto caído a seus pés. — Agora, vamos deixar esse traidor para trás.


Cleo usou o manto verde para esconder o vermelho chamativo de seu vestido e o cabelo claro durante a jornada até o vilarejo.
Depois de horas de viagem incluindo várias formas de transporte, como caminhada, carroça e cavalo, ela, Magnus e Milo chegaram ao seu destino, exaustos. Por sorte, a esposa do dono da hospedaria era costureira, e Cleo conseguiu algumas roupas simples com ela. Então, mantendo sua palavra, Magnus acompanhou Cleo a seu quarto individual.
Exausta demais para discutir mais sobre a maldição, Cleo trancou a porta, caiu sobre a cama dura e adormeceu no mesmo instante.
A luz do sol da manhã a acordou de maneira abrupta e, assim que abriu os olhos, Cleo os protegeu bloqueando a claridade com as mãos. Logo depois, a costureira bateu na porta, trazendo uma bacia de água morna para ela se lavar.
Cleo ficou grata por finalmente poder se livrar da sujeira que havia se acumulado em sua pele durante as andanças. Depois de limpa, ela colocou seu novo e simples vestido de algodão e passou os minutos seguintes se esforçando para desembaraçar o cabelo com um pente de prata deixado ao lado da bacia. Quando terminou, a princesa olhou para o próprio reflexo, esperando se deparar com alguém completamente diferente. Parecia que muita coisa havia mudado em poucos dias. Mas ali, no espelho, viu apenas a mesma Cleo de sempre. Cabelo dourado, olhos azuis-esverdeados que tinham perdido apenas um pouco do cansaço que começou a tomar conta deles apenas um ano atrás, aos dezessete anos recém-completados.
Ela deu as costas para o espelho com um suspiro e estendeu a mão até a cadeira onde estava pendurado o manto roubado de um guarda kraeshiano durante a fuga da quinta que Amara tinha tomado emprestada. Ela o inspecionou sob a claridade, procurando rasgos, mas ficou satisfeita ao ver que estava intacto. Suas únicas posses eram um vestido emprestado, um manto roubado e uma esfera de obsidiana.
E, claro, as lembranças.
Antes que tivesse a oportunidade de considerar tudo o que havia perdido no decorrer do último ano, foi interrompida por um ronco forte do estômago.
Quando foi a última vez que ela tinha comido? Para ser sincera, não conseguia se lembrar.
Cleo saiu do quarto e espiou o corredor, tentando adivinhar em que quarto Magnus estaria. Ela protegeu o rosto com o capuz do manto, caso alguém que estivesse por ali naquele início de manhã a reconhecesse, depois desceu a escadaria de madeira rangente que levava ao andar de baixo da hospedaria, em busca do desjejum.
A primeira pessoa que encontrou na sala de jantar vazia era alta, tinha ombros largos e cabelo escuro. Vestia um manto preto e, de costas para ela, observava o centro do vilarejo pelas janelas da frente.
Magnus.
Ela logo foi na direção dele e tocou seu braço.
Em vez de Magnus, o rei Gaius se virou para ela. Cleo recolheu a mão como se tivesse sido queimada. E imediatamente deu um passo para trás, para em seguida conseguir conter o choque inicial e retomar a compostura.
— Bom dia, princesa — ele disse. Seu rosto estava tão pálido quanto no dia anterior, ainda machucado, com círculos escuros sob os olhos.
Fale, ela ordenou a si mesma. Diga alguma coisa para ele não achar que você está com medo.
Gaius arqueou a sobrancelha escura.
— O gato comeu sua língua?
Droga, ele se parecia tanto com Magnus nas sombras da hospedaria… Só de pensar, o estômago dela se revirava de repulsa.
— Não — ela disse sem se abalar enquanto ajustava melhor o manto sobre os ombros. — Mas eu o aconselharia a manter distância se quiser conservar a sua.
— Uma ameaça vazia — ele disse, irônico. — Que previsível.
— Se me der licença, vou voltar para meu quarto.
— Você até poderia. — Ele foi até a mesa mais próxima, que logo seria ocupada por hóspedes famintos, e sentou, gemendo como se o movimento lhe causasse dor. — Ou talvez seja uma boa hora para conversarmos.
— Não existe boa hora para isso.
O rei recostou na cadeira e a observou em silêncio por um instante.
— Emilia foi a abençoada com a beleza singular da mãe dela. Mas você… você certamente herdou seu fogo.
Ouvir aquela cobra mencionar o nome de sua mãe mais uma vez revirou seu estômago.
— Você não respondeu à minha pergunta antes. Como conheceu minha mãe? Por que o nome dela estava em seus lábios em seus últimos instantes de vida?
Ele sorriu.
— Dizer o nome dela foi um erro.
— Ainda está evitando a pergunta.
— Acredito que talvez essa seja a conversa mais longa que já tivemos, princesa.
— Diga a verdade — ela o interrompeu. — Ou será que não consegue?
— Ah, a curiosidade… É uma fera perigosa que leva as pessoas por vielas escuras até um destino incerto. — Ele passou os olhos pelo rosto dela, franzindo o cenho. — Elena e eu já fomos amigos.
Cleo riu, surpreendendo-se com o som agudo da própria risada.
— Amigos?
— Não acredita em mim?
— Não acredito que tenha qualquer amigo, muito menos que minha mãe tenha sido um deles.
— Era uma outra época, antes de eu ser rei ou ela ser rainha. Às vezes parece que faz um milhão de anos.
— Não acredito que foi amigo da minha mãe.
— Não importa se acredita ou não. Acabou há muito tempo.
Cleo virou as costas, indignada por ele ousar tentar alegar algo do tipo. Sua mãe nunca escolheria passar seu tempo com alguém tão vil quanto Gaius Damora.
— Agora sou eu que vou fazer uma pergunta, princesa — ele disse, levantando e se posicionando entre ela e a escadaria.
Cleo se virou devagar e lançou um olhar com o máximo de arrogância possível.
— O quê?
— O que você quer com meu filho? — ele perguntou.
Ela o encarou.
— Como é que é?
— Você me ouviu. Pretende continuar usando Magnus para benefício próprio? Se sim, meus parabéns. Você fez um ótimo trabalho voltando-o contra mim. As várias fraquezas dele sempre foram uma decepção, mas isso… — Ele balançou a cabeça. — Você tem alguma ideia do que ele abriu mão por você?
— Você não sabe nada sobre isso.
Gaius zombou dela.
— Sei que pouco tempo atrás meu filho aspirava ser um líder, disposto a fazer o que fosse preciso para atingir seu maior potencial algum dia. Não sou cego. Vi como a cabeça dele foi virada rapidamente por sua beleza. Mas a beleza é fugaz, e o poder é para sempre. Esse sacrifício, essas escolhas centradas em você que ele fez nos últimos tempos… Não entendo a lógica dele. Não mesmo.
— Então talvez você seja cego.
— Ele não enxerga tudo que está em jogo. Só enxerga o que está acontecendo no momento, diante de seus olhos. Mas você enxerga, não é? Você sabe como quer que sua vida seja daqui a dez, vinte, cinquenta anos… Você nunca desistiu do desejo de recuperar o trono. Admito que subestimei sua determinação, o que foi um erro grave.
— Por que eu não desejaria retomar o que é meu por direito?
— Cuidado, princesa — ele disse.
— Não é a primeira vez que me diz isso. Não sei se está fazendo um alerta ou uma ameaça desta vez.
— É um alerta.
— Assim como o alerta sobre a maldição que minha mãe passou para mim?
— Sim, exatamente. Você não acredita? — Ele se aproximou. — Me encare nos olhos e me diga se estou mentindo sobre algo tão importante. Sua mãe foi amaldiçoada por uma bruxa odiosa e morreu dando à luz a você por causa dessa maldição.
Cleo parou um momento para analisar o rei que mentia com tanta facilidade. Se fosse outra pessoa, qualquer um, ela estaria preocupada com sua saúde.
Mesmo durante a conversa curta e desagradável que tiveram, o rosto dele ficou mais pálido, a voz, mais seca e rouca. Seus ombros largos estavam curvados. Ela comemorou seu declínio assim como comemoraria sua morte. Se o rei esperava algo diferente dela, ficaria extremamente decepcionado.
Mas seus olhos — nítidos, firmes, cruéis — não traziam nenhuma decepção visível.
— Você consegue ver a verdade — ele disse com a voz áspera. — Elena podia também, frequentemente, quando se tratava de mim. Ela me conhecia melhor do que qualquer um.
— Você não merece falar o nome dela.
— Essa é uma acusação séria, princesa. Principalmente considerando que foi você que a matou.
Os olhos de Cleo começaram a arder quando o peso da culpa que ela sempre carregou dentro de si — de que sua vida tenha custado a morte de sua mãe — surgiu em seu peito e a sufocou.
— Se o que está dizendo é verdade, foi a maldição que a matou.
— A maldição sem dúvida ajudou. Mas foi você que tirou a vida de Elena. Sua irmã não conseguiu, mas você, sim.
Cada palavra era como um golpe.
— Chega! Não vou ficar nem mais um segundo aqui, permitindo que me insulte, me intimide e minta para mim. Escute com atenção: se tentar fazer algum mal a mim ou a Magnus de novo, prometo matá-lo com minhas próprias mãos.
Com isso, Cleo se virou e foi na direção das escadas, sem se preocupar se teria que esperar mais uma eternidade pelo desjejum. Ela se recusava a ficar um segundo sequer na presença hostil do Rei Sanguinário.
— E você me escute, princesa. — A voz de Gaius a perseguiu como um odor malcheiroso. — Esse amor que acha que sente por meu filho? Vai chegar o dia em que você terá que escolher entre Magnus e o poder. E eu sei, sem sombra de dúvida, que vai escolher o poder.

2 comentários:

  1. Ainda tenho curiosidade em saber de quê a Emília morreu, será que a gente vai descobrir? Lembro do Jonas pensando que a mãe dele tinha morrido de algo parecido, talvez ele conte pra Cleo.. Mudando de assunto, será que o Jonas e a Lucia vão terminar juntos? Pela sinopse do livro, parece que sim..

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  2. Mistério...
    Mas é possível, pois a Cleo conseguiu perdoar o Magnus e ele matou Theon, pode ser que Jonas perdoe a Lucia e se apaixone.
    Essa saga é uma caixinha de surpresas, tudo pode acontecer.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!