3 de setembro de 2018

Capítulo 30

CLEO
LIMEROS

Cleo abriu os olhos, lenta e dolorosamente, e descobriu que estava deitada sobre uma cama dura em um quarto pequeno e desconhecido com paredes de gesso branco.
Gemeu ao levantar e levou a mão à cabeça, sentindo sangue ressecado no cabelo. E então se lembrou.
Lorde Kurtis.
Ela tinha passado a gostar cada vez menos dele no decorrer das semanas, percebendo como era covarde desde que pediu sua ajuda para retomar o poder que Magnus havia tirado. Mas nunca esperaria que ele fosse ousado ou resoluto o bastante para arrastá-la da galeria do palácio como se não passasse de uma boneca de pano, e entregá-la a um par de guardas kraeshianos.
Ele pagaria caro por aquele erro.
Cleo levantou e foi até a porta, girou a maçaneta e descobriu que estava trancada. Uma única janela na parede oposta à porta mostrava que já era noite, o que significava que havia ficado inconsciente por um bom tempo. Ela abriu a janela e se debruçou sobre o peitoril o máximo possível para tentar avistar algo familiar que lhe desse pistas de sua localização.
Estava dentro de uma grande construção de pedra, com pelo menos quatro andares de altura. Era mais grandiosa que uma quinta, assemelhava-se mais a um castelo, e era feita do mesmo granito negro do palácio limeriano.
O quarto estava iluminado por várias lamparinas, mas a única coisa que conseguia ver para além dos jardins sob sua janela era uma floresta. Caía muita neve, obscurecendo sua visão mais adiante.
Por um momento, ela pensou em pular para o chão coberto de neve, mas rapidamente mudou de ideia. Mesmo com uma generosa camada de neve, sabia que pular daquela altura lhe renderia, na melhor das hipóteses, ferimentos graves e, na pior, a morte instantânea. Com o coração apertado, fechou a vidraça.
— Pense, Cleo — ela murmurou. Precisava haver um jeito de sair dali.
Ela ficou se perguntando onde estaria Magnus. Não o via desde a terrível discussão que haviam tido na sala do trono.
Ela sabia que o príncipe ficaria zangado com o discurso na galeria, mas não estava arrependida da mensagem que havia transmitido. E esperava que aquilo servisse para mudar a ideia que Magnus tinha dela, de uma vez por todas.
Depois de receber a mensagem de Jonas e passar uma noite em claro tentando descobrir uma forma de evitar ficar presa sob o domínio kraeshiano, Cleo tinha se dado conta de que Magnus era a única pessoa capaz de manter o país a salvo do rei Gaius, de Amara e de sua ganância implacável. Mas agora, depois de testemunhar a força e a rapidez com que o exército kraeshiano tinha tomado o palácio, viu que sua última tentativa de um futuro esperançoso havia sido extremamente otimista.
De repente, Cleo ouviu uma chave na fechadura, e a porta começou a abrir. Cerrando os olhos sob a luz das lamparinas, viu a própria Amara Cortas entrar. Ela abriu um grande sorriso para Cleo.
— Boa noite, Cleo. Parece que não a vejo há muito tempo.
— Parece mesmo — Cleo respondeu, oferecendo um sorriso menor. — E deu para ver que andou ocupada. Suponho que deva parabenizá-la por sua vitória.
Amara olhou para o guarda que estava na porta.
— Vá pegar alguma coisa para bebermos — ela ordenou. — Um pouco de vinho paelsiano. Já que a maioria dos limerianos parece hipócrita em relação a suas crenças religiosas, tenho certeza de que lorde Gareth mantém um estoque em algum lugar da casa.
— Sim, imperatriz — o guarda respondeu e depois saiu do quarto.
Amara se virou para Cleo.
— Ainda deve estar zangada comigo pelo jeito que as coisas ficaram entre nós.
— A raiva desaparece, Amara. Até a mais intensa.
— Dei ordens para os meus guardas a matarem.
— Eu me lembro. Mas eles falharam, claramente.
— Claramente. Porém, para dizer a verdade, estou feliz pela ineficiência de meus guardas. Minhas emoções estavam exaltadas aquela noite. Pensando bem, estou envergonhada por ter perdido a compostura de maneira tão extrema.
— Já está tudo no passado — Cleo manteve o sorriso, determinada a não lembrar Amara de que tinha perdido mais do que a compostura aquela noite. Ela havia perdido seu irmão, assassinando Ashur a sangue-frio sem nenhuma hesitação. — Então esta é a casa de lorde Gareth?
— Sim. É um castelo um tanto quanto singular, não é?
— Eu não confiaria no lorde Gareth se fosse você. E, principalmente, no filho dele.
Amara riu.
— Não se preocupe, não confio em homem nenhum.
A princesa kraeshiana foi até a janela e sentou no parapeito.
— Parece que temos um problema, Cleo.
— Hum?
— O rei quer você morta. E quer realizar a execução pessoalmente.
Cleo sentiu um arrepio na espinha, mas se esforçou para não demonstrar nada além de surpresa.
— Isso é... eu... mas não entendo. Que tipo de ameaça eu represento para alguém tão poderoso quanto o rei Gaius?
— Você não sabe? — Amara levantou uma sobrancelha. — Achei que era óbvio. Meu novo marido acredita que você é o único obstáculo que existe entre ele e a lealdade do filho. E, devo dizer, Cleo, tendo em vista os últimos atos de seu príncipe, não acho que ele esteja errado.
— Perdão, mas acabou de se referir ao rei como seu “marido”? — Cleo perguntou, a mente girando. — Você está... você casou com o rei Gaius?
Amara deu de ombros.
— Foi ideia de meu pai. Ele achou que nosso casamento faria o rei entrar simbolicamente na linha de hereditariedade dos Cortas, tornando-o digno de compartilhar seu poder. — Ela olhou para Cleo com deleite. — Não fique tão horrorizada. Não é tão repulsivo quanto parece.
— Mas ele é... — Cleo gaguejou, esforçando-se para entender aquela situação nova e estranha. — O rei Gaius... até se desconsiderarmos todas as coisas que ele fez, ele é...
— Exatamente como Magnus, só que com o dobro da idade? Isso me faz lembrar... espero que não esteja mais chateada com meu breve flerte com seu marido. Posso garantir que não significou nada... pelo menos para mim.
— Não dou a mínima para esses assuntos.
— É claro que não.
Cleo se lembrou da pontada que sentiu quando se deu conta de que Amara tinha passado a noite com o príncipe. Na época, ela tinha se convencido de que a pontada era de irritação, de decepção por Magnus pular tão rapidamente na cama de uma inimiga em potencial.
Agora não tinha tanta certeza.
O guarda voltou, segurando uma garrafa de vinho e dois cálices.
— Conforme solicitado, imperatriz.
— Excelente. — Ela apontou para uma mesa no canto. — Coloque ali e nos deixe a sós.
Amara serviu o vinho e ofereceu um cálice para Cleo.
Ela hesitou um pouco, depois aceitou.
— Não se preocupe — Amara disse. — Não está envenenado. Além disso, sua morte não me serviria de nada. Prefiro que fique viva.
— Isso quase pareceu um elogio. — Cleo ergueu o cálice. — A seu novo papel como imperatriz. E a você e ao rei.
Amara brindou com Cleo e tomou um gole.
— Você brindaria a um homem que deseja vê-la morta?
Cleo inclinou a cabeça para trás e tomou o último gole de vinho de uma vez.
— Estou brindando ao dia em que você se tornar viúva, assim que resolver que ele não tem mais utilidade.
Amara sorriu.
— Você me conhece bem.
— Eu a admiro, Amara. Você vai atrás do que quer e consegue, custe o que custar.
— Minha avó sempre foi uma mulher determinada a garantir que eu crescesse acreditando que era tão boa quanto meus irmãos, mesmo que todos os homens de Kraeshia me vissem como um belo enfeite. Tenho orgulho de minhas conquistas, mas não estou livre de arrependimentos.
— Ninguém está.
— Diga, Cleo — Amara disse ao encher mais uma vez os cálices. — Se eu conseguisse convencer o rei a poupar sua vida, você se aliaria a mim? Prometeria ser leal a mim de hoje em diante?
Cleo ficou paralisada, com a borda da taça pressionada contra os lábios.
— Você faria... Por que faria isso?
— Tenho muitas razões. E recentemente descobri algo muito surpreendente sobre Gaius: suas decisões mais importantes são tomadas com o coração.
— E eu que estava certa de que ele não tinha coração...
— Deve ser pequeno, escuro e frio, mas está lá. Ele ama tanto o filho que está disposto a perdoá-lo até mesmo pela mais grave traição. Ele também ama Lucia... mais do que apenas por sua magia. — Amara fez uma pausa e tomou outro gole de vinho, com um olhar dissimulado e brilhante. — Também fiquei sabendo de algo muito interessante sobre o passado do rei. Algo relacionado a uma garota. Uma garota que ele amou com uma paixão que surpreendeu até a mim.
Cleo teve que achar graça.
— Ele contou isso a você? Está mentindo.
— Não tenho certeza — Amara afirmou, com um sorriso sagaz nos lábios. Ela se inclinou para a frente. — Cleo, podemos deixar nosso passado para trás. Podemos trabalhar juntas, em segredo, para ajudar a evitar que qualquer homem tente roubar nosso poder.
— Nosso poder?
— Minha avó é velha, meu pai e meus irmãos estão mortos. Não tenho amigos, não tenho aliados em quem confiar. Você passou por tantas tragédias e perdas que sei que a modificaram. Como eu, você é bonita por fora, mas sua alma é forjada em aço.
Cleo franziu a testa, mais cética a cada elogio que Amara fazia.
— Você confiaria em mim com tanta facilidade?
— É claro que não. Esse tipo de confiança precisa ser conquistado, de ambos os lados. Sei disso. Mas vejo o suficiente de mim em você para me dispor a correr o risco. — Amara estendeu a mão. — O que me diz?
Cleo olhou para a mão cheia de joias por um longo instante e finalmente a apertou.
— Excelente — Amara sorriu, depois se virou para olhar pela janela. — Quando Gaius acordar, vou falar com ele. Duvido que argumente muito antes de concordar manter você viva. Afinal, ele a vê do mesmo modo que me vê: como um objeto para possuir e controlar.
— Erro dele, não é?
— Sem dúvida.
Cleo pegou a garrafa, verteu mais vinho em seu cálice e engoliu a bebida. Depois deu com a garrafa na cabeça da imperatriz.
Aliar-se à garota mais maliciosa, dissimulada e sanguinária que ela já conhecera em toda sua vida?
Nunca.
Estupefata, Amara desabou no chão.
Cleo correu para a porta e encostou o ouvido ali. Não ouviu nada. O barulho do vidro e a pancada do corpo de Amara não levantaram suspeitas de nenhum dos guardas.
De qualquer modo, sabia que não tinha muito tempo e, se tentasse escapar por dentro do castelo, com certeza seria capturada.
Desviando da imperatriz caída, Cleo voltou a abrir a janela. O vento gelado e a neve entraram no quarto.
Será que ela estava pronta para correr o risco?
— Pense — sussurrou.
Ela se debruçou sobre o parapeito e olhou para a lateral do prédio, vendo algo que tinha deixado passar antes: uma treliça coberta de gelo, parcialmente escondida sob a neve.
Uma lembrança surgiu em sua mente, de uma época não muito distante, quando tudo corria bem na Cidade de Ouro e o maior problema de Cleo era ter um pai superprotetor e uma irmã, a herdeira do trono, que se saía bem em tudo o que fazia. Cleo sempre ansiou por liberdade e odiava ficar engaiolada no palácio. Ela estava com Emilia em seus aposentos quando notou a treliça coberta de trepadeiras e flores ao longo da sacada de sua irmã.
A treliça a fez lembrar que Nic havia escalado uma vez para colher uma rosa vermelha perfeita para ela, e que ela havia decidido tentar escalar também. Só conseguiu estragar o vestido novo, o que a deixou em maus lençóis com a ama-seca. Mas ela gostou muito da escalada, deleitou-se com a capacidade de chegar a algum lugar apenas graças à própria força e ao próprio equilíbrio.
— Quero tentar — a pequena Cleo tinha dito a Emilia e, sem esperar pela resposta, começou a passar pela grade.
Emilia largou o livro e correu até a sacada.
— Cleo! Você vai acabar se matando!
— Não vou, não. — Seu pé encontrou um apoio firme, e ela sorriu para a irmã. — Olhe para mim! Acho que encontrei uma nova forma de escapar do palácio!
Mas a treliça de Emilia não era tão escorregadia, e seus aposentos ficavam muito mais perto do chão.
Cleo escutou uma comoção do outro lado da porta. Sem tempo para pensar, ela engatinhou pela janela e sentou no parapeito. O ar frio roçava suas pernas descobertas sob o vestido. Às cegas, tentou encontrar um apoio para o pé. Procurou com a ponta da sapatilha e finalmente encontrou.
Estreito, muito estreito. E tão gelado.
Ela fez uma oração em silêncio para a deusa na qual tinha deixado de acreditar fazia muito tempo e finalmente se soltou do robusto parapeito, agora totalmente pendurada na treliça coberta de neve.
— Vou conseguir — ela sussurrou. — Vou conseguir. Vou conseguir.
Ela repetia a frase a cada novo apoio que encontrava.
A neve continuava a cair, densa e pesada, o que só deixava cada movimento mais perigoso.
Um passo de cada vez. Um pé mais embaixo. De novo. E de novo.
Seu coração batia rápido, os dedos começavam a ficar dormentes.
De repente, um pé escorregou. Ela balançou o corpo para se segurar. Um grito se formou em sua garganta quando ela perdeu a firmeza e caiu.
Caiu sentada com tudo, e, aturdida, porém ilesa, olhou boquiaberta para a lateral do castelo.
Não havia tempo para descansar. Ela levantou de imediato e começou a caminhar.
Precisava encontrar abrigo, um lugar para descansar e se esconder. No dia seguinte, quando o sol nascesse, correria para Pico do Corvo, onde tentaria mandar uma mensagem para Jonas e Nic.
O som de latidos a assustou, e ela tentou se esconder atrás de uma pilha de lenha. Dali, observou dois guardas e três cães pretos saírem da mata densa. Os cães arrastavam um trenó que carregava a carcaça de um cervo.
— Leve os cães para o canil e os alimente — disse o guarda mais alto.
O companheiro concordou e soltou os cães do trenó, levando-os para o outro lado do castelo.
O guarda que ficou pegou as rédeas e continuou a arrastar o trenó na direção do castelo. Ele olhou para o céu tempestuoso, então tirou o arco do ombro e o jogou no chão, junto com a aljava de flechas. Depois se sentou em um tronco grande, tirou uma garrafinha prateada do manto e tomou um gole.
— Foi um dia bem longo — ele resmungou.
— Foi mesmo — Cleo concordou, batendo com um pedaço de lenha na cabeça dele.
O guarda a olhou com surpresa por uma fração de segundos, antes de cair, inconsciente.
Ela bateu mais uma vez, só para garantir.
Rapidamente, Cleo tirou o manto do guarda e jogou sobre os ombros.
Inspecionou a área, sabendo que teria que se embrenhar mais na floresta se quisesse ficar escondida até o amanhecer. Seu olhar então recaiu sobre o arco e as flechas.
Se magia de fato existisse, talvez fosse possível que suas habilidades no arqueirismo surgissem quando ela mais precisasse. Mesmo sem conseguir acertar um único alvo durante as aulas.
É isso que acontece quando se tem um covarde como instrutor de armas, ela pensou com desgosto.
Cleo pegou o arco e as flechas e correu o mais rápido que pôde pela neve alta, entrando na mata.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!