16 de setembro de 2018

Capítulo 32

CLEO
PAELSIA

Cleo observou os rostos que a cercavam no fosso de pedra com o coração na boca. Não era para ser assim. Não sabia ao certo como pretendia deter Amara, pegar os cristais da Tétrade e salvar a todos, mas não era daquele jeito.
— Não tema, pequena rainha. Estou com você.
Ela perdeu o fôlego. De algum modo, Kyan ainda achava que eles estavam juntos naquilo. Mas por que precisaria dela? Ela nunca tinha se sentido tão impotente como naquele momento, mesmo cercada por jovens fortes que normalmente seriam mais do que capazes de protegê-la de qualquer mal.
Menos Magnus. Cleo sentiu o estômago revirar. Onde ele estava? Preso em outro lugar? Mas onde?
Ela observou Selia levitar devagar, entrando no fosso como se estivesse de pé sobre uma plataforma invisível de magia do ar. Ela torcia para Felix, Taran e Enzo não serem tolos a ponto de tentar atacar a bruxa. Cleo não tinha dúvidas de que fracassariam rápido.
Felizmente, eles não se mexeram.
— Há quanto tempo planeja isso, mãe? — o rei Gaius perguntou de onde estava. Ele não tinha movido nem um centímetro desde que Cleo e Amara foram jogadas dentro do fosso.
— Há muito tempo, meu filho — Selia respondeu, passando os dedos pelo pingente de serpente. — Minha vida inteira, ao que parece.
— Foi a senhora quem me ensinou sobre a Tétrade, a me empenhar em encontrar os cristais.
— Sim. E você aceitou essa promessa de poder como eu esperava que faria.
— Mas a senhora não me contou tudo.
Selia encarou o filho.
— Não. Tive que guardar segredo até agora.
— Quando eu era mais jovem, achava que a senhora só queria a magia da Tétrade, como qualquer pessoa que tinha ouvido a lenda. Mas sempre foi mais do que isso, não foi? Queria ajudar a libertá-los.
Ela se agachou ao lado de Gaius e tocou seu rosto.
— Eu não estava mentindo para você. Você vai dominar o mundo, só que de um jeito diferente do que planejei. O deus do fogo precisa de um novo veículo corpóreo. Acredito que só você é grande e digno o suficiente para ter esse poder onipotente dentro de si.
Antes que o rei pudesse responder, Cleo sentiu um sopro de vento quente passar por ela.
— Não, pequena bruxa — Kyan disse. — Esse rei caído não serve. Ele está velho demais. Doente demais.
— Quem disse isso? — Nic perguntou, observando em volta.
Cleo arregalou os olhos para ele.
— Você também consegue ouvi-lo?
Nic assentiu.
— Também consigo — Taran disse, observando o fosso. Felix e Enzo estavam ao lado dele, com uma expressão tensa, mas concordando.
— Só por que eu permito — Kyan disse. — Como o irmão da pequena imperatriz disse antes, não há mais motivos para me esconder.
— Gaius está melhorando, Kyan — Selia garantiu. — Foi ferido gravemente e quase morreu. Vai demorar para se curar por completo, mas está progredindo.
— Não. Eu quero um veículo diferente.
— Claro. — Selia franziu a testa, o único sinal de decepção ao olhar para os outros. — E este kraeshiano, o príncipe Ashur? Jovem, bonito, forte…
— Não, repito. Preciso de alguém já possuído por uma alma de fogo. — Eles ficaram em silêncio por um momento enquanto a sensação de calor tomava conta do espaço do fosso. — Este. Sim, este é perfeito. Sinto a grandeza dentro dele, a grandeza protegida do mundo.
Quem?, Cleo pensou desesperada. Não havia como saber a quem o deus do fogo se referia.
— Então vamos começar — Selia disse.
A bruxa estendeu a mão e as três esferas de cristal que Amara tinha escondido no bolso da túnica voaram pelo fosso e foram parar nas mãos de Selia.
Cleo observou, tensa, quando a bruxa deixou a água-marinha, a obsidiana e a selenita com cuidado no centro do fosso.
— Onde está o cristal de âmbar? — Selia perguntou.
— Não está aqui — Kyan respondeu.
— Onde está?
— Já estou liberto de minha prisão, não preciso mais do cristal. O ritual deve funcionar sem ele. Continue.
Selia tirou a corrente prateada do pescoço e Cleo percebeu, chocada, que o grande pingente de serpente que usava não era apenas uma joia — era um recipiente com uma pequena rolha.
A bruxa inclinou o recipiente de prata sobre os três cristais para despejar um líquido vermelho sobre eles. A cada gota, as esferas clareavam, brilhando por dentro.
— Você tem o sangue de Lucia — o rei perguntou, com a voz rouca. — Como?
Ela levantou uma sobrancelha.
— Tirei sangue dela quando era criança, antes de meu exílio. Só precisei de um pouco de magia da terra para mantê-lo fresco todo esse tempo. — Selia olhou para Olivia. — Venha aqui e estenda o braço.
Olivia foi em direção a Selia e fez exatamente o que foi mandado. A bruxa pegou uma adaga e cortou o braço da imortal. Quando o sangue de Olivia se uniu ao de Lucia sobre as esferas, as pedras brilharam ainda mais.
Cleo quis se atirar para a frente, derrubar a adaga da mão da bruxa, mas sabia que seria a última coisa que faria. Sentia-se totalmente impotente ao observar aquele ritual sombrio acontecer diante de seus olhos.
Mas, apesar da raiva que sentia de Magnus por tantas coisas, Cleo sabia que ele não deixaria o complexo se conseguisse escapar dos guardas de Amara de novo. Ele não se concentraria em salvar apenas a si mesmo.
Não. Ele interviria quando parecesse que não havia mais esperança.
Será que tinha compreendido o sinal que ela tinha tentado passar ao pedir para ser chamada de Cleiona? Ela precisava que Magnus soubesse que ela tinha tentado se aliar a Amara apenas por necessidade. Cleo pretendia usar aquela aliança para reaver seu poder.
Para reaver o poder de Magnus também.
A tempestade se tornou mais violenta. A chuva começou a cair sem parar, encharcando Cleo.
Selia levantou as mãos, olhos brilhando. Os cristais se acendiam como pequenos sóis. Cleo se assustou e ficou ofegante quando os filetes de magia que estavam dentro das esferas saíram.
Três cristais. Mas havia quatro filetes espalhados pelo ar ao redor deles: vermelho, azul, branco e verde.
Por que Selia pensava que a esfera de âmbar era necessária para o ritual se Kyan já estava ali?, Cleo se perguntou. Importava? Poderia fazer diferença para deter aquilo?
— Deus do fogo — Selia disse. — Você escolheu. Agora está na hora de entrar em seu novo veículo de carne e osso.
O filete de magia vermelho vivo rodopiou com força pelo fosso até finalmente entrar no peito de Nic.
— Nic, não! — Cleo gritou.
Nic arregalou os olhos e gritou. Engasgando, ele caiu no chão.
Em seguida, seu querido amigo virou aos poucos para encará-la.
— Nic — Cleo chamou, ofegante. — Você está bem?
Ele franziu a testa.
— Assumi o nome de meu último hospedeiro, Kyan. Gosto mais do que de Nic. Vou mantê-lo.
Ela o observava incrédula.
— O que foi? O que você fez? Nic, está me ouvindo? Você precisa lutar contra isso!
— Nic se foi — o garoto que se parecia com Nic lhe informou. — Mas garanto a você que ele foi sacrificado pelo bem do mundo.
Lágrimas quentes escorreram pelo rosto dela. Seu amigo tinha acabado de voltar para ela e agora partira de novo.
— Deusa da terra — Selia chamou, tirando a atenção que Cleo dava a Nic. — Está livre. Escolha seu veículo de carne e osso.
O filete verde de magia rodopiou pelo fosso, e dessa vez todo mundo deu um passo para trás, observando com medo.
Olivia ficou ofegante quando a magia entrou em seu corpo.
Nic… ou Kyan… ou… — Cleo não sabia o que pensar — foi diretamente até Olivia e segurou suas mãos.
— Irmã?
— Sim. — Ela o encarou no fundo dos olhos. — Você fez o que prometeu. Estou livre, finalmente!
— Sim. E escolheu um ótimo veículo.
— Qual era o nome dela? — a deusa perguntou.
— Olivia — o deus do fogo respondeu.
— Olivia — ela repetiu, assentindo. — Sim, Olivia será meu nome de agora em diante.
— Mãe. — Gaius tinha andado até ficar ao lado de Selia, o cabelo preto molhado jogado para trás.
— Sinto muito, meu filho — ela respondeu, balançando a cabeça. — Você está com a pedra sanguínea. Vai ter que bastar.
Ele assentiu.
— Você sempre me põe em primeiro lugar, não importa o que tenha que fazer.
Selia o observou.
— Eu não devia ter feito o que fiz com Elena. Vejo agora que isso machucou você mais do que pensei que machucaria. Só queria que você fosse livre.
— Eu sei. E você estava certa. Meu amor por ela confundiu minha cabeça e ameaçou destruir minha sede por poder. — Gaius segurou o rosto dela com delicadeza entre as mãos e se inclinou para beijar sua testa. — Obrigado por me ajudar a me tornar o homem que sou hoje.
Ela tocou a mão do filho, e então franziu a testa.
— Espere. Onde está o…?
Virando-se depressa, ele quebrou o pescoço da mãe e deixou o corpo cair no chão.
Kyan olhou para a bruxa e depois olhou furioso para o rei.
— O que você fez?
— Interrompi seu ritual egoísta — Gaius disse, observando o corpo da própria mãe. — Eu sabia que havia um bom motivo para eu ainda não tê-la matado.
Kyan observou para os dois filetes de magia restantes com raiva nos olhos castanhos e furtivos.
— Pequena rainha, preciso de você agora. Preciso do sangue de um descendente de feiticeira… de seu sangue. A magia dele bastará por ora. Depois, encontrarei outra Vetusta obediente para selar o que foi feito aqui.
Ele estava ao lado de Cleo, segurando a adaga de Selia.
— Darei a você seu trono. Toda Mítica. Todo este mundo e mais. O que quiser.
As lágrimas se misturaram com a chuva que escorria pelo rosto de Cleo.
— Me dê a adaga.
Ele fez o que ela pediu e Cleo olhou para a adaga em sua mão, sabendo que tinha que fazer aquilo, sabendo que não havia escolha.
Kyan não podia sair dali, independentemente do corpo que tivesse roubado.
Mas assim que ela levantou a adaga para cravar a lâmina no coração de Nic, Ashur segurou seu braço. Ela o encarou enquanto a chuva caía torrencialmente sobre eles.
— Não — Ashur disse. A resposta não deixava espaço para discussões. Ele apertou seu braço até Cleo ofegar de dor e largar a arma.
Quando Cleo virou para Kyan de novo, ele lhe deu um tapa tão forte que seu corpo girou e bateu na parede do fosso.
— Você me decepciona, pequena rainha — ele vociferou.
Magnus, ela pensou em pânico. Agora seria o momento perfeito para você salvar o dia.
As paredes do fosso começaram a ruir. Os filetes azuis e brancos de magia — os deuses da água e do ar — continuavam a rodopiar pelo fosso.
— Irmão, temos um problema — Olivia, agora possuída pela deusa da terra, vociferou. — Os outros estão prontos e o tempo está acabando. Como terminar o ritual sem uma bruxa para nos ajudar?
Como se fosse uma resposta, o filete branco foi em direção ao hospedeiro escolhido, entrando no peito de Taran. Ele arfou e caiu de joelhos.
Antes que Cleo pudesse dizer alguma coisa, gritar ou se afastar do rebelde, o filete azul apareceu em sua frente.
Parecia que ela tinha sido atingida por uma onda de dez metros de altura que a jogou para trás e a afogou com a água salgada.
A divindade da água a tinha escolhido como veículo.
Cleo olhou para cima, para o céu tempestuoso, e a chuva a molhava enquanto se esforçava para manter o controle sobre o próprio corpo. Sabia que não podia fraquejar naquele momento, mas como lutaria contra uma divindade?
— Vamos voltar para consertar isso — Kyan vociferou com raiva antes de se transformar em uma coluna de chama e sair do fosso. Olivia, lançando um olhar de ódio a Cleo, desmoronou como se fosse feita de areia e desapareceu no chão.
Taran estava ao lado de Cleo, ajudando-a a sentar.
Ela o encarou, confusa.
— Taran…
— Você ainda é você? — ele perguntou. Ela não respondeu, e Taran a chacoalhou com força. — Responda. Você ainda é você?
Ela assentiu.
— Eu… ainda sou eu.
— Eu também sou. — Taran franziu a testa e estendeu a mão direita. Uma espiral simples, a marca da magia do ar, estava na palma da mão dele, como se tivesse sido gravada ali.
Cleo olhou para a palma da mão esquerda e viu duas linhas onduladas paralelas que indicavam o símbolo da água.
— A bruxa morreu antes de torná-la permanente em nós — ela disse. — Temos a magia elementar dentro de nós, mas não perdemos a mente nem a alma.
Ele analisou o rosto de Cleo, franzindo a testa.
— Você acha mesmo?
Ela balançou a cabeça com a mente confusa.
— Não sei. Não tenho certeza de nada no momento.
Cleo procurou Magnus de novo, espiando à beira do fosso e esperando que ele aparecesse de repente. O príncipe não apareceu, e ela estendeu a mão para Taran.
— Ajude-me a subir.
Taran obedeceu.
— O que acontece?
A chuva ainda os castigava. Novos guardas chegaram e olharam para o grupo no fundo do fosso.
— Imperatriz? — um deles perguntou, hesitante.
Amara desviou o olhar chocado de Cleo, franzindo a testa, e virou para os homens.
— Tirem-nos daqui.
Os guardas pegaram uma escada, que afundou na lama do fundo do fosso. Um por um, o grupo saiu em silêncio. Com a perna quebrada, Amara precisou de dois guardas para auxiliá-la.
— Kyan queria matar todo mundo. — Amara explicou fora do fosso, sem qualquer emoção na voz. — Isso, com a magia da bruxa, teria tornado o ritual permanente.
— E você concordou com isso… em matar todos nós — Felix comentou, os punhos cerrados. — Por que não estou surpreso?
Amara se encolheu.
— Não aconteceu, não é?
— Você não ajudou em nada — ele disse com uma expressão feroz. — Não se preocupe, vou cuidar para que você pague pelo que fez hoje.
— O que isso significa? — Nerissa perguntou. Enzo estava ao lado dela de modo protetor, a mão em sua cintura. — Nada que a bruxa fez é permanente? Nem mesmo com Nic e Olivia?
Amara balançou a cabeça.
— Não sei.
— Você me impediu — Cleo disse a Ashur, que não tinha dito nada desde que eles saíram do fosso.
— Você ia apunhalar Nicolo. Eu não podia permitir isso.
— Ele se perdeu — a voz dela falhou. — Ele se foi.
— Tem certeza? — A expressão dele ficou mais séria. — Eu não tenho. E se houver um jeito, vou trazê-lo de volta para nós. Está ouvindo?
Ela só conseguiu assentir, esperando que Ashur estivesse certo.
O rei foi o último a sair do fosso.
— Onde está meu filho, Amara? — Gaius perguntou.
— Também não sei — Amara respondeu.
A ausência de Magnus por tanto tempo não era normal. Ele já tinha que ter sido encontrado.
— Você precisa encontrá-lo — Cleo disse, e uma nova onda de pânico cresceu dentro dela.
— Vou fazer isso — disse Amara.
— Mas você não parece se importar. Ouça com atenção: você precisa encontrá-lo.
— Ele deve estar morto — Amara disse sem rodeio. Em seguida, ela engasgou e começou a cuspir água. — O que… o que você está fazendo?
Cleo percebeu que suas mãos estavam tão fechadas que as unhas afundavam na pele. Ela tinha a sensação de estar girando. Forçou-se a abrir a mão e viu que o símbolo da água tinha começado a brilhar.
Magia da água. A divindade da água estava dentro dela, mas não no controle de suas atitudes.
Ela sentiu algo quente embaixo do nariz e quando tocou o rosto, viu que era sangue.
— O poder de um deus dentro de um mortal — Gaius disse surpreso. — Sem o ritual finalizado… é uma posição perigosa para você, princesa. Para você também, Taran. Mas tem razão: precisamos encontrar meu filho.
Nerissa deu um passo para a frente, segurando as mãos de Cleo com hesitação e apertando-as. Cleo viu seu olhar angustiado.
— Vi um guarda agredi-lo, princesa — ela sussurrou, balançando a cabeça. — Ele bateu no príncipe com força e o arrastou para longe. Eu… eu temo que Amara possa estar certa. Sinto muito.
Cleo encarou a amiga, seus olhos ardiam.
— Não — ela disse. — Não, por favor, não. Não pode ser verdade. Não pode ser.
Taran e Felix se entreolharam preocupados. O rebelde olhou para baixo com nervosismo, para a palma da mão, onde estava o símbolo da magia do ar.
— Por que se importa com o destino de Magnus, Cleo? — Amara perguntou, com a voz trêmula como Cleo nunca ouvira. — Pensei que você o detestasse.
— Você está enganada. Não o detesto — Cleo disse em voz baixa. E então, mais forte: — Eu o amo. Amo Magnus do fundo do coração. E juro, se ele… morrer… perdi Nic Magnus hoje… — Sua voz falhou quando virou para a frente, vendo que os outros a observavam com medo no olhar. A sensação da forte magia da água fluía sob a superfície de sua pele, como se esperasse ser libertada. — Acho que este mundo não sobreviverá à minha dor.

6 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!