1 de setembro de 2018

Capítulo 32

MAGNUS
LIMEROS

Como se a viagem a Limeros já não tivesse trazido problemas suficientes, o fato de os kraeshianos serem tão manipuladores quanto seu pai acreditava trouxe uma nova leva deles. No caminho até o templo, Magnus ficou imaginando como os mataria.
Devagar, ele pensou. Bem devagar.
— Já chegamos? — Amara perguntou ao irmão. Sua voz, em geral doce, beirava a impaciência.
— Não deve demorar muito — Ashur respondeu.
Magnus não deixou de notar que o condutor da carruagem escolhera uma rota cheia de desvios para chegar ao templo depois que Ashur informou o destino a ele. Estavam demorando quase o dobro do tempo normal para chegar lá. O tempo ocioso durante a viagem foi suficiente para refletir sobre essa situação infeliz, mas não para descobrir como sair dela.
Ele queria ter percebido antes como Amara era uma ameaça, mas estava distraído com sua beleza e franqueza revigorante. Certamente não era o primeiro a cometer esse erro.
Cleo estava sentada de frente para ele na carruagem, com as mãos no colo, observando em silêncio a paisagem coberta de neve que passava pela janela. Por fora, estava muito serena, mas Magnus tinha certeza de que uma tempestade se formava dentro de sua cabeça. Ela nunca deixaria que matassem Nic, sabia disso. Ele nem a culpava por ter contado sobre o templo sob tanta pressão.
Bem, ele a culpava um pouco. Mas o que estava feito estava feito.
Finalmente chegaram ao templo. Magnus saiu da carruagem e hesitou, chocado. Uma tempestade de neve de uma magnitude nunca vista assolava o lugar. Grossas lascas de gelo se projetavam do solo. Corpos, alguns cortados perfeitamente ao meio pelas gigantescas lâminas de gelo, estavam espalhados por todos os cantos. Sangue, negro como nanquim, manchava o chão congelado.
Cleo olhava à sua volta horrorizada.
— O que aconteceu aqui?
Amara inspecionou a cena com as mãos na cintura.
— Um desastre elementar, ao que parece. Prefiro pensar nisso como um bom sinal de que estamos no lugar certo.
Magnus agachou perto de um corpo e tateou a garganta do homem, que tinha congelado até quase petrificar. Foi o suficiente para perceber que aquilo não era recente. Pelo menos uma hora se passara desde sua morte.
O céu estava escuro mas sem nuvens, com nada além da brilhante lua cheia iluminando a cena sanguinolenta à sua frente enquanto o resto de Limeros dormia.
— Vamos entrar? — Ashur perguntou, enérgico.
Magnus hesitou, e um guarda o empurrou para a frente. Suas mãos coçavam de vontade de ter uma arma, mas todas haviam sido tiradas dele na quinta de lady Sophia.
Ao entrar, viu que o gelo também penetrara as paredes do templo. O chão estava coberto por uma camada fria e cristalina, que começava a derreter em alguns lugares.
O guarda voltou a empurrá-lo enquanto andavam pelo corredor.
— Cuidado — Magnus rosnou —, ou farei questão de matá-lo primeiro.
O guarda riu.
— Veremos, moleque.
Moleque? Aquele subalterno kraeshiano nem se preocupou em usar seu título real. Era um insulto maior que todos os outros.
Magnus com certeza o mataria primeiro.
Mas ele esqueceu completamente o guarda insolente quando notou uma assustadora quantidade de sangue formando uma poça no chão de granito preto, perto do altar.
Não havia nenhum corpo ali. Apenas sangue, iluminado pelo fogo eterno que continuava a queimar no centro do edifício antigo.
A primeira coisa que veio à sua mente foi Lucia.
Onde está você, minha irmã?
— Então, aqui estamos — Magnus disse, esforçando-se para parecer calmo e totalmente no controle da situação. — Bem-vindos ao Templo de Valoria.
Amara olhou em volta, indiferente.
— Tenho certeza de que parecia melhor antes da tempestade.
— Não muito.
Cleo se protegia do frio com os braços cruzados, como se nem mesmo seu pesado manto fosse capaz de afastá-lo. Ela olhou fixamente para Magnus, que logo desviou o olhar.
— Magnus — Amara disse —, você devia ter mais orgulho de sua terra natal. Meu pai sempre disse que os limerianos são, em sua maioria, virtuosos e muito bem-educados. Ao menos o rei Gaius conseguiu controlar seu povo com sucesso por meio do medo e da intimidação.
— Medo e intimidação são táticas que funcionam muito bem com aqueles que se deixam assustar e intimidar.
Ashur ficou em silêncio, permitindo que sua irmã falasse. Ele parecia muito mais perturbado do que ela pelos cadáveres do lado de fora.
— Nada a dizer, príncipe Ashur? — Magnus perguntou.
Ashur esboçou um sorriso contido.
— Na verdade, não. Prefiro observar por enquanto.
— Esse é o meu irmão. — Amara olhou para ele com carinho. — Um observador. Um vigilante. Sempre brinquei, dizendo que a qualquer momento criaria asas e sairia voando para se juntar aos seus amigos no Santuário.
Que observação mais desagradável.
— De qualquer forma — Magnus começou a dizer —, é aqui que Lucia acha que o cristal da água está. Vamos começar a procurar. Pode levar a noite toda.
A noite toda era tempo mais do que suficiente para encontrar um meio de roubar uma arma e acabar com qualquer um que estivesse em seu caminho — começando pelo guarda insolente.
— Sim — Cleo prontamente concordou com seu estratagema. — É como um agradável jogo de esconde-esconde.
Ele quase riu alto quando ouviu aquilo. Sim, um jogo muito agradável.
— Tenho uma ideia melhor. — Amara sinalizou com a cabeça para o guarda, que agarrou Cleo e fez um corte na palma de sua mão com uma adaga afiada.
Ela deu um grito agudo, puxando a mão de volta.
Magnus conteve o ímpeto de se libertar e correr até ela. Estava acompanhado por dois guardas, um de cada lado, que não hesitariam em cortar sua garganta.
— Já conhecemos o ritual de sangue — disse Amara. — Então, por favor, não desperdice meu tempo.
Cleo arregalou os olhos.
— Como você descobriu…?
Magnus não precisou pensar muito. A resposta para essa pergunta estava lá atrás, na quinta de lady Sophia.
Graças à princesa, Nic sabia demais. E ele tinha dificuldade em manter a boca fechada. No entanto, para ser justo, Magnus mal podia imaginar a que nível de tortura ou ameaça os kraeshianos o haviam submetido para obter as respostas de que precisavam.
— Não me deixe esperando — Amara disse, batendo o pé. — Ou ordenarei ao guarda que está na quinta que me traga seu melhor amigo ruivo, pedaço por pedaço.
Cleo trocou mais um olhar com Magnus, breve e cheio de aflição, e então se ajoelhou e afastou algumas lascas de gelo para liberar uma pequena área.
Respirou fundo, deixou seu sangue pingar no chão e começou a desenhar o símbolo da água: duas linhas onduladas paralelas.
Era o fim do plano de ganhar tempo para descobrir como sair daquela situação.
— Pronto. — Cleo terminou o desenho e se levantou, encarando os kraeshianos.
Amara olhou ao redor do templo, ansiosa, como se esperasse que o teto se abrisse para a magia entrar.
Mas nada aconteceu.
— Quanto tempo demora? — Amara perguntou com a voz carregada de impaciência.
— Não sei — Cleo respondeu, também impaciente. — Tem alguma outra coisa para fazer esta noite? Odiaria atrapalhar um compromisso.
O humor da princesa kraeshiana azedou.
— Chegou a gostar de mim algum dia, Cleo? Ou apenas fingiu ser minha amiga na esperança de ser salva do completo desastre que sua vida havia se tornado?
— Apesar de quaisquer promessas e propostas que tenha feito, nunca pude ignorar a sensação que me acometia sempre que estava por perto… como se aranhas andassem sobre minha pele. Eu sabia que não podia confiar em você.
— Ou talvez apenas sentisse ciúmes por causa de minha… conexão com Magnus. Não gosta de como sou determinada para conseguir o que quero.
— Determinada? Não. Patética e carente? Está mais para isso.
— Basta, vocês duas — disse Ashur.
— Ainda não, meu irmão. Cleo devia me respeitar por ter exatamente o que falta nela: a força para conseguir o que quero, não importa o quanto custe. Se eu fosse ela, não me submeteria e aceitaria a derrota sem lutar. Seria consumida pela vingança, noite e dia, esperando por qualquer chance de mudar minha situação. Oferecemos essa chance a você, e você a ignorou.
— Então é verdade que houve propostas de aliança entre vocês três em uma tentativa de destruir meu pai — disse Magnus.
Ele não podia dizer que estava surpreso, mas as circunstâncias lhe colocavam numa posição ainda mais desagradável, como um estranho no ninho.
— Seu pai é insignificante no plano maior das coisas — disse Ashur. — Mal vale um breve pensamento.
— Acho que ele discordaria — disse Magnus. — Na verdade, tenho certeza disso.
— Onde está? — Amara resmungou. — Por que o cristal ainda não se revelou? Quanto mais devemos esperar?
Cleo se manteve impassível.
— Não tenho a menor ideia.
De repente, um brilho colorido no chão saltou aos olhos de Magnus. No granito negro, entre dois bancos, viu uma mancha vermelha.
Ele respirou fundo.
Era outro símbolo da água, desenhado com sangue. Devia ter sido Lucia, beneficiando-se da vantagem de ter saído antes.
Seria o sangue dela? Será que estava bem? Feliz com o garoto que pensava amar? Ou ele apenas a manipulara para conseguir o que queria?
Seria impossível saber ao certo até reencontrá-la.
A reação de Magnus a essa descoberta atraiu a atenção de Amara. Ela seguiu seu olhar até o símbolo e ficou furiosa imediatamente.
— Sua irmã, não é? Lucia pegou o cristal.
— Não foi Lucia — outra voz falou do lado oposto ao altar, e um vulto encapuzado surgiu das sombras. — Fui eu.
O jovem tirou o capuz e, por um breve momento, Magnus teve certeza de que seria Jonas Agallon.
Mas, em vez do rosto presunçoso do rebelde Jonas, viu uma mecha de cabelo ruivo desgrenhado.
Nic estendeu a mão para mostrar a pequena esfera de água-marinha — da mesma cor dos olhos de Cleo — que segurava.
Cleo olhou para ele totalmente chocada.
— Nic! Como… como isso é possível?
— Guardas, capturem-no — Amara rosnou. — Matem-no. Tomem o cristal.
— Não — o príncipe Ashur disse com firmeza antes que os guardas se movessem. — Não façam isso. E se algum de vocês seguir as ordens de minha irmã pelo resto da noite, vai se arrepender amargamente.
Inesperado, Magnus pensou. Muito inesperado.
Nic avançou, olhando de soslaio para Cleo, ainda em choque.
Magnus entendeu tão pouco da situação quanto Cleo. O garoto tinha sido amarrado e deixado sob a supervisão de um guarda. Um guarda instruído a matá-lo se causasse qualquer problema.
Magnus decidiu ali, naquele momento, que não subestimaria mais Nicolo Cassian.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!