23 de setembro de 2018

Capítulo 36

CLEO
LIMEROS

— Ai!
— Peço desculpas, vossa alteza. — Lorenzo Tavera finalmente terminou de amarrar os laços nas costas do vestido de Cleo, tão apertados que ela mal conseguia respirar.
— Não me lembro de estar tão desconfortável na última prova — ela disse com uma careta.
— O desconforto é temporário — ele respondeu. — A beleza da seda e da renda é para sempre.
— Se está dizendo…
O costureiro deu um passo para trás, entrelaçando as mãos com alegria.
— Simplesmente deslumbrante! Minha melhor criação até agora!
Ela admirou o vestido no espelho. A saia tinha várias camadas de uma delicada seda e de cetim violeta, como as pétalas de uma rosa. Fios dourados se entremeavam pelo tecido, criando um brilho quase mágico sempre que o vestido refletia a luz. Várias costureiras — e o próprio Lorenzo — tinham passado semanas bordando graciosos pássaros voando no corpete.
Eram falcões, o que Cleo apreciou. Falcões eram o símbolo de Auranos, o símbolo dos Vigilantes e da imortalidade. Tinham o mesmo significado para Cleo que a fênix tinha para os kraeshianos.
A vida, os auranianos aprenderam nos dias que sucederam o cerco mortal da Tétrade sobre a cidade, consistia em amor, amigos e família, e em não colocar os próprios desejos acima do bem-estar de outras pessoas, não importava quem fossem.
Cleo gentilmente interrompeu uma das duas criadas que puxava seu cabelo na impossível tarefa de deixá-lo perfeito. Parecia que seu couro cabeludo estava em chamas. Metade dos cachos dourados tinha sido penteada em uma série intricada de tranças, e a outra metade estava solta, caindo pelos ombros e pelas costas. Lorenzo tinha solicitado que todo seu cabelo ficasse preso, para que a multidão que aguardava do lado de fora do palácio pudesse apreciar a beleza do vestido que ele tinha feito à mão, mas Cleo preferia daquele jeito.
— Acho que terminamos — Cleo disse ao olhar o próprio reflexo. Ela já estava praticamente recuperada do martírio de ter sido possuída pela deusa da água. O único sinal remanescente era um leve filete azul na têmpora. Uma de suas criadas, uma garota de Terrea, comentara que parecia um enfeite usado por suas ancestrais durante as celebrações da meia-lua. Ela dissera aquilo com tanto entusiasmo que Cleo tinha considerado um grande elogio.
Lorenzo sorriu quando a princesa foi na direção da porta.
— Está ainda mais lindo que seu vestido de casamento, na minha opinião.
— Acho que sim, por pouco, devo concordar. Você é um gênio. — O outro vestido era incrível, mas ela nunca tinha parado para apreciá-lo de verdade.
Hoje seria bem diferente.
— Eu sou um gênio — Lorenzo concordou com alegria. — Esse vestido de coroação será lembrado por toda a história.
— Sem dúvida — ela assentiu, contendo um sorriso.
Nic esperava por ela do lado de fora, impaciente.
— Você demorou uma eternidade para se arrumar. É assim que as rainhas fazem? Espere, agora que parei para pensar, você sempre demorou uma eternidade para se arrumar, mesmo quando era apenas uma princesa.
— Você não precisava me esperar, sabia? — Cleo perguntou.
— Mas como poderia perder um único instante do dia de hoje? — Ele caminhou ao lado dela pelo corredor. Jonas estava esperando do outro lado, também pronto para acompanhá-la até a sacada, onde Cleo faria seu primeiro discurso como rainha de Mítica.
— Tem certeza de que não mudou de ideia? — Jonas perguntou de braços cruzados.
— Poupe sua saliva — Nic lhe disse. — Tentei convencê-la do contrário durante a viagem toda até aqui, mas ela se recusa. Se quer a minha opinião, essa é a pior ideia de todas.
— Então ainda bem que não pedi sua opinião, não é? — Cleo sorriu para ele pacientemente. — Quando pretende partir em sua jornada para explorar o mundo com Ashur?
— Só na semana que vem. — Ele arqueou as sobrancelhas. — Não tente se livrar de mim tão rápido, Cleo.
— Eu nem sonharia com isso. — Cleo olhou para Jonas. — Você também quer protestar?
— É que parece… — Jonas estendeu as mãos. — Problemático. No mínimo. Mas também não sou a favor de governante nenhum, quanto mais dois que optaram por dividir o trono em pé de igualdade.
Nic soltou um gemido de frustração.
— Reinar com ele. Tem ideia de quantos problemas vai ter? Já leu algum livro de história? Isso nunca deu certo antes. Muitas discussões, brigas… até mesmo guerras! Morte, desordem, sangue e dor estão praticamente garantidos! E isso na melhor das hipóteses!
— E é por isso — Cleo disse com paciência — que vou viver um dia de cada vez. E também foi por isso que reuni um conselho de confiança que não vai ter medo de interferir, se for necessário.
Até então, esse conselho incluía Jonas, como representante de Paelsia, Nic, representando Auranos, e Lucia, representando Limeros. O conselho aumentaria com o tempo, mas Cleo achou que era um excelente começo.
Enquanto caminhavam, os três passaram por Olivia e Felix, que tinham ido viver no palácio limeriano.
Felix tinha ficado a pedido de Magnus, como guarda-costas pessoal dele e de Cleo — e para qualquer outro “problema” para o qual pudessem precisar dele. Ele concordara com entusiasmo. E, claro, realmente desejava que tais problemas fossem poucos e esparsos dali em diante.
Quanto a Olivia, Lucia tinha lhe contado o que acontecera com o Santuário. Que Timotheus estava morto, e o Santuário, destruído. Que todos os seus iguais não tinham mais lembranças da vida pregressa como imortais.
Depois do choque inicial e de um profundo luto, Olivia se consolou com a ideia de ser quem manteria a memória e a história dos Vigilantes viva.
Taran já tinha partido da costa de Mítica e dito a Cleo e Magnus que gostaria de voltar para a luta em Kraeshia. A revolução tinha acabado de começar por lá, e ele sabia que podia ajudar a derrubar um governo temporário já abalado.
E então havia Enzo.
Bonito em seu uniforme vermelho de guarda, ele meneou a cabeça para Cleo quando ela passou por ele no corredor. A marca do fogo tinha desaparecido imediatamente de seu peito depois que a Tétrade foi banida deste plano de existência. Enzo tinha se juntado a eles na viagem a Limeros para a coroação, mas insistira em voltar a Auranos logo depois para ajudar na reconstrução do palácio.
Cleo intuiu que aquilo tinha alguma relação com seu desejo de voltar para uma bela criada da cozinha do palácio, que achava que Enzo era o homem mais maravilhoso do mundo.
— Eles estão tentando convencer você a não fazer isso? — Magnus saudou Cleo quando o trio apareceu no corredor seguinte. — Estou chocado.
Ela se sobressaltou.
— Você me assustou.
— Você ainda precisa se acostumar com os labirintos deste palácio — ele comentou. — Lembre-se, você concordou em viver aqui metade do ano.
— É um dos motivos pelo qual esse vestido tem forro de pele.
O olhar apreciativo de Magnus percorreu o corpo dela, até concentrar-se nos olhos da princesa.
— Roxo.
— É violeta, na verdade.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— É uma cor kraeshiana.
— É uma cor comum que, sim, é usada por kraeshianos.
— Me faz lembrar de Amara.
Ah, sim. Amara. Ela tinha recebido uma mensagem da ex-imperatriz, de um local não revelado, parabenizando Cleo e Magnus pela vitória contra Kyan. Amara também dissera que esperava revê-los um dia.
Nerissa dizia que Amara tinha seu valor e merecia uma segunda chance. Ela tinha até decidido acompanhá-la por lugares desconhecidos.
Cleo tinha optado por não nutrir sentimentos ruins em relação a Amara, mas não tinha nenhum interesse em vê-la de novo.
No entanto, era impossível saber o que futuro lhe reservava.
Ela olhou para Magnus.
— Esse tom de violeta é a mistura perfeita do azul auraniano e do vermelho limeriano, Lorenzo me disse.
Um sorriso apareceu nos lábios dele.
— Você é tão inteligente quanto bela.
Nic resmungou.
— Acho que vou embora agora. Por que esperar uma semana?
— Já que insiste… — Magnus disse. — Eu com certeza não vou tentar impedi-lo. — E olhou para Jonas. — Minha irmã está procurando você.
— Está? — Jonas perguntou.
Magnus torceu os lábios em reprovação.
— Sim.
Jonas deu um sorriso irônico.
— Bem, então preciso ver o que ela quer, não é? — Jonas se aproximou de Cleo e lhe deu um beijo no rosto. — Por sinal, esse tom de violeta é o meu preferido. E você está linda, como sempre.
Cleo não pôde deixar de notar que Magnus franzia as sobrancelhas quando Jonas a elogiava. Talvez ele sempre tivesse feito isso.
— E você… — Magnus olhou para Nic.
— Eu o quê? — Nic perguntou.
Um sorriso apareceu no canto de sua boca.
— Ainda posso surpreendê-lo.
— Ah, você me surpreende — Nic afirmou. — Constantemente. Seja bom para ela ou vai se ver comigo, vossa majestade.
— Certo — Magnus respondeu.
Então Nic e Jonas os deixaram percorrer o resto do caminho até a sacada a sós.
— Ainda odeio aqueles dois — Magnus disse a ela. — Só para avisar.
— Não odeia, não — Cleo respondeu, achando graça.
Magnus balançou a cabeça.
— O que minha irmã vê naquela rebelde?
Ela conteve um sorriso.
— Se eu tiver que explicar, vou gastar saliva à toa.
Sempre que não estava com a filha, Lucia estava com Jonas. O único que parecia ter algum problema com aquilo era Magnus.
Ele vai superar, Cleo pensou. Provavelmente.
Um dia depois que a Tétrade tinha sido derrotada, eles receberam uma mensagem de Nerissa explicando o que tinha acontecido em Kraeshia. Ela contara que a avó de Amara tinha ordenado o assassinato do rei Gaius. E que tinha planejado o sequestro de Lyssa, fazendo parecer obra do deus do fogo.
Uma semana depois, Nerissa e Felix voltaram de viagem e entregaram Lyssa nos braços de sua grata e jovem mãe.
— Gosto muito de seu cabelo assim. — Magnus torceu uma longa mecha dourada em volta do dedo enquanto pressionava Cleo contra a parede do corredor. Eles estavam a poucos centímetros da sacada onde apareceriam diante de uma multidão vibrante de limerianos e fariam seu primeiro discurso como rei e rainha.
— Eu sei — Cleo respondeu com um sorriso.
Ele passou os dedos sobre o filete que emoldurava sua têmpora. Ela tocou de leve a cicatriz dele.
— Podemos fazer isso? — ela perguntou com uma leve dúvida. — De verdade? Ou vamos brigar todos os dias sobre tudo? Temos visões bem diferentes sobre um milhão de assuntos.
— É verdade — ele disse. — Já estou antecipando inúmeras discussões acaloradas que vão se estender até bem, bem tarde da noite. — Magnus abriu um sorriso. — É errado eu estar ansioso por todas elas?
Então ele a beijou com intensidade, roubando tanto seu fôlego quanto seus pensamentos.
Os dois fariam aquilo dar certo.
Mítica — Limeros, Paelsia e Auranos — era importante para ambos. Seu povo era importante. E o futuro se desenrolava diante deles, ao mesmo tempo e em muitos sentidos assustador e atraente.
Magnus pegou a mão dela, passando o polegar pela aliança dourada que Cleo usava agora, quase igual à dele. Quando ela o questionara sobre os anéis, ele insistira que não era a pedra sanguínea fundida e transformada em duas peças. Cleo não tinha acreditado, pois não havia visto o grosso anel dourado desde aquela noite fatídica. Se estivesse certa, Magnus tinha criado o mais poderoso par de alianças de casamento da história.
— Peço desculpas por interromper — uma voz surgiu entre o casal, deixando Cleo boquiaberta.
— Valia — Magnus disse, surpreso. — Você está aqui.
— Estou. — O longo cabelo preto da bruxa estava solto. Ele caía atrás de seu vestido cor de vinho.
Nenhum guarda se moveu na direção dela.
— Você não atendeu às invocações do príncipe Ashur quando precisamos de você — ele disse tenso.
Ela sorriu.
— Talvez eu tenha atendido. Talvez esteja atendendo agora. Mas que diferença faz? Vocês sobreviveram. E estão prontos para o resto da vida juntos.
É verdade, Cleo pensou. Mas ter uma ajudinha extra teria sido ótimo.
— Por que está aqui? — ela perguntou.
— Vim lhes entregar um presente. Um símbolo de sorte e prosperidade para o futuro de Mítica sob o novo reinado de seus jovens rei e rainha. — Valia entregou uma pequena planta com as raízes protegidas por um saco de tecido.
— O que é isso? — Magnus perguntou, olhando para a planta.
— Uma muda de videira — ela respondeu. — Que vai produzir uvas perfeitas ano após ano, como aquelas produzidas pelos melhores vinhedos de Paelsia.
— Muito obrigada — Cleo agradeceu, pegando a planta das mãos da mulher. — Infelizmente, não vai durar muito se não a plantarmos logo em solo paelsiano.
— Ela vai crescer bem onde quer que vocês a plantem, até mesmo em Limeros — Valia respondeu com confiança. — Eu prometo.
— Magia da terra. — Cleo supôs.
Valia assentiu.
— Sim. Ela com certeza ajuda. E desde que a Tétrade foi derrotada, sinto que minha magia aumentou. Fico grata por isso.
Não era a primeira vez que Cleo ouvia aquilo. Lucia também tinha dito que sua magia estava mais forte, que a influência que Lyssa tinha sobre ela não a incomodava mais.
— Vai ficar para o nosso discurso? — Magnus perguntou.
Valia assentiu.
— Pretendo me juntar ao povo na praça do palácio agora mesmo.
— Excelente — ele disse. — Muito obrigado pelo presente, Valia.
Cleo ficou paralisada quando a bruxa encostou a mão em sua barriga.
— O que está fazendo? — ela perguntou, dando um passo para trás.
— O filho de vocês vai ser muito forte e muito bonito — Valia disse. — E, no futuro, vai descobrir um grande tesouro que vai beneficiar o mundo todo.
— Nosso filho? — Cleo trocou um olhar chocado com Magnus.
Valia abaixou a cabeça.
— Desejo tudo de melhor para vocês, rainha Cleiona, rei Magnus.
Quando a bruxa se afastou, Cleo teve certeza de ter visto de relance uma adaga dourada muito parecida com aquela que Lucia tinha usado para destruir as esferas da Tétrade na bainha do cinto de couro de Valia.
Que estranho, ela pensou.
Mas o pensamento logo fugiu de sua mente. Ela estava concentrada em outra coisa que Valia tinha dito.
O filho deles.
O vestido estava mesmo muito mais apertado. E ela não conseguia manter o café da manhã no estômago ultimamente, mas tinha concluído que era por causa do nervosismo de iniciar a excursão de coroação com Magnus.
— Um filho? — Magnus perguntou, sem fôlego. — Ela acabou de dizer algo sobre nosso filho?
Cleo tentou encontrar a própria voz.
— Disse, sim.
Magnus encarou o rosto dela com olhos arregalados.
— Tem alguma coisa que ainda não me contou?
Ela soltou uma risada nervosa.
— Talvez possamos discutir isso com mais calma depois do discurso?
Um pequeno sorriso surgiu no rosto de Magnus.
— Sim — ele disse. — Logo depois.
Cleo concordou, esforçando-se para conter as lágrimas de felicidade.
De mãos dadas, eles se aproximaram das portas que levavam à sacada.
— Ver Valia de novo… — Cleo disse. — O rosto dela me pareceu tão familiar, como se eu já a tivesse visto em algum lugar antes.
— Onde? — Magnus perguntou.
Então ela se lembrou.
— Aquele livro sobre sua deusa que eu tinha começado a ler. Continha as ilustrações mais incríveis que já vi. Tão detalhadas…
— E com quem a bruxa se parecia? — ele perguntou.
— Com a própria Valoria — Cleo respondeu, incapaz de esconder o sorriso. — Acha que é possível que tenhamos acabado de receber um presente e uma profecia de sua deusa da terra e da água?
— Imagine se fosse mesmo verdade? Se Valia de fato fosse Valoria? — Ele riu. Como Cleo adorava o som raro da risada de Magnus Damora.
— Você tem razão — ela concordou. — É ridículo, mas ambas são muito bonitas.
— Não tanto quanto você, minha adorável rainha. — Magnus se aproximou e juntou os lábios aos dela. — Agora… está pronta?
Cleo observou o rosto do marido — o rosto de alguém que tinha passado a amar mais do que qualquer um ou qualquer coisa no mundo todo, em toda a vida.
Seu amigo. Seu marido. Seu rei.
— Estou pronta — ela disse.

10 comentários:

  1. Ah! Apaixonada por esse casal! Agora imaginando como será o filhinho deles. <3

    ResponderExcluir
  2. To morrendo...Porque acabou????? Li em dois dias de tão empolgada!!!! Deveria ter lido mais devagar...O que farei da vida agora?

    ResponderExcluir
  3. lindo!! Amo finais felizes!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Como será o filhinho deles?
      Aiiii to muito empolgada e triste por te acabado

      Excluir
  4. Como assim eles soltam essas informações e pronto acabou !!!!!!! Meu deusssss

    ResponderExcluir
  5. AMEEIIIII ESSA COLEÇÃO, ESSE CASAL ENTÃO <3 <3
    VARIOS PERSONAGENS QUE AMEIIII MAGNUS, CLEO, JONAS, LUCIA, NICOLO
    AMEIIII MUITO ESSES LIVROS ESPERO QUE VENHA UMA SEGUNDA COLEÇÃO PRA CONTINUAR ESSE MARAVILHOSO MUDO DE MÍTICA.

    (ALENKAR)

    ResponderExcluir
  6. E viveram felizes... ah, viveram plenamente! Amei a série!!!!

    ResponderExcluir
  7. Muito boa a série fiquei encantada. Obrigada por postar Parabéns pelo blogue nota 1000

    ResponderExcluir
  8. Ah, esse casal é tão lindo ♥

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!