23 de setembro de 2018

Capítulo 35

AMARA
KRAESHIA

Um mês depois

Amara resistiu à viagem desconfortável em uma carroça fechada que a levaria a uma sala trancada, onde passaria grande parte da vida, longe de todos os que ela pudesse tentar ferir.
Sua avó tinha documentado tudo o que ela havia feito. Com o mesmo Grande Profeta que quase concluíra a cerimônia de Ascensão como testemunha, ela havia acabado com a vida de Amara. Os relatos de Neela sobre o enlouquecimento da neta tirariam tudo dela.
Ela tinha passado a ser conhecida como uma garota que matara sua amada família em uma busca implacável por poder.
A parte mais irônica era que Amara não podia contestar nada do que a avó dissera, pois era tudo verdade.
Mas ainda estava viva. Os rebeldes que atacaram o salão de cerimônia tinham resgatado seu líder com sucesso, mas eram muito pouco numerosos para tomar o controle da Lança de Esmeralda ou da cidade.
Por enquanto, o Grande Profeta governaria. O que, francamente, a deixava irritada, porque o homem não tinha um único pensamento original dentro daquela cabeça idiota.
Mas, naquele momento, ela não podia se preocupar com poder. Estava mais preocupada em escapar.
Infelizmente, com os tornozelos e punhos acorrentados e a parte de trás da carroça trancada depois de sua última tentativa de fuga, aquilo não parecia remotamente possível.
Muito bem. Ela iria para o hospício. Fingiria e se comportaria e… bem, muito provavelmente seduziria um guarda, que acabaria lhe ajudando a fugir. Só que, no momento, precisava ser paciente.
Mas paciência nunca tinha sido um atributo de Amara Cortas.
Quando o movimento incessante da carroça tinha se tornado tão insuportável que ela teve vontade de gritar, o veículo parou de repente. Ela ouviu uma gritaria indiscernível, sons de metal e, finalmente, um silêncio assustador.
Amara não conseguia ver nada, apenas imaginar milhares de possibilidades do que poderia ter acabado de acontecer. Nenhuma acabava bem para ela.
Ela esperou, tensa, com um filete de suor escorrendo pelas costas ao ouvir o som de passos dando a volta na carroça. A tranca foi aberta e a porta se escancarou.
A luz do sol entrou na escuridão da prisão temporária de Amara. Ela bloqueou a claridade ofuscante com a mão até conseguir registrar quem estava bem à sua frente.
— Nerissa… — ela sussurrou.
O cabelo escuro da garota tinha crescido um pouco desde a última vez que Amara a vira. Estava comprido o bastante para ficar preso atrás das orelhas. Ela vestia calça preta e uma túnica verde-escura.
E carregava uma espada.
— Bem? — Nerissa disse ao embainhar a arma na cintura. — Vai ficar me olhando com cara de boba ou vai sair daí antes que seus guardas acordem dos golpes na cabeça que acabaram de levar?
Amara encarava a garota, sem acreditar.
— Está aqui para me matar?
Nerissa arqueou uma sobrancelha.
— Se fosse isso, você já estaria morta.
Talvez não passasse de um sonho. Só podia ser um sonho. Ou algum tipo de alucinação provocada pelo calor e pela claustrofobia.
— Você devia ter retornado a Mítica semanas atrás, com Felix e Lyssa.
— De fato voltei. Acha mesmo que eu deixaria Felix Gaebras sozinho com a bebê? Ele não teria a mínima ideia do que fazer com ela, mesmo sem o enjoo do mar.
Aquilo estava acontecendo, Amara percebeu. Não era apenas um sonho.
— Você voltou para casa… e agora está de volta?
— Mítica nunca foi meu lar, apenas uma breve parada em minha jornada. Que eu com certeza apreciei por um tempo. — Ela subiu na carroça e, com a chave na mão, soltou as correntes de Amara. — Caso ainda esteja confusa com tudo isso, estou resgatando você.
Amara balançou a cabeça.
— Não mereço ser regatada.
Mereço fugir, ela pensou. E sobreviver. Mas certamente não ser resgatada por outra pessoa.
Nerissa apoiou o ombro na lateral da carroça enquanto Amara esfregava os punhos doloridos e tentava se levantar. Sua perna já estava quase curada, mas ela ainda mancava. Talvez mancasse para sempre.
— Todos merecemos ser resgatados — Nerissa disse apenas. — Alguns demoram mais para perceber do que outros.
Amara saiu para a luz do dia, protegendo os olhos do sol de novo. A carroça não tinha ido muito longe, estavam quase no cais, bem perto do Mar Prateado. Ela olhou para os guardas inconscientes, percebendo que Nerissa não estava sozinha.
Mais três rebeldes estavam com ela, incluindo Mikah.
Amara perdeu o ar ao vê-lo.
Mikah apontou para ela com a ponta da adaga.
— Sei que contou a Nerissa e Felix sobre mim. E, se não tivesse feito isso, eu estaria morto. Mas saiba de uma coisa: se aparecer em Joia a partir de hoje, acabou. Você não é mais bem-vinda aqui.
Amara franziu os lábios e assentiu, resistindo ao ímpeto de falar. Ela só pioraria as coisas se tentasse se justificar.
Mikah não esperou. Ele e os outros dois rebeldes saíram andando sem olhar para trás.
— Acho que organizar meu resgate não ajudou você a fazer amizades — Amara afirmou.
Nerissa deu de ombros.
— Por mim, tudo bem. Venha, vamos caminhar pela praia. Tenho um navio esperando por nós no cais, assim podemos deixar esse lugar para trás.
Amara a seguiu, mancando mais enquanto caminhavam pela praia de areia.
— Por que fez isso por mim?
— Porque todo mundo merece uma segunda chance. — Nerissa observou a areia branca e o mar azul que se estendiam diante delas. — Além disso, a poeira baixou em Mítica. Kyan e seus irmãos foram derrotados, a magia retornou para… — Ela balançou a cabeça, franzindo a testa. — Lucia me explicou, mas ainda não consigo compreender. A magia está em todos os lugares agora. Está espalhada, em todos e em tudo, onde sempre foi seu lugar, e onde não pode fazer mais mal.
Amara sentiu um nó se desfazer no estômago. Kyan não existia mais. O mundo estava em segurança de novo.
— Fico feliz — ela disse em voz baixa.
— Fiquei feliz em poder ajudar ali por um tempo, fazer o que podia. — Um sorriso apareceu nos lábios de Nerissa. — Você não é a única que recebeu uma segunda chance. Estou fazendo o melhor uso possível da minha.
— Que curioso. Eu gostaria de saber mais sobre isso um dia.
— Um dia — Nerissa concordou.
Um pensamento surgiu na cabeça de Amara.
— Você viu meu irmão?
— Brevemente. Contei a ele o que você pediu e que nos ajudou a salvar Lyssa.
— E o que ele disse?
— Não muito. — Nerissa fez uma careta. — Você estava certa: ele vai precisar de um tempo para perdoá-la de coração.
O mesmo coração que eu esfaqueei, Amara pensou.
— Acho que a eternidade não será tempo suficiente — ela comentou.
— Talvez. Mas todos nós fazemos nossas escolhas e depois precisamos lidar com as consequências, sejam quais forem.
Sim, era verdade.
Tantas escolhas e tantas consequências…
— Diga, você já sonhou com alguma coisa na vida, além de ser imperatriz? — Nerissa questionou depois de caminharem em silêncio por um tempo.
Amara parou para refletir.
— Para ser sincera, não. A única verdadeira opção para mim era o casamento, mas descartei a ideia assim que pude. Acho que, antes de me tornar imperatriz, estava esperando o homem certo, alguém poderoso que eu soubesse que poderia controlar e manipular.
Nerissa refletiu.
— E agora?
— Agora não tenho ideia do que fazer com o resto da minha vida. — O ar marítimo era quente e tinha cheiro de sal. Ela respirou a liberdade inesperada que sabia que não merecia de verdade. — Por que deixou Cleo e voltou para cá? Sei que ela contava com você e a considerava uma verdadeira amiga.
— A princesa não precisa mais de mim — Nerissa respondeu apenas.
Amara não conseguiu conter uma gargalhada.
— E eu preciso?
Nerissa segurou a mão de Amara e a apertou.
— Sim, na verdade, acho que precisa.
Amara olhou para a mão de Nerissa, que não tentou se afastar.
— Então — Nerissa perguntou quando o cais surgiu à frente —, aonde quer ir agora?
Amara sorriu diante das possibilidades que se apresentavam, oportunidades que nunca tinha imaginado serem possíveis. Mas, talvez, em algum lugar pelo caminho, de alguma forma, mesmo que pequena, ela pudesse encontrar um meio de se redimir.
— Para todos os lugares — ela respondeu.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!