23 de setembro de 2018

Capítulo 33

MAGNUS
AURANOS

Magnus não gostava de admitir seus erros. Nunca.
Mas tinha cometido um erro terrível.
Foi seu último pensamento antes que o deus do fogo tomasse seu corpo. E então só houve escuridão — uma escuridão ainda mais intensa, mais vazia e mais inesgotável do que a que tinha sentido no túmulo.
Saber que Kyan tinha vencido era a pior sensação que já tinha conhecido. Pior do que ter seus ossos quebrados a mando de Kurtis. Pior do que receber a notícia do assassinato de sua mãe. Pior do que ver a irmã se distanciando dele, pouco a pouco, quanto mais tentava se aproximar dela. Pior do que seu pai morrendo logo quando começaram a reconstruir sua relação difícil.
Mas então foi como se alguém tivesse estendido um braço na escuridão para segurar e puxar Magnus de volta à superfície
A pedra sanguínea estava de novo em seu dedo.
A fria magia da morte se misturava com fogo e vida, entrando em combustão, criando algo novo.
Doía como ser arrastado sobre carvão em brasa. Mas ele podia pensar de novo. E se mover.
Parecia que subia à tona para respirar.
Seus braços pegavam fogo, mas, assim que percebeu, as chamas se apagaram.
Nic olhou fixamente para ele. Sua mão estava vermelha e cheia de bolhas por causa do fogo, mas a pele de Magnus estava imaculada.
— Afaste-se — Magnus rosnou.
Nic fez o que ele mandou e voltou para o lado de Ashur, que logo envolveu a mão queimada de Nic em uma pedaço rasgado de sua camisa.
— Tire o anel do dedo. Faça isso agora, ou eu o destruirei.
Magnus demorou um pouco para perceber que era Kyan quem berrava aquilo. A voz de Kyan estava dentro de sua cabeça.
Magnus fez uma careta enquanto observava ao redor da sala do trono. Todos o encaravam com diferentes expressões no rosto.
Lucia, com apreensão. Jonas, que devia ter cometido a besteira de aparecer alguns minutos antes, com desprezo, preso por trepadeiras.
O olhar de Cleo quase o destruiu: dor misturada com raiva. Seu cabelo loiro estava desgrenhado, livre e solto. As linhas azuis no rosto e nos braços dela ainda estavam lá, perturbadoras como sempre.
Mas Cleo nunca tinha lhe parecido mais bela.
— Odeio você — Cleo disse enquanto se encaravam nos olhos.
Magnus se aproximou dela. Ela ficou tensa, mas não se afastou.
— Sinto por ouvir isso, Cleiona — ele disse com delicadeza. — Já que o que sinto em relação a você é bem diferente.
Aqueles olhos verde-azulados se arregalaram um pouco quando ele proferiu seu nome inteiro, e Cleo respirou aliviada.
Tinha virado um sinal entre os dois, quando ele usava o nome inteiro dela. Cleo agora sabia uma verdade que ninguém mais conhecia. Magnus estava no comando de seu corpo. Mas não sabia quanto tempo aquilo ia durar.
Taran e Olivia examinaram Magnus com cautela.
— Você está bem? — Olivia perguntou.
— Estou muito bem — Magnus disse tranquilamente, sabendo que seria melhor os dois não entenderem o que acontecera. — Está tudo sob controle.
Nunca uma mentira maior foi contada na história, ele pensou.
— Vou matar sua sobrinha! — Kyan gritou de dentro dele. — Vou queimá-la até só sobrarem cinzas.
Magnus encarou Olivia nos olhos.
— Pegue a criança.
Ela inclinou a cabeça.
— Criança?
— Lyssa. Traga-a aqui imediatamente.
Olivia trocou olhares com Taran.
— Não será possível.
— O quê? — Lucia exclamou. — Do que estão falando? Por que não será possível?
— Princesa! — Nic gritou para Lucia — Cleo está certa, Kyan não sequestrou Lyssa. Eles nunca planejaram isso, eu nunca a vi. Não sei onde está sua filha, mas não está com eles.
Taran gesticulou, e Nic saiu voando para trás, atingindo uma coluna com tanta força que Magnus ouviu o som, familiar demais, de ossos quebrando. Mas quando Ashur correu para o lado dele, Magnus viu que Nic ainda se mexia. Aquele rapaz definitivamente era resistente. Magnus precisava admirá-lo por isso.
A pedra sanguínea não tinha parado de machucá-lo um instante sequer. Era como se sua mão pegasse fogo, a dor abrasadora chegando até seus ossos.
Mas ele não ousou tirar o anel.
Lucia tinha algo nas mãos, uma adaga dourada que Magnus não tinha visto antes. Ela a levantou.
— Sabe o que é isso? — ela perguntou.
Magnus negou.
Olivia e Taran ficaram ao lado dele, mas ambos tinham o olhar fixo em Lucia.
— Feiticeira — Olivia disse, suavemente. — Acho que precisa usar uma lâmina diferente. Essa pode ser problemática.
Lucia levantou o queixo, com um olhar carregado de pura maldade.
— Torço para que seja, na verdade. Torço para que seja incrivelmente problemática para vocês.
— Impeça sua irmã estúpida de fazer o que quer que esteja pensando — Kyan rosnou. — Ou vou queimar tudo o que já amou na vida!
— Silêncio — Magnus balbuciou. — Lucia está falando.
— O que disse? — Taran perguntou.
— Nada, nada. Estou apenas apreciando o espetáculo. — Magnus apontou para a irmã. — Lucia, não vai prosseguir com o ritual? O tempo está acabando.
O olhar sombrio de Lucia cruzou o dele, mas não o reconheceu. Ela ainda não o enxergava além da ameaça que era Kyan.
— Eu queria encontrar outra maneira — ela disse ao passar o fio da lâmina dourada pela palma da mão, e depois pingar seu sangue em cada uma das esferas de cristal. — Mas não há outra escolha. Não sei se isso vai funcionar ou se vai matar você… — A voz dela falhou. — Magnus, sinto muito. Se eu nunca tivesse nascido, nada disso estaria acontecendo.
— Não diga isso — Magnus disse, com firmeza. — Você foi um presente desde o momento em que surgiu na minha vida. Nunca se esqueça disso.
Seus olhares se encontraram e se fixaram. E… sim. Lá estava.
Lágrimas correram pelas bochechas dela.
Lucia sabia que era ele.
— Impeça-a! — Kyan gritava dentro de Magnus. — Exijo que a detenha! Eu deveria ficar livre, livre com meus irmãos. Eu deveria governar este mundo! Redesenhá-lo como me conviesse! Não pode evitar isso! Eu sou fogo. Eu sou magia. E você vai arder!
As esferas começaram a brilhar com mais intensidade, como pequenos sóis.
— Vá em frente, minha irmã — Magnus disse, tenso, já sabendo como aquilo poderia terminar mal para ele. — O que quer que sinta que precisa fazer para acabar com isso, faça agora mesmo.
— O que está acontecendo? — Taran perguntou, dando um passo à frente. — Isso não está certo. Esse não é o ritual.
— Não — Lucia disse, balançando a cabeça. — Com certeza não é.
Lucia levantou a adaga bem alto e a cravou com força na esfera de obsidiana.
Taran se aproximava de Lucia rápido como um furacão, mas não antes que ela estraçalhasse a selenita com a ponta da adaga. Ele ficou paralisado, como se tivesse atingido uma barreira invisível, e seus joelhos cederam.
Magnus segurou a mão de Cleo, puxando-a para si.
— Faça! — Cleo gritou.
Lucia destruiu a esfera de água-marinha, e Cleo começou a apertar a mão de Magnus mais forte, a ponto de machucar, enquanto gritava.
— O que está esperando? — Magnus rugiu. — Acabe com isso!
A esfera de âmbar se estilhaçou ao entrar em contato com a adaga.
Magnus sentiu um golpe. Sólido, afiado e doloroso. Parecia que sua carne estava sendo arrancada dos ossos.
Ele tentou enxergar, apesar da dor, Lucia junto à mesa. Ela olhava para os pedaços quebrados das esferas da Tétrade. Ainda brilhavam, cada vez mais forte, até que sua luz começou ofuscar a irmã de seu campo de visão.
Mexa-se, Lucia, ele pensou, desesperado. Afaste-se delas.
Mas ela ficou parada no lugar, como se fosse incapaz de se afastar da magia que explodiria e com certeza destruiria a todos no processo.
Um instante antes de sua visão ficar totalmente branca, ele viu uma sombra — Jonas, livre das trepadeiras, pulando na direção de Lucia e tirando-a do caminho assim que uma enorme coluna de luz se ergueu das esferas despedaçadas.
A luz também jorrou dos olhos, da boca e das mãos de Magnus. Ele não conseguia enxergar, não conseguia pensar. Mas conseguia sentir.
A mão de Cleo ainda segurava a dele.
— Não ouse me soltar — Magnus gritou para ela em meio ao ensurdecedor sibilo que tomava conta da sala do trono. Uma tempestade de vento os envolveu, ameaçando levá-los para longe. Um violento terremoto fez o chão sob seus pés tremer.
— Os outros! — Cleo gritou.
Sim, os outros. Magnus esquadrinhou o caos que os cercava até ver Olivia. Ela se agarrava a Taran como ele se agarrava a Cleo.
Ele foi até Olivia, que pegou sua mão. Cleo fez o mesmo com Taran, cujo nariz sangrava e o rosto estava ferido e ensanguentado. O olhar de Olivia era arredio, apreensivo, mas, ainda assim, ardoroso, de alguém pronto para lutar.
Blocos de mármore caíam do teto destruído, quase os atingindo enquanto o vento girava e o chão se abria.
— Sinto muito! — Olivia berrou, mas mal se ouvia com o som da tempestade elementar que se formava ao redor deles.
— Nada disso é culpa sua! — Cleo respondeu.
Magnus gostaria de argumentar que era, sim, em parte, culpa de Olivia, mas não havia tempo.
— Fracote maldito — Taran rosnou. — Eu devia ter lutado com mais afinco.
— Devia mesmo — Magnus respondeu. — Mas ainda está aqui.
— Bem a tempo de todos morrermos.
Uma monstruosa rajada de fogo irrompeu diante de Magnus. Ele deu um salto para trás enquanto o fogo aumentava. Dava para sentir o calor queimando sua pele.
— Não — Magnus rosnou. — Não sobrevivi por tanto tempo para desistir agora.
— Sua irmã está ajudando eles — Taran berrou em resposta, e suas palavras quase foram levadas pela série de tornados que os cercava. Magnus olhou para eles incomodado, sabendo que cada um poderia parti-los ao meio se chegassem muito perto.
Eles já deviam ter sido partidos ao meio àquela altura, levando em conta tudo aquilo. Mas não tinham sido. Ainda não.
— Minha irmã, caso seja incapaz de compreender — Magnus comentou sem nenhuma sombra de dúvida —, está nos ajudando.
Lucia salvaria o mundo. Por que tinha duvidado dela, por um instante que fosse? Ele era tão tolo.
Magnus não conseguiu mais segurar a mão de Olivia, que voou para trás.
— Não! — Ele gritou.
Cleo apertou a mão dele com força, e o príncipe olhou para ela, quase cego por causa do feixe de luz destruidora que havia demolido a sala do trono.
Taran não estava em lugar nenhum.
— Para sempre — ela disse, lágrimas escorrendo pelo rosto. — O que quer que aconteça, você e eu estamos juntos para sempre. Certo?
— Você e eu — ele concordou. — Até a eternidade. Amo você, Cleo.
— Eu amo você, Magnus.
Ele nunca tinha ouvido palavras mais bonitas que aquelas em toda sua vida.
Cleo encostou o rosto no peito dele, e Magnus a abraçou forte, recusando-se a soltá-la, não importava o que acontecesse.
A luz brilhava cada vez mais forte.
O vento uivava. O fogo queimava. A própria terra tremia e se despedaçava sob os pés deles.
E então…
Então acabou.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!