23 de setembro de 2018

Capítulo 31

LUCIA
AURANOS

Estava claro que o irmão dela tinha enlouquecido.
Lucia não precisava de mais uma complicação na situação que já era impossível. Mas, de qualquer forma, Magnus estava ali.
Enquanto Kyan insultava Cleo, Lucia examinava as esferas de cristal, tentando descobrir a melhor forma de destruí-las. Tudo em que pensara — força bruta, derrubá-las em uma área de mármore no chão — parecia óbvio demais, fácil demais. Cleo contou que Magnus já tinha tentado quebrar a esfera de água-marinha e falhado.
Aquilo precisaria de algo especial. Algo poderoso. Mas o quê?
Mesmo que descobrisse a tempo, quanto mais ponderava, mais temia estar certa a respeito das consequências que aquilo teria nos veículos mortais da Tétrade. Ela tinha visto a forma monstruosa e flamejante de Kyan se estilhaçar como vidro.
Ela ainda não tinha se recuperado daquela visão. Cleo estava certa — o deus do fogo estava vulnerável até Lucia realizar o ritual.
Mas se ela o destruísse, destruiria quatro pessoas por cuja vida tinha muita estima.
E talvez nunca mais encontrasse Lyssa.
Ela poderia tentar aprisioná-los, mas seria lento, doloroso e teria um resultado incerto. E só conseguiria se concentrar em um deus de cada vez. Os outros a impediriam.
Lucia virou para Magnus quando ele se aproximou.
— O que está fazendo aqui? — gritou.
Ele balançou a cabeça para ela.
— Também é um prazer vê-la. Belo dia, não acha?
— Não devia estar aqui.
Magnus não estava sozinho. O príncipe Ashur entrou na sala do trono logo atrás dele. Ele observou ao redor, vendo a nova decoração.
— Muito bonito — Ashur disse, meneando a cabeça. — Me faz lembrar de casa.
— Adorável Kraeshia — Magnus respondeu. — Pretendo visitar a Joia algum dia.
— Você deveria ir — Ashur disse. — Apesar do atual governo corrupto liderado por minha irmã cruel, é o lugar mais bonito deste mundo.
— Eu argumentaria que Limeros é que é, mas prefiro ver por mim mesmo. — Magnus então virou para Cleo. Apesar do comportamento calmo, uma tempestade se formava em seus olhos castanhos. — Recebi seu bilhete. Espero que não se importe que eu tenha vindo atrás de você mesmo assim.
O rosto de Cleo ficou tenso.
— Eu me importo.
— Imaginei que sim. — Ele olhou para Kyan e para os demais. — E aqui está você, sentado em um trono que homens muito melhores já ocuparam. E, para ser bem sincero, meu pai está incluído nessa lista.
Kyan sorriu para ele.
— Gosto de seu senso de humor.
— É um dos poucos que gostam.
— Kyan — Lucia disse, dando um passo para a frente. Ela tinha que fazer alguma coisa, dizer algo, impedir que aquilo ficasse pior do que já estava. — Poupe meu irmão. Deixe-o sair daqui sem lhe fazer mal. Ele não sabe o que está fazendo.
— Ah, eu discordo. — O sorriso de Kyan apenas se alargou. Uma linha de fogo azul se inflamou à frente dele, correu escada abaixo e formou um círculo baixo ao redor de Magnus e Ashur. — Acho que sabe exatamente o que está fazendo, não é, pequeno príncipe?
Magnus olhou para as chamas azuis incomodado.
— Eu preferia que nunca mais me chamasse assim.
— Mas lhe cai bem — Kyan respondeu. — Pequeno príncipe, aquele que marcha para salvar sua pequena rainha, como o herói que não é e nunca será. Perdeu sua pequena princesa, pequeno príncipe. Ela pertence a nós agora.
As chamas subiram até a altura dos joelhos dos príncipes.
— Pare — Lucia sibilou. — Se machucar meu irmão, juro que não o ajudarei.
— Mas e Lyssa? — Kyan perguntou com tranquilidade.
— Lucia, é um blefe — Cleo disse. — Ele não está com Lyssa, tenho certeza agora. Ela não estava no templo na noite passada, e Nic não a tinha visto. Ele não sabia nada sobre o sequestro.
Lucia ficou sem fôlego ao considerar aquela possibilidade.
Se Kyan não estava com sua filha, quem estava?
Então um pensamento lhe ocorreu, um que não havia passado por sua cabeça até aquele momento. Amara. Podia ter sido Amara, se aproveitando do caos que ocorrera depois do assassinato do rei para sequestrar sua filha.
Ah, deusa, ela não conseguia pensar naquilo agora. Com certeza enlouqueceria. Não, ela precisava permanecer concentrada ou tudo — tudo mesmo — estaria perdido, inclusive Lyssa.
Kyan levantou do trono e desceu as escadas. Parou na frente de Magnus e o examinou com cuidado.
— Como passou pelos portões? — perguntou.
— Há outras entradas para a cidade — Magnus respondeu. — O quê? Você achava que só tem uma entrada e uma saída? Não é assim que uma cidade dessas funciona. Há livros falando disso na biblioteca. Talvez queira pegar alguns e ler sobre o assunto.
Kyan semicerrou os olhos.
— Veio aqui se sacrificar para salvar a garota que ama?
— Não — Magnus disse. — Na verdade, estou muito confiante de que todos vamos sair daqui andando, vivos e bem. Acredito que ela tenha me prometido outro casamento muito em breve, e pretendo que cumpra a promessa.
Kyan lançou um olhar para Cleo.
— Mas você sabe a dura verdade que seu marido não sabe. Não haverá final feliz para você. Para nenhum dos dois.
Lucia esperava que Cleo surtasse, começasse a chorar e implorasse por sua vida e pela de Magnus, mas, em vez disso, viu a expressão no rosto da princesa endurecer.
— Errado — Cleo disse. — Não haverá final feliz para você, Kyan. Hoje é o último dia em que terá o privilégio de pisar neste mundo. Um mundo que poderia ter acolhido, em vez de torturado. Que poderia ter ajudado, em vez de ferido. E aqui estamos.
— Sim, aqui estamos — Kyan repetiu, assentindo. Então lançou um olhar breve para Lucia. — Inicie o ritual agora.
— Precisamos esperar até que a deusa da água tenha controle total — Lucia mentiu.
Embora, no fundo, não tivesse certeza se era ou não uma mentira. Nunca tinha executado aquele ritual antes, nunca quisera fazê-lo. Ela só conhecia os passos porque Kyan os tinha descrito.
O ritual precisava do sangue dela e do sangue de um imortal — o sangue de Olivia, que tinha sido utilizado pela avó dela durante o último ritual no complexo de Amara — combinados. As esferas reagiriam àquilo, mesmo sem o filete de magia da Tétrade.
Mais uma prova de que as esferas eram mais do que prisões.
Magia. Magia pura.
— Quanto mais teremos que esperar? — Kyan perguntou entredentes.
— Não sei — Lucia respondeu.
— Talvez isso ajude a acelerar as coisas. — Ele fez um gesto para Taran, que desceu as escadas, agarrou a mão de Cleo e arrancou o anel de ametista de seu dedo.
Cleo suspirou.
Lucia virou para Kyan, cerrando os punhos ao lado do corpo para evitar partir para cima dele.
— Não me provoque, pequena feiticeira — Kyan disse. Os olhos dele brilhavam, uma cor azul viva como a das chamas. — Ou vai se arrepender muito.
O fogo que cercava Magnus subiu mais, até a cintura, e o deus do fogo deu um sorriso frio para o irmão de Lucia.
— Está sentindo? — ele perguntou. — Meu fogo é mais brilhante e quente que qualquer outro.
— Está sentindo? — Magnus perguntou e, então, abriu a mão e pegou Kyan pelo pescoço. — Essa é a pedra sanguínea que meu pai me deu para salvar minha vida. Está cheia de magia da morte, e tem um efeito bem interessante nas pessoas que odeio. Acho que já a sentiu uma vez. Vou mostrar a você o que ela pode fazer.
Kyan arranhou as mãos do príncipe mas não conseguiu se soltar. A pele de seu pescoço, onde Magnus apertava, começou a ganhar uma estranha coloração cinzenta.
Lucia assistia àquilo em choque. Ela sabia que o anel de Magnus continha magia da morte, mas não sabia que era capaz de afetar Kyan.
— Peço desculpas, Nic — Magnus rosnou. — Mas isso precisa acontecer.
Kyan começou a tremer, e seus olhos se reviraram. Olivia tinha descido as escadas para ficar ao lado de Taran, mas nenhum dos dois fez nada para deter Magnus.
Lucia não entendia o motivo. Poderiam impedi-lo com facilidade. Ela lançou um olhar preocupado para Cleo, que não parecia nem um pouco surpresa com o que Magnus estava fazendo.
Será que o irmão dela já tinha tentado matar alguém com sua magia da morte antes daquele dia?
No momento seguinte, o círculo de fogo ao redor de Magnus e Ashur se extinguiu.
— Não o mate — Ashur pediu, assim que Kyan caiu de joelhos.
Magnus afastou a mão, olhando para o príncipe kraeshiano atrás de si.
— Você atrapalhou minha concentração.
— Tinha prometido que não o mataria.
— Algumas promessas são feitas para serem quebradas — Magnus disse. — Nic entenderia.
Kyan suspirou num sibilo ao tombar no chão.
Magnus o cutucou com o bico da bota.
— Ele não parece tão mal quanto Kurtis. Bem menos morto.
Lucia balançou a cabeça.
— Ah, Magnus, você tem ideia do que fez?
— Sim. Derrotei o vilão. — E então Magnus olhou para os outros dois deuses que observavam em silêncio a uma dúzia de passos de distância. — Não cheguem perto, ou vão receber o mesmo tratamento.
Lucia ficou imóvel ao ver um filete vermelho de magia se erguer do corpo inconsciente de Nic. Aquele filete de magia rodopiou ao redor de Magnus por um instante, até se metamorfosear em uma bola de fogo e atingi-lo no peito. Ele pulou como se tivesse sido atingido por um raio, para depois se curvar, apoiando as mãos nos joelhos e tentando respirar.
Em um único movimento, Magnus tirou o anel dourado do dedo e jogou-o no chão coberto de musgo.
Então devagar, bem devagar, ele se endireitou, ajeitou os ombros e observou ao redor da sala do trono.
O coração de Lucia parou ao ver que a marca da magia de fogo estava na palma da mão esquerda de Magnus, já sem o anel.
— Sim… — Kyan falou com a familiar voz grave de Magnus. — Gosto muito desse veículo.
— Não! — Cleo gritou. — Não pode fazer isso!
— Eu não fiz nada. — Kyan se aproximou dela e então se abaixou, para que seus olhos ficassem na mesma altura dos da princesa. — O pequeno príncipe fez isso porque achou que era esperto. Que era um herói. Pensou que salvaria sua bela noiva e todos os seus amigos. Ele devia ter ficado nas sombras, que era seu lugar.
— Saia do corpo dele agora — Cleo rosnou.
Quando Kyan abriu um sorriso afetado, era o sorriso de Magnus. Lucia sentiu um aperto no coração ao ver aquilo.
— Não. Na verdade, acho que vou manter esse veículo por toda a eternidade.
De canto de olho, Lucia viu Ashur se aproximar de Nic e apertar os dedos contra o pescoço do rapaz.
— Ele está morto? — ela perguntou.
— Não. Ainda não, pelo menos. — Ashur olhou para ela com raiva. — A culpa é sua. Você é a responsável por tudo isso.
— Você está certo — ela respondeu. — É minha culpa.
Um ar confuso tomou a expressão de Ashur. Talvez esperasse que Lucia discutisse com ele.
— Kyan — Lucia disse, e o irmão virou para encará-la. Ela engoliu seco. — Vou iniciar o ritual agora.
— Ótimo — ele disse com um meneio de cabeça. — E eu aqui pensando que você talvez me causasse mais problemas do que já causou.
— E por que faria isso? Tem tudo o que me importa à sua mercê. Minha filha, meu irmão, minha… — Ela franziu a testa. — Bem, é só isso na verdade.
Ele arqueou uma das grossas sobrancelhas.
— Sem mais truques?
— Cansei de lutar — ela disse, e pareceu tão sincero quanto todo o resto que tinha dito naquele dia. — Agora só quero que isso acabe.
— É o seu destino — Olivia disse. — Devia se orgulhar disso, Lucia.
— Você será recompensada — Taran acrescentou.
Lucia lançou um olhar furtivo para Cleo, que observava cada passo, cada movimento do deus do fogo.
Ela está procurando qualquer pequeno sinal de que Magnus ainda esteja entre nós, Lucia pensou. Ela ainda tem esperança.
Entretanto, Lucia não era tão otimista.
Ela foi até a parte de trás da mesa onde estavam as quatro esferas de cristal: água-marinha, obsidiana, âmbar e selenita.
Olivia deu um passo para a frente e estendeu o antebraço descoberto para Lucia. Com uma pequena lâmina que guardava no bolso de seu manto, Lucia fez um corte superficial na pele escura e perfeita de Olivia. O sangue escorreu pela superfície e pingou em cada uma das quatro esferas.
Mesmo sem nenhuma palavra dita nem magia específica direcionada a elas, as esferas começaram a brilhar com uma suave luz interior.
Olivia fez um sinal com a cabeça e se afastou.
Todos os olhares estavam voltados para as esferas brilhantes. Lucia ponderou sobre o próximo passo ao apertar a lâmina contra a própria pele.
Continuar o ritual como Kyan havia descrito?
Magnus… Ele havia roubado Magnus. Seu irmão, seu melhor amigo. Ela o havia decepcionado mais uma vez…
Não. Ela se forçou a não se desesperar, não remoer o que já tinha acontecido.
Como poderia fazer aquilo? Dar tanto poder a Kyan, garantir o domínio dele sobre o corpo de seu irmão?
Mas não conseguia descobrir como quebrar as esferas. Podia tentar, mas se falhasse, os desdobramentos seriam catastróficos.
Antes que pudesse decidir entre sangrar ou não sangrar, um braço a envolveu por trás, puxando suas costas contra um peito firme.
A ponta de uma lâmina encostou no pescoço dela.
— Não estou morto, caso estivesse se perguntando — Jonas sussurrou.
— Jonas — ela disse.
Kyan, Taran e Olivia deram um passo para a frente, mas Lucia levantou a mão para impedir que tomassem qualquer decisão precipitada.
Ninguém tinha visto o rebelde entrar na sala coberta de trepadeiras. Estavam todos observando as esferas, a lâmina no braço da feiticeira.
Lucia teria se impressionado com a aproximação furtiva do rebelde se não fosse o pior momento possível para sua chegada.
— Me solte — ela insistiu.
— Acreditei em você, e você me traiu — Jonas sibilou. — Teria lhe dado toda minha magia se tivesse pedido. Droga, eu teria oferecido a você se tivesse me dado uma chance. Agora estou em uma posição complicada, princesa.
Lucia não se mexeu, mal respirou.
— É mesmo?
Ela queria achar uma razão para atrasar o inevitável, e parecia que tinha uma muito boa.
— Ora, ora — Kyan disse. — Gostaria muito que se afastasse da minha feiticeira antes que eu o forçasse.
Jonas hesitou por um instante.
— Magnus?
— Não exatamente — Kyan respondeu, com um sorriso roubado. — Acho que me lembro de você… Sim, um belo dia, em um mercado paelsiano. Uma adorável garota ficou no caminho entre meu fogo e seu corpo.
Jonas ficou tenso.
— Kyan.
O deus do fogo assentiu.
— Aí está. Tenho certeza de que mais lembranças desse veículo virão a mim. Nós nos encontramos antes, muitas vezes.
— Vou matar você — Jonas disse.
— Duvido muito.
— Pare — Lucia pensou, torcendo muito para aquela estranha telepatia entre eles ainda funcionar. — Pare de provocá-lo ou vai morrer. É isso o que quer?
Jonas ficou paralisado.
— Ainda posso ouvir você. Eu me perguntei se seria possível depois de toda a magia que roubou de mim.
— Pequena feiticeira — Kyan disse com calma. — Devo cuidar disso para você?
— Não — ela disse em voz alta. — Posso resolver sozinha.
O deus do fogo semicerrou os olhos.
— Então resolva.
Jonas segurou-a com mais força.
— Timotheus me deu essa adaga, disse que podia destruir magia. Não achei que precisasse usá-la em você. E mesmo assim, aqui estamos nós.
Lucia ficou quieta.
Uma adaga capaz de destruir magia.
Bem ali, naquela sala.
E, no momento, pressionada ameaçadoramente perto de seu pescoço por alguém que tinha todo o direito de desejar sua morte.

Um comentário:

  1. Tomara que uma vez em todos os livros o Jonas salve o dia ...
    Tá aí um personagem que amo demaissss

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Boa leitura, E SEM SPOILER!