1 de setembro de 2018

Capítulo 34

CLEO
LIMEROS

Nic estava com o cristal. Era real. Um componente da lendária Tétrade estava ali, ao alcance de Cleo, e era tão bonito quanto ela imaginava.
— O que significa isso, Ashur? — O tom de Amara estava calmo, mas sua expressão era tão fria quanto os fragmentos congelados espalhados pelo templo.
— Nunca me interessei pela violência, minha irmã — ele disse. — Exceto quando absolutamente necessário. É nesse ponto que é mais parecida com o nosso pai do que eu jamais seria. Se ele soubesse que existe um cristal, reduziria este reino a pó para encontrá-lo, e mataria qualquer um que atravessasse seu caminho. É parecida demais com ele, mesmo que ele se recuse a aceitar.
Estavam trabalhando juntos, Nic e Ashur. O pensamento era por si só um alívio para Cleo, bem quando achava que tudo estava perdido. Olhou de relance para Magnus e viu que ele estava concentrado no confronto, com os punhos cerrados.
Amara parecia prestes a espumar de raiva.
— Não matei ninguém que não tenha se oposto diretamente a nós ou nos ameaçado. Mas não entendo. Como Nic chegou aqui antes? Estava amarrado!
— Amarrado… e com a adaga que dei a ele no navio.
Ela bufou.
— E o guarda?
— Tomei a liberdade de colocar um pouco de poção sonífera no frasco que sempre carrega. E também pedi ao condutor que nos trouxesse pelo caminho mais longo para garantir que Nic chegaria primeiro.
— A confiança que tem em seu produtor de poções nunca deixa de me surpreender.
— Ele é habilidoso, minha irmã. Muito mais do que imagina.
Amara o encarou, incrédula e enojada.
— Tudo isso para quê, Ashur? Para que esse criadinho pegue o cristal para você, como o leal lacaio que o treinou para ser?
Leal lacaio? Cleo olhou para Nic assustada, e ele respondeu com um olhar de repulsa e um sinal negativo com a cabeça, tentando refutar a alegação de Amara.
Ashur deu um passo à frente, aproximando-se do calor do fogo, onde a neve e o gelo derretidos formavam uma poça.
— Aquele cristal não deve ficar comigo, nem com nenhum outro mortal, e, principalmente, não com nosso pai. Ele já tem poder mais do que suficiente.
— Mas eu o quero — ela disse.
— Não. Essa magia deve ficar aqui, trancada a sete chaves. É perigosa demais para ser levada a qualquer outro lugar.
Amara olhou para o irmão como se o visse com clareza pela primeira vez na vida.
— Você é insano, sabia? Não tinha ideia de que era assim. Considerava-o irresponsável e desregrado, mas achava que podia ser engenhoso e astuto quando a situação exigisse. Gostava disso, mas agora foi engenhoso e astuto comigo. Achei que fôssemos mais parecidos.
— Estava errada.
Cleo permaneceu totalmente imóvel. Era verdade? Ele de fato se opunha à irmã em sua sede de poder?
Só de pensar em Amara tendo acesso à Tétrade, mesmo que apenas um dos componentes, Cleo se sentia mal. A garota era imprevisível, e naquela noite tinha mostrado que também era implacável.
— Só para constar — Nic falou, segurando firme o cristal enquanto se aproximava de Ashur —, e para responder a uma acusação anterior, não sou lacaio de ninguém. Mas estou ajudando o príncipe Ashur, e ele, por sua vez, também nos ajudou, Cleo. Pensei que estivesse me usando ou traindo, mas está do nosso lado. Nada disso seria possível sem ele.
— Não é uma graça? — Amara disse, ríspida. — Meu irmão, você nutre sentimentos de verdade por ele, no fim das contas. Não fazia ideia disso. Me enganou mesmo. Tudo por um guarda auraniano inútil que não serve nem para limpar suas botas.
Sentimentos de verdade? Nic havia contado a Cleo sobre o confuso beijo do príncipe. Talvez aquela confusão tivesse aberto o caminho para algo… mais?
Nic desviou o olhar.
Ashur estreitou os olhos.
— Desista, Amara. Você perdeu. Acabou. Ponha um fim nessa loucura.
Ela balançou a cabeça e começou a rir.
— Claro. Está certo. Eu estava fora de controle. Precisava de alguém que me sacudisse desse jeito, para mostrar que o caminho que havia escolhido era errado. — Ela soltou um suspiro trêmulo e se aproximou, então pegou a manga da camisa dele e olhou para seu rosto. — Sinto muito.
Cleo assistia descrente enquanto Amara abraçava o irmão.
— Você continua tentando me enganar — Ashur murmurou. — Mas não é tão fácil assim, minha irmã.
— Está errado. É fácil demais.
O metal reluziu em seu punho quando Amara puxou uma adaga das dobras de seu manto. Antes que Cleo pudesse gritar, ou mesmo respirar, Amara a cravou no peito de Ashur.
— Você escolheu esse destino — ela disse enquanto girava a lâmina com força. — Adeus, meu irmão.
Ashur agarrou os braços da irmã, empurrando-a para longe. Tirou a adaga do peito grunhindo de dor, e então caiu pesadamente de joelhos.
— Não! — Nic gritou, correndo para o lado de Ashur.
Amara sinalizou para o guarda, que acertou um soco no rosto de Nic. Ele caiu e deixou escapar o cristal, que rolou para longe pelo chão.
Amara se abaixou e o pegou.
Nic, com sangue escorrendo do nariz, arrastou-se para pressionar o ferimento no peito de Ashur com as mãos.
Cleo e Magnus assistiam, aterrorizados.
Ashur agarrou o manto de Nic, manchando-o com seu sangue.
— Lembre-se do que eu disse a você. Era verdade.
— Não vou esquecer — Nic sussurrou, com a voz falhando. — Prometo que não.
Ashur tombou sobre ele, com os olhos vazios e sem vida.
Tremendo, Cleo observava Amara com cuidado para identificar qualquer reação ao fato de ter acabado de matar o próprio irmão. Seu rosto estava impassível; o maxilar, firme.
— O imperador não vai gostar disso — Magnus disse, falando baixinho.
Amara soltou um pesado suspiro.
— É verdade, não vai. Quando eu contar que seu filho mais novo foi assassinado pelo herdeiro do rei Gaius, vai querer vingança. — Ela olhou de relance para Cleo, que devolvia um olhar de choque e nojo. — Vingança como deve ser, rápida e impiedosa, sem deixar nada para trás além de ossos. Agora, se me derem licença, preciso retornar a Kraeshia, onde poderei chorar a morte de meu irmão ao lado de meu povo. Mas obrigada por me guiarem até isto.
Amara guardou a esfera de água-marinha dentro do manto e apontou para três de seus guardas.
— Fiquem aqui e matem todos. Queimem os corpos. Não deixem nada para trás que possa indicar que um dia estivemos aqui. E vocês — ela gesticulou para os demais —, venham comigo.
Ela passou tão perto de Magnus que, por um instante, Cleo pensou que ele poderia se mover e quebrar o pescoço dela, mas não o fez. Aquilo, Cleo pensou, era uma pena. Sua tendência a recorrer à violência para resolver os problemas seria perfeitamente aceitável naquela ocasião.
Ela se virou e viu Nic segurando o corpo sem vida de Ashur nos braços. Nic não se mexia, mal respirava, o rosto congelado na expressão de dor e perda. O coração de Cleo doía por ele.
Nic sofria pela morte do príncipe, mas não teria que sofrer por muito tempo. A princesa já havia ordenado a seus guardas para garantirem que os três tivessem o mesmo destino do príncipe Ashur.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!