29 de setembro de 2018

Capítulo 3

— LEVANTA ESSA BUNDA INÚTIL E VAI PRA LOJA, senão hoje não tem comida. — Meu lençol foi arrancado com um puxão violento. Gemi, apertando os olhos contra a luz do sol e o rosto da minha tia. — E não espere comer amanhã também.
Contei seus passos quando saiu batendo os pés. Chegou à cozinha em dez. Abri um olho. Quanto tempo eu havia dormido? Algumas horas, talvez. Precisava dormir mais do que comer. Mas a luz da manhã entrava no quarto e a chamada para as preces tinha começado.
Rolei do colchão para o chão, puxando o lençol sobre a cabeça enquanto procurava roupas. Ao meu redor, seis primas com quem dividia o quarto apertado começavam a se mexer. A pequena Nasima sentou reta de repente, antes de cair para trás e enfiar um pedaço do lençol na boca.
Mal dava para enxergar as tábuas do chão entre os colchões. O quarto parecia um campo de batalha, com roupas espalhadas por toda a parte, como se fossem cadáveres. Apenas o canto de Olia estava limpo. Ela até tinha tentado pendurar uma manta para cavalo no teto para se separar das irmãs. Eu tinha demorado um tempo para me acostumar com aquele quarto.
Havia apenas dois cômodos na casa do meu pai. O quarto onde ele e minha mãe dormiam e a sala grande onde comíamos e onde dormi por quase dezesseis anos. Aquela sala não existe mais, assim como o resto da casa.
Levei algum tempo procurando, mas encontrei meu khalat azul embolado sob o colchão. Fiz o melhor que pude para alisar os vincos com as mãos antes de vestir a túnica rapidamente sobre o shalvar marrom simples que usava na parte de baixo.
Shira suspirou no travesseiro.
— Você poderia parar de se mexer como um bode agonizando? Estou tentando dormir.
No seu canto, Olia cobriu a cabeça com o lençol.
Encontrei uma bota e larguei-a da maior altura possível para que atingisse o chão com um baque alto. Shira se encolheu. Ela era a única prima com quem eu tinha laços de sangue. As demais eram filhas das outras esposas do meu tio. Tia Farrah tivera três garotos com o marido, e então Shira.
Ela esboçou um sorriso cínico, com os olhos semicerrados.
— Você está com uma cara péssima, prima. Não dormiu bem? — Hesitei enquanto amarrava uma faixa na cintura. Ela sorriu sarcasticamente. — Parece que ficou rolando de um lado para outro.
Resisti ao impulso de puxar a manga para cobrir o cotovelo machucado. É claro que Shira sabia que eu tinha fugido. Ela dormia a um metro de distância.
Não que pudesse imaginar aonde eu tinha ido. Mas isso não a impediria de contar o pouco que sabia, mesmo que fosse apenas pela satisfação de me ver levar uma surra.
— E como é que eu ia conseguir dormir? — Recomecei a amarrar a faixa devagar. — Você ronca.
Olia soltou um riso de escárnio sob as cobertas.
— Viu? Eu falei pra você — ela disparou para a meia-irmã.
Às vezes eu quase gostava de Olia, que tinha quase a minha idade. Costumávamos nos dar bem até eu mudar para a casa do meu tio, quando me odiar se tornou uma das regras da casa da tia Farrah.
— Mas talvez não fosse você roncando na noite passada — cutuquei Shira. — Uma pilha de lençóis não costuma roncar.
A cama de Shira estava tão vazia quanto a minha quando saí escondida para a arena de tiro. Na volta, entrei pela janela, depois de usar um pouco da nossa preciosa água para tirar o cheiro de fumaça e pólvora de mim. A julgar pelo cheiro doce e nauseante dela, tinha escapado para encontrar Fazim. Ele devia ter dito a ela que voltaria da arena rico.
Tentei não sorrir ao lembrar dele sendo eliminado da competição. Não sabia nem se Fazim tinha escapado com vida de lá.
Estávamos em um impasse. Eu não contaria desde que ela não contasse. Shira me ignorou e começou a pentear o cabelo.
Eu estava ajeitando meu próprio cabelo desgrenhado quando cheguei à cozinha. Meus primos homens já começavam a se aglomerar, se preparando para o trabalho, gritando uns com os outros enquanto os sinos das preces tocavam. Nenhum operário tinha tempo para preces, exceto nos feriados religiosos. Contornei meu primo Jiraz, cujo uniforme estava meio vestido, meio amarrado na cintura, enquanto ele coçava uma marca de queimadura no peito. Tinha ganhado aquela marca em uma das máquinas meses antes, quando ela subitamente cuspiu fogo nele. Teve sorte de só perder um mês de trabalho, e não a vida.
Peguei a lata de café da prateleira de cima. Estava bem leve. Misturavam serragem nele para que rendesse. Meu estômago apertou. As coisas ficavam ruins quando a comida era escassa. Na verdade, eram sempre ruins. Mas pioravam.
— Farrah. — Tio Asid entrou na cozinha, esfregando o rosto. Nida, sua esposa mais jovem, vinha logo atrás, olhando para o chão, as mãos sobre a barriga de grávida. Desviei a atenção no último instante, bem a tempo de fingir não notar meu tio me devorando com os olhos. — O café já está pronto?
Fui tomada por uma angústia desesperada. Eu não ia ficar ali, ainda que a bolsa de moedas que eu usava amarrada na cintura estivesse leve depois da noite anterior.
— Me dá isso aqui. — Tia Farrah arrancou a lata de mim e me deu um tapa forte na nuca. Fiz uma careta. — Falei pra você abrir a loja, não ouviu?
— Não tinha como não ouvir. — Dei um passo para sair do alcance dela, mas isso não ia me salvar de levar uma surra depois. Estava aliviada de poder sair correndo daquela casa e escapar do olhar do meu tio, mas não conseguia segurar a língua. — Se tivesse falado mais alto, a cidade inteira teria escutado.
Deixei a porta bater atrás de mim e corri escada abaixo, as ameaças de surra com pedaço de pau da tia Farrah ficando cada vez mais distantes.
A loja e a casa do meu tio ficavam em pontas opostas da Vila da Poeira, o que significava duzentos e cinquenta passos de distância. A única rua da cidade estava no ápice do movimento, com homens se arrastando para a fábrica e mulheres e velhos se apressando para a casa de oração antes que o sol queimasse os últimos resquícios de frescor do ar noturno. A familiaridade da cena pesava sobre mim.
Ultimamente achava que alguém devia eliminar aquela cidade do mapa por misericórdia. Não vinha aço das montanhas. Fazia anos que um buraqi não era visto. Ainda havia alguns cavalos normais para vender, mas eles não valiam muito.
A única coisa de que eu gostava na Vila da Poeira era o enorme espaço ao redor dela. Indo além das casas sem graça de madeira, dava para correr por horas sem encontrar nada além de arbustos e areia. Agora eu me ressentia de como a cidade era longe de qualquer outra coisa. Mas quando eu era mais nova, correr para longe era o bastante. Tão longe que não conseguia ouvir meu pai xingando minha mãe, dizendo que ela não passava de uma puta usada por um forasteiro, que não conseguia dar a ele um filho. Tão longe que ninguém conseguia enxergar uma garota com uma arma roubada, atirando até os dedos cansarem e a mira ficar boa o suficiente para acertar um copo na mão trêmula de um bêbado.
O mais longe que eu conseguia chegar era quando minha mãe contava histórias de ninar de Izman.
Isso só acontecia quando meu pai não podia escutar. A cidade dos mil domos dourados, com torres que arranhavam o azul do céu e tantas histórias quanto pessoas. Um lugar onde uma garota poderia pertencer a si mesma, uma cidade inteira tão rica de possibilidades que você quase tropeçava em aventuras na rua. Ela lia para mim histórias da princesa Hawa, que cantava para trazer a alvorada mais cedo quando Izman era atacada por pesadelos durante a noite. Lia sobre a filha desconhecida de um mercador que enganou o sultão e pegou suas joias quando o pai perdeu a fortuna. E lia as cartas de sua irmã Safiyah.
Safiyah era a única pessoa que eu sabia que tinha escapado da Vila da Poeira. Fugiu na noite anterior ao seu casamento e conseguiu chegar até Izman. As cartas dela chegavam da capital para minha mãe muito raramente, com uma caravana. Falavam sobre as maravilhas da cidade, um mundo maior e uma vida melhor. Naquela época, minha mãe falava bastante sobre Izman. Sobre como íamos partir e nos juntar a Safiyah um dia.
Ela parou de falar sobre isso no dia mais quente dos últimos tempos. Ou talvez fosse só um dia normal que ficou gravado na memória por causa do que aconteceu. Eu estava no deserto, o mais longe que podia chegar sem perder minha casa de vista. O reflexo do sol nas garrafas vazias que eu havia alinhado era tão forte que me obrigava a apertar os olhos enquanto mirava, mesmo com meu sheema puxado até o nariz e o chapéu quase cobrindo os olhos. Lembro que estava tentando matar uma mosca quando ouvi três tiros. Parei. Mas imaginei que não era nada. Afinal, aquele era o Último Condado. Então a fumaça começou a subir.
Corri de volta para a cidade.
A casa do meu pai estava pegando fogo. Mais tarde, descobri que minha mãe tinha atirado na barriga dele três vezes e então incendiado a casa. Mas só lembro do alívio que senti no momento em que arrastaram o corpo dele para fora de casa. Ele nem era meu pai de verdade. Eu lembro da minha mãe tentando correr até mim antes de a levarem embora. E de ficar rouca de tanto gritar quando colocaram a corda em torno do pescoço dela.
Sonhar com os lugares de que minha mãe falava deixou de ser suficiente quando o alçapão se abriu sob os pés dela.


Eu estava na metade do caminho quando notei a multidão se formando na grande área aberta perto da casa de oração, onde antes ficava a casa onde cresci. Vi o cabelo preto dividido certinho demais de Tamid na multidão. Abri caminho empurrando as pessoas até chegar a ele. As pessoas costumavam manter distância de Tamid. Como se achassem que iam começar a mancar como ele. Pelo menos sobrava mais espaço para mim.
— Qual é o espetáculo? — Mudei de lado para assumir o lugar da muleta de madeira sob seu braço esquerdo. Ela cumpria seu papel, mas Tamid insistia em crescer, e toda vez que alguém se dava ao trabalho de construir uma nova ele crescia mais um pouco. Ele sorriu pra mim e respondi mostrando a língua.
— O que você acha? — Tamid passou a muleta de volta para Hayfa. Ela era a única serva da cidade, já que a família de Tamid era a única capaz de pagar tanto a comida quanto alguém para fazê-la.
Ele apoiou o peso em mim. Era muito pálido para um garoto do deserto. Pelo menos seu corpo alto e magro parecia menos curvado naquele dia.
A princípio, no fulgor do nascer do sol, tudo o que eu conseguia enxergar eram os familiares tijolos enegrecidos da fábrica de armas do sultão nas redondezas da cidade. O único motivo para buracos como a Vila da Poeira terem permissão de existir era servir à fábrica. Então percebi o reflexo do sol no metal polido.
O Exército do sultão estava chegando.
Os homens marchavam em linhas de três, lado a lado, descendo as colinas. Seus sheemas dourados os protegiam do sol, os sabres pendiam de um lado da cintura, as armas do outro, as calças largas e brancas enfiadas com cuidado dentro da bota, as camisas douradas apertadas na cintura. Sua marcha era lenta mas inevitável. Sempre inevitável.
Pelo menos não havia uniformes azuis espalhados entre o branco e dourado. Azul era a cor do Exército gallan. O Exército do sultão não tornava nossa vida fácil, mas pelo menos era composto de mirajins como nós.
Os gallans eram forasteiros. Ocupantes. Perigosos.
Política e história não eram exatamente tema de conversa no fim de mundo onde morávamos, mas o que me contavam era que, duas décadas antes, nosso aclamado sultão Oman tinha decidido que seria um governante melhor para Miraji do que seu pai. Então fez uma aliança com o Exército de Gallan. Os forasteiros mataram o pai dele e todos que se recusaram a jurar lealdade a Oman. Em troca, ele deixou o Exército de Gallan acampar em Miraji e usar nossas armas para vencer guerras em terras distantes.
— Não é um pouco cedo para voltarem de Sazi? — perguntei, cerrando os olhos contra a luz da alvorada e tentando contar os soldados. Pareciam estar em número menor do que o normal.
— Você não soube? A arena em Tiroteio foi destruída pelo fogo ontem à noite. — Fiquei tensa e torci para que Tamid não notasse. — Aconteceu algum tipo de revolta. Meu pai ouviu falar disso hoje de manhã; alguma coisa a ver com o príncipe rebelde. Meu pai falou que o Exército está voltando para resolver o problema.
— Para enforcar bêbados e apostadores, você quer dizer.
O Exército do sultão tinha passado por ali a caminho de Sazi fazia apenas alguns dias. Os oficiais tinham ido visitar as minas, provavelmente para ver se ainda dava para aproveitar alguma coisa de lá. Era preocupante que estivessem voltando tão cedo. Normalmente, o Décimo Quinto Comando de Miraji passava por aqui a cada três meses para coletar as armas que a fábrica produzia e levá-las para os gallans.
— Tiroteio sempre foi um antro de pecados. Eles fizeram por merecer. Eu estava meditando hoje de manhã sobre a cidade dourada de Habadden… — Tamid assumiu um tom religioso. Ele lia os Livros Sagrados até destruir a lombada, e eu podia jurar que, ultimamente, me passava mais sermões do que o pai sagrado. — O povo foi tão corrompido pela riqueza que deu as costas para Deus. Então Deus enviou os djinnis guerreiros para purificá-los com seu fogo sem fumaça.
Claro, havia também as histórias menos divinas dos djinnis seduzindo mulheres, tirando-as de seus pais e maridos, levando-as para torres ocultas.
Aqueles eram os bons tempos. Ninguém via um djinni havia décadas. Para queimar um antro de pecados, bastava uma garota, um forasteiro e um bando de bêbados.
— Viu só? — Tamid continuou, voltando a parecer um amigo me dando bronca. — Ainda bem que você me ouviu quando falei para não ir à arena. — Fiz uma careta que foi praticamente uma confissão. A expressão de Tamid se desmanchou. — Não acredito que você fez isso!
— Que tal calar a boca? — Olhei para Hayfa, que mantinha os olhos fixos na muleta de Tamid enquanto fingia não escutar. — Você quer que eu seja enforcada?
Quando Tamid suspirou, senti sua decepção.
— Então é por isso que você parece acabada hoje.
— Obrigada pelo elogio. — Esfreguei o rosto, como se pudesse limpar as evidências da noite anterior. — Eu poderia ter vencido. — Me aproximei mais de Tamid para que ninguém pudesse ouvir. — Se tivessem jogado limpo.
— Nunca falei que você não era capaz, Amani. — Tamid não compartilhava do meu entusiasmo. — Falei que não devia ir.
Era uma discussão antiga, vinha da época em que minha mãe ainda estava viva. De quando ela falava sobre Izman. Não voltou à tona depois que ela morreu. Não me dei ao trabalho de contar a Tamid que ainda planejava ir embora. Não até a noite em que escutei o que meu tio disse.
Depois de rastejar do lugar onde estava agachada na janela, fui direto para a casa de Tamid. Escalei a janela dele do mesmo jeito que tinha feito desde que ganhara altura suficiente para pular o parapeito. Como sempre, Tamid me cumprimentou, tentando inutilmente parecer irritado. Contei que meu tempo estava se esgotando, que ou eu fugia agora ou nunca mais. Enquanto eu falava, sua expressão se tornou mais séria.
Tamid nunca tinha entendido minha necessidade de sair da Vila da Poeira. De todas as pessoas naquela maldita cidade, ele deveria entender.
Naquela noite meu amigo disse a mesma coisa que sempre dizia. Não importava aonde fôssemos, nada mudaria quem éramos: um aleijado e uma garota. Se não tínhamos valor ali, por que seria diferente em qualquer outro lugar? Tentei convencê-lo do contrário. Falei das cartas da tia Safiyah. De uma vida melhor. De algo maior do que viver e morrer no beco sem saída que era aquele deserto. Mas para alguém tão religioso, Tamid não tinha nenhuma fé. Então o deixei acreditar que tinha mudado de ideia e não contei que planejava me disfarçar de garoto e fugir. Eu não era como ele; tinha que acreditar que Izman era melhor do que aquele lugar, ou não haveria propósito em viver onde quer que fosse.
Hayfa pigarreou.
— Não é meu papel dizer isso, mas o senhor vai se atrasar para as preces.
Tamid e eu trocamos olhares, ambos reprimindo risadas como se fôssemos crianças na sala de aula novamente.
— Se atrasar é pecado, sabia? — Tamid disse, com falsa seriedade.
Na escola, eu e Tamid estávamos sempre atrasados. Costumávamos botar a culpa na perna dele, mas o professor nos dava bronca, dizendo que se atrasar era pecado. Talvez isso fosse assustador em outras circunstâncias, mas o problema era que ele dizia que tudo era pecado. Tamid tinha lido os Livros Sagrados três vezes, e até onde sabia nem se atrasar nem falar ou dormir durante a aula era pecado.
Ainda assim, ele pegou a muleta que estava com Hayfa enquanto ela o encorajava a seguir para a casa de oração, para longe de mim.
— Ainda não encerramos esse assunto — Tamid disse, conforme eu virava para seguir na direção oposta.
Cumprimentei meu amigo de um jeito jocoso antes de correr pela areia quente em direção à loja. Abri as grades de ferro na frente da loja antes de abrir a porta com um chute, para deixar o máximo de luz entrar antes de mim. Dei uma olhada nos sacos de sal e nas prateleiras cheias de produtos enlatados imersos em caldas espessas que os faziam durar muito mais do que o normal, procurando qualquer sombra que se movesse. As portas e janelas da loja eram reforçadas com ferro, assim como todas as casas do Último Condado, mas isso nem sempre impedia que criaturas rastejassem para dentro na calada da noite. No deserto, você tinha que ficar atento a carniçais nas sombras. Eles podiam assumir mil formas diferentes. Podiam ser andarilhos, seres altos e sem rosto que consumiam a carne de alguém e assumiam sua forma para poder se banquetear com o resto da família. Pequenos pesadelos com pele de couro, que cravavam os dentes no peito das pessoas enquanto elas dormiam e se alimentavam do seu medo até a alma ser sugada. Ferro era a única coisa que os mantinha à distância. E era a única coisa que os matava. Eles se escondiam da luz do sol, mas o que realmente funcionava era um tiro no crânio ou uma faca de ferro nas costelas. Ferro transformava todos os imortais em mortais. Impotentes. Foi assim que a Destruidora de Mundos matou os primeiros seres primordiais. E foi assim que os humanos, por sua vez, mataram os carniçais da Destruidora de Mundos.
Não havia mais tantos carniçais quanto antes. O último ataque fatal de um deles por ali tinha acontecido uma década antes. Mas, de vez em quando, um deles conseguia se esgueirar por uma rachadura ou pelos cantos sombrios de uma casa e acabava levando uma bala na cabeça para aprender.
Satisfeita por a loja estar tão vazia quanto a garrafa de um bêbado, deixei a porta aberta para entrar um pouco de brisa e então esparramei no balcão tudo que havia sobrado do meu dinheiro. Seis fouzas e três louzis, não importava quantas vezes eu contasse. Não era suficiente para sumir da Vila da Poeira, muito menos para chegar a Izman. Mesmo se esvaziasse o caixa da loja e não fosse pega, não conseguiria ir tão longe.
Eu precisava de um novo plano. E rápido.
O sino de ferro na porta soou, e só tive tempo de varrer minha coleção patética de moedas do balcão antes que Pama Al’Yamin entrasse com seus três filhos.
O dia se arrastou com a lerdeza do deserto enquanto eu tentava pensar num jeito de escapar da Vila da Poeira. No final da tarde, minha cabeça pendia de cansaço conforme o calor tentava me arrastar para as profundezas do sono.
O som de cascos de cavalos me fez levantar o olhar a tempo de ver um punhado de soldados passando. Fiquei de pé, nervosa, com a boca seca. Tamid dissera que o Exército estava vindo para lidar com Tiroteio. Então o que aqueles homens estavam fazendo ali? Será que alguém tinha contado a eles sobre o Bandido de Olhos Azuis e apontado na direção da única garota que poderia desempenhar esse papel?
Um vulto mergulhou na loja, rápido como uma sombra, encolhendo-se no ponto cego entre a porta e a janela. Tateei em busca do rifle que tia Farrah guardava embaixo do balcão. Mas ele não avançou na minha direção. Ficou tão imóvel que pensei que tivesse parado de respirar. Um soldado montado passou sem olhar para a loja.
Esperei até que a barra estivesse limpa para falar:
— Belo dia para se esconder por aí.
Ele virou para mim. Seu sheema mal amarrado caiu do rosto e o enxerguei claramente à luz do fim da tarde que entrava pela janela. Meu coração deu um salto. Era o forasteiro.
Me esforcei para manter uma expressão impassível. Ele me deu um sorriso incompatível com a tensão em seus ombros.
— Só precisava sair um pouco do sol. — Sua voz era confiante e suave, como minha lembrança da noite anterior. Não havia qualquer sinal de que me reconhecesse, e senti uma ponta de decepção.
— Esta cidade não é exatamente grande, viu? Eles vão acabar procurando aqui dentro mais cedo ou mais tarde. Diria que mais cedo. — Outro cavalo passou trotando, então diminuiu o passo, dando a volta. Parou do lado de fora da loja e um soldado montado falou alguma coisa. Dois outros cavalos entraram no meu campo de visão. Um músculo se contraiu na mandíbula do forasteiro. A faca que carregava era a mesma que havia pegado de Dahmad na noite anterior, quando tinha me salvado, e eu o abandonara para se virar sozinho. — Talvez seja melhor achar outro lugar para se esconder.
Sua mão ainda estava brincando com o punho da faca quando ele olhou para mim, confuso. Dei um passo para trás, apontando com a cabeça em direção ao espaço embaixo do balcão. O soldado desmontava do cavalo. No segundo em que virou de costas, o forasteiro correu a curta distância entre a porta e o balcão, saltou por cima dele e parou tão perto de mim que senti seu ombro roçar no meu antes de se abaixar. Mudei rápido de posição para ficar de pé na frente dele um segundo antes de os soldados chegarem. O primeiro ficou parado na entrada bastante tempo, vasculhando com os olhos cada canto do lugar minúsculo, com mais um soldado de cada lado.
Finalmente, seu olhar parou em mim.
Ele era novo. Seu cabelo estava penteado para trás com mais cuidado do que o da maioria dos soldados, e ele tinha um rosto redondo que o deixava com uma aparência inofensiva. Mas a faixa dourada atravessando seu uniforme mostrava que ele estava no comando.
— Boa tarde, senhor — eu disse com a minha melhor voz de atendente de loja. Estava plenamente ciente do forasteiro embaixo do balcão, tentando controlar sua respiração.
— É comandante para você. — Sua mão estremeceu, e ele transformou o gesto numa ajeitada de mangas.
— Posso ajudá-lo, comandante? — Eu tinha aprendido cedo a demonstrar falso respeito ao Exército.
Os dois outros soldados se posicionaram na porta. Como se eu pudesse tentar fugir ou algo parecido. Um deles era mais velho e tinha toda a aparência de um soldado de carreira: costas duras, olhos focados. O segundo era mais novo do que o comandante, talvez até do que eu. O uniforme era maior que ele e seu olhar estava meio perdido. Podia apostar que não sobreviveria tempo o bastante para parecer um soldado de verdade.
— Estou atrás de um homem. — O sotaque do norte do comandante era ríspido e refinado. Senti o braço do forasteiro raspar na minha perna quando ele ficou tenso. Eu não sabia se era por causa da voz do soldado ou porque achava que eu estava prestes a entregá-lo.
Pisquei para o comandante, me esforçando para parecer o mais inocente possível.
— Engraçado, a maioria dos homens por aqui está atrás de uma mulher. — As palavras saíram da minha boca antes de eu lembrar que ele poderia dar um tiro na minha cabeça e achar justo. O mais velho dos dois soldados tossiu, disfarçando o riso.
O comandante apenas franziu a testa, como se achasse que eu não tinha entendido.
— Um criminoso. Você o viu?
Dei de ombros.
— Vi algumas pessoas hoje. Pama, uma senhora gorda, e seus filhos estiveram aqui algumas horas atrás, e o pai sagrado também.
— Esse criminoso não é da região. — Ele virava a cabeça rápido de um lado para o outro, analisando a pequena loja. Começou a andar pra lá e pra cá. Seus passos fizeram as garrafas de bebida na prateleira atrás de mim tilintar.
— Ah, é? — Eu o acompanhava com a vista conforme ele caminhava até a porta do depósito e apertava os olhos para examinar as pilhas de enlatados. Nossos suprimentos eram esparsos demais para esconder alguém.
Quando o comandante virou novamente na minha direção, notei uma pequena mancha vermelha no balcão. Parecia uma gota de sangue. Coloquei a mão sobre ela da forma mais casual que consegui.
— Você saberia se o tivesse visto — o jovem comandante disse em seu sotaque precisamente treinado.
Sorri como se meu coração não estivesse acelerado, me dizendo para sair correndo.
— Como falei, vi poucas pessoas hoje. Poucos forasteiros também.
— Tem certeza?
— Bem, fiquei aqui o dia todo. Pouco movimento, por causa do calor e tudo o mais.
— Não é inteligente mentir para mim, garota.
Mordi a língua. Ele era um pouco mais velho do que eu. Dezoito, dezenove anos no máximo. Provavelmente a mesma idade do forasteiro.
Cruzei os braços, com cuidado para esconder a mancha de sangue, e me inclinei sobre o balcão com um sorriso.
— Ah, eu não minto, comandante. Afinal, mentir é pecado, não é? — A piada interna não funcionava sem Tamid.
Para minha surpresa, o mais novo dos dois soldados entrou na conversa:
— Este deserto é um antro de pecados.
O comandante olhou para o soldado no mesmo instante que eu. Achei que ele fosse levar uma bronca por ter falado sem receber ordem para isso. Mas o comandante não disse uma palavra. Não tinha sido à toa que o soldado mais velho não se esforçara muito para esconder o riso. Nenhum comandante que se desse o respeito deixaria um soldado tomar a iniciativa daquele jeito.
Os olhos do soldado mais novo encontraram os meus e me dei conta com um susto que também eram azuis.
Eu nunca tinha conhecido outro mirajin de olhos claros. Habitantes do deserto tinham cabelo escuro, pele escura, olhos escuros. Eram os gallans que tinham feições pálidas.
Só porque eles tinham direito a nossas armas, o Exército de Gallan parecia achar que tinha direito a tudo no deserto. Poucos anos antes os homens da Vila da Poeira tinham enforcado a jovem e bela Dalala Al’Yimin porque um soldado gallan tinha se interessado por ela. Todas as mulheres na cidade confortaram a mãe de Dalala dizendo que era a melhor coisa a fazer, já que ela não servia para mais nada agora que o soldado a usara e jogara fora. Naquela noite encarei meus olhos azuis no espelho e pensei no gallan de olhos e cabelos claros. Por anos não entendera realmente o que meu pai queria dizer quando ficava bêbado e dizia que minha mãe era a prostituta de um forasteiro. Eu tinha catorze anos na época, idade suficiente para entender que as pessoas não acreditavam que o homem do deserto de olhos escuros com quem minha mãe (também de olhos escuros) se casara era meu pai.
Cheguei à conclusão de que minha mãe só tinha sido mais esperta do que Dalala. Ela se casou com Hiza a tempo de fingir que ele era o responsável por sua gravidez, e não um soldado estrangeiro que a pegou sozinha e contra sua vontade em uma noite escura do deserto. Quando nasci com aqueles olhos, era tarde demais para que me acusassem de não ser filha de Hiza.
Parecia que o soldado magricela tivera uma mãe esperta como a minha. Mas ela não fora esperta o suficiente para mantê-lo longe do Exército. O “pai” provavelmente queria se livrar dele, imaginei. Por isso ele estava de uniforme apesar de ser novo demais, magricela demais e espertinho demais para durar muito tempo.
Quando seus olhos azuis encontraram os meus, o calor do deserto pareceu mais sufocante. Como se a loja estivesse encolhendo ao nosso redor e o ar ficasse mais espesso. Senti uma gota de suor rolar pela nuca.
— É verdade, Noorsham. — A voz do comandante trouxe minha atenção de volta, e ele deu outra puxada nervosa nas mangas. Fez um sinal para os dois soldados. O mais velho se inclinou na direção do mais novo e disse algo para ele antes de conduzi-lo para fora, segurando com força seu cotovelo. Achei estranha essa comunicação entre os dois.
Mas não tive tempo de refletir muito, porque agora estava sozinha com o comandante. E com o forasteiro escondido. Me ocorreu que talvez o comandante só tivesse se livrado de qualquer um que pudesse interferir. Encostei no rifle sob o balcão.
O comandante apoiou os braços no balcão para que pudesse olhar diretamente para mim.
— Esse homem é perigoso. É um mercenário, só pensa em dinheiro. Estamos no meio de uma guerra. — Aparentemente ele achava que eu poderia ter vivido dezesseis anos sem notar os soldados gallans no nosso deserto. — Miraji tem mais inimigos do que você é capaz de entender. E qualquer um deles pode estar pagando esse homem. Se servisse aos seus propósitos, ele cortaria a garganta de uma garota. Só que faria outras coisas com ela antes, se é que você me entende. — Minha mente voltou para a noite anterior, para o desconhecido que se colocou na linha de tiro para salvar um garoto. — Se você o vir, é melhor avisar seu marido.
Franzi a testa, fingindo estar confusa.
— Não tenho marido.
— Seu pai, então. — Ele se afastou de mim, ajeitando as mangas.
— Também não tenho pai. — Continuei fingindo ser burra. — Tenho um tio, serve?
O comandante assentiu com a cabeça, aparentemente convencido de que eu era burra mesmo, e não uma mentirosa. Eu o observei caminhar até a porta.
Mas nunca fui boa em ficar com a boca fechada.
— Senhor… comandante! — chamei, mantendo os olhos no chão, como uma boa garota na presença de um oficial. Com a cabeça baixa, meu olhar encontrou o do forasteiro. Alguma coisa mudou na expressão dele, e por um momento me perguntei se me reconheceu. — Esse mercenário. Ele é procurado pelo quê?
O comandante parou no alpendre.
— Traição.
Levantei a sobrancelha para o forasteiro, inquisidora. Ele piscou para mim, e não pude evitar devolver um sorriso.
— Então vou ficar de olho caso ele apareça, comandante.
Esperei até não conseguir mais ouvir o cavalo do comandante antes de puxar o forasteiro para cima.
— Traição?
— Você é uma boa mentirosa. — Um leve sorriso permanecia em seu rosto. — Para alguém que não mente.
— Pratiquei bastante. — A mão dele hesitou sobre a minha, os dedos no meu pulso. Afastei o braço e olhei para ele. Foi então que notei o vermelho em sua camisa branca, o mesmo do sangue no balcão.
— Vire. — Inspirei fundo. As costas da camisa eram um caos vermelho. — Não quero te preocupar nem nada — eu disse, tentando manter a voz calma —, mas você percebeu que levou um tiro?
— Ah. — Observando-o mais de perto, dava pra ver que ele se apoiava no balcão para permanecer de pé. — Tinha quase esquecido disso.

5 comentários:

  1. Obrigado pelo capítulo, Karina! =) 1º!
    Claro que ele não saberia que levou um tiro, e mais óbvio ainda que ele quase esqueceria disso, afinal, é todo dia que alguém vai para esquina e leva um tiro. kkkkkkk

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  2. Assim, aonde eu moro é normal ser baleado quando sai de casa, principalmente quando se é negro, a polícia que atira em você e diz que te confundiu com um traficante

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  3. Sem querer ser chato encontrei tres falhas no raciocinio ate agora
    Primeiro-personagem pobre-gasta muito dinheiro em pólvora para praticar a mira
    Segundo,cheiro doce (perfume,rosas,etc) no desserto
    Terceiro, o conhecimento nessa época era muito escasso então como teria escola

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    1. A cidade deles vive de armas, todo mundo tem acesso a pólvora e revólveres.
      E uma escola não implica aulas de biologia celular ou física complexa, lugares para aprender sempre existiram, sempre há o que ensinar. Ler, escrever, matemática básica, religião, métodos de produção das minas, história local, sei lá

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Boa leitura, E SEM SPOILER!