1 de setembro de 2018

Capitulo 31

IOANNES
LIMEROS

Ainda que muitas lembranças de Ioannes estivessem nebulosas desde que Melenia lançara o feitiço de obediência, uma continuava clara e cristalina: uma noite estrelada em Paelsia quando, em forma de falcão, ele viu duas irmãs usando magia reforçada por sangue e morte para roubar uma criança recém-nascida do berço. Viu as duas fugindo para a floresta escura, com o pequeno bebê enrolado em panos. Então, logo em seguida, viu uma irmã trair a outra para entregar a criança ao homem que havia lhe dado a missão, um homem que ela pensava amar — um homem que um dia seria rei.
A bruxa era jovem e tola, disposta a fazer coisas horríveis por amor — até mesmo matar a própria irmã.
Mas o que Ioannes lembrava com mais intensidade era o momento em que olhou para o rosto do bebê, imaginando se o que as bruxas diziam podia ser verdade: que aquela criança inocente era a feiticeira renascida, depois de tantos anos de espera.
Em seu coração, soube que era verdade. E foi por isso que continuou visitando a criança durante anos, para vê-la crescer e se tornar a garota bela, poderosa e perigosa que era agora.
Na noite em que Lucia foi tirada de sua mãe verdadeira, Ioannes prometeu a si mesmo que sempre estaria por perto para protegê-la. Na época, pretendia fazê-lo de corpo e alma.
Agora, estavam juntos em Limeros. Lucia segurava firme sua mão enquanto se aproximavam do templo.
— Ah, Ioannes. — Sua respiração condensava no ar frio quando falava. — Senti tanta falta deste lugar.
Ioannes não tinha muitas coisas boas a dizer sobre Valoria, então guardou seus pensamentos para si. Valoria acreditava que suas opiniões eram melhores que as de todos os outros, pouco importando se ninguém mais concordasse. Torcia o nariz para qualquer coisa que tornasse a vida, mortal ou imortal, mais interessante, até mesmo ler fábulas ou cantar. Cleiona era o extremo oposto: uma criatura frívola e vaidosa, que se preocupava apenas com sua própria diversão. Não era uma surpresa que os reinos fundados por elas tivessem evoluído para refletir seus respectivos valores.
Agigantando-se à entrada do templo havia uma estátua de Valoria, lançando um olhar de julgamento sobre todos que entravam. Seus braços estavam erguidos e, na palma das mãos, estavam gravados os símbolos dos elementos que representava: terra e água.
Embora o lugar perdesse em comparação à grandiosidade do Templo de Cleiona, que tinha facilmente seis vezes o seu tamanho, ainda era muito impressionante. Era cheio de blocos de granito com linhas perfeitas, ângulos exatos, cantos vivos, sem nada que parecesse pomposo ou fora do lugar. Nada extraordinário ou decorativo. O templo era imaculado em todos os sentidos e ficava aberto dia e noite para qualquer um.
Mas Melenia tinha sentido um grande poder no local — como acontecera nos outros três.
Ele pensou que levaria meses, não semanas, para chegar até ali.
Tudo aconteceu muito mais rápido do que podia ter imaginado.
Dentro, no centro do chão negro de granito, erguia-se uma enorme coluna de fogo. Era de certa forma irônico, já que Cleiona era considerada a deusa desse elemento. Mas, em Limeros, ele era necessário simplesmente para evitar a morte por congelamento.
O fogo, Ioannes notou, queimava no meio de uma larga piscina retangular de águas rasas, e era alimentado com regularidade por criados do templo vestindo mantos vermelhos.
Havia poucas pessoas ali naquela noite — provavelmente por conta tanto da nevasca quanto do horário avançado. Ele e Lucia já haviam garantido um quarto em uma pousada próxima, mantendo a identidade dela em segredo.
Assim que as nuvens se dissiparam e a lua brilhante passou a iluminar a paisagem gélida quase tão bem quanto o sol, a princesa praticamente o arrastou para lá, empolgada para mostrar o que tinha sido uma parte tão importante de sua vida antes da mudança para Auranos.
Ioannes tentou andar rápido, mas, ainda que a ferida causada por Xanthus estivesse se curando bem, sua perna ainda atrapalhava. Era um lembrete duro de sua mortalidade.
Lucia o puxou pelo corredor até o altar. Lá, apertou as mãos dele e olhou-o nos olhos.
— É aqui que vamos nos casar — ela disse, com um largo sorriso iluminando os olhos azuis como o céu.
— Aqui? — Ele levantou a sobrancelha e olhou em volta. — Não sei ao certo se princesas que fugiram de casa deveriam se casar em lugares públicos como este, pelo menos se quiserem manter segredo.
— Talvez não queira manter segredo. Talvez queira que todos saibam… até meu pai. — Ela o beijou, abraçando-o e puxando-o para perto. — Ele vai entender. Vai, sim.
Ele se perguntou se o rei estava tão comprometido em encontrar a Tétrade a ponto de aprovar esse casamento para garantir seu sucesso. Não tinha muita certeza disso. O último encontro dos dois havia terminado bem, mas o rei estava ansioso e impaciente por não haver progresso e o tempo estar se esgotando.
Se ele ao menos soubesse a verdade.
— E seu irmão? — Ioannes perguntou.
— É mais provável que ele seja um problema. — Mas o sorriso dela ainda estava intacto quando se afastou. — Magnus vai aceitar meu amor por você. Ele compreende o amor, quer admita ou não. Verá em meus olhos que é verdadeiro e não pode ser mudado. Sempre foi meu destino ficar com você.
Sentindo o coração como um peso morto em seu peito, ele tocou a face dela, tentando gravar a imagem em sua memória.
Lucia, por fim, franziu a sobrancelha.
— Por que parece tão triste?
Ele balançou a cabeça.
— Não estou triste.
— Então essa é sua expressão de felicidade? Preciso dizer que me deixa um pouco preocupada. Não está pensando duas vezes, está?
Duas, três, quatro… um milhão. Sobre cada decisão que tomara, cada segredo que mantinha.
— Não quanto a você.
— Bom. Sei como somos diferentes. E sei que não o conheço há tanto tempo assim…
Conheço você desde que nasceu, ele pensou. Vigiei você. Eu a protegi dos outros. Esperei quase dezessete anos.
— … Mas é o certo — ela prosseguiu. — Nunca estive tão certa sobre algo na minha vida.
Ioannes pegou sua mão, esfregando a enorme ametista de seu anel com o dedo. Lembrou-se de ter visto o mesmo anel na mão de Eva. No fim das contas, considerando todo o seu poder, não tinha sido capaz de ajudar a feiticeira original contra sua maior inimiga.
Nos primeiros sonhos que compartilharam, Ioannes dissera a Lucia que Eva havia morrido por ter se apaixonado pelo garoto errado. Mas era mentira. O amor, pelo menos o amor que Eva havia experimentado, não teve nada a ver com o destino da feiticeira.
Era um pensamento tão irônico agora.
Lucia olhou para o teto abobadado e para os poucos fiéis sentados nos duros bancos de madeira. Depois voltou os olhos para o fogo que queimava para manter os visitantes protegidos do frio constante do lado de fora.
— Podemos reivindicar o cristal aqui? Agora? — ela perguntou.
— Ainda não.
Ela franziu a testa.
— Como assim, ainda não? É por causa das testemunhas?
— Não. É preciso dar um último passo aqui. Não houve magia de sangue nem desastre elementar. Não será feito na ordem correta, mas ainda assim deve ser feito. Este lugar — ele olhou em volta, agitado — é a âncora. É onde tudo deve terminar. E o fim desencadeará o início.
Ela riu daquele discurso enigmático.
— Não entendi.
— Queria ter explicado tudo a você, mas é impossível. — Ele passou a mão no peito. — Mas aqui estamos. Aqui é onde o destino nos esperou por todos esses séculos.
Lucia o observou com paciência, como se suas divagações a divertissem.
— O que precisamos fazer, então, para aceitar esse destino?
Ela estava muito curiosa, insaciável. Ioannes se perguntava como teria sido ser seu tutor de verdade, ajudá-la com sua magia nos anos vindouros.
— O sangue é o centro de tudo, princesa. Sangue é magia. É a chave de tudo, a chave da vida, a chave da morte, a chave da liberdade, a chave do aprisionamento.
Ela gargalhou, o que o surpreendeu, e se inclinou para beijá-lo.
— Você está sério hoje, não é? Não se preocupe, um pouco de sangue não me assusta.
Ele gostaria de sentir o mesmo. Seu peito doía mais a cada momento de hesitação, as marcas invisíveis que o prendiam à vontade de Melenia, controlando-o dia e noite.
— Ela está me forçando a fazer isso. Por favor, entenda… não é minha escolha.
O sorriso dela desapareceu, e sua expressão se tornou sombria.
— Está tudo bem, o que quer que o esteja atormentando. Estou aqui. — Ela então o abraçou, envolvendo seus ombros com os braços para trazê-lo para perto. — Vamos resolver tudo isso juntos e…
A princesa gemeu no instante em que a adaga atingiu seu estômago.
— Sinto muito, Lucia — Ioannes sussurrou. — Não sou eu. É algo mais poderoso, e está me controlando.
E puxou a lâmina. Ela cambaleou para trás e caiu de joelhos, tocando o ferimento e observando, em choque, seus dedos ensanguentados. O sangue jorrava do corte, ensopando seu vestido e formando uma poça no chão do templo.
Nos outros locais, foi preciso uma enorme quantidade de sangue para provocar o efeito necessário — um tornado, um terremoto, um incêndio. O sangue dos escravos derramado sobre a estrada que foram forçados a construir. O sangue das batalhas contra os rebeldes em um templo e nas montanhas. O sangue derramado de tantos mortais, em três ocasiões diferentes, para desencadear três desastres elementares.
Destino. Todas as vezes.
Mas o sangue de uma feiticeira era mais poderoso que o de uma centena de mortais comuns.
Melenia tinha esperado milhares de anos por aquele momento. Com o sangue de Lucia derramado — ali, naquele instante —, o véu entre os mundos finalmente se dissiparia o bastante para alguém tão poderoso quanto a anciã escapar de sua prisão e reivindicar o que mais desejava.
Em meio a essa névoa de horror, Ioannes escutou os gritos dos que testemunharam o ato de violência. Eles correram para fora do templo, deixando-o sozinho com Lucia.
Não havia nenhum herói ali para salvá-la.
Apenas um vilão, que um dia fora imortal, segurando uma adaga.
Sob o feitiço de Melenia, cada pensamento rebelde que tinha, ou palavra que dizia, lhe causava dor — mas não era nada comparado à dor que sentia ao ver Lucia sofrer daquela maneira, suportando uma dor que era mais do que apenas física.
— O quê… — Lucia ofegava. — O que está… por que fez isso? Ioannes… por quê?
De repente, uma tempestade de neve se formou, provocada pelo sangue de Lucia, e desabou sobre o Templo de Valoria, quebrando todas as janelas. Pingentes de gelo, afiados como espadas e rápidos como relâmpagos, voando através das janelas quebradas, alguns fincando no chão, outros se estilhaçando em milhares de pedaços com o choque.
Ioannes apenas ficou ali parado, tremendo em silêncio enquanto observava Lucia sangrar. Ela o encarou com dor e confusão estampadas no rosto pálido. Não havia fúria nem acusação, apenas confusão.
Enquanto isso, a violenta tempestade bombardeava o templo. Ele não tinha dúvida de que qualquer um que tivesse saído já estava morto. Não houve tempo o bastante para procurar abrigo antes de a ventania atacar. Seus corpos seriam encontrados em volta do templo, congelados e cravados de lascas de gelo.
Mas a morte deles era insignificante. Apenas Lucia importava.
Melenia estava certa sobre muitas coisas. Mas não sobre tudo.
Lucia poderia destruí-lo com um pensamento, mas não usou seus elementia contra ele para se defender. Naquele momento, era apenas uma garota traída pela pessoa que amava.
Ioannes se ajoelhou perto dela e a segurou pelos ombros, esforçando-se para falar apesar da dor que ameaçava reprimir a verdade.
— Esse ferimento não vai matá-la, mas o próximo vai. Você precisa se defender de mim enquanto ainda tem chance.
Seu olhar angustiado procurava o dele.
— Ioannes… pare com isso…
— A missão está gravada na minha própria pele, Lucia. Melenia me forçou a obedecer seus comandos e não posso parar, posso apenas adiar o inevitável. — Cada palavra parecia uma facada em sua garganta. — Melenia quer você morta, aqui e agora.
— Por quê?
— Seu sangue tem a mesma magia do sangue de Eva, poderosa o bastante para prendê-la, poderosa o bastante para libertá-la. Ela não quer que a Tétrade seja devolvida ao Santuário. Ela a quer para si e planejou isso, esperou por isso, por milênios.
Os olhos dela ficavam mais arregalados a cada palavra que ouvia.
— Você mentiu para mim. — Ela respirava com dificuldade. — Como pôde? Confiei em você!
Foi preciso juntar toda a sua força para resistir à ordem remota de trespassar o coração de Lucia com sua lâmina e tirar de vez sua vida. O feitiço de obediência de Melenia queimava em seu corpo, mas ele resistia. Precisava haver outra opção…
Ioannes agarrou a lâmina. Suas mãos tremiam com violência.
— Você precisa me matar.
Ela sacudiu a cabeça.
— O quê? Não! Você… você disse que esse ferimento não vai me matar. Ainda estou viva, estou aqui. Por favor, qualquer que seja o feitiço que ela lançou sobre você… precisa resistir a ele!
— Estou tentando — ele disparou as palavras por entre os dentes. Mas era uma tarefa impossível.
Melenia venceria, como sempre soube que aconteceria.
Sua força o abandonara, sua pequena fagulha de controle desaparecia. Tudo dentro dele gritava para que acabasse com isso, matasse Lucia e terminasse tudo.
Mas ele ainda lutava.
— Ela vai fazer qualquer coisa para libertá-lo — ele disse. — Acredita que o ama, e para ela isso justifica qualquer coisa.
— O quê? Quem…? Melenia? Não me importa quem ela ama. Eu amo você. De qualquer jeito. Eu amo você, Ioannes.
— Por que não faz o que digo e se defende de mim?
— Porque isso não é uma aula sobre elementia — ela sussurrou. — E você não é meu tutor. É o homem que amo e não vou desistir de você!
Lucia acreditava que ainda havia uma escolha, ainda tinha esperança de um futuro com ele.
Ioannes queria que ela estivesse certa.
Era tão bela, essa jovem que roubou seu coração. Tão bela e tão corajosa, mesmo depois de ter feito tanto para que o odiasse.
— Você ainda não entendeu. Ela já venceu. Agora resta apenas saber quem vai sobreviver até amanhã: você ou eu. E juro que será você.
Depois disso, ele segurou o cabo da adaga com mais força e, com cada gota de sua força e vontade restantes, fincou a lâmina no próprio coração.
— Não! — Lucia gritou. — Ioannes! Não!
A dor era intensa, mas diferente da que sentia por resistir ao feitiço de Melenia. Essa dor finalmente o libertaria do feitiço que o escravizara.
A espiral dourada em seu peito começou a brilhar mais forte sob o sangue que agora a cobria. Seu sangue se misturou ao de Lucia, e a tempestade finalmente começou a se acalmar.
Ela o puxou para perto de si, as lágrimas escorrendo pelo rosto.
— Eu amo você — Ioannes disse. — E sinto muito por não ter sido mais forte.
Ela balançou a cabeça, pressionando o ferimento dele. Suas mãos começaram a brilhar. Estava tentando curá-lo.
Isso quase o fez sorrir. Lucia já sabia que magia terrena não poderia curar um vigilante exilado — nem a magia dele, nem a dela. E, mesmo assim, estava tentando.
Um choro trêmulo escapou de sua garganta.
— Não pode me deixar. Preciso de você.
Por fim, depois de tanto tempo sob o controle de Melenia, sua mente estava livre da influência dela. Significava que tinha pouco tempo, mas usaria esse tempo para ajudar a garota que amava.
Ele a puxou para perto.
— Por favor, escute. Escute com muita atenção…
As lágrimas dela, quentes e salgadas, caíam sobre a pele dele quando começou a falar, mas o calor que elas tinham não conseguia aplacar o frio que rapidamente se espalhava por seu corpo. Durante toda sua longa vida, ele tentara imaginar como seria o momento da morte, se algum dia chegasse. Nunca pensara que seria tolo o bastante para deixar o Santuário, para arriscar sua imortalidade por uma garota.
Mas, por aquela garota, arriscaria tudo com prazer.
E antes que a morte finalmente o clamasse, beijou-a uma última vez e contou o que ela precisava saber sobre o que estava prestes a acontecer.

2 comentários:

  1. P
    R
    O
    S
    T
    I
    T
    U
    T
    A que pariu

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    Respostas
    1. Menos colega.
      Que ódio da Melena. Quem ela quer ressuscitar? Quem é o amado dela?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!