16 de setembro de 2018

Capítulo 30

AMARA
PAELSIA

— Pequena imperatriz.
O som da voz de Kyan a surpreendeu, mas Amara ficou aliviada ao ouvi-la. Ela tinha certeza de que o deus tinha partido depois da discussão do dia anterior.
— Você ainda está aqui — ela sussurrou. Ela estava na pequena sala adjacente a seus aposentos, que tinha se tornado uma sala de meditação, sem nenhum objeto além do tapete sobre o qual sentou.
— A tempestade está quase chegando. Está na hora de eu retomar meu poder e de você colher todas as recompensas que tanto merece.
O coração dela disparou.
— Os prisioneiros estão esperando — ela informou.
— Excelente. O sangue deles selará o ritual e o tornará permanente.
Amara afastou todas as poucas dúvidas que restavam. Agir com receio agora seria a maior fraqueza depois de tudo o que tinha sacrificado por aquele dia.
— Espere por mim do lado de fora com o cristal da água.
Ela concordou sem hesitar.
Amara queria Cleo ao seu lado, para incentivá-la e, se fosse preciso, seria um sacrifício a mais. Juntas, elas deixaram os aposentos reais e saíram, rumo ao centro do complexo, onde ficava o fosso. Amara instruiu uma dúzia de soldados a cercar o fosso, metade com flechas apontadas para os prisioneiros ali dentro.
Nada poderia dar errado.
— Puxa, veja quem veio nos visitar. — Felix a encarou, protegendo o olho bom da luz do céu claro que tinha acabado de começar a escurecer com as nuvens carregadas. — A grande e poderosa imperatriz. Desça aqui, vossa graça. Eu adoraria conversar. Tenho certeza de que seu irmão também gostaria!
Amara olhou para Ashur sentado ao lado de Felix e do outro rebelde, Taran.
O irmão a encarou de volta, não com ira nem ódio, mas com uma decepção profunda nos olhos azuis-acinzentados.
— Minha irmã, você ainda pode mudar seu caminho — ele disse.
— Infelizmente, você não pode mudar o seu — ela respondeu. — Não devia ter voltado.
— Não tive escolha.
— Sempre existe uma escolha. E eu fiz a minha.
Gaius estava sentado com as costas para a parede do fosso, os braços cruzados sobre o peito. Ele não disse nada, só olhou para ela de uma maneira inexpressiva que a deixava indignada. Era triste ver o antigo rei tão derrotado — mas, ainda assim, profundamente gratificante.
Também havia outro jovem no fundo do fosso, que Amara reconhecia vagamente do dia em que Nerissa se tornara sua criada. Ela achava que seu nome era Enzo.
Cleo espiou dentro do fosso.
— Onde está Magnus?
Quando percebeu que o príncipe não estava com os outros, Amara franziu a testa e virou para um guarda.
— E então, onde ele está?
O guarda fez uma reverência.
— Parece que ele conseguiu escapar. Uma busca está sendo realizada, e garanto que será encontrado.
— Magnus escapou? — Cleo perguntou, sem fôlego.
Amara ficou tensa.
— Encontre-o — ela disse ao guarda. — Traga-o aqui vivo. Você será responsabilizado se ele não for encontrado.
— Sim, imperatriz. — O guarda se curvou e saiu correndo.
— Ele não importa mais — Amara disse para si mesma, principalmente. — Está tudo bem.
— Sim, pequena imperatriz. Está tudo bem.
Um momento depois de Kyan falar, um trovão retumbou no céu. As nuvens se fechavam, cada vez mais escuras. O vento ganhou força, soprando o cabelo de Amara para trás.
— Então é uma tempestade de verdade — ela disse, a pele formigando de ansiedade com o que estava por vir.
— Sim. Criada com todos os elementos combinados pela poderosa magia do sangue.
Dois guardas se aproximaram do fosso com prisioneiros que Amara não esperava ver.
Cleo se sobressaltou.
— Nic! Você está vivo!
O rapaz estava ensanguentado, cheio de hematomas e desgrenhado, mas o amigo de Cleo estava bem vivo. Amara sinalizou para o guarda, que soltou Nic por tempo suficiente para Cleo correr direto para seus braços.
— Pensei que tivesse morrido! — ela gritou.
— Quase morri. Mas… me recuperei.
Cleo segurou o rosto de Nic entre as mãos, olhando para ele como se não conseguisse acreditar no que via.
— Estou tão irritada com você que quero gritar!
— Não grite. Estou com muita dor de cabeça. — Ele tocou a marca vermelha na têmpora.
— Como você pode estar vivo? Amara disse que viu você morrer.
— Acredite ou não, foi graças à Lucia.
Amara tinha certeza de que tinha ouvido mal.
— A feiticeira esteve por aqui? — ela perguntou.
Nic lhe lançou um olhar de ódio.
— Por quê? Teme que ela derrube este lugar sobre a sua cabeça? Podemos torcer para que faça isso, não?
Amara estava prestes a responder, ou talvez pedir para que Nic fosse morto logo, mas outro prisioneiro chamou sua atenção.
— Nerissa? — Ela encarou a criada com a expressão chocada, e então virou para o guarda que a segurava. — O que isso significa?
— Ela ajudou na fuga do príncipe Magnus, junto com o rapaz — o guarda explicou. — Juntos, estavam tentando sair da propriedade.
Amara hesitou surpresa ao assimilar a notícia.
— Por que você faria isso comigo? Pensei que fôssemos amigas.
— Pensou errado — Nerissa disse. — Tenho certeza de que você não vai acreditar em nada do que eu disser agora, por isso prefiro não dizer nada.
— Não se pode confiar em ninguém, pequena imperatriz. Essa garota que você valorizava conseguiu enganar até mesmo você.
Amara levantou o queixo, sentindo a traição doer mais do que pensou que doeria.
— Deixe essa vadia com os outros. O outro também.
— Amara! — Cleo gritou.
— Dobre a língua, a menos que queira ir com eles — Amara disse. — E juro que essa não seria uma decisão boa para ser tomada hoje. Escolha de que lado pretende ficar, Cleo, do meu ou do deles?
Cleo estava ofegante, mas não disse mais nada quando Nic e Nerissa foram forçados pelos guardas a descer a escada de corda que levava para dentro do fosso.
Amara olhou para dentro do fosso para ver a reação de Ashur ao descobrir que Nic tinha ressuscitado, querendo esquecer a traição de Nerissa.
— Você está vivo — Ashur disse, surpreso.
— Estou — Nic respondeu tenso.
Os olhos de Ashur estavam marejados quando caiu de joelhos.
Você se tornou um fraco, irmão, ela pensou com nojo e alguma tristeza por tudo o que tinha se perdido entre eles.
— O que houve com você? — Nic perguntou a Ashur, franzindo a testa.
— Você… sei que você veio atrás de mim, para tentar me convencer a não fazer o que eu achava ser o certo. E… pensei que você estivesse morto.
Nic o observou com atenção.
— Parece que muitos pensavam isso. Mas não estou.
Ashur assentiu.
— Que bom.
— Fico contente por você estar contente. — Nic franziu a testa ainda mais. — Posso ser sincero? Não imaginei que você se importaria, de qualquer modo. Mas… — Ele observou os outros dentro do fosso com nervosismo. — Por favor, fique de pé agora.
Ashur obedeceu, aproximando-se de Nic.
— Sei que meu comportamento tem sido imperdoável. Eu queria afastar todo mundo… principalmente você. Não queria que você se magoasse. Mas eu estava errado em relação a tudo. Em relação a mim, minhas escolhas, meu destino… Achei que eu fosse importante.
— Você é importante.
— Não sou a fênix. Entendo isso agora. — Ashur abaixou a cabeça, e o cabelo, escapando da tira de couro que usava para prendê-lo para trás, cobriu seu rosto. — Por favor, me perdoe, Nicolo.
Um pouco hesitante, Nic arrumou o cabelo do príncipe atrás da orelha.
— Tudo isso porque você pensou que eu estivesse morto? Detesto ter que dizer isso, mas hoje não está sendo um dia bom para nenhum de nós.
— Você tem razão. A vida não é uma garantia, em nenhum momento, para ninguém. Cada dia, cada momento, pode ser o último.
— Ah, infelizmente, sim.
Ashur olhou para Nic.
— Isso quer dizer que devemos ir atrás do que mais queremos nesta vida mortal e curta enquanto podemos.
— Concordo plenamente.
— Ótimo. — Ele levou a mão à nuca de Nic e o beijou com intensidade.
Quando se afastou, as bochechas de Nic estavam quase tão vermelhas quanto seu cabelo.
— Ha! — Felix disse, apontando para eles. — Eu sabia! Eu tinha certeza!
Amara observou tudo aquilo sentindo o coração pesado ao ver o irmão finalmente admitir seus sentimentos. Ela não sabia se estava contente ou triste.
— Que ótimo para todos vocês. Meu irmão sabe interpretar, não?
— Não estou fingindo ser alguém que não sou — Ashur resmungou para ela. — Não mais. Não como você.
— Pode acreditar, meu irmão. Hoje sou exatamente quem eu tinha que ser. — Ela olhou para um guarda. — Se conseguiu prender Nicolo e Nerissa, onde está Magnus?
O guarda fez uma reverência.
— Preso em outro lugar, vossa graça.
— Onde?
— Receio ter me afastado dos guardas que o arrastaram de seus aposentos. Mas garanto que ele não é uma ameaça à senhora.
Talvez não, mas Amara preferiria manter todos os prisioneiros em um só lugar.
— Muito bem, pequena imperatriz. Você está demonstrando muita força hoje.
Amara queria que aquilo terminasse de uma vez por todas, queria finalmente esquecer os sacrifícios que tinha sido forçada a fazer durante toda a vida.
— Fico feliz por saber que aprova — Amara respondeu, e a impaciência cresceu dentro dela quando a primeira gota de chuva caiu das nuvens escuras.
— Está na hora de começar?
— Sim, está na hora. Ela finalmente está aqui.
Com mais um trovão e um raio cortando o céu da noite, uma mulher se aproximou deles, o manto preto esvoaçando ao vento. Os guardas se afastaram para abrir caminho para ela, dando um passo para trás, sincronizados.
— Lucia? — Amara perguntou, tensa.
— Não, não é a Lucia.
A mulher que se aproximava tinha um rosto maduro e cabelo grisalho comprido com uma mecha branca na parte da frente. Os olhos escuros, quase pretos, percorreram os guardas e a beirada do fosso, e em seguida se voltaram para Amara.
O raio cortou o céu atrás dela.
— Selia! — Cleo gritou. — O que está fazendo aqui?
— Você conhece essa mulher? Quem é ela? — Amara quis saber.
— É a mãe de Gaius Damora — Cleo disse e em seguida teve um sobressalto. — Olivia!
Outra mulher apareceu atrás de Selia, uma moça linda de pele escura e olhos verdes que observavam o local com nervosismo.
— Cleo — ela disse com delicadeza. — Eu… eu sinto muito por isso.
— Sente muito? Sente muito pelo quê?
— Pelas marcas. — Olivia esticou os braços para mostrar símbolos pretos pintados na pele.
— Sim — Selia disse. — Marcas mágicas antigas que farão até uma imortal obedecer às minhas ordens.
— Você é a mãe de Gaius. — Os pensamentos de Amara não paravam. — E também é a bruxa que Kyan trouxe aqui.
— Sou. É a maior honra da minha vida usar minha magia para ajudar o deus do fogo no lugar da minha neta, que, em sua tolice, voltou-se contra ele. Para que esse ritual libere a magia da Tétrade, é necessário o sangue da feiticeira e o sangue de um imortal.
— Selia… — Cleo começou, franzindo a testa. — Por que você faria isso?
— Porque sou uma Vetusta, é por isso. Adoramos a Tétrade por inúmeras gerações, e hoje ajudarei a libertar seus deuses.
— Mais de um? — Amara inclinou a cabeça. — Só tenho o cristal da água.
Selia sorriu.
— E eu tenho o da terra e o do ar.
De seu manto, ela tirou duas pequenas esferas de cristal — uma de obsidiana e uma de selenita Cleo levou um susto.
— Você… Foi você!
— Incrível. — A frustração e a dúvida de Amara desapareceram como névoa ao vento. — Admito que tive receio, mas agora vejo que tudo está como deve ser. Depois de todos os meus sacrifícios, finalmente vou receber tudo o que sempre quis.
— Vai? — Selia perguntou, arqueando as sobrancelhas finas e escuras. — Na verdade, isso não tem nada a ver com você, mocinha.
Amara fez um gesto na direção dos guardas.
— Tirem as esferas dela e tragam-nas para mim. Cuidem para que essa mulher faça só o que receber ordem para fazer. Amarrem a bruxa, se for preciso.
Antes que alguém pudesse se mexer, os doze guardas que cercavam o fosso levaram as mãos à garganta. Amara observou horrorizada enquanto os homens tentavam respirar em vão, caindo no chão. Estavam todos mortos.
— Kyan! Faça essa bruxa parar!
— O que começou não pode ser interrompido. — O calor passou por ela, soprando por sua orelha esquerda. — Você quer a magia da Tétrade para usar em seu benefício, como já fez várias vezes. Mas não pertencemos a ninguém.
Selia moveu o dedo na direção de Cleo, e a princesa tombou para trás, caindo dentro do fosso. Amara correu para o lado para olhar para baixo e viu que Taran tinha conseguido segurá-la antes que batesse no fundo.
Amara se virou chocada para a bruxa.
— Como ousa…?
Selia mexeu o dedo de novo, e parecia que uma mão grande e invisível a empurrava. Amara perdeu o equilíbrio e caiu no fosso. Quando bateu no chão, um osso de sua perna quebrou com um barulho horroroso.
Felix olhou para ela, os braços cruzados à frente do peito largo.
— Ops — ele disse. — Esqueci de segurar você. Machucou?
Cegada pela dor e sem conseguir se mexer, os olhos marejados, Amara viu Selia à beira do fosso, sorrindo para todos.
— Excelente — Kyan disse. — Agora, vamos começar.

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