16 de setembro de 2018

Capítulo 31

JONAS
PAELSIA

Lucia insistiu para que ela e Jonas fossem ao complexo da imperatriz o mais rápido possível. Isso significava ir a cavalo, o que Jonas soube, antes mesmo de começar a jornada, que era uma péssima ideia para alguém na situação da princesa. Mas Lucia não reclamou nem uma vez enquanto seguiam para o sudeste o mais depressa que conseguiam.
Mas então Lucia parou no meio de uma floresta — ou onde já tinha sido uma floresta um dia. Jonas viu que, ao seu redor, os arbustos e as árvores que antes eram altos e frondosos estavam agora marrons e murchos, e olhou para Lucia.
A pele dela estava muito pálida, como a de um cadáver.
— Posso continuar — ela murmurou.
— Acho que não.
— Não discuta comigo, rebelde. Minha família…
— Sua família pode muito bem esperar. — Ele desceu do cavalo num pulo e estava ao lado de Lucia quando ela soltou as rédeas e escorregou.
O céu escureceu logo em seguida.
— Malditas tempestades paelsianas — Jonas resmungou, olhando para cima. — Não dá para saber quando vêm.
Um trovão alto bastou para assustar os cavalos. Antes que Jonas pudesse impedi-los, os animais fugiram.
— Não me surpreende — ele resmungou. — Uma coisa ruim chama outra.
Lucia segurou a mão dele quando Jonas tentou colocá-la de pé.
— Jonas…
— O que foi?
— Ah, minha nossa, acho… — Ela soltou um grito de dor. — Acho que está na hora.
— Na hora? — Ele balançou a cabeça, olhando para Lucia em negação. — Não, não está na hora de nada além de encontrar outro meio de transporte.
— O bebê…
— Não, eu repito, você não vai fazer isso agora.
— Acho que não tenho escolha.
Jonas a segurou pelos ombros.
— Olhe para mim, princesa. Olhe para mim!
Lucia o encarou com uma expressão de dor.
— Você não vai dar à luz agora porque Timotheus apareceu em meu sonho… só uma vez, mas tempo suficiente para me dizer que teve uma visão comigo. Estarei com você quando você morrer dando à luz. E vou criar seu filho.
Lucia o encarou, arregalando os olhos.
— Ele disse isso?
— Sim.
— Você vai criar meu filho?
— Sim, ao que parece.
— O filho de um vendedor de vinho paelsiano vai criar meu filho?
Jonas estava cansado demais para se importar com a ofensa.
— Não ouviu que acabei de dizer que você vai morrer?
— Mereço morrer por tudo o que fiz. Com certeza não escolheria nem aqui nem agora, mas sabia que a hora estava chegando. Aceito que não tenho escolha. — Ela gritou de novo. — E você deve aceitar seu destino, porque acho que você também não terá escolha.
Ele bufou.
— Eu deveria deixar você aqui e dar as costas para tudo isso. Mas não farei isso.
— Ótimo.
— Você tem certeza de que realmente é agora?
Ela assentiu.
— Tenho certeza.
Jonas a segurou no colo e tentou encontrar abrigo na floresta deserta antes que o céu desabasse. Ele tirou o manto que vestia e o usou para cobrir Lucia e esquentá-la.
— Não sei o que fazer — ela disse.
— Aprendi uma coisa com minha mãe quando era criança — Jonas respondeu. — Ela ajudava outras mulheres a dar à luz em nosso vilarejo. E dizia que a natureza tem um jeito de fazer acontecer, quer saibamos o que estamos fazendo ou não. Mas acha que pode fazer alguma coisa para aliviar a dor com sua magia da terra?
Lucia balançou a cabeça.
— Estou esgotada. Fraca. Minha magia se foi. Timotheus tinha razão. Agora entendo por que ele não queria me contar. Ele me fez acreditar que eu poderia impedir Kyan, mas agora vejo que essa missão é sua. — Ela deixou algo na mão de Jonas. Ele olhou para baixo e viu que era uma esfera de âmbar. — Kyan precisa ser aprisionado de novo. Você tem magia dentro de si, Jonas. Tudo faz sentido agora. — Enquanto falava, sua voz foi ficando cada vez mais fraca até ficar quase inaudível com o estrondo da tempestade.
Ele se esforçou para se apoiar no chão cheio de lama quando se agachou ao lado da princesa.
— Você acha que posso aprisionar um ser como ele? Você é a feiticeira profetizada.
— Não por muito tempo pelo jeito. Jonas… — Ele teve que se aproximar para ouvi-la sussurrar. — Diga a meu irmão e a meu pai… diga a eles que sinto muito por tê-los magoado. Diga que eu os amo e que sei que me amaram. E diga… diga ao meu filho, quando ele for grande para entender, que o bem existia dentro de mim. — Ela sorriu sem forças. — Bem no fundo, pelo menos.
Jonas tinha começado a acreditar nisso, por isso não tentou discutir com ela.
— Você será um bom pai para meu filho — Lucia disse. — Pode não acreditar agora, mas eu vejo. Você é forte, sincero e trabalhador. Faz o que acha que é certo, ainda que isso custe muito caro.
— Não esqueça que sou lindo.
Ela sorriu.
— Isso também.
Ele balançou a cabeça, querendo discutir. Ele não era forte nem fazia o que era certo. Muitos de seus amigos tinham morrido por causa de suas escolhas e de seus planos.
Lucia segurou a mão dele. Sua pele estava muito fria; ele ficou chocado ao perceber.
— Você nasceu para ser grande, Jonas Agallon. Consigo ver seu destino tão claramente quanto Timotheus.
— Escute — Jonas disse, afastando o cabelo comprido e molhado da testa de Lucia —, nunca acreditei em magia nem em destino até um ano atrás.
— E agora?
— Acredito em magia. Em feiticeiras más que no fundo são princesas muito lindas. Acredito em imortais que vivem em um mundo diferente deste, acessível por rodas de pedra mágicas. Mas sabe no que não acredito?
— Não.
— Me recuso a acreditar que não temos controle sobre nosso futuro, porque no momento, vou controlar o meu. Não quero ser pai. Ainda não, pelo menos.
— Mas você precisa ser! Meu filho está…
— Seu filho vai ficar bem. E você também. — Ele apertou a mão dela. — Você disse que Ioannes ensinou você a roubar magia. Então roube a minha. Roube o suficiente para se curar, para passar por esse parto sem morrer. Faça isso, e pode mandar Timotheus se lascar quando chegar a hora de assumir seu futuro no pequeno santuário dele.
Lucia o encarou confusa por um momento.
— Não é assim que deve ser.
— Exatamente — ele disse, sorrindo. — Não gosta da ideia de poder escolher seu futuro?
— Eu… eu não sei se consigo.
— Tente — ele disse. — Tente e pare de discutir sobre cada coisa que digo, droga!
A expressão de medo de Lucia foi substituída pela fúria.
— Você é muito grosseiro comigo!
— Ótimo. Fique brava comigo… tão brava que possa roubar minha magia. Pode me estapear por ser grosseiro mais tarde. Vamos, princesa. Pegue a magia.
Ela franziu a testa enquanto se concentrava. Isso vai funcionar, Jonas pensou. Tem que funcionar.
E então ele sentiu — uma sensação de esgotamento que o fez ofegar. Não era dor, exatamente. Parecia mais uma força magnética puxando suas entranhas.
Seus batimentos cardíacos começaram a diminuir e sua visão começou a escurecer.
— Faça um favor — Jonas conseguiu dizer.
— Qual? — Lucia perguntou, e ele notou que a voz dela já soava mais forte, enquanto ele se sentia mais fraco e mais gelado.
— Tente não… me matar…


Quando acordou com a chuva ainda encharcando seu corpo, Jonas percebeu que tinha desmaiado. O manto molhado tinha sido jogado sobre ele como um cobertor, e lenta, muito lentamente, ele conseguiu sentar.
— As tempestades costumam durar tanto assim por aqui? — Lucia perguntou.
Jonas olhou para ela. Lucia segurava um pacotinho nos braços.
— Tem… tem um bebê aí.
— Tem. — Ela inclinou o pacotinho o suficiente para que ele conseguisse ver um rostinho rosado olhando para ele.
— Um bebê, sem dúvida — ele disse, assentindo. — Você está viva.
— Graças a você. Não sei dizer como estou grata, Jonas. Seu sacrifício salvou minha vida.
— Sacrifício? — ele repetiu. — Não foi sacrifício nenhum. Nunca quis ter essa magia.
— Bem, não peguei toda a sua magia. Como você pediu, não quis matá-lo. Afinal, você prometeu que eu podia estapeá-lo quando me sentisse melhor. — Ela sorriu. — Estou ansiosa para fazer isso.
Ele tentou não rir.
— Eu também.
— Parece que Timotheus estava enganado sobre muitas coisas — Lucia disse. — E o destino não está traçado, como você disse.
— Muitas coisas? Sobre o que mais ele estava enganado?
— Sobre o meu filho. — Ela beijou a testa do bebê. — É uma menina, na verdade.
— Uma menina? — Jonas não conseguiu conter o sorriso ao ouvir aquilo. — Muito bem, princesa.
— Por favor, pode me chamar de Lucia. Acho que você conquistou esse direito.
— Certo. O que vamos fazer agora, Lucia? — ele perguntou.
— Ela tem nome. Quer saber qual é?
Ele assentiu.
— Dei a ela o nome de Lyssa — Lucia anunciou, encarando-o. — Em homenagem a uma garota corajosa chamada Lysandra que eu gostaria de ter conhecido.
Os olhos de Jonas começaram a arder.
— Um excelente nome. Eu aprovo — ele disse, engolindo o nó que tinha se formado em sua garganta. — Certo. Antes que você destrua o resto de Paelsia, vamos encontrar uma hospedaria para você e para Lyssa, assim você vai recuperar o resto de suas forças.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!