1 de setembro de 2018

Capítulo 4

CLEO
AURANOS

Cleo era vista com desconfiança pelas pessoas que já viviam antes no palácio, durante os bons tempos, e não tinham dado ao rei Gaius motivos para expulsá-los ou matar suas famílias. Eles se lembravam de como eram as coisas quando o rei Corvin ocupava o trono, um rei bondoso que nunca governaria com um pulso de ferro apertando a garganta de seus súditos.
Cleo enxergava a confusão nos olhos deles, que se perguntavam como ela era capaz de suportar viver no palácio de seu pai, com um sorriso no rosto, apenas alguns meses depois de sua morte. Como ela — uma garota desregrada, conhecida por amar festas, amigos e vinho — podia ter sido forçada a se casar com o filho do inimigo sem tentar encontrar, constante e desesperadamente, uma forma de escapar.
Mas essas pessoas não conheciam Cleo de verdade. E não tinham ideia de até onde ela iria para recuperar o que lhe havia sido roubado.
Alguns procuravam vingança contra seus inimigos mortais pela ponta de uma espada. Seu plano de vingança começava com a ponta de um sorriso.
E, se fosse cuidadosa, ninguém, nem mesmo o homem que tinha transformado tudo e todos que ela amava em poeira, a veria como uma ameaça.
Cleo tinha começado a acreditar que o belo rebelde que a havia sequestrado — e beijado — seria capaz de ajudá-la. Não via Jonas fazia mais de dois meses, mas pensava nele com frequência e se preocupava com seu destino. Não fazia ideia se ele estava vivo ou morto.
Mas sabia que não podia contar só com ele.
Cleo saiu do palácio e viu Lucia no jardim. Procurou manter a calma e ignorar o coração acelerado enquanto se preparava para abordar a outra princesa, que cortava rosas vermelhas dos caules e guardava os botões em uma cesta.
Que passatempo comum para uma feiticeira secreta.
— Bom dia — Cleo disse ao chegar perto dela.
Os ombros de Lucia ficaram tensos, mas ela continuou colhendo as flores.
— Bom dia.
Não havia alegria na saudação, o que fez um sopro de preocupação percorrer o corpo de Cleo. Tinham se despedido como amigas apenas alguns dias antes, mas, depois do retorno de Magnus e do banquete opulento da vitória, Cleo não havia tido oportunidade de falar com ela a sós para solidificar o laço entre as duas.
Não tinha problema. Cleo havia decidido. Elas seriam melhores amigas.
Cleo lançou mão de seu talento natural para ser sociável e charmosa — habilidade que não utilizava havia algum tempo.
— Você tem alguma coisa para me dizer? — O tom de voz de Lucia era preocupantemente desconfiado.
Não seria fácil.
Mas Cleo manteve a compostura.
— Apenas espero não ter dito nada para ofendê-la. Tive a impressão de que havíamos ficado mais próximas depois… do que aconteceu aquele dia.
A expressão de Lucia se tornou sombria.
— Não quero falar sobre aquilo.
— Entendo como deve ser difícil para você. — Dominar os elementia com tanto poder que é capaz de matar um ser vivo, Cleo pensou. — Mas estou aqui para o que precisar. Sei que posso ajudar.
Os olhos de Lucia brilharam em um tom azul glacial sob suas sobrancelhas erguidas.
— Acredita realmente que você pode me ajudar?
Ah, não. Um curto período de separação bastou para Lucia levantar suas muralhas contra qualquer um que pudesse ser considerado suspeito. Cleo teria que se esforçar muito para derrubá-las, pedra por pedra.
— Eu sei o que vi — Cleo disse com cuidado. — E a ajudei. Só minha presença foi suficiente para ajudá-la a conter sua magia.
Lucia não a olhou nos olhos.
— Não sei do que está falando. Você me viu com uma coelha morta, só isso. Não significa nada.
Uma coelha morta, congelada no meio de um quarto quente através do poder mortal da magia da água. Aquilo com certeza significava alguma coisa para Cleo. Na verdade, significava tudo para ela.
A busca pela magia e pelo poder que a acompanhava havia se tornado o grande propósito de sua vida.
— Eu disse que não contaria a ninguém e não contei. Somos irmãs agora, Lucia.
— Irmãs. — Finalmente Lucia virou e encarou Cleo, os olhos faiscando. — Por quê? Só porque se casou com Magnus? Vocês mal conseguem olhar um para o outro. Você o odeia, e ele odeia você, não importa o que tentam fazer todo mundo acreditar.
O ódio subiu pela garganta de Cleo ao ouvir essas palavras ácidas, mesmo que fossem verdadeiras. Ela queria revidar com seu próprio veneno, repetir os rumores que havia escutado sobre os sentimentos incestuosos entre Lucia e Magnus.
Mas ela engoliu tudo e esboçou uma expressão de profunda preocupação.
— Sua magia a está perturbando de novo hoje?
Uma ponta de desespero passou pelos olhos de Lucia.
— Eu sinto… — A voz de Lucia falhou, e ela virou para a roseira. — Odeio isso. Odeio estar aqui. Odeio essas flores e essas árvores e só quero voltar para casa, para Limeros.
Mas ela não teria utilidade nenhuma para Cleo em Limeros.
— Porque sente que tinha mais controle lá? — ela perguntou.
— Não exatamente. Mas… é minha casa. — Lucia soltou uma risada nervosa que mais parecia um soluço. Mas a leveza desapareceu com a mesma rapidez com que chegara, e ela voltou a encarar Cleo com severidade e a testa franzida. — O que você quer de mim?
— Quero ser sua amiga.
— Por quê?
Porque preciso da sua magia para destruir seu pai, ela pensou.
— Porque vejo em você alguém que entende meu mundo — ela disse. — Você é filha de um rei. Como eu, lidou com responsabilidades e expectativas jogadas nas suas costas a vida toda. Pouquíssimas pessoas entendem como é isso. Você entende. E aquele dia eu me dei conta de que você precisa de mim tanto quanto eu preciso de você.
— Você precisa esquecer o que viu — Lucia sussurrou. — É perigoso demais.
Um arrepio percorreu o corpo de Cleo. Aquilo soava muito mais como um alerta aflito do que como uma ameaça.
— Perigoso para você? Ou para mim?
— Para nós duas. — Atrás de Cleo, algo chamou a atenção de Lucia, que pareceu incomodada.
Cleo virou e viu a princesa Amara se aproximando pela sinuosa passagem de pedra enquanto dois guardas kraeshianos, vestindo uniformes verde-escuros, aguardavam perto da entrada do palácio.
Cleo não podia estar mais irritada. Essa visitante indesejada estava interrompendo seu precioso momento privado com Lucia. Ela conhecera Amara rapidamente no banquete, mas não tivera uma boa impressão. Ela fora ávida demais, íntima demais nos cumprimentos, fazendo Cleo recuar por instinto. Seu irmão, Ashur, havia causado uma primeira impressão similar em Cleo.
Seriam eles amigos ou inimigos?
— Procurei vocês duas por toda a parte — Amara disse, radiante. — Se não soubesse das coisas, diria que estão me evitando.
— Claro que não — Lucia respondeu. A leve incerteza em seu tom foi substituída por uma assertividade firme. — É um prazer vê-la de novo. Onde está seu irmão?
— Saiu para explorar as redondezas da quinta que o rei Gaius está preparando para nós. — Amara suspirou e olhou para as flores. — Ashur ama explorar o campo. Sozinho, porém. Ele recusa a companhia dos guardas.
— Parece perigoso — Cleo disse.
— Parece, não é? Meu irmão é assim. Está sempre em busca de aventura a qualquer custo. Cleo, mal tivemos oportunidade de conversar ontem à noite, antes de você desaparecer. Não estava se sentindo bem?
— Não. — Cleo mentiu, feliz em aderir àquela desculpa pronta. — Meu estômago não aceitava nem mais um pedaço de comida.
Amara ergueu as sobrancelhas.
— Está esperando um bebê?
Cleo abriu a boca para negar a possibilidade de imediato. Já que, para sua alegria, era totalmente impossível estar grávida. Ela e Magnus não tinham feito… Bem, não tinham feito. E nunca fariam. Ela estremeceu de repulsa só de lembrar a proximidade a que esteve dele na varanda, na noite anterior.
Ódio, como Lucia dissera antes, era uma palavra fraca demais para descrever seus sentimentos em relação ao príncipe. Sempre que achava que poderia encontrar algo mais nele, algo doloroso e vulnerável que lhe atraía a atenção, tinha que parar e se lembrar das coisas indescritíveis que ele havia feito, motivo pelo qual o odiaria para sempre.
— Se eu estiver esperando um filho — Cleo disse enquanto passava a mão sobre as pregas do vestido azul-claro que escondia sua barriga lisa —, será uma surpresa muito agradável.
O olhar de Amara se tornou mais intenso, como se estivesse analisando cada centímetro de Cleo com muito mais minúcia do que na noite anterior.
— A visita de vocês está sendo maravilhosa — Cleo disse, mudando de assunto. — Meu pai tinha feito um convite à sua família anos atrás.
— Auranos é um reino muito bonito, mas meu pai sempre acreditou que tamanha beleza não tivesse valor real. Eu, no entanto, discordo completamente.
Cleo trocou um olhar com Lucia, que parecia um pouco chocada com a sinceridade de Amara. Cleo manteve a boca fechada, levantando o canto dos lábios e esperando transmitir uma expressão de satisfação.
— Você deve achar a vida aqui tão diferente de Limeros, Lucia — Amara disse, estendendo o braço para tocar uma rosa, evitando os espinhos com cuidado.
— Não podia ser mais diferente — Lucia concordou.
— Todo aquele gelo e aquela neve, os penhascos escarpados. Aqui é muito mais agradável, não é? Se eu passasse mais de um dia na congelante Limeros, acho que me jogaria no mar para me afogar e me livrar de condições tão inconcebíveis. — Ela riu, depois se deu conta de que Cleo e Lucia olhavam para ela boquiabertas, em choque. — Peço desculpas. Os kraeshianos têm fama de falar o que lhes vem à cabeça. Não me odeiem por ser indelicada.
— É claro que não. — Lucia sorriu. — Não é preciso se desculpar. Essa franqueza é… revigorante. Não é, Cleo?
— Ah, sim — Cleo concordou. — É muito revigorante.
Amara observou Cleo com atenção.
— Devo dizer que estou surpresa de ver como você se ajustou à nova vida. Esperava que estivesse confinada em seus aposentos, com permissão para sair apenas para se alimentar. O fato de os Damora parecerem confiar em você, a filha do antigo inimigo, me fascina.
Amara podia usar a palavra indelicada. Outros diriam grosseira. Cleo se esforçou para encontrar uma resposta apropriada.
— Meu pai foi derrotado porque não se curvaria nem se renderia ao rei Gaius. Tais conflitos são comuns no mundo todo, em vários reinos. Só tenho a agradecer pelo rei Gaius não ter me punido pelas escolhas de meu pai e ter me dado um lar aqui, junto com sua família.
As palavras tinham um gosto repugnante.
— E você aceitou tudo isso? Aceitou sua nova família?
Família. A palavra causou um arrepio em sua alma.
— Da melhor maneira possível.
— Cleo é um acréscimo bem-vindo. Ela agora é como uma irmã para mim — Lucia afirmou.
Enquanto a garganta de Cleo queimava por ter de dizer tantas mentiras, seu coração ficou mais leve quando ouviu Lucia chamá-la de irmã. O fato de a garota estar disposta a sair em sua defesa depois de tê-la ignorado minutos antes provava que a falta de tato da princesa Amara tinha o poder de transformar inimigas em amigas.
— Que sentimento adorável, Lucia — Amara disse, olhando para a mão de Cleo. — E que anel lindo, Cleo. Onde o conseguiu?
Cleo resistiu ao ímpeto de encobrir a ametista.
— Obrigada. Pertenceu à minha mãe.
— É muito bonito. — A voz com sotaque de Amara estava calma. — Quase mágico de tão bonito. Você tem muita sorte de tê-lo.
O estômago de Cleo começou a se revirar.
Ela estava usando o anel todos os dias agora, escondido à vista de todos, onde não podia ser perdido. Não parecia mais especial do que o colar de turquesa ou o bracelete de ouro, mas, ainda assim, Amara tinha prestado atenção especificamente nele, chamando-o de mágico.
O príncipe Ashur já havia questionado Cleo sobre a lenda da Tétrade antes. E agora Amara estava ali, dizendo que seu reino tinha mais valor do que o pai dela acreditara…
— Se nos der licença, princesa Amara — Lucia disse, tomando o braço de Cleo. — Receio que estejamos atrasadas para nossa próxima aula. A tutora ficará muito irritada conosco.
— Vocês fazem aulas juntas? — perguntou Amara, erguendo as sobrancelhas.
— Ah, sim — Cleo confirmou de imediato a mentira de Lucia. — Hoje temos aula de bordado. É uma habilidade muito útil, mas nossa tutora é extremamente rígida.
Cleo não tivera aula nenhuma desde o ataque ao palácio. Na época, achava que sua educação não passava de um tempo perdido, que podia ser mais bem empregado com seus amigos. Mas, agora, pensar nas antigas aulas a enchia de lembranças contraditórias de um tempo mais feliz. Quando tudo aquilo terminasse, quando finalmente recuperasse o trono, teria muitas aulas e aprenderia tudo sobre todos os assuntos possíveis.
À exceção, talvez, de bordado.
— Então é melhor se apressarem. Até mais — Amara disse. — Vejo vocês em breve.
— Sim, muito em breve, eu espero — Cleo disse, sorrindo com doçura.
— Acho essa garota muito desagradável — Lucia revelou assim que se afastaram da princesa. — Ela tem sorte de eu não atear fogo no cabelo dela.
— Você poderia fazer isso? — Cleo perguntou, chocada e intrigada pela franqueza de Lucia.
— Se eu quisesse. — Lucia olhou para ela com um leve sorriso nos lábios. — Acho tão estranho…
— O quê?
— Ficar perto de você é tão relaxante. Achava que não tinha passado de uma ilusão naquele dia, mas agora sei que é verdade.
— Você não percebe? — Cleo apertou o braço de Lucia. — Nascemos para ser amigas. Apesar de todas as dificuldades que passamos, isso parece certo. Confie nisso. Confie em mim. Posso ajudar com a sua magia.
— Talvez — Lucia cedeu, franzindo um pouco a testa.
O anel de Cleo brilhava um pouco por estar tão perto da feiticeira. Ela conteve um sorriso.
“Talvez” era um passo firme na direção certa.

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