23 de setembro de 2018

Capítulo 32

NIC
AURANOS

Quando Magnus chegou, uma parte de Nic se agarrou à esperança de que aquele príncipe, outrora seu inimigo, teria uma forma secreta de derrotar Kyan e seus irmãos.
Ele tinha. Nic só não imaginava o quanto ia doer.
Nic se lembrava da mão de Magnus apertando seu pescoço enquanto Kyan gritava dentro dele por causa da onda gélida de dor que se abatia sobre ambos.
E então tudo voltou a ficar escuro por um tempo.
Quando voltou a si, estava abrindo os olhos e encarando o rosto do príncipe Ashur Cortas. Os olhos azul-acinzentados do príncipe se encheram de alívio.
— O que aconteceu? — Nic perguntou.
— Você está vivo. Foi isso que aconteceu — Ashur sussurrou.
— Não é um sonho?
— Não. Nem perto disso. Mas não se mexa, ainda não.
Nic ouviu vozes exaltadas vindo de perto. Lucia, Magnus… Jonas. Estavam discutindo.
Espere.
Como tinha dito aquelas palavras? Como teria uma conversa real com o príncipe Ashur se não fosse um sonho incrivelmente vívido?
Então percebeu o que havia acontecido.
Em parte, pelo menos.
Kyan tinha escolhido um novo veículo — o príncipe Magnus Damora em pessoa.
Por olhos semicerrados, encostado em Ashur para se apoiar, Nic observou os demais. Não prestaram nenhuma atenção nele, de tão absortos que estavam na discussão. Jonas tinha uma faca dourada contra o pescoço de Lucia. E então, diante dos olhos de Nic, aquela faca foi tirada da mão de Jonas por algo invisível. Ela flutuou no ar, onde Lucia a apanhou.
— Obrigada por trazer isso para mim — Lucia disse, olhando para a lâmina afiada. — Será muito útil, espero.
— Quer matá-lo, pequena feiticeira? — Magnus… não, Kyan perguntou. — Ou devo fazê-lo?
— O que prefere, Jonas? — Lucia perguntou, deslizando a adaga dourada para baixo das dobras de seu manto negro. — Quero dizer, você aparece aqui e ameaça a vida de uma feiticeira, sob os olhares de três deuses elementares. Com certeza sabia que isso resultaria em sua morte.
— Faça o que tiver que fazer — ele rosnou.
— É o meu plano — ela disse. Então lançou um olhar para Kyan. — Eu mesmo o mato mais tarde.
— Muito bem. — Kyan gesticulou para Olivia. A deusa da terra agitou a mão, e grossas trepadeiras se enrolaram nas pernas e no torso de Jonas, mantendo-o preso.
— O que vamos fazer? — Nic sussurrou. — Como podemos ajudar?
— Não sei — Ashur respondeu com um tom frustrantemente calmo. — Receio que não haja nada que possamos fazer. Podemos muito bem morrer aqui. E é uma pena, de verdade. Tinha planos para nós dois, sabe.
— Planos? Para nós?
— Sim.
De repente, algo próximo chamou a atenção de Nic. Um pequeno brilho dourado. Era o anel que Magnus usara quando havia apertado o pescoço de Nic.
Kyan o tinha descartado no momento em que possuíra o corpo. Agora, estava a dez passos do deus, que, no momento, felizmente, ignorava a conversa sussurrada entre Nic e Ashur.
— O que é aquele anel? — Nic perguntou. — O anel que Magnus estava usando.
— É o anel de pedra sanguínea — Ashur murmurou. — É magia… magia da morte. Foi o que expulsou Kyan do seu corpo.
Magia da morte.
Nic observava Kyan andar a esmo, abrindo os braços longos e musculosos, passando os dedos pelo cabelo grosso e escuro de Magnus.
Era óbvio que Kyan estava feliz com a mudança. Confiante. Esperançoso. Pronto para declarar vitória sobre aquele bando de reles mortais.
— Preciso saber uma coisa — Nic disse em voz baixa.
— O quê? — Ashur perguntou.
— No navio, quando viajávamos para Limeros, você me disse que tinha uma pergunta para mim, que a faria quando tudo acabasse. Lembra?
Ashur ficou em silêncio por um instante.
— Lembro.
— Qual era?
Ashur expirou lentamente.
— Não tenho certeza se ainda é apropriado.
— Pergunte mesmo assim.
— Eu… eu queria perguntar se me daria a chance de roubá-lo da costa de Mítica, de mostrar mais do mundo a você.
Nic franziu as sobrancelhas.
— Sério?
O rosto de Ashur se entristeceu.
— Bobo, não é?
— Sim, muito bobo. — Nic sentou e virou para poder encarar o príncipe nos olhos. — Minha resposta teria sido sim, por sinal.
Ashur franziu a testa.
— Teria sido?
Nic segurou o rosto de Ashur e o beijou de leve nos lábios.
— Desculpe, mas preciso fazer isso.
Então estendeu o braço e pegou o anel.
Ashur arregalou os olhos.
— Nicolo, não…
Com as pernas bambas, Nic levantou e percorreu o mais rápido que conseguiu a distância até Kyan.
Kyan virou para ele, surpreso.
— Ora, vejam quem já se recuperou bem — o deus do fogo disse com desdém. — Vai causar mais problemas para mim?
— Espero que sim — Nic disse. Então agarrou a mão de Kyan e enfiou o anel de volta em seu dedo médio.
E segurou com força enquanto Kyan explodiu em chamas.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!