29 de setembro de 2018

Capítulo 30

NASCI NO DESERTO. Ele era parte de mim. Aquilo era tudo o que eu lembrava da luta que se seguiu.
Caos e areia e balas que não me atingiram. Quando todos os meus inimigos haviam caído, desabei apoiada numa parede, cansada demais para me importar se mais alguém queria atirar em mim ou me queimar viva.
— Amani. — Abri os olhos de repente. Jin estava de pé nos portões de Fahali. A expressão em seu rosto se alegrou quando me viu, e ele correu na minha direção, aliviado. — Graças a Deus.
— Você não acredita em Deus — eu disse. As palavras saíram como um gemido enquanto ele eliminava a distância entre nós com um beijo.
Alguém pigarreou atrás de nós, e nos separamos.
Os gêmeos estavam de pé a alguns metros, ambos de braços cruzados. Pareciam um pouco chamuscados, mas relativamente intactos.
— Esse é o parabéns que vamos receber por sobreviver também? — Maz perguntou. — Porque não sei como me sinto em relação a isso.
O cabelo de Izz levantou.
— Eu sei como eu me sinto.
— E eu sei como eu me sinto em relação a quebrar o nariz dos dois — Shazad disse, empurrando Izz sem desacelerar o passo. Hala seguia seu rastro, a pele dourada manchada de sangue vermelho.
Me dei conta de que a luta havia terminado. E ainda estávamos todos vivos. Queria chorar de alívio.
Shazad embainhou a cimitarra antes de estender as mãos e me puxar para um abraço. Desabei em cima dela, grata.
Quando nos separamos, percebi que tínhamos público. O povo de Fahali se amontoava ao nosso redor, reunindo-se conforme a poeira assentava. Só que ninguém reparava em nós. Todos os olhos estavam fixos em Ahmed.
Ele estava de pé logo depois dos portões da cidade, com três soldados mirajins. Prisioneiros, imaginei, já que esperavam de joelhos, com a cabeça baixa, por seu veredito.
Ahmed realmente se portava como um príncipe. Dava para ver naquele momento. O rapaz sorridente e amistoso que não queria ser tratado como “majestade” tinha sumido. Mas ele também não era um regente dourado pronto para subir no trono. Parecia um herói lendário, recém-chegado de uma batalha. Um homem capaz de liderar aquele país.
— O que aconteceu? — perguntei, me apoiando em Shazad. Depois da morte de Naguib, tudo não passava de um borrão na minha memória.
— Os soldados gallans que sobreviveram bateram em retirada — ela respondeu em voz baixa. — Eu os vi cavalgando para o norte. Quando contarem ao rei que o sultão tentou matá-los, será o fim da aliança. O que sobrou do exército de Naguib se rendeu depois que ele morreu. Todo mundo o viu queimar.
— E Noorsham? Eu o perdi de vista na luta…
— Deve ter fugido — disse Shazad, cerrando a mandíbula.
Ele havia escapado. Tentei esconder o alívio no rosto. Noorsham havia matado Bahi. O garoto que tinha feito uma serenata bêbado para ela, que tinha se juntado a uma rebelião por sua causa. Mas Noorsham ainda era meu irmão. Meu irmão, que tinha o poder de destruir aquele deserto inteiro se quisesse, ainda estava em algum lugar por ali. E sabia meu nome verdadeiro.
Ahmed falava com os soldados mirajins, a voz alta o suficiente para as pessoas próximas ouvirem:
— Não vou matar vocês. Execução sem um julgamento é o que os gallans têm feito aqui há séculos. E a influência deles no nosso deserto logo vai terminar. — Um dos três soldados olhou rapidamente para cima, como se ousasse ter esperança de escapar com vida. — Vou libertar vocês sob a condição de que levem uma mensagem ao meu pai.
Um murmúrio percorreu a multidão quando ouviram ele dizer “meu pai”. Se Ahmed notou, não demonstrou.
— Digam a ele que Fahali está intacta e sob minha proteção. Que reivindico a autoridade sobre todas as cidades a oeste das montanhas centrais. Meu pai não pode manter o país inteiro sob controle sem a aliança com os gallans. E caso se recuse a escutar a vontade do povo, escutará a minha. De um jeito ou de outro, tomarei o trono desta nação um dia. Até lá, este é o meu povo.
A atenção de todos estava fixa em Ahmed enquanto seu olhar alternava entre os três soldados.
Talvez eles fugissem de Miraji em vez de retornar ao sultão com a mensagem. Mas as histórias sempre davam um jeito de encontrar seu caminho no deserto. O sultão ouviria falar que o príncipe rebelde estivera sobre as cinzas da batalha de Fahali e que ameaçara seu governo.
— E se ele vier atrás do meu povo, a guerra irá bater na sua porta.
— Uma nova alvorada! — O grito surgiu na multidão antes que Ahmed tivesse terminado de falar.
— Um novo deserto! — Dezenas de vozes responderam, entrecortadas e fora de ritmo.
— Uma nova alvorada! Um novo deserto! — O grito ecoou por Fahali, milhares de vozes mirajins juntas em coro. Um cântico por seu príncipe, por seu herói, por todos nós.
O sol estava se pondo quando saímos da cidade para voltar ao vale de Dev. Quando o sultão soubesse o que tinha acontecido naquele dia, ninguém contaria que éramos um pequeno bando de rebeldes cansados e maltrapilhos. Ninguém diria que não parecíamos prontos para lutar na guerra que estava chegando. Que metade de nós não tinha certeza de que éramos capazes. Ele só saberia que tínhamos vencido e ainda estávamos vivos.
E no dia seguinte o sol nasceria marcando o início de um novo deserto.

2 comentários:

  1. Amei!!!! Quando voce vai postar o proximo livro Karina?????

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  2. MEU DEUS *-* esse livro é incrível <3
    Obrigada Karina ^^

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Boa leitura, E SEM SPOILER!