1 de setembro de 2018

Capítulo 36

LUCIA
LIMEROS

Lucia gastou até a última moeda em uma carruagem para chegar ao palácio limeriano. Seu verdadeiro lar. No caminho, usou a magia da terra para curar o próprio ferimento. A dor causada por ele agora era apenas uma lembrança. Ela podia se curar, mas não conseguira salvar Ioannes.
Eu tentei, ela pensou. Nunca me esforcei tanto por alguma coisa antes. Sinto muito por ter falhado.
Quando chegou ao palácio estava quase amanhecendo.
As torres negras de granito se estendiam até o céu — preto sobre preto. Ela passou pelo palácio, ignorando a acolhida que poderia lhe oferecer, e andou pelas trilhas escuras que serpenteavam pelo jardim calmo e silencioso, tão diferente daquele vívido e cheio de luz do palácio auraniano.
Tão diferentes um do outro, mas incrivelmente belos, cada um a seu modo. Sentiu vontade de ir até o penhasco com vista para o Mar Prateado, agora iluminado apenas pelo luar. Parou na beirada e olhou para a água negra e reluzente que batia contra a praia rochosa abaixo.
Segurava a adaga de Ioannes ao lado do corpo. Ainda estava coberta com seu sangue.
O corpo dele desaparecera de seus braços em um lampejo de luz instantes depois de sua morte. Se isso não tivesse acontecido, nunca teria deixado o templo; teria ficado ali ao seu lado por toda a eternidade. Mas não havia mais nada para ela naquele lugar.
Pouco antes de seu último suspiro, Ioannes tinha pedido que ela fosse para aquele lugar e esperasse.
E foi o que fez.
De repente, ouviu passos na neve atrás dela, anunciando que alguém se aproximava. Mas Lucia não se virou. Concentrou-se na água, no horizonte distante, enquanto a lua se escondia cada vez mais.
— Mas que noite — disse uma voz feminina, calma e melodiosa.
— É mesmo.
— Sabe quem sou, não?
Esperando ver um monstro rastejante atrás dela, Lucia se virou e encarou a mulher que havia destruído tudo. Em vez disso, encontrou a mesma beleza dourada daquela visão assustadora do passado.
Os olhos de Melenia pareciam safiras com espirais de ouro derretido. Eram hipnóticos. Ela usava um vestido de platina e cristal. A pele brilhava, e o cabelo era uma cascata de ouro, emoldurada pela escuridão absoluta atrás dela.
Sua beleza era tão intensa — tão irreal — que era aterrorizante.
— Tenho certeza de que está com muita raiva de mim — disse Melenia, desviando o olhar na direção da adaga na mão de Lucia. — Mas qualquer tentativa de se vingar será em vão. Sou imortal, até mesmo aqui, agora que a parede entre nossos mundos finalmente enfraqueceu. Essa arma não funcionará comigo.
Uma névoa pairava ao redor de Lucia, uma névoa de dor e pesar. Mal conseguia enxergar através dela, mas tinha que tentar.
— Ela não é para você.
— Que bom ouvir isso. Mesmo assim, entendo como se sente. Estou certa de que Ioannes falou muito a meu respeito, mas não deve acreditar em nada.
— Você queria que ele me matasse.
— Queria que fizesse você sangrar. Seu sangue é poderoso, tão poderoso que quebrou a maldição que me manteve naquela prisão por tanto tempo. Agora deixei o Santuário pela primeira vez em mil anos, graças a você.
Lucia segurou o cabo da adaga com mais força.
— Que bom para você.
Melenia sorriu.
— Sei como é amar alguém, sentir tanto sua falta que parece que seu coração vai se partir.
— Já sentiu isso?
— Sim. Por séculos. Mas logo estarei com meu amado de novo.
— Foi por isso que fez tudo aquilo; por ele. Por isso Ioannes está morto. Por isso centenas morreram para lavar seu caminho com sangue. Tudo para você reencontrar seu amor perdido. Com o cristal do fogo.
Um brilho de surpresa acendeu os belos olhos da imortal.
— Ioannes foi mais transparente do que eu esperava, afinal.
A voz moribunda do rapaz que amava ecoava nos ouvidos de Lucia.
Os cristais não são a verdadeira magia da Tétrade, princesa. A magia está presa dentro deles. Um espírito elementar está aprisionado dentro de cada esfera. Esse é o nosso segredo. Era isso que guardávamos. Era isso que protegíamos do mundo… e do que protegíamos o mundo.
O olhar de Melenia se tornou mais sério, mas o sorriso permanecia.
— Fazemos o que for preciso pelo verdadeiro amor.
O deus do fogo, o mais poderoso dos quatro da Tétrade, preso em uma esfera âmbar, Ioannes havia sussurrado a ela. Para libertá-lo, Melenia destruiria o mundo.
Lucia sentiu um arrepio.
— Não, você está errada. O verdadeiro amor não é egoísta.
— Sua opinião foi registrada. Agora, há apenas uma coisa atravessando meu caminho para reencontrar meu amado depois de tanto tempo.
— Eu — disse Lucia.
— Infelizmente, sim. Sabia que Ioannes não conseguiria matá-la. Vi nos olhos dele; não importava o quanto usasse minha magia. Vi que o amor dele por você era verdadeiro. Garota de sorte. A maioria das pessoas nunca vive um amor tão profundo. Imagine só: aquele rapaz escolheu tirar a própria vida para não dar fim à sua.
A tristeza cegou Lucia por um instante até reunir forças para afastá-la.
— Como vai acabar comigo? — Lucia perguntou, a voz de novo desanimada.
— Assim como matei Eva. Roubei sua magia e também sua imortalidade… se bem que você já é mortal. Deve ser uma tarefa muito mais fácil, mas igualmente gratificante. Agora — ela disse, mantendo o sorriso cheio de ódio firme no rosto —, vamos acabar logo com isso.
Algo chamou a atenção de Melenia, e ela olhou no mesmo instante para o chão, à esquerda de Lucia.
— Esse sangue é seu? — ela disse.
— Sim — Lucia respondeu.
Melenia então olhou para o chão coberto de neve e viu o símbolo que Lucia havia desenhado com o próprio sangue. Um triângulo — o símbolo do fogo.
O sorriso de Melenia desapareceu, e seus olhos se arregalaram.
— O que você fez?
— Ioannes disse que eu podia desenhar esse símbolo em qualquer lugar para invocá-lo, agora que foi despertado. Cabe a ele decidir se deseja obedecer.
Os olhos de Melenia exploraram os arredores freneticamente, até notar um vulto se aproximando do penhasco.
— É você — conseguiu dizer, com a voz falhando. — É você mesmo.
O vulto era alto e usava um manto. Lucia não conseguia ver seu rosto, mas sabia quem era. A menor das emoções encontrou um caminho até seu coração, atravessando a tristeza entorpecedora que sentia.
Medo.
O vulto retirou o capuz e revelou cabelos loiro-escuros e olhos cor de âmbar. Era tão bonito quanto Ioannes — de uma forma sobrenatural. Todos os vigilantes eram belos e eternamente jovens, Ioannes dissera a ela.
Mas aquele jovem não era um vigilante.
Melenia pareceu confusa ao perceber que ele não ia correr em sua direção para tomá-la nos braços.
— Melenia — ele disse, aproximando-se e percorrendo-a rapidamente com os olhos. — Você conseguiu. Meus parabéns.
Por fim, seu sorriso voltou, e ela se aproximou dele, mas deixou a mão desabar ao lado do corpo antes de tocá-lo.
— Por milhares de anos esperei, meu amor. Fiz tudo o que pude para tornar esta noite possível.
— E sou grato por isso. Muito grato. — Ele estendeu a mão. Melenia encurtou a distância entre eles, e seus lábios tocaram os dele. Ela logo deu um passo para trás com uma expressão confusa.
— Você não retribuiu meu beijo.
— Não, não retribuí.
Ela pareceu se recompor, colocando sua perfeição resplandecente de volta no lugar, como se a rejeição de alguém que tinha esperado milhares de anos para beijar não a tivesse incomodado nem um pouco.
Lucia assistia, fascinada. Uma mulher antiga, poderosa e bela — o mais próximo de uma deusa que já havia visto — rejeitada por seu amado era uma visão no mínimo estranha.
Melenia acreditava mesmo que tudo aconteceria exatamente como queria?
O rapaz voltou o olhar para Lucia. Ela suspirou diante da intensidade de seus olhos cor de âmbar.
— Também preciso agradecer a você.
— Não agradeça.
— Mas devo agradecer. Estou livre por sua causa. O poder de uma feiticeira, no corpo de uma garota mortal… que extraordinário. — Ele passou os olhos por ela. — Você e eu, temos isso em comum.
— Não temos, não.
— Temos, sim. Ambos queremos aceitar quem somos; ambos queremos parar de ser usados e descartados ao bel-prazer dos outros. Ambos queremos desesperadamente ter controle sobre nosso destino, e nos vingar de nossos inimigos.
Lucia não respondeu. Estava tão surpresa que concordou com tudo o que ele disse.
— Infelizmente — ele continuou —, ainda há obstáculos no meu caminho para a liberdade absoluta, e limites para o poder que tenho no momento.
— Cuidei da maioria desses obstáculos — disse Melenia. — Dos anciãos, apenas Timotheus ainda vive.
— E você, é claro. Assim, há dois anciãos com o poder de me aprisionar mais uma vez. Dois a mais do que eu gostaria.
O rosto de Melenia foi tomado pela confusão e, depois, por um lampejo de dor, como se tivesse ficado profundamente magoada com o que ele havia dito. As coisas de fato não estavam acontecendo como Melenia tinha planejado. Se fosse outra noite, e fosse outra a vida perdida, Lucia talvez tivesse se deleitado com aquilo.
— Eu amo você — disse Melenia, irritada. Como se essas palavras tivessem importância para alguém como ele. — Matei por você. E fiz tudo para que fosse libertado e pudéssemos ficar juntos de novo.
— E agradeço por isso — o jovem disse. Parecia não ter mais de vinte anos, mas Lucia sabia que não era possível calcular sua idade. Ele era eterno.
— Quando ela se for, vamos conversar. Vamos conversar sobre tudo isso — Melenia virou-se para encarar Lucia, com uma expressão horrível no rosto, e o punho em chamas.
Então usaria magia do fogo para matá-la.
Parecia apropriado.
Lucia olhou para sua própria mão e a estendeu. Invocou o fogo de Melenia para si.
Melenia perdeu o fôlego quando Lucia roubou sua magia.
— O quê?
Ioannes tinha enfatizado essa lição e, na época, ela não entendera bem o motivo. Praticamente desde sua chegada, Lucia não compreendia por que ele era tão rígido, treinando-a até deixá-la exausta e frustrada.
Agora sabia que era para torná-la capaz de fazer isso.
Melenia estendeu a mão para formar uma lança de gelo, mas Lucia viu e a derreteu com um único pensamento.
— Pare com isso — Melenia gritou.
Então Lucia deu um passo à frente, agarrou o pescoço dela e olhou dentro de seus olhos cor de safira.
Ouça com bastante atenção, Ioannes dissera, em seus braços, momentos antes de desaparecer para sempre. Melenia virá atrás de você. Tentará matá-la, pois é a única com magia suficiente para derrotá-la. Ela rouba a magia de outros vigilantes para ficar mais poderosa. Você pode fazer o mesmo. Quando a magia dela tiver sido drenada, será temporariamente mortal.
Melenia mais uma vez invocou sua magia, e Lucia tornou a roubá-la com um pensamento. O medo revelou-se no olhar da anciã quando Lucia concentrou toda a sua força e, usando o que Ioannes tinha ensinado, drenou tanta magia — terra, ar, água e fogo — quanto pôde daquela criatura bela, porém maligna.
As mãos de Lucia brilhavam com uma energia dourada. Ela não se incomodava mais com o vento gelado e as ferroadas da neve que caía. Um calor percorria suas veias, e todo o seu corpo cantava com os elementia de Melenia.
Quando tomou o máximo possível, Melenia começou a tremer.
— Poupe-me — ela sussurrou, olhando fixamente para o jovem que não moveu um dedo para salvá-la. — Meu amor, por favor, poupe-me…
— Mate-a — ele disse, sinalizando para Lucia com a cabeça.
Lucia fincou a adaga no coração da vigilante, retirando a lâmina em seguida. Tinha mentido. A adaga era para ela, no fim das contas.
Melenia olhou para o ferimento que jorrava sangue como se estivesse hipnotizada de tão incrédula. Então estendeu a mão trêmula na direção do rapaz.
Ele se afastou.
— Mas eu amo você — ela sussurrou.
— E eu odeio você.
Ela o encarou, aterrorizada.
— Por que me odeia, se fiz tudo por você?
— Ajudou a me manter escravizado, Melenia. Não sou escravo de ninguém. Nunca fui. E nunca voltarei a ser.
Enquanto ele lançava um olhar assustador e furioso, Melenia deu um passo cambaleante para trás, tropeçou e caiu do penhasco. Apenas segundos antes de atingir a água, seu corpo desapareceu em um brilhante clarão, iluminando a impiedosa paisagem ao redor deles por um longo e fulgurante momento.
Lucia soltou a adaga, com o olhar fixo na água negra ao pé do penhasco.
Parecia importante testemunhar a morte de uma vigilante antiga e poderosa. Não era a primeira vez que matava uma pessoa — a primeira tinha sido a maldosa Sabina. Havia sido tomada pela culpa que sentia devido àquele momento de fúria incontrolável.
Naquela noite, suas emoções estavam muito mais contidas. Melenia merecia a morte, e Lucia se permitiu sentir apenas uma ponta de satisfação por ter sido sua executora.
Pouco depois, olhou para o deus do fogo que havia invocado com seu próprio sangue.
— Vai me matar? — perguntou, surpresa que tal pensamento não a deixasse mais morrendo de medo.
— Não — ele respondeu apenas. — Preciso de sua ajuda.
— Minha ajuda? — A ideia era ridícula. — Por que alguém como você precisaria da minha ajuda?
— Porque você pode me ajudar. — Ele apontou com a cabeça para a água lá embaixo. — Tem o poder de destruir aqueles que querem me controlar. E nunca mais quero ser controlado nem preso de novo.
Ela ficou em silêncio, com o coração disparado.
— Minhas irmãs e meu irmão também estão nestas terras, perdidos, no momento. Não são fortes como eu. Não conseguem assumir uma forma mortal com tanta facilidade. Estão à mercê de quem os encontrar. Precisamos localizá-los e mantê-los a salvo.
Esse talvez fosse seu destino. Estar ali, ao amanhecer, com o sangue de dois vigilantes em suas mãos. Melenia e Ioannes. Odiava uma. Amava o outro. Não havia mais ninguém no mundo em quem confiasse, ninguém que não quisesse usá-la por causa de sua magia e descartá-la assim que tivesse terminado.
Sem Ioannes, não havia ninguém para guiá-la ou ensiná-la.
A magia queimava dentro dela, o anel brilhava em seu dedo, mas, apesar de toda dor e todo sofrimento daquela noite, nunca se sentira tão poderosa em sua vida inteira.
— Você vai me ajudar? — o rapaz perguntou mais uma vez quando o silêncio se abateu sobre eles.
Ele era perigoso, Lucia podia sentir no fundo da alma. A liberdade daquele deus elementar seria forjada de dor, morte e fogo.
— Sim — ela disse.
Essa única palavra selou seu destino.
E ali, nos íngremes penhascos de Limeros, estava pronta para ver o mundo queimar.

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