16 de setembro de 2018

Capítulo 4

LUCIA
SANTUÁRIO

Conforme se aproximava aos poucos da cidade de cristal, que até então só tinha visto em sonhos, Lucia se lembrou de um conselho de sua mãe. Tinha sido dado antes de um banquete. Ela não tinha mais de dez anos e queria desesperadamente ficar em seu quarto lendo em vez de comparecer ao evento.
Lucia sempre evitara ao máximo reuniões sociais, certa de que ninguém gostava dela, de que todos achavam a filha do rei Gaius uma garota estranha e pouco interessante, com quem não desejavam perder seu tempo valioso.
“É quando estamos mais inseguros”, sua mãe havia lhe dito, “que devemos parecer mais confiantes. Demonstrar fraqueza é permitir que os outros se aproveitem disso. Agora, penteie o cabelo, levante a cabeça e finja que é a pessoa mais poderosa do salão.”
Lucia agora se dava conta, com um baque inesperado de solidariedade no coração, de que aquilo era exatamente o que a rainha Althea Damora tinha feito todos os dias de sua vida. Ela não percebera na época, mas era um conselho de fato excelente. Levantando a cabeça, endireitando os ombros e pensando que era mais poderosa e confiante do que qualquer um poderia imaginar, Lucia apertou o passo e atravessou a paisagem verde e viçosa do Santuário, na direção da cidade, onde encontraria Timotheus e pediria sua ajuda.
Se ele dissesse não e a mandasse embora, o mundo mortal certamente pereceria.
Quanto mais se aproximava, mais a cidade se tornava impressionante. Ela não sabia como os cidadãos do Santuário chamavam esse lugar, nem mesmo se tinha nome. Ela o chamava de cidade de cristal porque, de longe, no prado em que caminhava, a metrópole parecia se elevar da grama verde-esmeralda, reluzindo como um tesouro inesperado em contraste com o céu azul sem nuvens. Não era um tesouro como as pessoas consideravam ser o palácio auraniano, feito com filamentos de ouro. Em vez disso, a cidade era branca e cintilante, etérea de ponta a ponta, composta por pináculos e torres de várias alturas. A imagem diante dela parecia uma ilustração intricada tirada de um livro de histórias roubado. Ela se esforçou para manter a compostura, mesmo que quisesse ficar ali parada, boquiaberta com a vista.
Lucia se permitia pensar apenas em uma coisa naquele momento: encontrar Timotheus. O imortal a havia alertado sobre Kyan. Foi um alerta que ela tolamente ignorara. Kyan a havia convencido totalmente de suas próprias dificuldades — dificuldades que, naquele momento, Lucia havia comparado às suas próprias. Ela estava tão cega pela sede de vingança e pelo ódio quando finalmente encontrara Timotheus que nem mesmo a verdade mais gritante poderia ter atravessado a parede de aço que ela havia construído em volta de si, muito menos chegado ao seu coração ou à sua mente.
Não, ela não estava pronta para ouvir a verdade naquele momento.
Se ao menos pudesse ter mais certeza de que estava pronta para ouvi-la agora…
Ela chegou ao fim do prado e parou diante da passagem que levava à cidade de cristal. Por um instante, Lucia simplesmente ficou parada ali, de olhos fechados, respirando.
— Timotheus despreza você — ela sussurrou. Então, depois de respirar fundo mais uma vez, ela deu um passo em frente e entrou na cidade. — E, se for necessário, você vai se ajoelhar e implorar pela ajuda dele.
A ideia de implorar não lhe caía muito bem. Como filha do rei Gaius, Lucia nunca havia precisado implorar por nada nem uma única vez em seus dezessete anos de vida. Sentia um gosto amargo só de pensar em precisar fazer isso.
Mas ela engoliria o resto de orgulho que lhe restava e o faria. Não havia outra opção.
A própria passagem arqueada e brilhante que levava à cidade a fazia se sentir pequena e, ao atravessá-la, Lucia viu seus olhos arregalados refletidos sobre a superfície. O arco tinha símbolos gravados — rabiscos e linhas que ela não compreendia, mas lhe faziam sentir alguma coisa. Um calafrio e um tremor percorreram seu corpo da cabeça aos pés, paralisando-a por um instante. Depois ela se aproximou mais da superfície da passagem, pressionando a mão hesitantemente sobre uma das marcas.
Teve a mesma sensação mais uma vez — ela sentiu o poder do portal na ponta dos dedos. Lucia recolheu a mão, lembrando o monólito de cristal nas Montanhas Proibidas, com a diferença de que tinha sentido uma onda quente daquela vez. Ela sabia que podia ter absorvido aquela magia para ajudar Kyan a retirar Timotheus do Santuário, para sua ruína.
A magia que estava ali era o oposto — fria em vez de quente. Se deixasse a mão sobre a superfície da passagem, ela poderia ter roubado a magia do mesmo modo como Ioannes a ensinara a roubar a de Melenia?
O pensamento a fez estremecer, mas Lucia ignorou e seguiu em frente, passando sob o arco e entrando de vez na cidade de cristal.
À primeira vista, era difícil absorver a paisagem da cidade. Era tão brilhante que ela protegeu os olhos da luz com as mãos. De longe, a cidade parecia feita de diamantes. Ao se aproximar, Lucia viu uma cidade com construções brancas e estruturas que iam até o céu. Os caminhos eram cobertos por pequenas pedras iridescentes, e ela seguiu uma das trilhas para adentrar mais na cidade.
Ainda não tinha visto nenhum ser vivo naquele lugar, nem pássaro nem pessoa. Ela notou uma estranheza ali. Um silêncio que desafiava até as regras mais rígidas do funcionário mais severo da biblioteca do palácio limeriano.
O único som que conseguia ouvir eram as batidas do próprio coração.
— Onde está todo mundo? — Seu sussurro soou mais como um grito, quase a assustando.
Lucia apertou as mãos e se lembrou mais uma vez do conselho de sua mãe: fingir estar confiante.
Então continuou andando pelo lugar. Todas as construções pareciam quase idênticas, polidas e brilhantes, mas Lucia não conseguia distinguir o que era cada uma.
Ainda assim, a cidade parecia estranhamente familiar.
O labirinto de gelo, ela pensou. A cidade parecia uma versão maior do labirinto de gelo das terras do palácio limeriano, que um amigo de seu pai tinha lhe dado de presente em seu aniversário de dez anos.
E, dando-se conta com uma sensação ruim, Lucia já estava perdida nele.
— Quem é você, mortal? E como chegou aqui?
Lucia se assustou com a voz, como se um trovão a acordasse de um sono profundo. Em uma fração de segundos, ela virou e invocou sua magia sem pensar.
No mesmo instante, uma chama se acendeu em seu punho direito. Ela tentou não ficar consternada por escolher, inconscientemente, se defender com o elemento de Kyan.
O motivo de seus instintos de defesa estava diante dela: uma jovem assustada, vestindo uma longa túnica branca, a observava. Seu cabelo era vermelho como o fogo que ardia na mão de Lucia.
Uma imortal, bela e eternamente jovem.
Assim que a imortal viu o fogo, seus olhos se arregalaram em choque.
— Eu sei quem você é.
Dando um passo trêmulo para trás, Lucia extinguiu as chamas.
— Sabe? Então quem eu sou?
Quando o fogo deu lugar à fumaça, a garota pareceu se recompor, piscando rapidamente.
— A feiticeira renascida.
— Talvez eu seja apenas uma bruxa.
— Uma bruxa mortal nunca conseguiria entrar na cidade sagrada. Nenhum mortal jamais entrou nesta cidade.
A última coisa que ela queria era assustar alguém, especialmente a imortal que poderia ajudá-la a encontrar Timotheus naquela cidade labiríntica. Nas últimas semanas, violência e intimidação — sem contar sua recém-adquirida habilidade mágica de extrair a verdade dos mortais — tinham sido as ferramentas cruciais para sobreviver, e parecia que ela ainda estava muito longe de acabar com aquele hábito.
— Então não há motivos para negar quem eu sou — Lucia respondeu devagar e cuidadosamente.
Um sorriso se abriu no rosto da imortal, espantando o medo dela.
— Melenia disse que você andaria entre nós de novo.
O nome deixou Lucia tensa.
— Disse?
A imortal assentiu.
— Ela prometeu que vamos poder sair daqui em breve e ser livres para ir e vir como desejarmos, finalmente, depois de todos esses séculos.
Melenia parecia ter feito muitas promessas para muitas pessoas.
Antes de Lucia matá-la.
Ela respirou fundo, tentando esquecer as lembranças da imortal má para se concentrar por completo no momento presente.
— Qual é o seu nome? — ela perguntou.
— Mia.
Embora a garota parecesse doce e amigável até então, Lucia não se permitiria esquecer que Mia era uma imortal que não envelhecia, uma Vigilante que não nascera de uma relação humana, mas criada a partir da magia elementar.
— Meu nome é Lucia. — Ela endireitou os ombros, levantou a cabeça e tentou se sentir poderosa. — Estou aqui porque preciso falar com Timotheus. Sabe onde ele está?
— Sei, claro. — Mia assentiu, mas a menção àquele nome ofuscou seu olhar e uma expressão de desgosto apareceu em seu belo rosto. — Estou indo agora para a praça da cidade, onde ele convocou uma reunião. Timotheus concordou em sair de sua vida de solidão e nos dar alguns instantes de seu tempo para responder nossas perguntas — ela comentou com um desdém que Lucia não teria deixado de notar nem se fosse surda.
A confirmação de que ele estava ali, de que o imortal não havia desaparecido de repente justo quando ela mais precisava dele, fez Lucia suspirar aliviada.
— Quero estar lá para ouvir o que ele vai dizer — Lucia disse. Talvez ele fosse alertar os outros a respeito dela, se já não o tivesse feito, assim como a ameaça do deus do fogo.
Ela sabia que os imortais tinham visões sobre o futuro e podiam receber profecias, um dom — ou maldição, Timotheus pensava — que ela havia herdado de Eva, a feiticeira original. Timotheus podia até entrar nos sonhos de Lucia, como Ioannes fazia, e nesses sonhos podia ler a mente dela. Era possível que o imortal soubesse de tudo o que ela já tinha feito, que tivesse seguido todos os passos que ela já havia dado.
O pensamento a fez se retrair de vergonha e constrangimento.
— Não quero que Timotheus me veja ainda — ela disse a Mia. — E não quero alarmar nenhum de seus amigos com minha presença repentina em seu mundo. Pode me ajudar?
Mia concordou.
— Claro que sim. No entanto, para que não seja notada, vou ter que lhe emprestar minha túnica.
Lucia olhou para si mesma. O manto vermelho-escuro com que viajava estava rasgado e chamuscado graças a sua batalha com Kyan, e a fazia se destacar naquela cidade luminosa, como uma mancha de sangue sobre a neve.
— Sim, isso ajudaria.
Mia tirou dos ombros a linda túnica branca, feita de um tecido brilhante elaborado com primor. Embaixo, usava um vestido prateado igualmente delicado, com pequenos cristais bordados, que revelavam seus braços e envolviam seu corpo.
Lucia olhou para ela surpresa.
— Você se veste de maneira muito mais requintada do que qualquer pessoa que eu já tenha visto em banquetes luxuosos.
— É mesmo? — Mia sorriu, e seus olhos brilharam de prazer. — Já testemunhei reuniões de mortais na forma de falcão, mas nunca cheguei perto o suficiente para de fato vivenciar esses grandes eventos.
— Talvez eu leve você a um desses eventos algum dia, em agradecimento pela ajuda de hoje — Lucia disse, vestindo rapidamente a túnica sobre a roupa.
— Seria maravilhoso. — Mia hesitou, como se não soubesse ao certo o que fazer em seguida, depois deu o braço para Lucia. — Venha comigo.
Se soubesse pelo que era responsável, Lucia duvidava que Mia seria tão receptiva. Em todos os lugares onde estivera com Kyan, Lucia havia deixado um rastro de morte e destruição. Ela tinha fugido de sua família, odiando-os por esconder verdades importantes durante toda sua vida — sobre a profecia e sua magia, e sobre o fato de ter sido roubada de sua família biológica. Ela não tinha amigos nem aliados, não tinha posses além das roupas que vestia — roupas mais apropriadas a uma camponesa do que a uma princesa.
Não, não era totalmente verdade. Ela tinha outra posse muito importante: seu anel. Lucia olhou para o dedo indicador, no qual usava um anel de filigrana com uma grande pedra roxa.
Se não fosse pelo anel, estaria morta.
Mais um motivo para estar ali e ter a oportunidade de conversar com Timotheus pessoalmente.
Mia a conduziu para o interior da cidade. Ela a seguiu, vestindo o capuz da túnica branca sobre o longo cabelo escuro. As duas caminharam sozinhas por um bom tempo até que, finalmente, Lucia começou a ver outras pessoas.
Muitas usavam túnicas como a que Mia havia lhe dado, e todas iam na mesma direção. Disfarçada como um deles, ninguém prestou atenção nela. Lucia pôde continuar a observar os imortais e sua cidade radiante sem interrupção.
Todos os seres ali eram belos, um mais do que o outro. Nem mesmo o mais atraente dos mortais podia competir com essas criaturas. A pele deles, de todos os tons, do mais pálido alabastro até o mais intenso ébano, irradiava uma luz que parecia brilhar de dentro para fora. Os olhos eram como joias brilhantes de todas as cores, e os cabelos pareciam finos fios dos metais mais preciosos.
Como deve ser estranho viver em um mundo em que todas as pessoas e todas as coisas são perfeitas, ela pensou.
Ioannes era belo assim — ela tinha visto em seus sonhos. Quando ele se exilou e se tornou mortal, aquele brilho desapareceu. Ele se tornou mais tridimensional, com ângulos mais tortos. Tornou-se mais real. Ela agora percebia que tinha gostado daquilo — da transformação do Ioannes imortal para o Ioannes real — mais do que tinha se dado conta na época. Estar apaixonada por alguém tão perfeito teria se tornado cansativo depois de um tempo.
Lucia rangeu os dentes quando levas de lembranças espontâneas emergiam. Uma onda de luto e raiva tomou conta dela enquanto era confrontada pelas mesmas lembranças que havia tentando esquecer nas últimas semanas.
Ioannes, por fim, tinha sacrificado a própria vida para salvar a dela.
Mas do momento em que o conheceu, do primeiro sonho para o qual a atraiu, ele a estava enganando e usando por ordens mágicas de Melenia, tentando descobrir seus segredos e a manipulando para despertar a Tétrade.
Não, ela pensou, e com aquela única palavra firme, forçou as lembranças a desaparecer. Lucia jurou que não pensaria nele. Nem agora, nem nunca mais. Não se pudesse evitar.
Elas chegaram a uma grande clareira no centro da cidade. O chão era pavimentado com ladrilhos refletores. Lucia se lembrou do espelho em seus aposentos no palácio, no qual se olhava enquanto as criadas a arrumavam até sua beleza ser do agrado de sua mãe. Sem tirar o capuz, ficou observando enquanto duzentos imortais convergiam para a clareira.
— Este lugar é como a praça pública de onde venho — ela disse em voz baixa.
— Nos encontramos aqui para as reuniões, e Melenia costumava falar da torre regularmente, para animar nossos dias. Até que ela desapareceu…
Lucia mordeu a língua. Nem mesmo o tom confuso e temeroso de Mia a faria se arrepender de ter acabado com a vida da imortal anciã.
Ela olhou para o cilindro de cristal liso no centro da clareira. A estrutura era tão alta que não era possível enxergar o topo.
— O que é isso?
— Os anciãos moram nessa torre. Timotheus não sai desde que Ioannes se exilou para o mundo mortal. Muitos acreditam que ele esteja de luto.
Dessa vez, os dentes de Lucia se cravaram tão fundo na língua que quase tiraram sangue.
— Quantos anciãos vivem aqui? — ela perguntou. Lucia percebeu que aprender sobre esse novo lugar a estava ajudando a acalmar a mente e a impedindo de pensar no passado.
— Originalmente, eram seis.
— E agora?
— É uma das perguntas que temos para Timotheus. — A expressão de Mia ficou severa. — E é bom que hoje ele tenha respostas.
— Ou o quê? O que acontece se Timotheus não aparecer com as respostas certas? E se essa multidão não ficar satisfeita?
Mia observou os outros que cercavam a base da torre de cristal, ocupando apenas uma fração do espaço disponível na praça.
— Muitos acham que o tempo dos anciãos já chegou ao fim. Por ordens deles, procuramos a Tétrade, e para muitos isso não passou de uma missão inútil, com a intenção apenas de nos distrair da verdade.
— Que verdade?
Mia balançou a cabeça, parecendo tensa.
— O fato de você estar aqui me dá esperança de estarem errados.
Lucia estava prestes a fazer mais perguntas, tentando descobrir o que Mia ocultava, mas, antes que pudesse dizer qualquer outra coisa, ouviu-se uma agitação entre as pessoas e gritos zangados.
Ela levantou os olhos, com a cabeça ainda coberta pelo capuz. Quase perdeu o fôlego quando a superfície lisa da torre de cristal piscou e se encheu de luz. Então a imagem clara de Timotheus apareceu sobre a superfície clara, com o rosto tão grande quanto a altura de três homens.
Ela ficou boquiaberta ao ver a inesperada projeção mágica.
A imagem de Timotheus levantou as mãos, com o rosto sério, quando a multidão de Vigilantes, incluindo Mia, começou a entoar algumas palavras que Lucia não conseguia entender, em uma língua que nunca tinha ouvido antes. O som fez os arrepios que sentiu nos portões retornarem, e ela envolveu o corpo com os braços, tentando não tremer.
Timotheus esperou até o cântico terminar e o grupo se calar.
— Vocês pediram para me ver — ele disse, em voz alta e confiante. — Aqui estou. Sei que têm perguntas e preocupações. Espero acalmar a mente de vocês.
A multidão tinha ficado em silêncio após o cântico; a cidade parecia tão parada e vazia quanto quando ela chegou.
— Vocês querem saber mais sobre o paradeiro de anciãos e imortais desaparecidos. Querem saber por que inutilizei o portal para o mundo mortal, de modo que vocês não podem mais sair daqui, mesmo na forma de falcão. Querem saber por que não saí desta torre nos últimos dias.
Lucia observou o rosto de Mia e dos outros imortais, os olhares petrificados sobre a imagem gigantesca e brilhante de Timotheus, como se fosse um deus onipotente que os havia transformado em estátuas de mármore mudas e imóveis.
Ela nunca tinha pensado em perguntar a Ioannes qual era a diferença entre a magia de um ancião e a de outros imortais. Mas agora via que anciãos como Timotheus exerciam domínio total sobre os outros. A multidão estava hipnotizada por ele — todos completamente parados enquanto ele falava.
Ainda assim, ele não tinha controle sobre a resistência que brilhava naqueles olhos.
A imagem de Timotheus não tremeluzia como uma vela; ela se mantinha sólida e clara. E Lucia lembrou de novo que ele se parecia tanto com Ioannes que os dois, se fossem mortais, poderiam ser confundidos como irmãos de sangue.
— Danaus e Stephanos. Melenia. Phaedra, Ioannes e Olivia. Todos subtraídos de nossos já diminutos números. Vocês temem que eu tenha planejado todos esses desaparecimentos recentes, mas estão errados. Vocês acreditam que deveríamos estar procurando nossos desaparecidos no mundo mortal, mas eu não os deixo sair. O que estou fazendo — Timotheus continuou —, o que eu fiz… se deve a um grande perigo que surgiu no mundo mortal, um perigo que afeta tudo o que nos esforçamos tanto para proteger. Considerando que restam tão poucos de nós, fiz apenas o necessário para proteger vocês. E só peço que confiem em mim por mais um tempo, antes que tudo seja revelado.
Suas palavras não ajudaram a suavizar o olhar ardente no rosto dos imortais. Lucia não ficou surpresa. Ela tinha escutado centenas de discursos de seu pai no decorrer dos anos. Ele era um verdadeiro mestre na arte da oratória, mesmo quando estava diante de uma multidão que o desprezava. O rei Gaius sabia quando mentir, quando dar falsas esperanças e quando fazer promessas de ouro que, frequentemente, não significavam nada.
Ainda assim, esses discursos, realizados em momentos-chave, eram mais do que suficientes para evitar motins. Mais do que suficientes para manter os limerianos sob controle e o número de rebeldes baixo. As pessoas se apegavam à possibilidade de esperança.
Timotheus não falava de esperança. Ele dizia a verdade, mas sem dar detalhes, fazendo-o soar mais como um mentiroso tentando ocultar suas transgressões do que o Rei Sanguinário soaria.
E, ao que parecia, ele ainda não tinha terminado.
— Todos vocês viram com os próprios olhos que nosso mundo está morrendo. Cada dia mais, as folhas estão ficando marrons e secas. Apesar das profecias sobre a magia de Eva retornar para nós, vocês começaram a acreditar nisso como um sinal do fim. Mas vocês estão errados. A feiticeira renasceu. E, neste exato momento, ela está entre vocês.
Lucia ficou boquiaberta quando os grandes olhos projetados de Timotheus pareceram encará-la diretamente.
E os imortais que não tinham se movido nem falado desde o início do discurso de Timotheus começaram a arregalar os olhos, em choque.
Uma onda de pânico tomou conta de Lucia, e de repente foi como se não existisse uma quantidade de vestimentas brancas suficiente capaz de impedi-la de se sentir completamente nua.
— Antes do fardo das visões ser carregado por mim — Timotheus disse para a multidão —, era Eva que carregava esse peso e previu que uma menina nascida no mundo mortal se tornaria tão poderosa quanto uma feiticeira imortal. Agora posso confirmar que Lucia Eva Damora é a feiticeira que esperamos por um milênio. Lucia, revele-se.
O silêncio continuou a reinar na praça espelhada, uma inquietação assombrosa que parecia consumir Lucia, pressionando-a por todos os lados.
Um fio frio de suor escorria por suas costas.
Com o coração acelerado, ela mais uma vez apegou-se fortemente ao conselho de sua mãe — um conselho que lhe causara ressentimentos por muitos anos.
Finja estar confiante mesmo quando não estiver.
Finja ser corajosa mesmo quando estiver com tanto medo a ponto de só querer fugir.
Seja convincente nessa atuação, e ninguém notará a diferença.
Com esse pensamento, Lucia levantou a cabeça e abaixou o capuz da túnica emprestada. Todos os olhos pararam sobre ela no mesmo instante, seguidos de um espanto coletivo quando os imortais foram libertados da magia que Timotheus tinha usado para deixá-los tão imóveis e silenciosos.
Então, um por um, os rostos belos e reluzentes encheram-se de admiração. Cada imortal, incluindo Mia, surpreenderam Lucia ao caírem de joelhos diante dela.

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