3 de setembro de 2018

Capítulo 3

CLEO
LIMEROS

Certa vez, sua irmã, Emilia, disse que podia adivinhar o humor de Cleo pelo estado da unha de seu polegar esquerdo. Sempre que Cleo estava estressada ou chateada, ela roía a unha ao máximo. Segundo sua ama-seca, Cleo chupou o dedo por muito mais tempo do que a média das crianças, então ela supunha que o hábito de roer a unha fosse uma evolução natural.
Cleo sentiu um puxão rápido e dolorido no couro cabeludo.
— Ai! — exclamou, tirando o dedo ferido da boca.
E viu os olhos de sua criada, Petrina, arregalados no espelho. A garota segurava uma pequena mecha do longo cabelo loiro de Cleo.
— Oh, vossa graça, peço desculpas! Eu não pretendia... Nunca tentei fazer esse tipo de penteado antes.
— Arrancar meus cabelos pela raiz não é a melhor maneira de aprender — Cleo respondeu, com o couro cabeludo ainda latejando. Ela se obrigou a ser paciente com Petrina, mesmo tendo certeza de que até Nic seria mais habilidoso ao trançar seu cabelo.
Como ela desejava que Nerissa estivesse em Limeros, e não no palácio auraniano. Nerissa não era apenas uma boa amiga e a principal conexão de Cleo com Jonas Agallon, mas também era uma criada extremamente habilidosa.
— Não sei o que dizer, vossa alteza. O príncipe vai ficar furioso se souber que não tenho habilidade. Ele vai me punir!
— O príncipe não vai punir você — Cleo garantiu, afagando a mão da criada. — Eu não vou deixar.
A menina olhou para a princesa com admiração.
— A senhora deve ser a pessoa mais corajosa do mundo se consegue enfrentar alguém tão forte e... determinado quanto ele. Eu a admiro mais do que imagina.
Talvez Petrina não fosse tão estúpida, afinal. Parecia captar bem a natureza das pessoas. Para uma limeriana.
— Precisamos enfrentar os rapazes brutos sempre que possível — Cleo afirmou. — Eles precisam saber que não detêm todo o poder, independentemente de quem sejam. Ou achem que são.
— O príncipe Magnus me dá medo. Ele me faz lembrar muito o rei. — Petrina estremeceu, depois mordeu o lábio. — Peço desculpas. Não é apropriado admitir esses pensamentos para a senhora.
— Bobagem. Você pode ficar totalmente livre para dizer o que quiser em minha presença. Eu insisto. — Mesmo não pretendendo manter a garota descoordenada como criada, Cleo sabia que sempre era melhor fazer amigos. — Na verdade, se escutar pelo palácio alguma notícia ou informação que ache que deva ser de meu conhecimento, venha até mim no mesmo instante. Prometo manter segredo.
O rosto de Petrina ficou pálido.
— Está me pedindo para espionar para a senhora, vossa graça?
— Não! — Cleo encobriu o sobressalto instantâneo com um grande sorriso. Nerissa sempre ficou feliz em espionar. Para ela era natural como respirar. — É claro que não. Que ideia boba.
— O rei sempre lidou com os espiões com crueldade. Dizem que sua majestade arranca os olhos deles e dá para seus cães comerem.
Cleo ficou nauseada e se esforçou para manter a expressão gentil.
— Tenho certeza de que não passam de rumores. De qualquer modo, você já pode se retirar.
— Mas seu cabelo...
— Está bem assim. De verdade. Obrigada.
Petrina fez uma reverência e saiu sem dizer mais nada. Sozinha diante do espelho, Cleo observou o próprio reflexo, consternada ao ver que seu cabelo era uma mistura de tranças inacabadas e nós na parte de trás da cabeça. Depois de se pentear por alguns minutos sem sucesso, ela desistiu.
— Preciso de Nerissa — ela disse em voz alta para si mesma.
Não só por suas habilidades como criada, mas também porque Cleo precisava saber se ela tinha recebido alguma notícia de Jonas. Em sua última correspondência com o rebelde, Cleo havia passado a ele informações secretas sobre como invocar três dos cristais da Tétrade. No entanto, não tinha tido mais notícias dele desde então.
O mais provável era que Jonas tivesse falhado. Ou, pior, que tivesse conseguido, e depois vendido os cristais a quem pagasse mais. Ou, pior ainda... que estivesse morto.
— Sim, Nerissa — ela disse de novo, meneando a cabeça para si mesma. — Preciso desesperadamente de Nerissa.
Mas como convenceria Magnus a mandar buscá-la?
Bem, teria apenas que exigir, é claro. Não se intimidaria com o príncipe, nunca. Apesar de, para ser sincera, ela ter ficado profundamente chocada e confusa com a cena drástica que havia testemunhado com lorde Kurtis. Era como se Magnus estivesse possuído pelo espírito do rei Gaius, tornando-se cruel e insensível, alguém que todos em um raio de quinze quilômetros deviam temer.
Ela estreitou os olhos para o próprio reflexo.
— É claro — ela disse. — Você está se esquecendo de que ele é cruel e insensível. O que aconteceu em Pico do Corvo não muda nada. É provável que estivesse tentando manipular você. Por que está constantemente procurando desculpas para seu comportamento grosseiro? É tão tola a ponto de deixar algumas palavras bonitas e um beijo lamentável mudar sua opinião?
Magnus a havia salvado da morte no calabouço auraniano, isso ninguém podia negar. Mas havia muitas razões para ele fazer isso, além de ela ser... ser...
Quais foram as palavras exatas?
— Como se você tivesse esquecido alguma palavra que ele disse — Cleo sussurrou.
Mas ela não era uma tola romântica, uma garota bobinha que acreditava que um vilão podia se tornar um herói da noite para o dia, mesmo que já tivesse salvado sua vida. Ela era uma rainha que recuperaria o trono e destruiria os inimigos — todos eles — assim que tivesse a magia e o poder de que necessitava.
Com um ou mais cristais da Tétrade em mãos, ela faria justiça. Por seu pai. Por Emilia. Por Theon. Por Mira. E pelo povo auraniano.
Cleo apontou para o espelho.
— Nunca se esqueça disso.
Sua determinação estava de volta, assim como a coragem.
Ela precisava ver Magnus. Precisava saber até que ponto estavam seguros no palácio enquanto o rei permanecia em Auranos, e se havia alguma notícia sobre o cristal da água desaparecido. Precisava garantir que o príncipe desse ordens imediatas para a viagem de Nerissa. E se recusava a ficar em seus aposentos esperando Magnus ir até ela.
Embora o palácio auraniano fosse imenso — tão enorme que não era difícil até os mais experientes criados se perderem em seus corredores labirínticos —, pelo menos havia sido preenchido com luz e vida. Pinturas alegres e tapeçarias adornavam as paredes, os corredores eram bem iluminados com lamparinas e tochas, e as muitas janelas davam para a bela Cidade de Ouro. Cleo sempre havia se sentido segura e feliz ali — até o dia em que foram atacados e derrotados.
No palácio limeriano, no entanto, tudo parecia escuro e sombrio, praticamente não havia nenhuma obra de arte — alegre ou não — para enfeitar as paredes. A cantaria era desinteressante e grosseira. O único calor parecia vir das muitas lareiras, vitais para um castelo construído em um reino de inverno constante.
Ela diminuiu o passo quando topou com um corredor de retratos. As pinturas se pareciam muito com a coleção da família Bellos que antes enfeitava as paredes do castelo auraniano; pareciam ter sido feitas pelo mesmo artista. Todos os Damora pelos quais passou tinham expressão severa e olhar sério. Rei Gaius, de olhar penetrante e brutalmente belo; rainha Althea, magnificente e decorosa; princesa Lucia, de uma beleza solene, com cabelo escuro e olhos azul-celeste.
Ela parou diante do retrato de Magnus. Quando posou, ele era muito mais menino do que o homem em que havia se transformado nos últimos tempos, tão parecido fisicamente com o pai. Mas o menino do quadro ainda tinha aquela cicatriz familiar na face direita — uma cicatriz infligida por seu pai como punição por algo trivial.
Aquela cicatriz era a prova física de que o príncipe nem sempre obedecia às ordens do rei.
— Princesa Cleiona. — Uma voz a chamou de um canto. — Que adorável vê-la hoje.
Era lorde Kurtis, agora parado diante dela, surpreendentemente alto. Era ainda mais alto que Magnus, mas mais esguio, com ombros mais estreitos e braços finos: características de alguém que nunca trabalhou na vida. O sorriso era afável, e os olhos verdes remetiam às oliveiras do pátio do castelo em Auranos.
— É adorável vê-lo também — Cleo respondeu.
— Fico feliz que nossos caminhos tenham se cruzado. — Ele franziu as sobrancelhas. — Gostaria de me desculpar em pessoa por desrespeitar seu marido em sua frente. Foi incrivelmente rude de minha parte, e estou muito envergonhado.
Cleo tentou pensar na melhor maneira de responder e tomou uma decisão rápida de falar o que estava pensando, sem meias-palavras, como faria um kraeshiano.
— Talvez pudesse ter agido com mais diplomacia, mas acho que o comportamento do príncipe foi excessivamente grosseiro e desnecessário. Por favor, aceite minhas desculpas por seu constrangimento.
— Eu diria que o constrangimento ficou em segundo plano em relação ao temor de ter minha garganta cortada. Mas obrigado.
— Você só estava defendendo o que acreditava ser seu dever.
— Sim, mas eu devia saber que era preciso demonstrar mais cuidado com as palavras e ações quando se trata do príncipe. Afinal, eu já sei...
— Prossiga — ela o estimulou. — O que você sabe?
Ele balançou a cabeça e olhou para baixo.
— Acho que não devo dizer mais nada.
— Não, com certeza deve.
Kurtis parecia preocupado, como se se debatesse com a decisão de falar ou não, o que só deixou Cleo mais ávida para saber.
— Por favor — ela disse. — Conte.
— Bem... quando o príncipe e eu éramos crianças, não nos dávamos muito bem. Meu pai me trazia aqui quando tinha assuntos a tratar com o rei, e eles esperavam que Magnus e eu passássemos algum tempo junto, que ficássemos amigos. Não demorei muito para saber que o príncipe não era de muitos amigos. Ele... perdoe-me, vossa graça, mas ele era um garoto um tanto sádico e intimidador. E sinto muito ao ver que pouco mudou com o passar dos anos.
Um garoto um tanto sádico e intimidador. Parecia descrever exatamente o filho do rei Gaius.
— Só espero... — Kurtis interrompeu a fala mais uma vez.
— O quê?
Ele piscou.
— Só espero que ele não esteja sendo cruel em demasia com você.
Cleo estendeu o braço e apertou a mão de Kurtis.
— Obrigada. Mas posso garantir que, no que diz respeito ao príncipe, sei me cuidar.
— Não duvido nem por um instante. Você é muito parecida com sua irmã. — Ele sorriu, mas o sorriso logo desapareceu. — Minhas profundas condolências pelo falecimento dela, vossa graça. Ela era realmente impressionante.
Cleo tentou ignorar o choque de dor que sentiu ao ser lembrada da irmã e passou a olhar para Kurtis com novo interesse.
— Você era amigo de Emilia?
— Nós nos conhecíamos, mas não sei se diria que éramos amigos. Na verdade, éramos rivais. — Ele levantou uma sobrancelha quando Cleo olhou com curiosidade. — Nós nos encontramos vários anos atrás, em Auranos, onde competimos um contra o outro em um torneio de arqueirismo realizado em homenagem a ela. Emilia era tão talentosa e insistia que rapazes e moças deviam participar das mesmas competições.
Cleo não conseguiu conter o riso ao se lembrar dos festivais e das competições que eram realizados na Cidade de Ouro.
— Sim, Emilia era uma arqueira incrível. Eu a invejava. Mas são necessários anos de prática para apurar uma habilidade como aquela, e naquela época eu preferia atividades muito menos atléticas.
Ir a festas. Tomar vinho. Explorar mercados. Ter o cabelo trançado e penteado por criadas habilidosas. Tirar medidas para vestidos extravagantes. Passar o tempo com bons amigos — embora nenhum deles tenha mandado uma única carta de condolências desde a morte de seu pai e sua irmã.
Kurtis assentiu.
— Não era usual que uma princesa do status dela, além de ser herdeira do trono, tivesse um hobby como aquele, mas ela me impressionou profundamente. E fiquei ainda mais impressionado quando ela foi campeã da competição.
Emilia teria adorado aquilo, Cleo pensou. Derrotar os rapazes em um jogo típico deles.
— Por favor, não me diga que você a deixou vencer.
— Longe disso. Fiz meu melhor e fiquei em segundo lugar... foi por pouco, mas fiquei em segundo lugar. Teria adorado a glória da vitória, principalmente quando era mais jovem e vulnerável. Sempre esperei uma revanche, mas alguns sonhos não podem se tornar realidade.
— Não, não podem — Cleo refletiu. Sua irmã praticava arco e flecha todos os dias até sucumbir à doença que lhe roubou a vida. Cleo costumava brincar que Emilia era capaz de trazer carne de cervo suficiente para um ano inteiro em apenas uma tarde de caçada. Ou, talvez, defender o palácio junto com os guardas se um dia fossem atacados.
Cleo não tinha talento com armas. Tinha sido capaz de se defender, até então, com uma adaga afiada e uma boa quantidade de sorte. Fora isso, dependia de terceiros para protegê-la do perigo.
— Lorde Kurtis... — ela começou a falar, uma ideia se formando de repente em sua cabeça.
— Por favor, princesa, é apenas Kurtis. Meus amigos não precisam utilizar meu título para se dirigir a mim.
— Kurtis — ela repetiu com um sorriso. — Pode ficar à vontade para me chamar de Cleo.
Seus olhos verde-oliva brilharam.
— Com prazer, princesa Cleo.
— Chegou perto. — Ela riu. — Diga, Kurtis, agora que foi dispensado da maior parte de seus deveres no palácio, deve estar com muito tempo livre, não é?
— Suponho que sim. No entanto, espero ser convidado para futuras reuniões do conselho, de acordo com as vontades do príncipe Magnus, é claro. Acredito ainda ter algo a oferecer.
Ela pensou na probabilidade de Magnus concordar com aquilo.
— Bem, você acabou de me lembrar de algo que minha irmã amava e fazia muito bem. Eu gostaria de fazer aulas de arqueirismo para honrar sua memória, e parece que você seria um excelente tutor.
— Pode parecer falta de modéstia se eu concordar, mas de fato seria. E ficaria honrado em ser seu tutor.
— Isso é ótimo, obrigada. Podemos nos encontrar todos os dias? — ela perguntou com avidez. — Costumo me entediar com novos hobbies a menos que faça uma imersão completa neles.
Kurtis concordou.
— Então vamos nos encontrar todos os dias. Farei o que estiver ao meu alcance para ser um bom tutor, princesa.
— Ser um bom tutor? — A voz grave de Magnus os interrompeu. — Tutor de quê, posso saber?
Cleo achou melhor não agir com culpa. Afinal, estavam conversando normalmente no meio do corredor, e não sussurrando em uma alcova ou escondendo a conversa de possíveis curiosos. Além disso, ela não tinha motivos para se sentir culpada, então virou para o príncipe sem hesitação.
— Arqueirismo — Cleo respondeu. — Lorde Kurtis é um ótimo arqueiro e concordou em me ensinar.
— Que gentil da parte dele. — Magnus observou Kurtis com um olhar firme e intenso, como uma ave de rapina observaria um pequeno coelho pouco antes de arrancar sua cabeça.
— Sim, muito gentil. — O coração de Cleo disparou de novo, mas ela não podia hesitar agora. — Magnus, preciso falar com você.
— Então fale.
— Em particular.
Kurtis abaixou a cabeça.
— Vou deixá-los a sós. Princesa, o que acha de marcarmos a primeira aula para amanhã ao meio-dia?
— Perfeito.
— Até lá, então. Vossa alteza, vossa graça. — Outra reverência, e Kurtis deu meia-volta e seguiu pelo corredor.
— Sinto muito por interromper a conversa — Magnus disse, desprovido de sinceridade. — Então... arqueirismo?
Cleo assentiu como se não fosse importante.
— Um simples hobby para passar os dias aqui.
— Corrija-me se eu estiver enganado, mas você já não tem um hobby? Sim, acredito que costumava passar seu tempo livre planejando uma vingança contra mim e toda a minha família.
— Tenho muitos hobbies — ela retrucou.
— De fato. Agora... sobre o que queria conversar comigo?
— Eu disse que gostaria de falar em particular.
Ele olhou para o corredor, onde criados passavam, e vários guardas estavam posicionados.
— Aqui é privado o bastante.
— É mesmo? — ela perguntou. — Então talvez possamos começar discutindo o que aconteceu na quinta de lady Sophia e por que você parece fazer questão de esquecer tudo sobre aquilo?
Seu sorriso desapareceu, e Magnus bufou, agarrando Cleo pelo braço e a conduzindo até a mais próxima saída para uma varanda. De repente, ela estava do lado de fora, sob o ar frio, sem um manto para aquecer seu corpo e baforando nuvens geladas.
Magnus abriu os braços.
— Privacidade. Assim como a princesa deseja. Espero que aqui não esteja muito frio para você. Para mim, a temperatura é refrescante depois de tantos meses preso no calor infernal de Auranos.
Como ela desejava poder ler mentes para saber exatamente o que se passava por trás daqueles olhos castanho-escuros. Magnus tinha um talento invejável para despir a expressão de qualquer tipo de emoção que pudesse ser interpretada. Houve um tempo em que Cleo acreditara ter desvendado, aprendido a ver através da máscara, mas agora duvidava disso, assim como de todo o resto.
Sua única certeza era de que, ao decidir acompanhá-lo até o palácio em vez de se exilar com Nic, ela havia colocado seu futuro imediato nas mãos do príncipe. Mas era um pequeno preço a pagar para garantir que viveria para ver um futuro distante.
— Se está com medo de que eu queira discutir o que aconteceu na quinta de lady Sophia...
— Com medo? — ele interrompeu. — Não tenho medo de nada.
— ... então me permita tranquilizá-lo. — Ela havia ensaiado o discurso várias vezes mentalmente desde que saíra de seus aposentos. — As emoções estavam exaltadas naquela noite, e nossos pensamentos estavam turvos. Tudo o que qualquer um de nós possa ter dito não deve ser levado a sério.
Ele a analisou por um longo momento, em silêncio, com a testa franzida.
— Devo admitir — ele disse finalmente —, os detalhes do que aconteceu antes de chegarmos ao templo são um tanto quanto indistintos para mim. Mas o que posso dizer é o seguinte: à dura luz do dia, acontecimentos confusos ficam muito mais claros, não é? Momentos de insensatez lamentável que parecem acarretar sérias consequências tornam-se totalmente irrelevantes.
— É exatamente o que penso. — O alívio nos olhos dele devia representar uma sensação libertadora, mas, em vez disso, Cleo sentiu um grande peso pressionando seu peito.
Pare, Cleo, ela repreendeu a si mesma. Você o odeia e sempre vai odiar. Apegue-se a esse ódio e deixe que ele a fortaleça. Você é um peão na batalha de Magnus contra o pai. Apenas isso.
Mesmo que tivesse desafiado o rei para salvá-la, Magnus ainda era herdeiro de seu pai. Isso significava que continuava sendo sua inimiga, e que ele podia optar por descartá-la a qualquer momento para alcançar seus objetivos. E isso parecia mais possível do que nunca, agora que ele havia mostrado sua verdadeira face ao lidar com uma inconveniência de menor importância como Kurtis. Cleo jurou que nunca mais baixaria a guarda perto dele, como havia feito naquela noite.
— Bem, estou muito satisfeito com esta nossa conversa particular — afirmou Magnus, caminhando na direção das portas que levavam de volta ao palácio. — Agora, se já terminamos...
— Na verdade, não foi esse o motivo principal da conversa que eu queria ter com você. — Ela endireitou os ombros e ajustou a própria máscara invisível. — Preciso que mande buscar minha criada, Nerissa Florens.
Ele ficou olhando para Cleo em silêncio por um instante.
— Precisa?
— Sim. — Ela levantou mais o queixo. — E qualquer resposta diferente de “sim” é inaceitável. Por mais... encantadoras que sejam as criadas aqui em Limeros, já me acostumei com Nerissa, e acredito que suas habilidades domésticas e cuidados pessoais são incomparáveis.
— Quer dizer que as criadas limerianas são encantadoras? — Ele estendeu o braço na direção de Cleo. Ela ficou paralisada, e Magnus hesitou antes de pegar uma longa mecha de cabelo embaraçado e semitrançado. — Você pediu para sua criada transformar seu cabelo em um ninho de pássaro hoje?
Ele estava perto demais. Perto o bastante para ela saber, pelo cheiro, que Magnus estivera cavalgando. Cleo sentiu os aromas familiares de couro gasto e sândalo.
Afastou-se dele, sabendo que pensaria com muito mais clareza com alguma distância. Seus cabelos escorregaram por entre os dedos de Magnus.
— Você está com cheiro de cavalo.
— Acho que existem cheiros piores. — Ele levantou a sobrancelha e depois apertou os olhos. — Muito bem, vou mandar buscar Nerissa, se a considera tão preciosa.
Cleo olhou para ele surpresa.
— Sem discussão?
— Você preferiria que eu discutisse?
— Não, mas... — Quando alguém consegue o que quer, deve parar de falar. O pai de Cleo costumava dizer isso sempre que ela continuava argumentando sobre algo com que ele já havia concordado. — Obrigada — ela disse então, com o máximo de doçura que conseguiu.
— Agora, se me der licença, preciso lavar o cheiro de cavalo do meu corpo. Não gostaria de ofender mais ninguém com meu fedor. — Mais uma vez, ele se virou para a porta.
Deixe de ser tola e fraca, ela disse a si mesma.
— Ainda não terminei.
Ele ficou com os ombros tensos.
— Não?
Ela tinha começado a bater os dentes de frio, mas se recusava a entrar.
— A mensagem que mandou para seu pai. O que dizia? Você não me contou.
Ele piscou.
— E deveria ter contado?
— Diz respeito a mim também, não diz? Foi você que me ajudou a escapar da execução. Então, sim, devia ter me contado. Quais são os planos dele? Vai vir para cá? Estamos em segurança?
Ele se apoiou na porta da varanda e cruzou os braços.
— Nós, princesa, com certeza não estamos em segurança. Eu disse a meu pai que havia descoberto que você tinha informações específicas a respeito do paradeiro de Lucia. Escrevi que Cronus era tão dedicado e leal às ordens do rei, que se recusou a atrasar sua execução até eu conseguir extrair as informações. Então cuidei do assunto com minhas próprias mãos.
Cleo soltou o ar que estava segurando durante toda a fala dele.
— E ele respondeu.
Magnus confirmou.
— Recebi uma nova mensagem hoje pela manhã. Pelo jeito, ele está viajando para o exterior e está ansioso para me ver novamente quando retornar.
— Só isso? Ele acreditou em você?
— Eu não diria isso. A resposta pode significar qualquer coisa... ou nada. Afinal, ele sabe que não é possível garantir a confidencialidade de mensagens enviadas por corvos. Mas pretendo defender a história que contei até meu último suspiro. Se puder convencê-lo de que só agi por amor a minha irmã, ele pode ser tolerante comigo.
— E comigo?
— Isso ainda não sabemos.
Cleo não esperava que ele fizesse alguma promessa de mantê-la viva e em segurança, então não ficou surpresa quando ele não fez. Seu silêncio era apenas mais uma prova de que o rapaz que havia intimidado e humilhado Kurtis era o verdadeiro Magnus.
— Agora eu quero fazer uma pergunta para você, princesa — Magnus disse, os olhos fixos nos dela. Ele chegou tão perto que estavam praticamente se tocando, e ela recuou até as costas encostarem na grade da varanda.
— O quê? — Ela tentou proferir aquelas duas palavras com o máximo de resistência.
— Conseguiu mandar notícias para Jonas Agallon e seus fiéis rebeldes sobre seu atual paradeiro? Talvez ele possa ir atrás de Amara e recuperar o cristal da água.
O nome Jonas Agallon foi um golpe certeiro de volta à fria realidade.
Cleo colocou as mãos no peito de Magnus e o empurrou.
— Afaste-se — ela resmungou.
— Toquei em uma questão delicada? Peço desculpas, mas alguns assuntos precisam ser abordados... mesmo os que você considera desagradáveis.
— Já disse que não tenho, e nunca tive, nada com Jonas Agallon e seus seguidores. — A crença de que ela conspirava com rebeldes foi o que culminou em sua prisão e nas ordens do rei para sua execução imediata.
Mas era verdade, claro — ela estava conspirando com ele. Mas nunca havia admitido em voz alta. Em especial para Magnus.
— Bem, independentemente disso, posso sugerir Jonas como tutor de arqueirismo no lugar de Kurtis? Kurtis tem habilidade no esporte, suponho, mas Jonas... é alguém que matou auranianos limerianos com suas flechas, enquanto Kurtis mirou apenas em alvos pintados.
— Kurtis fará um bom trabalho, mas agradeço sua opinião. — Cleo passou por ele e depois olhou para trás ao deixar a sacada. — Tenha um bom dia, Magnus.
Com os olhos semicerrados, ele a viu sair.
— Tenha um bom dia, princesa.

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