29 de setembro de 2018

Capítulo 4

SENTAMOS NO CHÃO ATRÁS DO BALCÃO para que o forasteiro não fosse visto caso alguém entrasse. O sangue estava praticamente seco, e a camisa colava na pele. Tive que cortá-la usando a faca. Os ombros dele eram largos e musculosos. Subiam e desciam com sua respiração curta conforme eu descolava o tecido. Eu estava tão perto que dava para sentir o cheiro da fumaça do incêndio da noite anterior.
Peguei uma garrafa de bebida da prateleira. O forasteiro permaneceu completamente imóvel enquanto eu ensopava um canto limpo da camisa e passava nele. Tínhamos mais bebida do que água para gastar.
— Você não deveria estar me ajudando, sabia? — ele disse. — Não ouviu o digníssimo comandante Naguib? Sou perigoso.
Soltei uma risada.
— Ele também é. — Preferi responder isso ao forasteiro a mencionar que o Bandido de Olhos Azuis devia um favor a ele. — Além disso… — Levantei a mão rápido. — Eu estou com a faca. — O forasteiro congelou, sentindo a lâmina contra seu pescoço. Os pelos da sua nuca arrepiaram. E então ele riu.
— É verdade — ele disse, fazendo a pele do pescoço roçar perigosamente contra a lâmina. — Não vou machucar você.
— Sei que não. — Tentei fazer soar como um aviso enquanto voltava a trabalhar no ombro dele. Enfiei a ponta da faca na pele. Senti seu corpo enrijecer, mas ele não soltou um pio.
Enquanto tentava chegar até a bala, notei uma tatuagem nas costelas dele. Tracei o contorno da tatuagem com a ponta dos dedos. Seus músculos ficaram tensos sob meu toque, o que fez os pelos do meu braço se arrepiarem.
— É uma gaivota. — Quando ele falou, o movimento fez o pássaro de tinta se mover sob meus dedos. — Era o nome do primeiro navio onde servi. Gaivota negra. Parecia uma ideia boa na época.
— O que você estava fazendo num navio?
— Navegando. — Dava para sentir a inquietude se acumulando sob sua pele. Ele deixou escapar um longo suspiro que fez parecer que o pássaro estava voando. Tirei a mão e o senti relaxar.
— Acho que a bala não rompeu nenhum músculo — eu disse, movendo a faca. — Fique parado. — Apoiei os cotovelos na lateral de suas costas. Ele tinha um compasso tatuado no outro ombro, que subia e descia enquanto respirava fundo. A bala quicou no chão e o sangue começou a jorrar livremente. Fiz pressão sobre o ferimento com a camisa estragada. — Você precisa de pontos.
— Vou ficar bem.
— Talvez, mas vai ficar melhor com os pontos.
Ele riu, embora não parecesse fácil naquele momento.
— Então você teve treinamento médico?
— Não — respondi, pressionando o pano ensopado com bebida mais forte do que o necessário. Peguei um carretel de linha amarela e uma agulha da prateleira. — Mas ninguém cresce nessas bandas sem ver um monte de gente baleada.
— Achei que essa cidade não tivesse mais do que algumas dezenas de pessoas.
— Exatamente — eu disse. Embora não pudesse ver seu rosto, sabia que estava sorrindo. O forasteiro cravou as unhas no chão quando a agulha furou sua pele. Resolvi fazer uma pergunta que estava me perturbando. — Como você cometeu traição contra o sultão se nem é de Miraji?
— Eu nasci aqui — ele disse, depois de um instante. Ele sabia que não era isso que eu tinha perguntado. Que tipo de traição um mercenário poderia cometer? A pergunta estava na ponta da minha língua.
— Não parece — eu disse.
— Não aqui exatamente. Em Izman. — A menção à capital doía, considerando o quanto eu tinha chegado perto de fugir para lá na noite anterior. — Minha mãe era de um país chamado Xicha. Foi lá que vivi a maior parte da vida.
— E como é lá?
Ele ficou em silêncio, e eu não sabia se ia responder ou não.
— Imagino que você nunca tenha visto uma tempestade — ele começou. — Não deve conhecer o ar pesado que cola na pele e entra sob as roupas. — Olhei para os meus dedos sobre as costas dele; seus ombros levantavam e desciam conforme ele falava. — O ar em Xicha é assim o tempo todo. E tudo é verde e vivo, tanto quanto este país é seco e morto. O bambu cresce tão rápido que pode derrubar casas com suas raízes. Mesmo na cidade. Como se estivesse tentando recuperar o chão onde construímos, tomá-lo de volta. E é tão quente que as mulheres andam com leques de papel tão coloridos que deixam os espíritos com inveja. Costumávamos nos refrescar pulando no mar de roupa e tentando não ser atingidos por nenhum navio. Navios de todo o mundo. De Albis, com sereias entalhadas; de Sves, construídos para aguentar o frio; e navios locais, parecendo dragões esculpidos numa única árvore. Algumas árvores em Xicha são mais altas do que as torres em Izman.
— Imagino que você não vai me contar o que veio fazer aqui, já que Xicha é tão incrível.
— Imagino que não — ele disse, se contorcendo quando a agulha atravessou sua pele. — Imagino que não vai me contar por que mentiu para o nosso amigo comandante Naguib Al’Oman para me ajudar.
— Imagino que não. — Minha agulha parou em sua pele. — Naguib Al’Oman? — Era um nome comum, mas mesmo assim… — Ele é filho do sultão?
— Como você sabe disso? — Ele baixou um pouco a cabeça e a respiração ficou mais funda quando dei o último ponto.
— Todo mundo sabe a história do príncipe rebelde — falei. — E dos outros príncipes que competiram nos jogos do sultim.
Segundo a história, quando o sultão Oman tinha acabado de subir ao trono, uma de suas esposas mais bonitas deu a ele um filho, Ahmed. Um garoto forte e esperto. O harém do sultão crescia e mais esposas davam filhos a ele, mas Ahmed continuava sendo o favorito de seu pai. Três anos depois, a mesma esposa deu à luz uma filha, mas não era um bebê, era um monstro meio humano meio djinni, com escamas no lugar da pele e garras no lugar dos dedos, além de chifres saindo de sua cabeça roxa. Ao se dar conta de que sua esposa o traíra com um djinni imortal, o sultão a espancou até a morte. Na mesma noite, o monstro e Ahmed desapareceram.
Catorze anos depois, chegou a época dos jogos. Era assim que o sultim, o sucessor do trono, era escolhido desde os primórdios de Miraji. Segundo a tradição, os doze príncipes mais velhos deveriam competir pela coroa.
Isso tinha acontecido fazia pouco mais de um ano. Minha mãe ainda estava viva. Quando a notícia dos jogos chegou à Vila da Poeira, mesmo homens que diziam que jogos de azar eram pecado começaram a apostar em qual dos jovens príncipes venceria.
No dia da competição, os doze filhos apareceram e toda a cidade se reuniu para ver. Então um décimo terceiro homem se juntou à multidão. Ao tirar o capuz, ele se revelou uma cópia mais nova do sultão Oman; quando declarou ser o príncipe Ahmed, ninguém pôde negar. Apesar das suspeitas sobre seu súbito retorno, a tradição foi seguida. O príncipe Ahmed competiria, e o mais novo dos doze príncipes foi expulso da competição. Esse príncipe se chamava Naguib. Eu lembrava do nome porque, quando todos estavam apostando nos jogos do sultim, antes de o príncipe rebelde voltar, Naguib era apontado como o que tinha mais chances de morrer durante a competição. O irmão talvez salvara sua vida ao fazê-lo ser expulso.
Ahmed ganhou dos outros onze príncipes no teste de inteligência, um enorme labirinto cheio de armadilhas construído nos arredores do palácio, e no teste de sabedoria, um enigma apresentado pelo mais sábio dos conselheiros do sultão. Quando chegou o teste de força, Ahmed venceu todas as lutas até que sobraram apenas ele e o príncipe Kadir, o primogênito do sultão. Eles lutaram o dia todo, até que Kadir se rendeu. Mas Ahmed poupou a vida de seu irmão mais velho. Virou-se de costas para ele para falar com o pai e reivindicar o título de sultim. Então Kadir ergueu sua espada para dar um golpe que teria matado Ahmed. Mas, naquele momento, a meia-irmã dele, filha do djinni, se destacou da multidão, descartando seu disfarce de humana, e usou os poderes herdados do pai para desviar a lâmina de Kadir. Furioso com a intervenção, o sultão declarou Kadir sultim e ordenou a execução de Ahmed. Mas o jovem príncipe escapou com a irmã e iniciou uma rebelião para tomar o trono. Uma nova alvorada. Um novo deserto.
Dei um nó e cortei o excesso de linha com a faca.
O forasteiro se virou, e pela primeira vez vi seu peito descoberto. De repente senti como se precisasse olhar para qualquer outra coisa. O que era ridículo, já que estávamos no deserto e eu já tinha visto todos os homens que conhecia sem camisa. Mas aquele homem eu não conhecia. E normalmente eu não prestaria atenção nos músculos dos braços ou no modo como a barriga subia e descia, ou na tatuagem de sol que tinha sobre o coração.
Ele também me observava sob os últimos raios de sol do dia.
— Não sei seu nome — ele disse.
— Nem eu o seu. — Levantei a cabeça, tirando o cabelo do rosto com as costas da mão para não me sujar de sangue. Comecei a esfregá-las com um dos panos ainda ensopados com álcool.
— Jin.
Ele tinha me dado um nome falso na noite anterior. Talvez estivesse me dando outro agora, já que eu nunca tinha ouvido aquele nome antes.
— Tem certeza?
— Do meu nome? — Os cantos de sua boca se ergueram um pouco. Ele deu de ombros, o que me permitiu ver a pontinha de outra tatuagem surgindo acima do cinto. Quis saber do que era. O pensamento esquentou meu rosto. — Certeza absoluta.
Levantei o olhar para o rosto dele.
— Tem certeza de que não está mentindo para mim?
Seu sorriso aumentou.
— Mentir é pecado, sabia?
— Ouvi dizer.
O olhar de Jin percorreu meu rosto de um jeito que me deixou inquieta.
— Você sabe que eu estaria morto sem a sua ajuda.
Eu também estaria sem a sua.
Mas eu não disse isso a ele. Resisti à vontade de brincar que ele podia me chamar de Oman. Ou de Bandido de Olhos Azuis. Não disse nada que queria.
— Amani — falei. — Meu nome é Amani Al’Hiza.
Era muito difícil confiar num garoto com um sorriso daqueles. Um sorriso que me dava vontade de acompanhá-lo até os lugares sobre os quais havia me contado, mas ao mesmo tempo me deixava certa de que eu não devia fazer isso.
— Posso arranjar uma camisa limpa pra você — consegui falar. Estava difícil manter o foco em seus olhos quando tinha tantas outras partes expostas. — Espera aqui.
— O Exército vai voltar para me procurar. — Ele coçou a nuca, revelando um pouco mais da tatuagem na cintura. Parecia um animal, mas não o reconheci. — Eu devia ir embora.
— Verdade. — Desviei o olhar. Lembrei a mim mesma que não podia confiar nele. Não sabia quem era aquele forasteiro de nome estranho. Não importava que tivéssemos salvado a vida um do outro. Fazia só dois dias que eu o conhecia. Mesmo assim, eu gostava muito mais dele do que de qualquer homem que tinha conhecido naquela cidade. E minha vida estava em jogo. De um jeito ou de outro. — E devia me levar junto.
— Não. — A resposta de Jin veio tão rápida que deu para perceber que ele já estava esperando aquela pergunta, talvez antes mesmo de eu decidir fazê-la. Ele não me encarou quando disse: — Você salvou minha vida, então estou devolvendo o favor.
— Não pedi que fizesse isso. — Percebi que soava desesperada e tentei mudar o tom de voz. — Só quero que me tire daqui.
Seus olhos se fixaram nos meus, me deixando imóvel.
— Você nem sabe pra onde vou.
— Não faz diferença pra mim. — Percebi que estava me inclinando mais para perto, tão perto que já não havia espaço entre nós. — Só preciso de ajuda para chegar a qualquer lugar que não seja aqui. Algum lugar com um trem ou uma estrada. Então vou poder seguir meu caminho para Izman. Não tem nada pra mim aqui, assim como não tem nada aqui pra você.
— E quem disse que existe algo lá fora pra você?
Essas palavras doeram.
— Deve ter mais do que isso — eu disse, arrancando uma risada dele. Aproveitei essa abertura. — Por favor… — Eu estava tão perto quanto poderia ficar sem que nos tocássemos. — Você nunca quis algo com tanta força que se tornou mais do que um simples desejo? Preciso sair desta cidade. Preciso disso tanto quanto preciso de ar.
Ele soltou um suspiro forte. Vi sua determinação à beira do abismo. Não ousei dizer outra palavra, com medo de pressionar na direção errada.
Então os sinos começaram a tocar, e o momento se foi. Virei tão rápido que quase bati a cabeça no balcão.
— Não é um pouco cedo para as preces noturnas? — Jin perguntou. Eu estava pensando a mesma coisa.
— Não são os sinos das preces. — Meu coração parecia ter parado, mas eu ainda estava respirando. Prestei mais atenção para ter certeza.
— Será que o Exército…
— Não.
Não tocávamos os sinos para o Exército.
— Você deveria…
— Cala a boca. — Levantei a mão em um sinal para que ficasse quieto. Para que escutasse. Eu sabia o que aqueles sinos frenéticos significavam, embora já fizesse anos desde que ouvira aquele som. Alguns instantes mais tarde outros sinos se juntaram à sinfonia. O barulho vinha das varandas, das janelas abertas. Ferro batendo em ferro. Me provocou arrepios. — É uma caçada.
E então corri para a porta.

6 comentários:

  1. Eeeeeeeita, danou-se
    Será q é caçada dele?
    Ou de um djinni?

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  2. Celaena Sardothien 😎10 de outubro de 2018 13:08

    Que os jogos comecem hehehe

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  3. Obrigado pelo capítulo, Karina! =)
    Caçada ao que? por que?
    E esse climão todo aí? eu vi, hem. hehehe
    tu estava querendo ver a "tatuagem" dele. kkkkkk

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  4. Esse livro ta me lembrando muito jogos vorazes

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  5. To achando que ele é o filho do sultão em

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Boa leitura, E SEM SPOILER!