23 de setembro de 2018

Capítulo 30

CLEO
AURANOS

Cleo sabia que Magnus a seguiria, como fez quando ela fora ao festival. E se a encontrasse antes de chegar ao palácio, sabia que tentaria impedi-la.
E a cidade queimaria.
Ela não podia deixar que aquilo acontecesse.
Cleo agarrou-se a Enzo com força enquanto ele cavalgava rápido pelas colinas e vales verdejantes do interior de Auranos, até a bela cidade ser finalmente avistada.
E ficou boquiaberta com o que viu.
A Cidade de Ouro tinha mudado muito desde o dia anterior.
Trepadeiras espessas, assustadoras, cobriam os muros dourados, fazendo-a lembrar das linhas azuis que tinha na pele. As trepadeiras pareciam estar ali havia anos, crescendo de um jardim deserto e abandonado. Mas não estavam lá antes, não mesmo. Os muros nunca tiveram nenhum tipo de sujeira ou detrito.
Aquilo era novo.
— Magia da terra — ela disse em voz alta.
Enzo balançou a cabeça, fazendo uma careta.
— Olivia está modificando a cidade para se divertir.
— A Tétrade tomou conta de tudo em muito pouco tempo.
— Infelizmente sim — ele concordou. — Eles controlam tudo do lado de dentro dos muros. Os cidadãos que não estão presos em fossos criados por Olivia ou em jaulas de fogo, estão escondidos nas casas e lojas, com medo de sair.
Kyan queria que todos soubessem da existência deles, Cleo pensou. E que temessem seu poder.
Até o portão principal estava coberto de chamas. Cleo sentia o calor doloroso e intenso mesmo a trinta passos de distância, como se tivesse se aproximado do próprio sol. O cavalo de Enzo não queria dar nem mais um passo adiante e protestou pinoteando até os dois descerem.
Não havia sentinelas a postos, nem acima nem ao lado do portão flamejante.
— Como entramos? — ela perguntou.
Assim que pronunciou as palavras, o portão abriu sozinho, permitindo a entrada deles na cidade.
Enquanto as chamas se abriam, Cleo viu alguém esperando. O cabelo longo e escuro de Lucia revelou seu rosto.
— Não se preocupem — ela disse a eles. — Não vou deixar o fogo queimar vocês.
— Lucia… — Cleo disse, atordoada.
— Bem-vinda — Lucia disse, abrindo os braços. Ela vestia um manto todo preto, sem nenhum bordado ou ornamento. — Foi gentil da parte de vocês finalmente aparecerem. Estou esperando aqui faz um tempo.
Ela parecia muito calma e controlada, como se aquilo não fosse um pesadelo ganhando vida.
— Você está ajudando ele — Cleo disse. As palavras doeram em sua garganta.
— Ele está com Lyssa — Lucia respondeu apenas. — Não me deixa vê-la, não confirma se está bem. Mas está com ela. Portanto, tem a mim também. Simples assim.
Cleo apertou as mãos ao passar pela entrada e chegar à cidade. Enzo ficou ao lado dela. Como Lucia tinha prometido, os dois não sentiram mais o calor do fogo, embora o portão aberto ainda ardesse em chamas.
Cleo não tinha visto Lyssa no templo. Talvez devesse ter exigido que Kyan mostrasse a bebê para se certificar de que estava segura. Em vez disso, ficou concentrada demais no próprio bem-estar. Ela poderia ter evitado tudo isso.
— Você… — Lucia dirigiu-se a Enzo. — Você fez o que Kyan lhe pediu. Agora nos deixe conversar em particular.
— Não vou sair — Enzo respondeu, grosseiro. — Vou proteger a princesa de qualquer um que queira seu mal.
— Com certeza deve ser uma lista longa a esta altura. Vou dizer de novo: saia. — Lucia fez um gesto com a mão, e Enzo cambaleou de volta às chamas.
— Pare! — Cleo vociferou. — Não o machuque!
Lucia arqueou uma sobrancelha.
— Se fizer o que estou mandando, não vai mais se machucar.
— Princesa… — Enzo disse, com aflição na voz.
O coração de Cleo pulava no peito.
— Vá, faça o que ela mandou. Vou ficar bem.
Ambos sabiam que era mentira. Mas Enzo concordou, deu a volta e foi direto até o palácio pela rua principal que dava para a entrada.
— Venha comigo — Lucia disse. — Vamos pelo caminho mais longo.
— Por quê? — Cleo perguntou. — Kyan não quer saber que estou aqui?
— Apenas me siga. — Lucia deu as costas a Cleo e caminhou a passos largos na direção oposta à de Enzo.
Cleo se forçou a andar. Tinha que ser corajosa.
Finalmente, disse a deusa da água dentro dela. Essa jornada longa e exaustiva está quase terminando.
Não se eu tiver alguma escolha, Cleo pensou, furiosa.
Ela seguiu Lucia pela praça central da cidade. Ladrilhada com pedras cintilantes, a praça costumava estar cheia de cidadãos cuidando de seus afazeres cotidianos, com carruagens e carroças levando tanto clientes quanto mercadorias às muitas lojas e ao palácio. Aquela desolação era tão assustadora que Cleo sentiu um arrepio na espinha.
— Por favor! Por favor, nos ajude!
Cleo ficou paralisada com o som funesto de gritos que vinham de um fosso profundo no chão a dez passos dali, nos limites de um dos gramados. Com as pernas tensas, ela foi até a beirada, olhou para baixo e viu trinta rostos olhando para cima.
E sentiu um aperto no coração.
— Princesa! — os auranianos aprisionados a chamaram. — Por favor, nos ajude!
— Salve-nos!
Cleo se afastou cambaleando. Sua respiração ficava difícil enquanto ela tentava impedir que o medo e o desespero a dominassem.
— Lucia — Cleo mal conseguiu falar. — Você precisa ajudá-los.
— Não posso.
O choro subia pela garganta de Cleo, mas ela se recusou a deixá-lo sair. Lucia podia estar ajudando Kyan para salvar a filha, mas a que custo? Milhares de pessoas consideravam aquela cidade seu lar. Incontáveis outras podiam estar ali a passeio naquele dia. Kyan ia matar todos eles.
— Você pode! — Cleo insistiu.
— Confie em mim, eles estão mais seguros ali do que estariam em qualquer outro lugar. — A expressão de Lucia era melancólica. — Kyan chegou a esta cidade de péssimo humor. Carbonizou cinquenta cidadãos com uma única rajada de seu fogo antes que Olivia criasse fossos como esse.
Cleo reprimiu um suspiro. O mau-humor de Kyan sem dúvida se devia à fuga dela do templo. E agora cinquenta cidadãos estavam mortos.
Ela tentou encontrar a própria voz diante da descoberta.
— Olivia está tentando ajudar?
— Eu não diria isso. — Lucia soltou um suspiro trêmulo. — Acho que ela simplesmente está tentando impedir que Kyan se distraia da tarefa principal.
— Que seria?
— Kyan quer que eu realize o ritual de novo — Lucia respondeu.
— O ritual? — Cleo repetiu. — Não. Lucia, não! Você precisa me escutar. Não pode fazer isso.
— Não tenho escolha.
— Você tem escolha. Posso ajudá-la a derrotá-lo.
Lucia riu.
— Você não conhece Kyan como eu, Cleo. Ele pode ser encantador quando quer. Mas não é alguém com quem se pode argumentar. Ele é fogo, e é da natureza dele queimar. Os outros são iguais.
— Você os viu?
Lucia assentiu.
— Estão todos no palácio esperando por você. Achei que seria capaz de chegar a um acordo com Olivia, que ela teria algum instinto maternal e quisesse proteger Lyssa. É a deusa da terra, essa é a magia que torna possíveis a cura e o crescimento. Mas ela não é assim. É igualzinha a Kyan. Quer usar a magia para o mal. E vai destruir tudo por capricho. Mortais não são importantes para eles, não individualmente. Somos… como insetos, pragas irritantes fáceis de eliminar.
Cleo esperou a deusa da água acrescentar algum comentário, mas ela permaneceu em silêncio. Talvez isso significasse que concordava com tudo o que Lucia tinha dito.
Cleo não se surpreendeu com nada daquilo. Na noite anterior, Kyan tinha fingido ser gentil quando se oferecera para ajudá-la a superar a, nas palavras tanto de Olivia quanto da deusa da água, “transição”.
Mas Kyan não lhe daria nenhuma escolha quanto ao resultado.
Ele ia vencer. Ela ia perder.
— Lyssa está aqui? — Cleo perguntou. — Você a viu?
A expressão de Lucia foi tomada pela dor, e seus olhos azuis se encheram de angústia.
— Ela está aqui, tenho certeza. Mas ainda não a vi.
— Se não a viu, como pode ter tanta certeza de que está aqui?
Lucia lançou um olhar tão intenso para Cleo que a princesa quase se encolheu.
— Onde mais poderia estar? Kyan está com ela e a está usando para me manter sob controle. Está funcionando muito bem.
Cleo sentiu o estômago revirar. Lucia parecia tão desanimada, tão perdida. E, ainda assim, nunca pareceu tão perigosa.
Parte de Cleo começou a duvidar que Kyan tivesse sequestrado Lyssa. Ela teria visto algum sinal da bebê na noite anterior, no templo. Sem dúvida Nic saberia algo sobre isso.
Mas se Kyan não estava com a menina, quem estaria?
Não fazia nenhum sentido.
— Quando você voltou? — Cleo perguntou, com mais cuidado dessa vez.
— Kyan me convocou hoje mais cedo.
Ela franziu a testa.
— O que quer dizer com “convocou”?
Lucia fez uma pausa quando as duas passaram pelos jardins da cidade. Muitas cercas-vivas estavam dispostas como um labirinto onde as crianças podiam correr, buscando uma saída do outro lado. Cleo sabia que o lugar fazia Lucia se lembrar do labirinto de gelo no palácio limeriano. Ela viu uma emoção muito familiar passar pelos olhos azuis da feiticeira. Nostalgia. Era a mesma saudade que Cleo sentia de uma época mais simples, mais feliz.
— Eu estava com Jonas e… senti aqui. — Lucia encostou as mãos nas têmporas. — Minha magia… está totalmente conectada à deles. Em um instante, soube onde ele estava e soube que queria que eu viesse até aqui. Não hesitei.
— Onde está Jonas agora? — Cleo perguntou.
— Não sei.
Havia algo na forma como ela tinha dito aquilo…
— Você o machucou? — Cleo insistiu.
Lucia a encarou com tristeza.
— Ele é forte. Vai sobreviver.
Por um instante, Cleo ficou sem palavras.
— Você pode consertar tudo isso. É uma feiticeira. Pode aprisioná-los.
— Estaria arriscando a vida da minha filha se tentasse.
Cleo agarrou o braço dela, brava.
— Lucia, você não entende? A vida da sua filha já está em perigo. Mas o mundo inteiro estará em perigo se fizer o que Kyan manda! Você já sabe disso e, mesmo assim, está aliada a um monstro. Talvez durante todo esse tempo você só estivesse procurando uma desculpa para se juntar a ele. É isso?
Lucia pareceu se sentir ultrajada.
— Como pode dizer isso?
— Você é igual ao seu pai. Só quer poder, e se esse poder vier de um deus maligno, vai aceitá-lo de bom grado.
— Errado — Lucia resmungou. — Você sempre esteve errada a meu respeito. É tão rápida para me julgar do alto de sua torre dourada perfeita e de sua vida dourada perfeita.
Então uma raiva fria fluiu por Cleo, e gelo se formou aos pés das duas, se expandindo até cobrir uma carruagem abandonada na rua.
Lucia observou aquilo, franzindo a testa.
— Consegue controlar a magia da água dentro de você?
Cleo cerrou os dois punhos ao lado do corpo.
— Se conseguisse, você seria um bloco de gelo neste momento.
Mas então uma onda de água atingiu Cleo de repente, uma onda invisível que cobriu sua boca e seu nariz. Ela não conseguia respirar. A onda a dominava e a estava afogando.
Não, aquilo não podia acontecer de novo. Ela não sobreviveria de novo.
— Sim — a deusa da água sussurrou. — Deixe-me tomar o controle agora. Não resista. Tudo ficará muito melhor assim que parar de lutar.
Era difícil demais continuar a batalha quando o inevitável se apresentava diante dela.
A Tétrade ia vencer. Cleo ia perder.
E tinha que admitir a verdade: seria tão fácil simplesmente parar de lutar…
A sensação de Lucia agarrando sua mão e enfiando alguma coisa em seu dedo arrancou Cleo das águas invisíveis.
Ela tentou desesperadamente recuperar o fôlego.
— O que está fazendo comigo?
— Cleo, está tudo bem — Lucia disse com firmeza. — Você está viva, está bem. Apenas respire.
Ela se forçou a inspirar uma vez, depois outra. Por fim, a sensação de afogamento diminuiu.
Lucia segurou os braços de Cleo.
— Você precisa resistir.
— Pensei que não quisesse que eu fizesse isso.
— Nunca disse isso. Com sorte, isso dará a você um pouco mais de força, como aconteceu comigo no começo. Afinal, é seu por direito. Você apenas me deixou pegá-lo emprestado, na verdade.
Cleo franziu a testa, sem entender nada. Então olhou para a própria mão.
Lucia tinha lhe devolvido o anel de ametista.
— O quê…? — Ela começou a dizer.
Lucia levantou a mão para silenciá-la.
— Não conte a ninguém. Quanto mais você resistir, mais tempo vou ter para fazê-lo acreditar que o ritual precisa ser adiado. Agora venha comigo. Se demorarmos demais, ele vai mandar seu servo pessoal nos procurar.
Cleo ficou desconcertada por ter o anel de volta — o anel que ajudava Lucia a controlar sua magia.
— Quem, Enzo?
— Sei que gosta dele. Também gosto. Mas foi marcado pelo fogo. Não tem escolha senão obedecer a Kyan. Foi por isso que o mandei embora.
Cleo então percebeu que Lucia estava lutando tanto quanto ela, só que de maneira diferente. Elas não eram inimigas, não mais. Talvez nunca tivessem sido.
Eram aliadas. Mas ambas estavam em absoluta desvantagem.
— Lucia — Cleo disse em voz baixa. — Eu sei como derrotá-los.
— Sabe? — Um tom de ironia tomou a voz de Lucia. — Encontrou essa pérola de informação num livro?
— Não. Essa pérola de informação veio noite passada, do próprio Nic.
Lucia franziu a testa.
— Impossível.
Cleo assentiu.
— Kyan não tem tanto controle quanto aparenta ter. Ele está vulnerável agora, e Nic encontrou uma maneira de romper o domínio em alguns momentos.
Lucia observou ao redor quando as duas passaram por um gramado onde um dia tinham se sentado juntas. Cleo se lembrava com muita nitidez daquele dia, no qual passaram parte dele assistindo a um grupo de rapazes atraentes treinando com espadas.
O pátio estava vazio no momento, mais parecido com um cemitério do que com um lugar que já abrigara tanta vida.
— O que ele disse a você? — Lucia perguntou, em voz baixa.
Cleo ainda estava hesitante em contar, mas sabia que uma era a melhor chance da outra.
— As esferas… as esferas de cristal. Elas são a âncora da Tétrade a esse plano de existência. Se forem destruídas, a Tétrade não vai mais conseguir transitar por este mundo.
— Âncoras — Lucia sussurrou, franzindo muito a testa. — Âncoras para este mundo.
— Sim.
— E precisam ser destruídas.
— Sim, mas tem um problema. Magnus tentou destruir a esfera de água-marinha, mas não funcionou, por mais força que tenha colocado ao golpeá-la com uma pedra.
Lucia balançou a cabeça.
— Claro que não. Elas não são de cristal, não de verdade. São mágicas. — Ela se cobriu com o manto como se estivesse com frio. — Isso faz sentido, tudo isso. Estou tentando entender onde a Tétrade estava esse tempo todo, no último milênio. Os Vigilantes e incontáveis mortais reviraram Mítica de norte a sul em busca desse tesouro.
Cleo passou os olhos pelo pátio e se encolheu ao notar outro fosso de prisioneiros mais à frente.
— Mas foi só quando sua magia veio à tona que eles conseguiram despertar.
— Sim, despertar. — Lucia assentiu. — Porque foi exatamente o que aconteceu. Eles estavam dormentes, ou seja, inconscientes. Não tinham consciência como têm agora. Estão vinculados: a Tétrade e os cristais. Destruir o cristal significa apenas destruir sua forma física. A magia ainda existiria no ar. Na terra sob nossos pés. Na água do mar. E no fogo das lareiras. Tudo como deveria ser. Como deveria ter sido desde o início.
A cabeça de Cleo se perdeu com tanta informação.
— Fico feliz por você entender tudo isso bem melhor do que eu.
Lucia deu um sorriso nervoso.
— Eu entendo, mas bem menos do que gostaria.
— Então é o que precisamos fazer — Cleo disse, assentindo. — Achar um jeito de destruir as esferas de cristal.
Lucia não respondeu. Seu olhar se tornou distante de novo quando ela parou a poucos passos da entrada do palácio.
Cleo a observou incomodada, sem querer entrar. Lucia pareceu igualmente hesitante.
— Posso tentar encontrar um jeito — Lucia disse. — Mas há um enorme problema em vista.
— O quê?
A expressão dela tornou-se sombria.
— Você. E Nic, e Olivia, e Taran. Seus corpos são mortais e frágeis, carne e osso. Vocês são os atuais veículos da Tétrade, e não tenho como saber se vão sobreviver ao impacto que essa quantidade de magia teria. Vi o que aconteceu com Kyan da última vez que ficou face a face com contramagia. Destruiu o corpo dele. E aquele corpo era imortal.
Cleo piscou.
Claro que Lucia estava certa. Não havia um jeito fácil de pôr um fim naquilo. Destruir os cristais, transferir a Tétrade para uma forma de vida que não tivesse vínculo consciente com esse mundo…
Mataria a todos.
Mas salvaria a cidade dela. E salvaria seu mundo.
— Não posso falar pelos outros, mas posso falar por mim — Cleo declarou com firmeza. — Faça o que tiver que fazer, Lucia. Não tenho medo de morrer hoje.
Lucia assentiu.
— Vou tentar.
As duas continuaram e entraram no palácio. Como as trepadeiras do lado de fora, as paredes dos corredores estavam revestidas de musgo. Flores cresciam pelas rachaduras no mármore. Havia pequenas chamas acesas, não nas lamparinas e tochas presas à parede, como de costume, mas em buracos rasos no chão.
Elas passaram por um cômodo com a porta escancarada, onde uma dúzia de guardas levava as mãos à garganta, tentando respirar.
— Taran — Lucia disse. — Ele também gosta de usar magia sempre que possível.
O estômago de Cleo se revirou.
— O Taran de verdade ficaria horrorizado.
— Não tenho dúvidas.
Por fim, chegaram à sala do trono.
Cleo não conseguia acreditar que tinha estado ali pela última vez fazia apenas um dia. O lugar parecia totalmente diferente. Os tetos altos estavam cobertos por uma rede de trepadeiras e musgo. O piso de mármore parecia o chão de uma floresta; terra, pedras e pequenas plantas surgiam na superfície. Uma série de tornados do tamanho de uma pessoa girava e dançava pela sala, ameaçando tirar seu equilíbrio se Cleo chegasse muito perto. Magia do ar, ela pensou. O deus do ar brincava com sua magia para criar mais obstáculos.
Ela olhou para a frente e viu que o corredor que levava à plataforma estava rodeado por chamas azuis, cortesia do próprio deus do fogo.
Kyan estava sentado no trono coberto de trepadeiras com Taran à direita e Olivia à esquerda. A fúria de Cleo chegou ao máximo quando ela viu Kyan usando a coroa dourada de seu pai, assim como o rei Gaius havia feito quando tomara o poder.
— E aqui está ela — Kyan exclamou sem se levantar. — Estava preocupado com você, pequena rainha, fugindo daquele jeito sem avisar. Um tanto grosseiro, na verdade. E eu só queria ajudá-la.
— Acho que sou grosseira. Minhas mais sinceras desculpas por tê-lo ofendido.
— Ah, você diz isso, mas sei que não é o que sente. O que você acha, Taran? Sabe, essa pequena rainha estava muito apaixonada pelo irmão gêmeo de seu veículo. Acho que teria se casado com ele, apesar de sua baixa posição social como um mísero guarda de palácio.
— Estou surpreso — Taran respondeu. — Minhas lembranças de Theon mostram que ele gostava bem mais de morenas altas, não de loiras baixinhas.
— Mas ela é uma princesa. Isso compensa inúmeras baixarias. — Kyan mostrou os dentes. — Baixarias, porque ela é baixa. Eu sou muito engraçado, mas Nic também era, certo, pequena rainha? Ele sempre a fazia rir.
Mais uma vez, uma camada de gelo se formou sob os pés dela, provocada por sua fúria crescente.
— Que meigo — Olivia disse. — Ela está tentando acessar a magia da água dentro de si.
— Ah, sim — Kyan disse, batendo palmas e gargalhando. — Vamos vê-la tentar. Vá em frente, pequena rainha, estamos assistindo.
E ela o fez. Cleo tentou com muito afinco controlar a magia dentro de si. Congelar toda a sala como tinha congelado o guarda. Fazer os três monstros sobre a plataforma engasgar e babar com os pulmões cheios de água mágica como tinha feito com Amara na noite do primeiro ritual.
Cleo pensou que talvez, com aquele anel no dedo, tivesse uma chance de tomar as rédeas da situação, acabar com aquilo.
Mas não conseguiu. A magia não pertencia a ela, não de alguma forma que pudesse controlá-la.
O som da gargalhada da deusa da água dentro dela a deixou mais nervosa e assustada do que já estava.
— Agora — Kyan disse depois de se acalmar —, pequena feiticeira, podemos começar?
Lucia deu um passo à frente.
— Não estou com a esfera de água-marinha.
— Ela a guarda em um saquinho de veludo no bolso — Taran disse.
Kyan olhou para ele.
— E você só diz isso agora?
Ele deu de ombros.
— Minha memória está melhorando. Ontem tudo não passava de um borrão, para ser sincero. Esse veículo lutou bastante para manter o controle.
— Mas perdeu — Olivia disse. — Assim como a princesa vai perder.
Cleo entrelaçou os dedos à frente do corpo, escondendo o anel.
— Vou mesmo? Tem certeza?
Olivia deu um leve sorriso.
— Sim, tenho.
— Entregue a esfera — Kyan disse. — Ela deve se juntar às outras.
Ele apontou para uma mesa enorme à esquerda. Estava enfeitada com uma toalha de veludo azul — pano de fundo para as três esferas de cristal.
Cleo virou para lançar uma careta para Lucia.
Lucia deu de ombros.
— Ele pediu. Eu entreguei.
Cleo balançou a cabeça.
— Darei a esfera para você, Kyan, mas exijo ver Lyssa primeiro.
— Ah, sim. Lyssa — Kyan disse calmamente. — A bebê meiga e pequenina desaparecida que roubei do quarto meigo e pequenino, transformando a ama-seca meiga e pequenina em cinzas. Foi… indelicado da minha parte, não?
Cleo o observava com cuidado. Cada gesto, cada olhar.
— Incrivelmente indelicado — Olivia concordou.
— Mas uma forma excelente de garantir o compromisso da feiticeira com a causa — disse Taran. — Foi muito esperto ao pensar nisso, Kyan.
— De fato, fui.
Havia algo estranho na maneira como diziam aquelas coisas, como se estivessem zombando dela.
— Você não está com Lyssa — Cleo arriscou. — Está?
O sorriso de Kyan sumiu.
— É claro que estou.
— Então prove.
Ele semicerrou os olhos.
— Ou?
— Ou não vou cooperar. Não vou entregar a esfera, e você não vai conseguir fazer o ritual de modo apropriado mais uma vez.
Kyan suspirou e largou o corpo no trono, passando a mão pelo cabelo alaranjado.
— Taran?
Taran fez um gesto com a mão e uma forte rajada de vento atingiu Cleo, enrolando-se no corpo dela como uma serpente enorme e faminta.
Ela observou horrorizada, incapaz de fazer qualquer coisa para impedir, quando o saquinho de veludo saiu de seu bolso, flutuou pelo ar e aterrissou na mão de Kyan, que esperava por ele. Ele desamarrou o cordão e checou o conteúdo.
— Excelente. Para você, pequena feiticeira.
Ele jogou o saquinho para Lucia, que tirou a esfera e a deixou ao lado das outras, trocando um olhar breve e aflito com Cleo.
Quatro esferas, todas prontas para serem usadas no ritual que solidificaria a existência da Tétrade naquele mundo e aumentaria seu poder a ponto de serem capazes de destruir o planeta com um pensamento.
Ou quatro esferas prontas para serem destruídas, o que, muito provavelmente, mataria Cleo, Nic, Taran e Olivia.
Por mais que Cleo a invejasse por sua magia, não invejava a escolha que Lucia teria que fazer agora.
— Acho que foi uma boa ideia vir aqui — Kyan disse, observando ao redor da gigantesca sala do trono, que cheirava a vida fresca e fogo cáustico. — Passa uma sensação de história, de eternidade. Talvez seja por causa de todo esse mármore.
— Também gosto — Taran concordou. — Devíamos residir aqui por um tempo indefinido.
Olivia passou a ponta dos dedos pelas bordas do trono.
— Ah, não sei. Acho que prefiro Limeros. Todo aquele gelo e aquela neve deliciosos. Princesa Cleo, você se daria bem lá depois que meus irmãos tomarem controle. Gelo e neve são apenas água, não? Talvez possa conjurar um palácio de gelo.
— Só se puder esmagá-la debaixo dele — Cleo respondeu.
Lucia riu, mas encobriu o som com uma tosse.
— Ah, não sei — outra voz veio da entrada da sala do trono. — A princesa não simpatiza muito com o clima de Limeros. Ela fica inacreditavelmente bela usando mantos de pele, mas é uma garota auraniana da cabeça aos pés.
Cleo virou para ver quem era.
Magnus estava encostado no batente da porta cheia de musgo, como se estivesse o tempo todo ali, sem dar a mínima para o mundo.
Ele se afastou e andou pelo cômodo.
— Vim negociar uma trégua — Magnus disse. — Em que somos deixados em paz, e a Tétrade é mandada direto para as terras sombrias.

2 comentários:

  1. Esse Magnus kkkkk amo ele.

    ps: Alenkar

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  2. Magnus! 💕💜💕💜💕💜💕💜💕💕🙌🏾💕💜💕🙌🏾💕🙌🏾💕🙌🏾💕💜

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