23 de setembro de 2018

Capitulo 4

MAGNUS
PAELSIA

Para aqueles que tinham escolhido o caminho da maldade na vida mortal, as terras sombrias deviam ser exatamente assim.
Escuridão infinita.
Asfixia lenta e tortuosa.
E dor. Muita dor.
Os ossos quebrados de Magnus o deixaram inútil, incapaz de lutar, de golpear a placa de madeira a centímetros de seu rosto.
Pareceu uma eternidade, mas não havia como saber quanto tempo ele estava lá. Aprisionado debaixo da terra, em um caixão de madeira pequeno e sufocante. Lutar só piorava as coisas. Sua garganta estava arranhada de tanto gritar na esperança de que alguém, qualquer um, encontrasse aquela cova recém-cavada.
Toda vez que pegava no sono, tinha certeza de que não acordaria mais.
Mas acordava.
Várias vezes.
Limerianos não eram enterrados em caixas de madeira como aquela. Como adoradores da deusa da terra e da água, seus corpos eram deixados em contato direto com a terra em túmulos gelados, ou lançados nas águas do Mar Prateado, de acordo com a decisão da família.
Paelsianos cremavam seus mortos.
Auranianos cultuavam a deusa do fogo e do ar, então era de se imaginar que seriam adeptos do ritual de cremação paelsiano. Mas auranianos ricos preferiam caixões esculpidos em mármore, enquanto os menos abastados optavam por caixões de madeira.
— Kurtis me enterrou como um camponês auraniano — Magnus murmurou.
Com certeza, aquilo era um último insulto do antigo grão-vassalo do rei.
Para desviar a mente do horror de ser enterrado vivo e estar extremamente indefeso, Magnus ficou imaginando como mataria lorde Kurtis Cirillo. Depois de muitas considerações, o príncipe achou que uma técnica de tortura kraeshiana de que havia ouvido falar, que esfolava lentamente o prisioneiro, parecia bastante satisfatória.
Ele também tinha ouvido falar de uma técnica que consistia em enterrar a vítima até o pescoço, cobrir sua cabeça com melado e deixar besouros famintos consumirem-na bem devagar. Seria ótimo.
Ou talvez Magnus arrancasse a outra mão de Kurtis. Pouco a pouco, com uma faca cega. Ou uma colher.
Isso, com uma colher.
Imaginar o som dos gritos de Kurtis ajudava Magnus a não pensar na própria situação. Mas aqueles momentos de distração raramente duravam muito.
Magnus pensou ter ouvido um eco distante de trovão. Os únicos outros sons eram seus próprios batimentos cardíacos — acelerados no início, mas muito mais lentos no momento. E sua respiração — ofegante e forçada no início, quando estava lutando, mas que se tornou silenciosa. Curta.
Eu vou morrer.
Kurtis finalmente teria sua vingança. E que bela morte havia escolhido para seu pior inimigo. Uma em que Magnus teria tempo de sobra para pensar na própria vida, em suas escolhas, seus erros, seus arrependimentos.
Lembranças de labirintos de gelo e esculturas feitas em neve à sombra do palácio limeriano. De uma irmã mais nova que ele tinha desejado de maneira insensata, que então o encarou com horror e aversão e fugiu com belos imortais e monstros de fogo. De uma bela princesa dourada que o desprezava com razão. Cujos olhos verde-azulados carregaram apenas ódio por tanto tempo que ele não se lembrava exatamente quando seu olhar tinha se suavizado.
Aquela princesa que não o afastara quando ele a beijara. Em vez disso, tinha retribuído o beijo com uma paixão quase igual à dele.
Talvez eu esteja apenas fantasiando tudo isso, ele pensou. Ajudei meu pai a destruir a vida dela. Ela deveria comemorar minha morte.
Ainda assim, ele se permitiu fantasiar a respeito de Cleo.
Sua luz. Sua esperança. Sua esposa. Seu amor.
Em uma fantasia, Magnus se casava de novo com ela, não nas ruínas de um templo e nem sob pressão, mas em um campo repleto de belas árvores floridas, com um gramado viçoso.
Belas árvores floridas e um gramado viçoso?, ele pensou. Que tipo de bobagem irrelevante está tomando conta da minha mente?
Ele preferia o gelo e a neve de Limeros.
Não preferia?
Magnus se permitiu lembrar dos raros sorrisos da princesa, de seu riso alegre e, a coisa mais divertida, do olhar cortante que Cleo lançava quando ele constantemente dizia algo para perturbá-la. Ele pensou no cabelo dela — sempre uma distração quando estava solto, com ondas longas e douradas sobre os ombros, descendo até a cintura. Magnus se lembrou de seu toque sedoso quando, durante a excursão de casamento, ele a beijou, o que aconteceu apenas a pedido da multidão que vibrava. Um beijo que ele desprezou apenas por ter gostado demais.
O beijo seguinte, na quinta de lady Sophia, em Limeros, o atingira como um raio. Aquilo o tinha assustado, embora ele nunca fosse admitir em voz alta. Foi naquele momento que Magnus descobrira que, se permitisse, aquela garota o destruiria.
E então, quando a encontrara naquele pequeno chalé no meio de uma tempestade de neve, depois de pensar que Cleo estava morta… Magnus tinha se dado conta do quanto ela significava para ele.
Aquele beijo não tinha sido tão rápido quanto os outros.
Aquele beijo tinha marcado o fim da vida que ele conhecia e o início de uma outra.
Quando ele descobrira que Cleo, assim como a mãe, tinha sido amaldiçoada por uma bruxa vingativa para morrer no parto, seus desejos egoístas foram interrompidos. Ele não colocaria a vida dela em risco por nenhum motivo. E, juntos, os dois encontrariam uma forma de quebrar a detestável maldição.
Mas lorde Kurtis tinha sido outra maldição lançada sobre eles.
Magnus se lembrou das ameaças feitas por Kurtis quando estava acorrentado, incapaz de acabar com o ex-grão-vassalo. Ameaças do que ele faria com Cleo quando Magnus não pudesse mais protegê-la. Atrocidades sombrias e apavorantes que Magnus não desejaria nem a seu pior inimigo.
O pânico cresceu dentro dele quando aqueles pensamentos o trouxeram de volta à dura realidade. Seu coração disparou, e Magnus se esforçou de novo para se libertar daquela prisão pequena e sufocante embaixo da terra.
— Estou aqui! — ele gritou. — Estou aqui embaixo!
Ele gritou repetidas vezes até parecer que tinha engolido dezenas de facas, mas nada aconteceu. Ninguém veio resgatá-lo.
Depois de amaldiçoar a deusa em que tinha deixado de acreditar havia muito tempo, ele começou a negociar com ela.
— Atrase minha morte, Valoria — ele resmungou. — Me deixe sair daqui, e me deixe matar Kurtis antes que ele machuque Cleo. Depois pode tirar minha vida como desejar.
Mas, assim como os pedidos de ajuda, suas preces não foram atendidas.
— Maldição! — Ele golpeou a parte superior do caixão com tanta força que uma farpa de madeira entrou em sua pele.
Ele soltou um rugido repleto de dor, frustração e medo.
Magnus nunca tinha se sentido tão impotente. Tão inútil. Tão incrivelmente…
Espere…
Ele franziu a testa enquanto tirava a farpa da pele com os dentes.
— Meu braço — ele sussurrou na escuridão. — O que tem de errado com ele?
Na verdade, não era o que havia de errado, mas o que havia de certo.
Seus dois braços tinham sido quebrados por ordens de Kurtis. Ele conseguia movimentá-los muito pouco sem sentir uma dor imediata e excruciante.
Ele fechou a mão direita, depois mexeu o punho e o braço.
Não sentiu dor.
Impossível.
Tentou movimentar o braço esquerdo de novo, e obteve o mesmo resultado. E a perna… o estalo que fez quando quebrou e a dor estonteante que veio em seguida ainda estava muito fresca em sua memória.
Ele movimentou os dedos do pé dentro da bota.
Nenhuma dor.
Uma gota de lama escorreu pelas fendas estreitas do caixão e caiu em seu olho. Ele estremeceu e limpou o rosto.
Trovejou acima dele. O som era constante desde que Magnus tinha sido enterrado. Se ele se concentrasse, poderia ouvir a chuva caindo sobre seu túmulo, encharcando a terra que cobria seu caixão.
Ele pressionou a palma das duas mãos contra o tampo de madeira sobre seu corpo.
— O que estou pensando? — ele refletiu. — Que meus ossos se curaram magicamente? Não tenho magia da terra como Lucia. Estou alucinando.
Será que estava?
Afinal, havia um modo de manter alguém vivo e bem por muito tempo depois do momento em que deveria ter morrido. Ele tinha acabado de aprender aquilo.
Magnus franziu a testa ao pensar naquilo.
— Impossível. Ele não teria dado aquilo para mim.
Ainda assim, Magnus começou a tatear o próprio corpo com os braços que passaram a funcionar e mãos que até então eram inúteis. Deslizou a palma das mãos nas laterais, sobre o peito, sentindo a pressão sufocante da madeira de ambos os lados.
Ele ficou paralisado ao sentir algo pequeno e duro no bolso da camisa, algo que não havia notado até aquele momento.
Com os dedos trêmulos, pegou o objeto.
Não podia ver na completa escuridão, mas podia sentir a forma conhecida.
Um anel. Mas não qualquer anel.
A pedra sanguínea.
Magnus colocou o anel no dedo médio da mão esquerda, arfando quando um calafrio se espalhou imediatamente por todo seu corpo.
— Pai, o que você fez? — ele sussurrou.
Outra gota de lama escorreu por seu rosto, incomodando-o mais.
Magnus pressionou as mãos contra as tábuas de madeira sobre seu corpo, úmidas por causa da chuva que tinha penetrado na terra. Seu coração disparou. Madeira úmida poderia ceder com mais facilidade do que seca, se ele tentasse com afinco.
Ninguém vai salvar você, ele imaginou a voz esganiçada de Kurtis zombando dele. Nenhuma magia vai mantê-lo vivo para sempre.
— É o que você pensa — Magnus resmungou.
Junto com o calafrio que sentiu vindo da magia da pedra sanguínea na ponta dos dedos, ele também se sentiu fortalecido.
Magnus cerrou o punho e deu um golpe para cima, apenas enchendo a mão com mais farpas da madeira úmida. Ele fez uma careta, fechou a mão de novo e deu mais um golpe.
Aquilo ia demorar.
Ele imaginou que a barreira sobre seu corpo era o rosto de Kurtis Cirillo.
— Besouros — Magnus disse entredentes enquanto socava a madeira mais uma vez. — Acho que vou matar você com besouros famintos devoradores de carne humana.

2 comentários:

  1. Eu já estava preocupada com ele S2
    Fabi

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  2. Aguarde Kurtis, Magnus Damora está chegando...

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Boa leitura, E SEM SPOILER!