1 de setembro de 2018

Capítulo 33

NIC
Quatro dias antes

Nic lutava contra a espessa fumaça da inconsciência, esforçando-se para atravessar uma teia de sonhos e pesadelos e encontrar seu caminho de volta ao mundo desperto. Depois do que pareceu uma eternidade, por fim abriu os olhos.
O sono induzido pela poção não foi um cochilo normal. Foi mais pesado, profundo, e ele imaginou que a morte deveria ser assim.
Mas ainda estava vivo. Por enquanto, pelo menos.
E tinha uma dor de cabeça infernal.
Ele levantou e descobriu que dormia num catre num quartinho escuro. Foi até uma janela à direita e, ignorando o fato de sua cabeça estar rodando, suspirou com o cenário do lado de fora. Água negra — estendendo-se até onde a vista alcançava — sob o manto escuro da noite.
— Estamos a caminho de Limeros — uma voz baixa falou.
Ele se virou e encontrou Ashur de pé nas sombras. Sem pensar, Nic o atacou. Tentou acertar um soco no rosto perfeito do príncipe, mas Ashur segurou seu braço e o torceu, dobrando-o atrás das costas com força suficiente para fazê-lo ofegar de dor.
— Silêncio, seu tolo — Ashur sussurrou. — Ela vai ouvir.
— Vai quebrar meu braço.
— Não se ficar em silêncio.
— Está bem.
Ashur demorou mais um pouco para soltar Nic, que se virou e acertou um soco em seu queixo. A cabeça do príncipe virou violentamente para o lado, mas ele não tentou revidar. Apenas esfregou o queixo, com uma careta.
— Mereci isso.
Nic o encarou, o punho doendo e ainda cerrado.
— Vou matar você.
— Não vai, não. Não depois de ouvir o que tenho a dizer.
— Ouvir? — Nic gritou. — Por quê? Tem mais mentiras para contar?
Ashur tampou a boca de Nic com a mão e o empurrou contra a parede, demonstrando ferocidade e raiva.
— Se ela souber que está acordado e causando problemas, vai mandar alguém colocá-lo para dormir de novo. Para sempre, se possível. Só está vivo agora porque a convenci de que precisávamos de você.
Nic empurrou a mão dele para longe.
— Que útil. Muito obrigado. — Desta vez, no entanto, manteve a voz baixa, pouco mais do que um sussurro.
Ashur fez um gesto positivo com a cabeça.
— Assim está melhor.
— Faço tudo para agradar.
— Sei que me odeia.
— Você me enganou, drogou e depois me jogou em um navio contra a minha vontade. Acho que tenho todos os motivos para odiá-lo. Teria entregado você de bandeja para o rei Gaius se soubesse quem era de verdade.
— Minha irmã é ambiciosa, e não a subestimo nem por um instante. Nunca compartilhamos nenhum interesse até pouco tempo atrás. Sempre fui mais explorador que ela, e minhas explorações me levaram às lendas de Mítica. Acabei fascinado por elas, o bastante para vir até aqui investigá-las.
Nic fitou-o, aborrecido.
— Vai me contar toda a história da sua vida? Parece que tenho tempo para ouvi-la, não é? Trancado aqui neste navio…
Ashur olhou para ele, perturbado, e sentou numa cadeira. Era o único móvel do quarto além do desconfortável catre que Nic já conhecia bem.
— Precisa ouvir o que tenho a dizer, porque vai ajudá-lo a tomar uma decisão.
— Que decisão?
— Se quer ou não me ajudar.
Nic riu, soltando um som seco e sem humor, mesmo a seus ouvidos.
— Você me usou. Se divertiu com o hilário jogo “engane o Nic”, que funcionou perfeitamente.
— Não foi um jogo para mim — Ashur suspirou. — Pelo menos nem tudo foi.
— Fale. Diga o que precisa dizer e depois me deixe em paz. Ou me mate. Um ou outro. — Ele não devia dar ideias para o príncipe. Talvez fosse melhor para ele apenas calar a boca e escutar.
— A magia roubada por Kraeshia em suas muitas conquistas não interessa a Amara. Mas não demorou muito para que ela se interessasse pela Tétrade. Fui um idiota por contar a ela sobre isso, ou sobre as lendas dos vigilantes. Mas contei tudo. Acho que eu estava só procurando alguém para conversar, já que nosso pai não tinha tempo para mim, e nossos irmãos pareciam sempre ocupados comandando a armada para conquistar a glória, ou presidindo o tribunal quando estavam em Kraeshia. Amara ouvia com cuidado e atenção, mas eu não sabia que ela levava tudo a sério até chegar aqui com um plano para encontrar a Tétrade, sem se importar com o que precisaria fazer.
— E aqui estamos — Nic disse com desgosto. — Vocês dois formam uma equipe fantástica.
— Não, não somos uma equipe. Não aprovo as táticas dela. Estou bastante enojado pela forma como deseja o poder.
Era difícil acreditar nisso, para dizer o mínimo.
— E para que você quer os cristais? Para decorar uma prateleira vazia?
— É mais uma questão de como acho que se deve lidar com eles. A Tétrade é perigosa, coletiva e individualmente. Meu objetivo é manter esses cristais longe dos que abusariam de seu poder.
— Se está dizendo…
Ashur teve a ousadia de rir, o que irritou muito Nic.
— O que está achando engraçado? — ele perguntou.
— Você.
— Ótimo. Era justamente disso que eu precisava agora: a confirmação de que ainda posso ser uma fonte de entretenimento, mesmo depois de ficar inconsciente por… quanto tempo foi?
— Quase dois dias.
— Dois dias. Isso explica minha sede. — Nic passou a mão no cabelo, sabendo que devia estar desgrenhado. — Já que é tão nobre assim…
Uma sombra se abateu sobre o rosto de Ashur.
— Nunca disse que era nobre. Fiz coisas imperdoáveis no passado, mas agora sou diferente. Estou tentando melhorar.
Ele queria continuar discutindo, mas o príncipe na verdade estava conseguindo convencê-lo. Odiava seu desejo de acreditar que Ashur estava tentando compensar as ações da irmã, mas isso não mudava nada.
Nic precisava ver Cleo de novo. Faria o que fosse preciso para sobreviver. Precisava garantir que ela estava bem.
— Por que não deixa a princesa Amara me matar? — perguntou.
— Você não pode morrer. — Ashur olhou para ele como se fosse uma sugestão maluca. — Não vou permitir. Eu disse como é importante para mim. Não estava mentindo, Nic.
Ele buscou mentira no rosto de Ashur, mas encontrou apenas sinceridade.
— Como posso voltar a acreditar em qualquer coisa que diz?
— Me dê uma chance, e provarei que sou digno do seu perdão. Tenho um plano para deter Amara, para mostrar a ela que o que está fazendo é errado. Vai funcionar. Ela confia em mim, ainda que eu não sinta o mesmo.
— Confiança parece ser um problema comum quando se trata de você.
Outro sorriso surgiu nos lábios de Ashur, mas desapareceu em um instante.
— Sei que fechei uma porta para nós quando estávamos começando a abri-la, e me arrependo disso acima de tudo.
Nic ficou em silêncio, com medo de falar. Falar o deixava vulnerável. Parecendo estúpido. Especialmente com o príncipe, por alguma razão.
— Vou trazer algo para você comer e beber. Está precisando. — O príncipe se levantou da cadeira e parou por um momento na porta. Olhou para trás. — Saiba que não pretendia beijá-lo naquela noite. Só queria conversar com você. Só isso.
Nic balançou a cabeça.
— Não sei o que dizer sobre isso.
— Alguma coisa em você chamou minha atenção; sua tristeza, sua vulnerabilidade, e tomei uma decisão insensata. Nos dias seguintes, tive certeza de que o deixara enojado.
Nic ficou confuso. Muito confuso.
Mas não sentiu nojo.
Ashur olhou nos olhos dele.
— Quando tudo isso acabar, pedirei seu perdão. Mas não agora. Sei que é muito cedo. Mas prometo não voltar a decepcioná-lo.
As palavras faltavam a Nic, até que finalmente encontrou algumas.
— E o que devo fazer nesse meio-tempo? Fingir que estou dormindo?
— Não. Amara não é boba. Vai saber que está acordado. Mas fique em silêncio e não chame atenção. Vou voltar para deixá-lo a par de meu plano. Ou, pelo menos, da parte que posso contar.
— Tudo bem.
Ashur fez uma pausa.
— Também quero fazer outra pergunta quando tudo isso acabar.
— Qual?
O sorriso de Ashur retornou.
— Vai ter que esperar para descobrir.
— É importante?
— Muito.
Ele saiu do quarto e fechou a porta.
Uma inesperada fagulha de esperança surgiu no peito de Nic.
— Então acho que vou esperar para ver.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!