1 de setembro de 2018

Capítulo 5

MAGNUS
AURANOS

A pedido do rei, Magnus e um seleto grupo de guardas saíram para escoltar o príncipe e a princesa de Kraeshia até uma grande quinta a uma hora de distância a nordeste do palácio.
Em vez de discutir, ele aproveitou a oportunidade para sair da cidade e espairecer. A viagem transcorreu sem percalços, uma vez que estavam cercados por uma multidão de guardas, tanto kraeshianos quanto limerianos, incluindo Cronus, capitão da guarda do palácio, que raramente saía de perto do rei. O fato de Cronus ter sido designado para acompanhá-los era prova de que o rei tinha pelo menos algum interesse na segurança de Magnus quando ele saía das muralhas da cidade.
Finalmente, chegaram à quinta.
— É linda — disse a princesa Amara quando desceu da carruagem junto ao irmão.
— É mesmo — o príncipe Ashur concordou, passando os olhos pelas viçosas colinas verdes entre as quais ficava a quinta. — É mais do que apropriada. O rei foi muito generoso em nos proporcionar um lugar tão bonito para ficar.
Magnus concordou.
— Ele ficará satisfeito por terem gostado.
Seu pai não gostava dos kraeshianos, mas, até então, Magnus achava que não passavam de uma inconveniência, como um inseto persistente e imune a tapas. E seu pai se recusava a fazer qualquer coisa além de dar tapas naquelas pestes, por medo de que alertassem seu pai e declarassem guerra contra ele.
Era incomum para o rei Gaius temer qualquer coisa. Ainda assim, desde o casamento real, onde um terremoto quase o matara, o rei parecia temer cada vez mais sua própria mortalidade.
E com razão.
Magnus apeou do garanhão negro e se aproximou da grande quinta.
A porta da frente se abriu, e um menino, que não devia ter mais do que cinco ou seis anos, saiu correndo pela trilha. Chegando até Magnus, ele parou de repente e olhou para o príncipe com os olhos arregalados.
— Você é o príncipe Magnus, não é?
— Sou.
— Minha mãe tem pesadelos com você. — Ele estava com os pequenos punhos cerrados ao lado do corpo. — Não vou deixar você machucá-la!
Cronus deu um passo à frente, mas Magnus levantou a mão para contê-lo.
— Eu garanto, meu jovem — ele disse, abaixando-se diante do menino para poder olhá-lo nos olhos — que não pretendo fazer nenhum mal à sua mãe. Mas fico muito satisfeito em ver que ela está sendo protegida por um guerreiro tão feroz.
Uma mulher barriguda se apressou na direção deles e pegou o menino nos braços. Seu rosto era pálido e cansado, características muito comuns depois da vitória do rei.
— Peço desculpas, vossa alteza — a mulher disse com nervosismo. — Meu filho, ele… ele fala sem pensar. Não quis desrespeitá-lo.
— Não me ofendi. — As palavras da criança não continham nenhuma ameaça, apenas uma leve ferroada que Magnus tentou ignorar. A porta da frente se abriu de novo, e um homem saiu da quinta e se juntou à mulher e ao menino.
— E quem é você? — Magnus perguntou.
O homem colocou o braço em volta da mulher e observou Magnus com cautela.
— Sou o lorde Landus. Peço desculpas, príncipe Magnus. Sabemos que já deveríamos ter partido, mas nos atrasamos. Minha esposa está esperando um filho, e suas manhãs costumam ser tomadas pelo enjoo. Pode estar certo de que partiremos agora para dar espaço aos seus… — Ele passou os olhos pelos kraeshianos e ficou com o maxilar tenso — … respeitados hóspedes. Como foi solicitado por seu pai.
— Vocês moram aqui? — Magnus ficou perplexo. Ele achou que se tratava de uma propriedade abandonada. Agora se dava conta de que seu pai havia simplesmente expulsado os residentes, sem dúvida com ameaças de prisão ou coisa pior. Por que isso o surpreendia? O rei nunca havia governado seu povo com uma pena quando uma pedra resolvia com mais facilidade.
O homem sorriu, mas demonstrando apenas cordialidade.
— A casa agora pertence ao rei Gaius. E a você.
— Então sigam seu caminho e não desperdicem mais o tempo do príncipe — Cronus disse, aproximando-se como uma sombra pesada ao lado de Magnus.
— É claro. — O medo passou pelos olhos do lorde. — Adeus, vossa alteza.
Magnus observou os três caminhando pela estrada da floresta. O garotinho o encarou por sobre o ombro da mãe, confuso. Ele não entendia por que tinha que sair da própria casa, sem saber quando ou mesmo se poderia voltar.
Eles são auranianos, Magnus lembrou a si mesmo quando se deu conta de que não conseguia desviar os olhos. Por que se importa com o destino deles?
— Espero que tenham levado todos os pertences pessoais e não precisem voltar a nos incomodar — disse a princesa Amara ao entrar no vestíbulo. Ela olhou para o teto de vitrais e para a escada esculpida em espiral com um grande sorriso. — Sim, é um espaço bastante aceitável. O rei sabe como tratar seus visitantes estimados. Vou dar uma olhada.
O príncipe Ashur parou na porta.
— Faça isso, minha irmã.
Amara desapareceu escadaria acima, seguida por sua criada.
— Peço desculpas pela indelicadeza de minha irmã — disse o príncipe Ashur. — Acho que ela não entendeu o que acabou de acontecer.
— O que há para entender? — Magnus perguntou, fingindo simpatia. — Vocês precisam de um lugar para ficar, e este é o lugar.
— Teríamos ficado bem no palácio. Não queremos causar nenhum problema.
Não, é claro que não querem.
Magnus se virou para Cronus, que ainda estava ao seu lado.
— Espere aqui do lado de fora com os outros até eu estar pronto para partir. Não devo demorar.
Cronus abaixou a cabeça.
— Sim, alteza.
Magnus e Ashur entraram no vestíbulo e fecharam a porta. Ashur mal notou a bela arquitetura, as ricas tapeçarias penduradas nas paredes e o piso ladrilhado com um mosaico colorido.
— Não é de seu gosto? — Magnus perguntou.
— Está ótimo, é claro — Ashur respondeu, sem dúvida com a atenção em outro lugar. — Devo dizer que estou satisfeito por finalmente termos a chance de conversar em particular.
— Está?
Ashur assentiu.
— Estou curioso para saber mais sobre Mítica. Dadas as suas recentes viagens, sabia que deveria falar com você.
Conversa fiada sobre geografia? Que coisa mais idiota.
— O que deseja saber?
— Quero que me fale sobre a Tétrade — ele respondeu sem hesitar.
A palavra foi recebida como um golpe. Magnus se esforçou para parecer impassível e não dar sinais de que seu coração começara a bater acelerado.
— Ora, esse é um assunto um pouco extenso para discutirmos. Mas, infelizmente, não vale a pena. Por que você estaria interessado em lendas e livros de história?
— Porque não acredito que seja apenas uma lenda. Acredito que a Tétrade existe. — Ashur o encarou como se Magnus fosse um livro que ele tentava ler.
Era isso que o rei temia — forasteiros indo atrás do seu tesouro.
Do tesouro de Magnus.
— É por isso que estão aqui? — Magnus perguntou. — Em busca de informações sobre a Tétrade?
— Sim — Ashur respondeu, direto.
Magnus forçou um sorriso.
— A maioria das pessoas… inteligentes acha que a história dos vigilantes e da busca eterna pela Tétrade é contada apenas para fazer as crianças se comportarem e temerem os falcões mágicos que observam e julgam todas as suas malcriações.
— Existe também a profecia de uma feiticeira renascida, cuja magia iluminará o caminho para essa fonte de poder supremo.
Então a profecia de Lucia era conhecida além da costa de Mítica. O estômago de Magnus ficou tenso só de pensar, mas ele ignorou essa sensação desagradável o melhor que pôde e manteve contato visual com o príncipe, sem recuar.
— Também já ouvi esses rumores. Na verdade, há um punhado de supostas bruxas no calabouço agora mesmo, enquanto conversamos. Talvez deseje perguntar a elas se são feiticeiras? — Ele forçou outro sorriso. — Não perca seu tempo com ideias tão tolas, príncipe Ashur. Existem muitas outras atrações para explorar antes de içar as velas para voltar para casa. Ficaria feliz em sugerir algumas que podem ser de seu interesse.
A veemência firme e resoluta nos olhos azul-acinzentados do príncipe enervava Magnus mais do que gostaria de admitir.
— Já ouviu falar do ser de fogo? — Ashur perguntou.
Magnus franziu a testa diante da mudança brusca de assunto.
— Não sei muito bem do que está falando.
Ashur passou a mão pela base do corrimão de mármore casualmente.
— Um jovem foi visto evocando a magia do fogo na floresta onde aconteceu a última batalha rebelde. Acredito que tenha havido um grande incêndio durante o ataque, não foi?
— Houve, sim. — Magnus não sentiu necessidade de mentir; essa informação podia ter vindo de várias fontes diferentes. — O fogo matou muita gente. Não sei como começou.
Ashur cruzou os braços diante do peito e se apoiou na parede.
— De acordo com todos os relatos, as chamas eram de origem sobrenatural… elementar, na verdade. O contato com esse fogo é capaz de transformar a carne de um homem em cristal e se estilhaçar com um único toque.
As entranhas de Magnus se retorceram ao se lembrar do estranho fogo que roçara seus tornozelos quando saíra da tenda, depois da fuga de Jonas Agallon. Ele vira seus efeitos. Fazia dias que tinha pesadelos com isso.
— Que estranho. — Magnus sacudiu a cabeça. — Mas parece que você andou ouvindo rumores de camponeses. O mesmo vale para esse… como você o chamou? Um ser de fogo?
Ashur voltou a atenção para a mesa de mogno do outro lado do vestíbulo, entalhada com um belo padrão de pétalas de flores. Sobre o móvel, havia um vaso com flores frescas, que naquele momento ele analisava com o interesse de um botânico.
— Essa pessoa matou um guarda, e seus companheiros disseram que, a princípio, acharam que o jovem fosse um escravo fugido. Mas logo notaram que o símbolo do fogo ardia em sua mão, e que seus olhos passaram de âmbar a azul, com uma luz estranha. Com um simples olhar, ele queimou a vítima até a morte com essa chama cristalizadora.
Magnus se deu conta de que tinha parado de respirar. Âmbar era a cor mais comumente associada ao cristal de fogo da Tétrade.
— O que está dizendo?
Ashur estendeu a palma das mãos.
— Na verdade, não sei ao certo. Queria ouvir suas impressões. Achei que pudesse saber de alguma coisa. — Ele analisou Magnus dos pés à cabeça, aparentemente nada impressionado. — Estou vendo que estava errado. É uma pena.
Magnus ficou furioso.
— Eu o aconselharia a não tratar rumores ou boatos como verdade. Em especial rumores e boatos repetidos por alguém tão pouco confiável quanto um guarda ou um criado.
— Não estou surpreso por ouvir isso de você, considerando outros rumores que escutei pelo palácio. — Ashur sorriu, uma reprodução exata da sinceridade, o que fez Magnus invejar suas habilidades de esbanjar charme enquanto proferia palavras tão desagradáveis. Igual ao seu pai.
— Outros rumores? — Magnus perguntou. — Como o quê?
— Nada que valha a pena mencionar.
Nesse mesmo instante, Amara desceu as escadas, interrompendo-os, por sorte.
— Vocês dois vão ficar aí embaixo o dia todo? Ou vão explorar a casa comigo?
— Explorar me parece uma excelente ideia — Magnus respondeu, oferecendo o braço a Amara quando ela chegou ao último degrau. Sentiu uma necessidade irresistível de encerrar a conversa com o príncipe. — Vamos dar uma olhada nos jardins. Ouvi dizer que se comparam aos do palácio em termos de beleza.
— Vamos, sim. Ashur?
O príncipe acenou.
— Podem ir. Encontro vocês daqui a pouco.
Com a criada acompanhando-os a uma distância discreta, Magnus e Amara saíram para os jardins — tão lindos quanto prometiam os rumores.
Era óbvio que não se tratava apenas de uma propriedade grandiosa construída para nobres. Era um lar repleto de amor — amor dedicado a cada centímetro, cada móvel, cada ladrilho colorido ou superfície de mármore. Os jardins particulares eram enormes, terminando em uma parede de pedra a duzentos passos da quinta. Todas as cores do arco-íris estavam representadas por rosas, violetas e hortênsias, além de macieiras, pereiras e oliveiras. Ali havia o perfume da vida — doce e vibrante.
No entanto, depois de um instante, a doçura se dissipou e foi substituída por um odor mais desagradável. Não chegava a ser ofensivo, mas era um tanto quanto… errado. Talvez fosse apenas a imaginação de Magnus.
Mas ele acreditava estar sentindo o odor acre de algo roubado. Como tudo o que o rei alegava ser seu.
— Ah, que lindo — Amara exclamou. — Só gostaria que fosse mais perto do palácio.
Por mais maravilhosa que a quinta fosse, o rei não a havia escolhido por sua beleza. Ele queria manter os kraeshianos a uma distância segura.
— Será providenciado um meio de transporte para vocês e seus guardas, de modo que poderão nos visitar sempre que desejarem. Você e seu irmão são bem-vindos a qualquer hora.
Amara era muito mais bem-vinda que Ashur, na opinião de Magnus. Apesar das suspeitas de seu pai sobre as motivações do príncipe, as perguntas de Ashur pegaram Magnus de surpresa. Elas o haviam levado de volta àquela batalha mortal contra os rebeldes e contra o próprio Jonas Agallon. Ele se lembrava do fogo estranho, e da bela vigilante que havia perecido em um lampejo de luz nas mãos de Xanthus, mas não antes de revelar a Magnus como ajudar Lucia: “Existe um anel que foi forjado com magia pura no Santuário para ajudar a feiticeira original a controlar a Tétrade e seus próprios elementia. Esse anel está mais próximo do que pode imaginar.”
Talvez ela estivesse apenas brincando, distraindo-o para dar a Jonas a chance de escapar.
E agora ouvia rumores a respeito de um ser de fogo vagando pelo campo…
— Vossa graça. — Amara tocou o braço dele. — Ainda está aqui?
Magnus tentou arrancar as teias de aranha da cabeça e se concentrar na garota à sua frente.
— Peço desculpas. Não quis ser indelicado. Estava apenas pensando em seu irmão. Ele está muito curioso a respeito das lendas locais.
Ela resmungou.
— Ashur está falando sobre a Tétrade de novo, não está? Ele tem esse passatempo há anos… aprender sobre magia. Sempre considerei uma enorme perda de tempo. — Ela levantou a sobrancelha. — A menos, é claro, que seja verdade.
— Espero que ele não fique muito decepcionado quando sua busca não der em nada além de pedras e terra.
— Como a maioria das buscas. — Ela riu, colocando a mão gentilmente sobre o braço dele enquanto caminhavam. — Acho que você é uma pessoa muito interessante. Entendo por que Cleo esteja tão encantada.
Ele parou de repente.
— Acha que ela está?
— É claro. Estar casada com um príncipe tão forte e bonito… — Amara olhou para ele pelo canto do olho, por entre os espessos cílios negros. — Não posso deixar de invejá-la.
Magnus não estava acostumado com a maneira como Amara flertava. Sabia que algumas garotas demonstravam interesse mantendo uma certa distância, rindo com as amigas ao passar pelos corredores do palácio. Havia encontrado outras que eram ousadas e destemidas na abordagem, esperando chamar sua atenção. Mas a maioria delas simplesmente lançava olhares temerosos para ele, supondo que fosse cruel e frio como o pai.
Não podia evitar ficar um tanto intrigado com o olhar malicioso de Amara. Ela fingia ser recatada, mas era o extremo oposto.
— Você ainda não está noiva? — ele perguntou enquanto continuavam a caminhada pelo jardim cercado de flores e plantas podadas. Um coelho marrom passou saltitando na frente deles, aparentemente despreocupado com sua presença.
— Não. Pedi para esperar até encontrar alguém de meu agrado. Ninguém na minha família esperou tanto quanto eu para se casar. Bem, ninguém exceto Ashur.
— Ele não está noivo?
— Já esteve. Três vezes. Todos os noivados terminaram pelo mesmo motivo: ele acabou decidindo que não estava interessado o suficiente em nenhuma das moças para passar o resto da vida com elas. — Amara balançou a cabeça, claramente entretida com as travessuras românticas do irmão. — Ele é o filho mais novo, então meu pai deixou que tivesse o tipo de liberdade que nunca permitiria aos mais velhos.
Como primogênito e herdeiro, Magnus nunca esperou ter tamanha liberdade, mesmo se fosse filho de outro pai. Era impossível imaginar como seria levar uma vida quase sem supervisão.
— Talvez seja melhor esperar a pessoa certa em vez de concordar com um casamento arranjado, se houver essa opção.
— Acredita mesmo nisso?
— Acredito apenas em dever e lealdade ao trono. — E o trono em breve seria dele.
Amara se virou para ele e, com audácia, levou a palma da mão ao seu peito. Magnus olhou para baixo, surpreso, mas não se afastou.
— Você acredita que duas pessoas possam sentir uma atração tão imediata no momento em que se conhecem, a ponto de ser impossível ignorar? Que possa existir algo intangível que as conecte, como se fossem almas gêmeas?
Muitas garotas gostavam de refletir sobre coisas tolas e irrelevantes como amor à primeira vista e coração ardendo de paixão. Sinceramente, Magnus não era capaz de pensar em nenhum assunto menos interessante, mesmo ao lado de uma garota tão bela quanto Amara.
— Acho que é possível — ele mentiu. — Mas eu não…
Antes que pudesse terminar, Amara puxou seu rosto e o beijou. Aconteceu tão rápido que, se ela tivesse uma faca, podia tê-lo matado bem ali, sem resistência. Seus lábios eram macios, mas insistentes, e ela cheirava a jasmim e flores de pêssego.
Finalmente, Amara se afastou dele, fixando os olhos no chão.
— Sinto muito. Não consegui me conter.
Ele se esforçou para responder.
— Não se desculpe.
— Odiaria que Cleo descobrisse. — Ela franziu um pouco a testa. — Esperava que pudéssemos nos tornar boas amigas. A última coisa que quero é provocar ciúmes.
Como se isso fosse possível.
— Não vamos mais tocar nesse assunto.
— Não, a menos que você queira tocar nesse assunto. — Ela fez uma pausa. — Devo admitir que apreciaria ter essa conversa.
Ela era surpreendente em tantos aspectos que o beijo ousado e inesperado era apenas o mais recente deles. Magnus não sabia ao certo o que pensar — será que era uma princesa em busca de diversão e escândalo, ou uma garota ambiciosa e cheia de estratégias? Independente do que fosse, parecia que um jogo tinha acabado de começar entre os dois, e ela havia feito o primeiro movimento.
Amara se virou para a criada.
— Vamos voltar para dentro e verificar se os baús estão sendo colocados nos quartos certos.
A criada fez uma reverência.
— Sim, princesa.
Magnus ficou observando as duas voltarem para a casa. Pouco antes de passarem pela porta, o príncipe Ashur saiu, atravessando o jardim com um olhar presunçoso.
— Minha irmã é uma coisa, não é? — ele comentou.
Aquilo era um eufemismo, mas Magnus estava acostumado a lidar com princesas complicadas.
— Ela me dá a impressão de ser uma garota que gosta de abrir o próprio caminho.
— De fato.
— Está na hora de voltar ao palácio. Espero que tenham tudo de que precisam aqui.
— Tudo, menos as respostas que procuro — Ashur disse. — Talvez você possa ser mais prestativo outro dia.
— Talvez. — Magnus se virou para sair, mas parou. — Quase me esqueci de uma coisa.
— O quê?
Ele levou a mão ao bolso interno do casaco, tirou um pacote muito bem embrulhado e desenrolou o tecido, revelando uma pequena adaga dourada.
Ashur piscou.
— A princesa Cleiona ficou muito grata pelo presente de casamento, essa adaga nupcial kraeshiana, mas pediu que eu devolvesse assim que pudesse. É um presente muito bonito, mas poderia facilmente machucar alguém por acidente. Não gostaríamos que isso acontecesse, não é?
Ashur pegou a faca e se atreveu a olhar nos olhos de Magnus.
— Não, não gostaríamos.
— Nos vemos em breve — Magnus disse, virando-se de vez. — Espero que continue a desfrutar de sua estadia no pequeno reino de meu pai.
Os kraeshianos não eram os únicos capazes de entrar no jogo.

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