3 de setembro de 2018

Capítulo 33

CLEO
LIMEROS

Dessa vez, quando Cleo despertou, sabia exatamente onde estava.
E com quem.
Desde o primeiro instante acordada, só conseguia olhar para ele, que continuava dormindo ao seu lado.
Os acontecimentos da noite tinham transcorrido de maneira muito inesperada. Ele tinha ido atrás dela, arriscado a vida para tentar encontrá-la.
E tinha dito que a amava.
Magnus Damora a amava.
Cleo não conseguiu conter um sorriso — um sorriso assustado e nervoso, mas esperançoso.
Ele ficava tão diferente quando dormia. Mais jovem. Tranquilo. Belo. Ela tentou memorizar cada linha e cada ângulo do rosto de seu príncipe.
Magnus abriu os olhos devagar, e em instantes seus olhares se encontraram.
Ele franziu a testa.
— Princesa...
— Sabe — ela disse —, realmente acho que você devia começar a me chamar de Cleo, apenas. Títulos de realeza são tão... ultrapassados.
Ele manteve um olhar sério, mas os lábios se curvaram, formando um sorriso cauteloso.
— Acha mesmo? Hum. Não sei bem se gosto disso. Cleo. Tão curto, tão... alegre. E é assim que Nic chama você.
— É meu nome.
— Não, seu nome é Cleiona. O nome de uma deusa nunca deveria ser abreviado.
— Eu não sou uma deusa.
O sorriso dele se abriu, e Magnus tirou o cabelo dela do rosto.
— É animador o fato de você ainda não ter saído correndo daqui, para longe de mim.
— Mas eu não fugi, não é? — Cleo encostou os lábios nos dele, sentindo uma tontura diante da constatação ao mesmo tempo doce e assustadora do que sentia por ele. Ela não tinha se dado conta da verdade daqueles sentimentos até proferi-los em voz alta na noite anterior. Mas era real, mais real do que qualquer outra emoção que já havia sentido. — Espere — ela respirou fundo e sentou, cobrindo-se com a colcha. — Magnus... está claro lá fora.
Ele procurou a boca dela de novo, entrelaçando os dedos em seu cabelo.
— Claro, sim. Muito, muito melhor do que a escuridão. Eu adoro a claridade, pois me permite vê-la por completo.
— Não, Magnus... — Ela apontou para a janela. — Amanheceu. Já é amanhã.
Ele ficou tenso, depois praguejou em voz baixa.
— Por quanto tempo dormimos?
— Ao que parece, tempo demais. O castelo do lorde Gareth fica a poucos quilômetros daqui, e se mandaram mais guardas para me procurar... — Cleo o encarou, pessimista. — Precisamos sair daqui.
— Você tem toda razão. Vamos ter que deixar em suspenso essa importantíssima discussão sobre como devo me referir a você.
— Sim, logo depois de discutirmos o que fazer com Amara e seu pai.
— Uma coisa de cada vez. — Assim que Cleo mencionou o pai dele, a tensão voltou ao rosto de Magnus. — Vamos para Pico do Corvo, para encontrar um navio com destino a Auranos. Vamos ficar bem longe do rei. O lorde Gareth não deve concordar com a última decisão de meu pai.
— Conhecendo seu filho sorrateiro e chorão, isso é discutível.
— Excelente argumento.
— Mas eu conheço gente em Auranos — Cleo afirmou. — Nobres e diplomatas ainda leais a meu pai e a mim. Podem nos ajudar.
— Eu, implorando ajuda de nobres auranianos? — Ele levantou uma sobrancelha. — Podemos discutir isso depois?
Ela não conseguiu conter o sorriso.
— Está bem, depois.
Depois de se vestirem, Magnus encostou no braço dela.
— Quero que fique com uma coisa.
Cleo virou e viu que ele estava segurando o cristal da terra. Imediatamente o encarou nos olhos.
— Tive medo de perguntar se ainda estava com ela.
— Isso pertence a você. — Ele deixou a esfera na mão de Cleo e fechou seus dedos. — Não tenho nenhum direito sobre ela. — Magnus assentiu com firmeza antes que ela pudesse responder qualquer coisa. — Vamos.
Cleo guardou a esfera no bolso do manto enquanto ele abria a porta...
Para se deparar com o rei Gaius, que esperava sobre os degraus de pedra.
O coração de Cleo parou dentro do peito.
— Bom dia — disse o rei. — Que adorável chalé abandonado. Ouvi falar deste lugar, tão próximo à residência de lorde Gareth, então decidi trazer alguns guardas para investigar. Imaginei que seria um ótimo lugar para alguém se abrigar durante uma noite fria e tempestuosa.
Atrás do rei, havia quatro guardas com uniforme limeriano.
— Faz tempo que não nos vemos, Magnus — disse o rei. — Sentiu minha falta? E, o mais importante, está pronto para responder pelos crimes que cometeu?
— Depende. Você está?
— Não preciso responder a crime nenhum.
— Os kraeshianos armados que estão tomando conta de Limeros sugerem o contrário.
O rei suspirou.
— Por que transforma tudo em uma batalha entre nós?
— Porque tudo é uma batalha entre nós.
— Eu lhe dei inúmeras chances de provar seu valor, de me mostrar que é forte e inteligente e capaz de me suceder. E toda vez você me decepciona. Sua fuga para este pequeno chalé não passa de mais uma decepção. — Uma expressão de perversidade pura surgiu no rosto do rei. — Guardas.
Três guardas foram para cima de Magnus, e um agarrou Cleo. Nenhum dos dois resistiu quando foram escoltados para fora do chalé.
Quem levava Cleo era Enzo, o guarda gentil que tinha se envolvido com Nerissa.
— Sinto muito por isso, princesa — ele disse em voz baixa. — Mas estou cumprindo ordens.
— Eu compreendo. — Cleo não esperava a ajuda dele nem se humilharia a ponto de pedir. Os guardas limerianos eram treinados para seguir os comandos do rei.
O cadáver coberto de neve do guarda kraeshiano que Cleo tinha matado continuava no mesmo lugar, e ainda podia ser parcialmente visto quando saíram do chalé. Cleo o viu quando passaram, tentando encontrar uma forma de escapar daquela situação. Ela estava com o cristal da terra, que era inútil se não conseguisse acessar sua magia.
— Para onde está nos levando? — ela perguntou. — De volta ao castelo?
— Está falando comigo, princesa? — o rei questionou.
— Não, estou falando com os pássaros nas árvores.
O rei olhou para trás e deu um sorriso amarelo.
— Adorável como sempre, pelo que vejo. Não entendo como uma garota tão venenosa como você conseguiu manipular meu filho.
— Você não entende — Magnus vociferou. — Nunca entendeu.
— O que não entendo? O amor? — O rei riu. — É isso que você acha que é? Um amor pelo qual vale a pena cometer traição? Abrir mão de seu trono? Morrer, talvez?
Magnus fez uma careta.
— Qual é seu plano? — ele perguntou, não querendo dignificar as observações de seu pai com uma resposta. — Nos matar?
— Se for preciso, acho que terei que fazer isso. Mas tenho outra coisa em mente.
Magnus não tinha olhado para Cleo nem uma vez desde que saíram do chalé. Ela estava tentando não ficar nervosa com aquilo. Agora, mais do que nunca, precisava de coragem. Precisava de força.
O rei os conduziu para fora da mata, mas, em vez de seguirem na direção do castelo de lorde Gareth, foram até a beirada íngreme de um penhasco gelado cuja queda até um lago congelado tinha quinze metros.
— Quando eu era menino, minha mãe me trazia aqui todo verão — o rei contou. — Havia uma cascata bem ali. — O rei apontou para a esquerda. — Está congelada agora, como todo o resto. — Ele olhou para Magnus. — Não lhe contei muito sobre sua avó, não é?
— Não, pai, mas fico muito feliz em conhecer mais sobre a história da família neste momento.
— E é para ficar mesmo. Sua avó era uma bruxa.
Magnus piscou.
— Está mentindo. É impossível que eu nunca tenha ouvido falar disso.
— É, você sabe como são as fofocas... Os rumores se espalham como um incêndio descontrolado. É por isso que ela sempre manteve sua identidade em segredo. Não contou nem para seu avô. Só para mim.
— Nossa, que coincidência. Minha avó era uma bruxa, e minha mãe verdadeira também.
— Ah, sim. Isso. Admito que fiquei surpreso quando você acreditou que Sabina Mallius era sua mãe verdadeira. — Magnus lançou um olhar intenso para o pai, e o rei gargalhou. — Você não pode me culpar. Estava com uma espada no meu pescoço, ameaçando me matar. Precisei lançar mão de uma distração.
— Então era mentira? Apenas uma mentira.
— É claro que sim. Althea era sua mãe, mais ninguém.
Cleo viu Magnus perder o fôlego e fechar as mãos em punho.
— Muito bem, pai. Fui muito tolo ao esquecer o quanto você é cruel.
— Sim, suponho que eu seja mesmo. Se não fosse, nunca teria sobrevivido tanto tempo. — O rei virou para Cleo, inclinando a cabeça. — Você me causou um sofrimento extraordinário em seu pouco tempo de vida... mais do que pode imaginar.
— Eu? — ela exclamou, sem acreditar, recusando-se a revelar àquele monstro qualquer ponta de medo. — Nunca foi minha intenção causar sofrimento nem dificuldades. Só quero viver a vida para a qual nasci.
— Amara está muito zangada com você, sabia? Ela me pediu para levá-la de volta para cuidar de você com as próprias mãos, mas acho que não vou fazer isso. Se eu começar a lhe conceder muitos desejos, minha esposa pode começar a achar que tem algum poder sobre mim. Nenhuma mulher jamais terá poder sobre mim. Nunca mais.
O rei Gaius parou diante dela, encarando sua alma com olhos que pareciam dois poços sem fundo de ódio.
Finalmente, desviou os olhos dela e virou para Magnus.
— Amara acredita que devo mandar executá-lo por traição.
— E em que você acredita?
— Eu acredito na família. E acredito em segundas chances para a família... se forem devidamente merecidas.
— E como eu poderia merecer essa segunda chance, pai?
O rei assentiu, e um guarda jogou Cleo no chão, fazendo-a cair de joelhos.
— Você pode se provar merecedor por meio de um sacrifício de sangue. À deusa Valoria e a mim. Esta menina é uma ameaça para nós dois. Ela o levará à morte, se permitir. Eu também já tive que fazer uma escolha. Entregar minha vida à outra pessoa ou sacrificá-la e viver em prosperidade. Quando fiz a escolha errada, sua avó interveio, venceu meu amor e salvou minha vida. Se tomar a decisão errada hoje, farei o mesmo favor a você. Mas ainda assim não terá conquistado a redenção. Afinal, apaixonar-se não foi o único crime que cometeu e pelo qual deve pagar.
Cleo tentou atrair o olhar do príncipe, mas Magnus se mantinha concentrado no pai.
— Quer que eu a mate — ele afirmou.
— Rápido, sem dor. Uma espada no coração. Ou talvez um simples empurrão do penhasco. Escolha, ou vou escolher por você.
Magnus encarou o pai com uma expressão inflexível e indecifrável.
— Eu me recuso a aceitar que essa seja a única maneira de me redimir.
— Mas é, filho. Sei que é difícil, a coisa mais difícil que já lhe pedi. Mas é por isso que tem tanto valor. Faça isso, e perdoarei suas transgressões do passado. Você pode governar o mundo a meu lado.
— Pensei que pretendesse governar o mundo com Amara.
— É o que ela pensa também. E vou deixar que continue pensando assim por enquanto. Faça a coisa certa, Magnus. Não arrisque sua vida, seu futuro, por uma garota estúpida. Não vale a pena.
— Eu arriscaria minha vida, meu futuro, por Lucia.
Depois de tudo o que tinha acontecido, Cleo pensou, de tudo o que sua irmã adotiva o havia feito passar, Magnus ainda a amava?
— Lucia é diferente — o rei disse. — Ela era digna de seu sacrifício. Era poderosa. Essa tal Bellos — ele lançou um olhar perverso para Cleo — não passa de uma carcaça bonita sem nenhum conteúdo de valor; um peso radiante que o arrastará para o fundo do mar.
— Você tem razão, sei que tem razão, mas ainda me questiono. Sei que ela se tornou minha ruína.
Cleo não conseguia respirar.
— Alguns instantes desagradáveis, mas necessários, podem dar um jeito nisso — o rei afirmou. — O que você acha que sente por ela não passa de uma ilusão. Todo amor romântico não passa de uma ilusão. E ilusões desaparecem. O poder não desaparece; o poder é eterno.
Magnus assentiu solenemente, franzindo a testa.
— Pensei que tivesse destruído minhas chances de governar. Tentei pensar em outras formas de recuperar o poder, mas... você está certo. Não há outro jeito. Arrisquei tudo, perdi todo meu potencial por culpa de decisões idiotas. — Ele encarou o rei nos olhos. — E você ainda me ofereceria uma chance de me redimir por tudo isso.
O rei assentiu.
— Sim.
— Sua capacidade de perdoar é, ao mesmo tempo, surpreendente e uma lição de humildade. — Ele ficou tenso e depois também assentiu. — Se é o que preciso fazer para retomar meu poder, minha vida, meu futuro... então que seja.
Cleo observava os dois abismada. Aquilo não estava acontecendo. Não podia estar acontecendo.
O rei fez sinal para um guarda, que entregou a espada a Magnus. O príncipe olhou para o objeto que tinha nas mãos, como se calculasse seu peso.
— Olhe para o lago, princesa — Magnus a instruiu. — Prometo que será rápido.
Ela só conseguia ver a espada na mão de Magnus, refletindo a luz em sua lâmina afiada. Uma espada que, com um rápido movimento, acabaria com sua vida.
— Você... você pretende fa-fazer isso de verdade? — ela gaguejou. — Comigo? Depois... depois de tudo o que passamos juntos?
— Não há outra opção.
Cleo se esforçou para manter a compostura e a graça antes de morrer, mas a força lhe escapava como areia por entre os dedos.
— E como vai fazer? — ela perguntou, sem fôlego, o coração agitado como uma revoada de passarinhos. — Vai cravar a espada nas minhas costas quando eu não estiver olhando, como fez com Theon?
— Eu era um garoto naquela época, não me conhecia quando matei aquele guarda. Mas agora me conheço. Você também me conhece, Cleiona. O que significa que não vai ficar surpresa com a escolha que fiz.
Lágrimas escorriam pelo rosto dela ao olhar para a beirada do penhasco.
— Tudo me surpreende quando se trata de você, Magnus.
Ela pensou no próprio pai, o rei bom e nobre. Pensou em Emilia, em Theon, em Mira. Em todos os que havia perdido. Todos pelos quais lutava.
— Então faça — ela disse, rangendo os dentes, olhando para trás, na direção dele. — Faça de uma vez.
Magnus concordou, com um sorriso amargo.
— Muito bem, princesa.
Ele se virou e moveu a espada. Cleo se preparou e sentiu a rajada de vento provocada pela velocidade da lâmina de Magnus. Mas foi tudo o que sentiu.
Então, ouvindo um urro intenso e primitivo, virou-se e, surpresa, viu Magnus atacando o pai com um golpe furioso.
O rei levantou a própria arma bem a tempo, e as espadas se chocaram.
Estava claro que seu pai estava preparado para aquele ataque.
— Ah, Magnus, não fique tão surpreso — o rei exclamou. As espadas estavam travadas, o rosto dos dois muito próximos. — Conheço você, posso prever todos os seus movimentos, porque há muito tempo eu era como você. Mas ainda tinha esperanças, talvez, de que enxergasse a razão muito antes do que enxerguei.
Os guardas deram um passo à frente, e o rei os mandou parar.
— Fiquem onde estão. É hora de meu filho e eu resolvermos nossas diferenças sozinhos. Ele deve acreditar que tem alguma chance de vencer.
— Sou mais jovem — Magnus bradou. — E mais forte.
— Mais jovem, sim. Talvez mais forte. Mas a experiência é a chave para a esgrima. E tenho muita experiência em me proteger, meu filho.
O rei o empurrou para trás e girou a espada. Magnus a interceptou com a própria lâmina, chocando aço com aço.
— Experiência, você disse? Parece que ultimamente seu método preferido para se proteger é se esconder em seu palácio. Ou talvez se humilhar no exterior para homens mais poderosos – ou mulheres – e oferecer seu reino como uma maçã brilhante.
— Mítica pertence a mim e posso fazer o que quiser com ela.
— Quase me enganou. Parece que pertence a Amara agora.
— Amara é minha esposa. Apenas mais uma de minhas posses. Quando ela se for, serei imperador de tudo.
— Não, pai. Quando ela se for, você já estará morto.
As lâminas voltaram a se cruzar, e havia tanta força de ambos os lados que, para Cleo, parecia que os dois se equivaliam.
— Está fazendo isso por ela? — o rei perguntou com desdém. — Você se oporia a mim desse jeito e jogaria fora tudo o que poderia ser seu pelo amor de uma garota?
— Não — Magnus respondeu, rangendo os dentes pelo esforço necessário para lutar contra o pai. — Eu me oponho a você porque não passa de um monstro que merece morrer. E quando esse monstro morrer, vou consertar o erro idiota que cometeu subestimando Amara, e retomarei Mítica. — Ele acertou o pai com a lâmina, cortando seu ombro. — O que aconteceu com sua experiência? Parece que tirei seu sangue primeiro.
— E eu tirarei o seu por último. — O rei desviou do golpe seguinte com facilidade, surpreendendo visivelmente Magnus. — Nunca mostre toda sua força desde o início. Guarde para o final.
Gaius arremeteu e movimentou o punho, e a espada de Magnus voou de sua mão. Magnus ficou olhando atordoado para o objeto que estava caído a seis passos de distância.
O rei colocou a ponta da espada na garganta do príncipe.
— No chão.
Magnus lançou um olhar penoso a Cleo e caiu de joelhos diante do rei.
— Eu não queria ter que fazer isso — o rei disse, inconformado. — Mas você não me deixou escolha. Talvez não seja como eu, afinal. É fraco demais para fazer o que precisa ser feito.
— Você está errado — Magnus respondeu por entre os dentes.
— Enxerguei potencial onde ninguém mais enxergava. E, mesmo assim, aqui estamos. Acho que mereci.
Cleo estava balançando a cabeça, tentando encontrar palavras e se sentindo mais desesperada do que nunca.
— Por favor, não faça isso. Não o mate.
— É o que precisa ser feito. Nunca poderei confiar nele. Poderia trancá-lo na torre por meses, anos, mas não passaria um dia sem que eu soubesse que ele estaria planejando me matar de novo. No entanto, meu filho, terei o respeito de agir com rapidez.
Com o braço rígido, a expressão impiedosa, o rei levantou a espada.
— Rei Gaius! — Cleo gritou. — Olhe para mim!
Ele parou, a espada imóvel, mas não a abaixou. O rei olhou para trás, para Cleo, que estava na beira do penhasco, segurando o cristal da terra.
O rei piscou. Os guardas pegaram as armas, mas Gaius fez sinal para ficarem onde estavam.
— Sabe o que é isso? — ela perguntou calmamente.
— Sei — ele respondeu entre os dentes.
— E sabe o que vai acontecer se eu o derrubar a quinze metros de altura, sobre uma camada dura de gelo? Vai se estilhaçar em mil pedaços.
Cleo estava blefando, é claro — tinha visto o que havia acontecido quando Magnus arremessou a esfera contra a parede da sala do trono. Mas rezou para Gaius acreditar nela.
— Sei que quer isso — ela disse. — Sei que está obcecado pela Tétrade, mas que ainda não encontrou nenhuma.
Finalmente, o rei abaixou a espada.
— É aí que se engana, princesa. Estou com a esfera de selenita.
Cleo tentou não transparecer o quanto estava chocada.
— Está mentindo — ela disse.
— Não seria muito conveniente para você? Infelizmente, não estou mentindo. — Ele meneou a cabeça para o guarda mais próximo, depois para Magnus. — Fique de olho nele.
— Sim, vossa majestade.
Magnus não tirou os olhos de Cleo.
— Jogue — ele pediu. — Não o deixe tomar o cristal de você.
— Ótima sugestão — ela respondeu. Balançou o braço enquanto o rei se aproximava, para fazê-lo parar. — Então você tem ar, e eu tenho terra. Mas nenhuma das duas vale nada com a magia presa em seu interior, como já deve ter descoberto.
— Ah, minha cara menina, que decepcionante deve ser ter um tesouro como esse nas mãos e não fazer a mínima ideia de como acessar seu poder.
— E você sabe?
Ele assentiu.
— Minha mãe me ensinou. Foi ela que me contou as primeiras histórias sobre a Tétrade. De alguma forma, ela sabia que eu seria quem as invocaria um dia... todas elas. E viraria um deus mais poderoso que Valoria e Cleiona juntas.
— Como? — Magnus perguntou, e seu pai lançou um olhar intenso, que ele ignorou. — Pode muito bem me dizer. Mesmo se ela jogar a esfera, ainda vai nos matar. Seu segredo morrerá conosco.
Gaius inclinou a cabeça apontando para os guardas.
— Como se uma informação como essa os beneficiasse de alguma forma — Magnus zombou. — Vamos, pai, entretenha-nos em nossos momentos finais. Compartilhe o segredo de minha avó. Como se liberta a magia da Tétrade? E, se souber como, por que não o fez ainda? Por que não libertou a magia do ar e simplesmente tomou o Império Kraeshiano de uma vez, sem passar por essa inconveniência de negociações e acordos?
O rei ficou em silêncio, alternando o olhar entre Cleo e Magnus.
Finalmente, um sorriso retornou a seu rosto.
— É bem simples, na verdade. O segredo para a magia da Tétrade é o segredo para qualquer magia elementar poderosa.
O braço de Cleo já estava doendo por segurar o cristal por tanto tempo.
— Sangue — ela respondeu. — O sangue aprimora e fortalece os elementia.
— Não apenas sangue — o rei corrigiu.
Magnus ficou pálido.
— Por que isso não me tinha ocorrido até agora? É o sangue de Lucia, o sangue da feiticeira da profecia.
O rei respondeu apenas com um sorriso presunçoso.
— Que azar, pai. Lucia está perambulado por aí com seu novo amigo genioso, onde ninguém pode encontrá-los.
— Vou encontrar Lucia, não tenho nenhuma dúvida disso. Mas há outro componente importante para libertar a Tétrade. Talvez o sangue de Eva fosse suficiente por si só, ela fora criada a partir de pura magia elementar. Mas Lucia é mortal. Seu sangue precisa se misturar ao de um imortal para o processo funcionar adequadamente.
— De acordo com minha avó.
— Sim, de acordo com ela. Agora — ele disse, virando para Cleo —, me entregue o cristal.
— Você vai nos matar se eu o entregar. Vai nos matar se eu não o entregar. Parece que estamos com um grande problema aqui, não acha?
— Acha que pode negociar comigo, princesa? É tão ingênua, mesmo depois de todo esse tempo? Não. Deixe-me explicar o que vai acontecer. Você me entrega o cristal da terra e eu lhes concedo a graça de uma morte rápida. Se me causar problemas, se cambalear, espirrar, adiar o inevitável, vou matá-la devagar, bem devagar, e farei Magnus assistir à sua morte antes de fazer o mesmo com ele.
Cleo trocou um último olhar com Magnus.
— Então não me dá escolha.
Ela jogou a esfera de obsidiana do alto do penhasco.
O rei foi correndo para cima dela, tirando-a do caminho, e olhou para baixo, para o lago congelado, antes de se virar para ela com muita raiva.
— Sua vadia idiota!
Assim que o cristal atingiu a superfície sólida, um terremoto começou a balançar o chão, assim como tinha acontecido na sala do trono, quando Magnus jogara a esfera na parede.
Uma rachadura se formou no gelo, no primeiro ponto de contato com o cristal e, tão rápido quanto um raio, serpenteou pela encosta do penhasco. Um barulho ensurdecedor de ruptura e fragmentação, ecoou pela terra, e a borda de gelo onde estavam Cleo e o rei se quebrou.
Cleo balançou o corpo para se agarrar na beirada áspera de uma pedra coberta de gelo quando o solo em que se encontrava se desfez sob seus pés. O rei também tentou se agarrar em alguma coisa, mas não conseguiu.
Com um rugido, ele caiu de costas no abismo.
No momento em que a mão de Cleo escorregou, Magnus agarrou seu punho e a puxou para cima, apertando-a junto ao peito enquanto os afastava do perigo.
— Está machucada? — ele perguntou.
Ela só conseguiu responder que não com a cabeça.
Os guardas se aproximaram, mas Magnus estava em pé, puxando Cleo para ajudá-la a se levantar também. Ele pegou a espada caída do pai e a brandiu na direção dos homens.
— Afastem-se. Juro que mato todos vocês se chegarem mais perto.
Enzo estava com a testa muito franzida e parecia confuso e desgostoso.
— Precisamos ir atrás do rei — Enzo disse. — É possível que tenha sobrevivido à queda.
— Concordo — Magnus disse. — Só mantenham distância de nós.
— Como desejar, vossa alteza.
Foi preciso tempo e cuidado, mas Cleo e Magnus conseguiram descer até o fim do despenhadeiro, chegando à superfície do lago congelado, onde estava o rei, com a cabeça sobre uma pequena poça de sangue, que já começava a congelar.
Cleo recolheu a esfera preta, bastante visível em meio ao entorno branco. Mesmo sobre uma cama de gelo e neve, estava quente ao toque, e o filete indistinto de magia girava tempestuosamente.
Ela colocou o cristal no bolso e olhou para o rosto do Rei Sanguinário.
Magnus apenas ficou parado ali, sobre o pai, os braços cruzados diante do peito.
— É bom que esteja morto — ele disse. Apesar da violência de suas palavras, Cleo pôde notar certo lamento em sua voz, certa aspereza.
— Vou verificar — ela disse, ajoelhando-se ao lado do rei, e pressionou os dedos na lateral de seu pescoço.
Gaius levantou as mãos e agarrou o punho dela, abrindo os olhos.
Cleo estremeceu e tentou se afastar, mas ele a segurava com muita força.
Magnus colocou a espada na garganta do rei em um instante.
— Solte-a — ele exigiu.
Mas o rei não deu atenção. Apenas ficou olhando para Cleo, franzindo a testa, revelando dor nos olhos castanho-escuros.
— Sinto muito — ele sussurrou. — Sinto muito, Elena. Eu nunca quis machucá-la. Me perdoe, por favor. Me perdoe por tudo isso.
Ele virou os olhos, e a mão se soltou.
Cleo estava tremendo e se afastou rapidamente do corpo do rei.
Magnus verificou o pulso do rei e praguejou em voz baixa.
— Ele ainda está vivo. Juro, ele deve ter feito um pacto com um demônio das terras sombrias para sobreviver a uma queda dessas. — Quando Cleo não respondeu, Magnus olhou para ela. — O que ele disse a você? Ele a chamou de Elena? Quem é Elena?
Ela tinha certeza de que tinha escutado mal, mas quando Magnus repetiu o nome, soube que não.
— Elena — ela disse com a voz rouca. — Elena era o nome da minha mãe.
Magnus franziu a testa.
— Sua mãe?
Enzo se aproximou, mas não puxou a arma.
— Vossa alteza, o que quer que façamos?
Magnus hesitou, sem ter certeza.
— Não pretende nos prender?
— O senhor é o príncipe coroado. Seu pai está extremamente ferido, possivelmente perto da morte. É ao seu comando que devemos obedecer agora.
— E quanto ao comando de Amara?
— Não seguimos comandos kraeshianos, mesmo com uma esquadra às ordens da imperatriz. Somos limerianos. Cidadãos de Mítica, e vamos seguir apenas ordens suas. Todos os guardas limerianos seguirão apenas ordens suas.
Magnus assentiu e se levantou. Olhou nos olhos de Cleo.
— Então parece que temos uma guerra para planejar — ele afirmou.

3 comentários:

  1. Ah não caraleo não vai dizer que eles são irmãos ... NÃO PODE SER CARA NÃO OUSE FAZER ISSO NÃO OUSE

    Sabs

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    1. Acho que não, pois o rei gaius disse que ele e a Elena romperam e so depois é que ela se casou e teve as filhas

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Boa leitura, E SEM SPOILER!