1 de setembro de 2018

Capítulo 30


JONAS
PAELSIA

Imediatamente depois de reivindicar o cristal da terra em nome da princesa, Jonas, Lysandra e Felix se concentraram nos outros dois.
Jonas ainda não tinha enviado nenhuma mensagem para Cleo. Queria ter os três cristais em mãos para mostrar a ela que era digno de confiança.
E ainda não sabia ao certo por que se importava tanto em provar seu valor a ela.
A invocação do cristal do ar no complexo abandonado do chefe Basilius correu tão bem quanto a anterior, no templo, embora o complexo guardasse lembranças igualmente dolorosas. Foi ali que os escravos paelsianos se rebelaram contra os violentos guardas limerianos, desencadeando um massacre poucos momentos antes de um furacão assolar a terra árida.
Aquilo tinha ficado no passado. Jonas sabia que precisava se concentrar no futuro.
Dentro do complexo, trilhas de terra levaram a um labirinto de pequenas casinhas de pedra, com a grande quinta do chefe no centro. Eles optaram por desenhar o símbolo na clareira onde costumavam ocorrer as fogueiras, os banquetes e as diversões noturnas do chefe.
— Quero fazer desta vez — Felix insistiu.
Ele segurou a lâmina junto ao antebraço, fez um corte superficial e o estendeu, deixando o sangue pingar no solo seco e rachado. Espalhou o líquido com a ponta dos dedos para criar o símbolo de uma espiral, depois se levantou e enrolou o braço com um pedaço de tecido.
Lysandra apertou o ombro de Jonas quando veio uma brisa, envolvendo-os em um redemoinho repentino que fez Jonas perder o fôlego.
— Ali. — Lysandra apontou para onde ficava a fogueira do chefe, agora apenas um círculo queimado no centro da clareira.
Uma pequena esfera apareceu, refletindo o sol em sua superfície branca e perolada.
Selenita.
O cristal do ar.
Olhar para o cristal se assemelhava ao doce sabor da vitória após tantos fracassos amargos.
Felix pegou o cristal sem hesitar, sorrindo de orelha a orelha.
— Legal.
Ele jogou na direção de Jonas, que apanhou a esfera e olhou para sua superfície lisa. Como o cristal da terra, havia uma ponta de escuridão em seu interior, girando em um ciclo infinito.
Lysandra olhou para Jonas.
— E então, para onde vamos agora?
— Para as montanhas — Jonas respondeu, mais determinado do que nunca.
Jonas os conduziu por um trecho da Estrada de Sangue até o campo de trabalho que atacara com seu grupo de rebeldes à sombra nefasta das Montanhas Proibidas, um campo que já havia sido desmontado, sem nada que lembrasse a derrota esmagadora além do chão queimado ao redor da estrada.
Ali, Lysandra insistiu em usar seu sangue para desenhar o símbolo do fogo.
Mas nada aconteceu.
Jonas tentou, depois Felix.
Nada.
— Parece que alguém chegou primeiro desta vez — Felix comentou.
Mas quem? Jonas ainda não estava pronto para desistir. Precisavam continuar tentando. E foi o que fizeram, ali no árido e deserto leste de Paelsia, durante dois dias antes de extinguirem todas as outras opções. Os rebeldes finalmente desistiram e voltaram a Auranos, decepcionados com o fracasso.
Dois dos três cristais, Jonas pensou. Teria que bastar.
Jonas sabia que não podiam continuar usando a Sapo de Prata como ponto de encontro. Mas precisava fazer uma última visita para ver se novas mensagens tinham chegado durante a semana de ausência.
— Estou faminto — Felix disse ao abrir a porta principal. — Vamos ficar para comer. Há uma boa mesa isolada naquele canto escuro. Só fiquem de capuz, vocês dois.
— Usar capuz dentro de uma taverna não vai parecer nem um pouco suspeito, não é? — Lysandra respondeu.
Jonas não pretendia concordar com a ideia, mas a taverna estava quase vazia, exceto por duas mesas ocupadas por clientes embriagados e distraídos.
Eles comeriam, depois iriam embora.
— Vamos ficar de frente para a parede — Jonas disse, abrindo um sorriso. — Felix, que não tem a sorte de ser tão famoso quanto Lys e eu, pode ser nosso vigia.
Lysandra agora podia ser reconhecida por qualquer um que tivesse chegado perto o bastante para ver seu rosto no dia da quase execução. E era a segunda vez que iam à taverna como um trio.
— Posso fazer isso com prazer — Felix sentou e fez sinal para o atendente do bar lhes servir uma bebida. — Hoje precisamos conversar sobre o que vamos fazer com os dois cristais, agora que voltamos para Auranos. Podemos ganhar ouro para a vida toda com essas duas pedrinhas lindas.
— Mesmo não sabendo como funcionam.
— É uma pequena inconveniência — Felix concordou.
Eles haviam inspecionado os dois cristais durante horas, tentando descobrir como utilizar sua magia. Só servira para fazê-los perder tempo e energia. Jonas não duvidava do que eram, mas acessar sua magia estava além de suas capacidades.
Mas não via problema nisso. Só porque acreditava em magia não significava que queria ter algo a ver com ela.
Não estava ansioso pela conversa com Felix. Sabia que a discussão sobre vender os cristais a um dos contatos misteriosos de Felix ou entregá-los à princesa Cleo não seria exatamente uma conversa, mas um debate acalorado.
Jonas passou a mão nos dois cristais que estavam em uma bolsinha de couro amarrada em seu pulso. As pedras não sairiam de sua vista, nem por um instante. O destino delas seria uma decisão sua, e de mais ninguém.
Galyn, dono da taverna e amigo dos rebeldes, trouxe as bebidas: três cervejas e nenhum vinho, o que agradou Lysandra.
— Bem-vindos de novo — Galyn disse em voz baixa. — Que bom revê-los.
— É bom ver você também. — Era um alívio encontrar o rapaz mais jovem e corpulento em vez do pai, Bruno, de cabelos brancos e voz muito alta. — Algum recado para mim?
Galyn sacudiu a cabeça.
— Nenhum, embora sua bela e jovem amiga tenha vindo várias vezes nos últimos dias. Com os recentes rumores que escutei sobre os acontecimentos na Cidade de Ouro, tenho certeza de que ela tem novas informações para transmitir, mas não deixou nenhuma mensagem comigo.
Jonas ficou olhando para ele.
— Que acontecimentos recentes?
Galyn baixou ainda mais a voz.
— Ao que parece, a princesa Lucia fugiu do palácio com o tutor. O rei está furioso, revirando todas as cidades e vilas do reino para encontrá-la.
— Então a decisão romântica e tola da princesa vai resultar em dor e morte para muitos — Lysandra disse, sentindo repulsa. — As decisões egoístas dessa realeza fútil sempre me enojam.
Ninguém disse nada para discordar.
— O palácio está um caos — Galyn continuou. — Por causa disso e, também, pelo desaparecimento do príncipe Magnus e da princesa Cleiona.
Jonas ficou sem voz de repente.
— O que quer dizer com desaparecimento? — Felix perguntou.
— Dizem os rumores que os dois desapareceram sem deixar rastros. Alguns afirmam que o rei ficou louco e condenou os dois, o próprio herdeiro e a esposa, à morte. Sinceramente, não duvido disso.
Cleo estava desaparecida… talvez morta? Não podia ser.
Será que tinha sido descoberta como espiã? A princesa mandara duas mensagens a ele, a segunda havia apenas uma semana. Seu desaparecimento poderia estar relacionado a isso?
Jonas precisava saber mais. Se fosse verdade, e se ela ainda estivesse viva, precisava encontrá-la.
Ele levantou da mesa.
— Sente-se — Felix disse.
Sua garganta estava apertada e dolorida.
— Preciso ir.
— Agora não.
— O quê?
— Alguém acabou de entrar e tenho certeza de que vai querer falar com ela.
Jonas virou, espiou pela borda do capuz e viu Nerissa adentrando a taverna. Ela passou os olhos pelo estabelecimento, com um grande alívio no rosto ao identificá-lo. A garota se aproximou rapidamente da mesa deles ao mesmo tempo que Galyn pediu licença e se retirou.
— Graças à deusa você está aqui — ela disse, segurando as mãos de Jonas.
O coração dele disparou.
— Acabei de saber da princesa… que está desaparecida. É verdade?
— Posso falar com você em particular?
Jonas estava prestes a protestar, alegar que qualquer coisa poderia ser dita na frente de seus amigos, mas conteve a língua. Afinal, outras pessoas podiam estar escutando.
— Vá — Lysandra disse. — E não demore.
Ele saiu com Nerissa da área principal da taverna e foi em direção à escadaria que dava para a pousada.
— É isolado o bastante. — Ela olhou para a pequena alcova com nervosismo.
— É verdade essa história da princesa Cleo? — Jonas perguntou.
— Ela foi embora, Jonas. Ninguém sabe para onde.
— E o príncipe Magnus?
— Ele também. É um mistério, mas o que eu sei é o seguinte: dois guardas foram assassinados no calabouço, inclusive o capitão. Aconteceu quando estavam a serviço… vigiando Cleo, que tinha sido aprisionada pelo rei por traição.
O mundo ficou embaçado e escurecido diante dos olhos de Jonas.
— E agora ela e o rapaz com quem foi forçada a se casar desapareceram?
— Sim.
— E o rei? Como reagiu a isso?
— Não tenho como saber. Ele está isolado. Mas ouvi dizer que teme que o príncipe Magnus tenha sido levado como refém, ou assassinado por quem ajudou a princesa a fugir. E Jonas… bem, você foi apontado como principal suspeito.
Qualquer outro dia, teria achado graça. Lá estava ele, acusado de mais um crime que não cometera.
O rosto de Nerissa estava pálido, preocupado.
— Não posso ficar, Jonas. E não poderei encontrá-lo de novo por um tempo. Estão suspeitando de todos no palácio.
— Obrigado por compartilhar o que sabe. Sei como isso é perigoso para você. — A mente dele estava confusa, sem saber como processar a informação. Ele chegara a odiar a princesa acima de tudo… mas, agora, viu seu mundo de pernas para o ar ao pensar que Cleo podia estar correndo perigo, que ainda estava correndo perigo, e ele não podia fazer nada para ajudar.
Nerissa segurou o braço dele, chamando sua atenção de volta ao presente.
— Tenho mais uma coisa para contar.
— O que é?
— É sobre seu novo amigo, Felix.
— Felix? — Jonas franziu a testa, tentando se concentrar. — O que tem ele?
— Nosso primeiro encontro me passou uma má impressão.
— Eu pensei que vocês tivessem se dado bem.
— Eu conheço os homens, Jonas. Sei quando estão escondendo alguma coisa. E vi isso nos olhos dele. Também vi que você confiava nele, o que me preocupou. Então dei uma investigada, e descobri algumas coisas. — Ela hesitou. — Você não vai gostar.
Jonas olhou bem fundo nos olhos dela, preparando-se para mais más notícias.
— Pode dizer — ele pediu.
Nerissa compartilhou a informação com ele e foi embora no mesmo instante. Jonas voltou à taverna e passou os olhos pelo grande salão. Felix estava no bar, falando com Galyn. Lysandra ainda estava sentada à mesa no canto escuro, olhando para a parede e tomando goles da caneca de cerveja.
— Lys — ele a chamou. Ela olhou para Jonas, que fez um sinal para que o acompanhasse.
Ele a levou até a alcova onde havia conversado com Nerissa, só que dessa vez subiu a escadaria. Encontrou um quarto vazio no segundo andar e entrou com Lysandra, fechando a porta.
Ela olhou para ele com preocupação.
— O que aconteceu? Nerissa trouxe más notícias sobre a princesa?
— Sim, mas não posso pensar nisso agora. Temos um problema mais imediato.
— O que é?
— Nerissa não confia em Felix.
— Então somos duas — ela disse, mas depois fez uma careta. — Desculpe, sei que passou a considerá-lo um amigo de verdade. Preciso aprender a respeitar isso. E até que ele não é tão desagradável quanto pensei.
Ele suspirou.
— Ele trabalha para o rei Gaius.
Lysandra o encarou, chocada.
— O quê?
Ela pareceu tão surpresa quanto Jonas tinha se sentido quando Nerissa contara a ele.
— Ele disse que foi criado por um grupo de assassinos cruéis que trabalhavam para um chefe rico, não é? Bem, esse chefe rico era o rei. Ele é um assassino de aluguel do Rei Sanguinário. — A raiva de Jonas começara a se formar aos poucos, mas logo se transformou em algo praticamente tangível, algo em que podia se agarrar. — Foi assim que ele me encontrou. Cinco semanas atrás, tinha ido ao palácio receber sua última missão: me localizar e levar minha cabeça ao rei.
— Espere. Mas… mas ele não fez isso. Você esteve com ele esse tempo todo, e Felix não tentou nenhuma vez, certo? — Lysandra segurou os braços de Jonas. — Talvez ela esteja errada.
Ele estava furioso consigo mesmo por ter sido idiota o bastante para confiar em alguém que mal conhecia.
A informação de Nerissa havia reverberado dentro dele. Finalmente conseguira preencher as lacunas que estava tentando ignorar sobre o novo amigo. Jonas acreditava em Nerissa.
— Ele está esperando alguma coisa. — Jonas sacudiu a cabeça. — Agora que tenho os cristais… Cleo me disse que o rei está atrás da Tétrade… atrás da magia. É esse seu objetivo. Tem ideia de quanto o rei pagaria por um desses cristais? E sabe o que fará com esse tipo de poder se descobrir como utilizá-lo?
— Jonas, por favor, se acalme. Perder a cabeça não vai ajudar.
— Bela escolha de palavras. — Ele resmungou e esfregou as mãos no rosto. — Você tinha razão em não confiar nele. Você sentiu algo, não é? Algo estranho.
— Senti. Mas… bem, preciso admitir que não confio nas pessoas com facilidade.
— Nem eu. Não normalmente. Maldição, não tenho tempo para lidar com isso. Preciso ir atrás da princesa…
— Esqueça a princesa por um minuto. O que vamos fazer agora, com Felix? Vamos confrontá-lo?
Jonas começou a andar de um lado para o outro no quarto.
— Vou confrontá-lo, mas não agora.
— Por quê? O que está esperando?
Ele olhou nos olhos dela.
— Porque primeiro preciso que você vá embora.
Ela olhou para ele, confusa.
— Por que eu faria isso?
Seria ótimo se uma vez, pelo menos uma vez, alguém fizesse o que ele pedia sem discutir.
— Porque ele é perigoso.
Eu também sou perigosa, caso tenha se esquecido.
Lysandra precisava de uma justificativa, mas não havia muito tempo para convencê-la.
— Vou dizer o que acho. Estou preocupado com você desde que escapou do palácio. Não quero colocar sua recuperação em risco. Sei o que aconteceu. Foi… foi difícil para você. E seu irmão… — O maxilar dele ficou tenso. — Sei que vai precisar de um tempo para ficar bem.
Ela olhou para ele.
— Estou bem.
— Não está.
Seu rosto corou, e os olhos brilhavam de raiva.
— Estou, sim. Estou bem. Pare de me tratar como uma flor delicada porque eu nunca, nenhuma vez na vida, fui uma. Você não precisa me proteger. Posso enfrentar o Felix com você, ao seu lado. E se tentar algo contra você, vou matá-lo.
Ela ficava tão linda quando estava irritada desse jeito.
— Você nunca para de discutir, não é?
Ela rosnou de frustração.
— Não vou a lugar nenhum, e você não pode me obrigar…
Ele segurou o rosto dela entre as mãos, empurrou-a contra a parede e pressionou os lábios contra os dela. As emoções dele estavam à flor da pele, e naquele momento ela estava tão feroz, tão linda…
Jonas não conseguiu resistir. Fazia séculos que queria beijá-la, na verdade. E foi tão bom quanto tinha imaginado.
Lysandra agarrou a camisa dele como se quisesse empurrá-lo para longe, mas, em vez disso, passou as mãos por seus ombros e o puxou para mais perto, retribuindo o beijo e, por um instante, fazendo-o esquecer de tudo, exceto do sabor salgado e doce de seus lábios.
Quando se afastaram, Jonas estava ofegante, certo de que seu rosto estava tão vermelho quanto o dela.
— Não esperava por isso — ela sussurrou.
— Então somos dois.
— Bem, não muda nada. Não vou sair do seu lado.
— Tudo bem. — Ele passou os dedos pelos longos cabelos escuros de Lysandra, com a mente agitada. — Vamos confrontar Felix juntos. Dois contra um, estamos em vantagem.
— É mesmo?
As palavras cortaram como uma faca o momento compartilhado pelos dois. O corpo de Lysandra ficou tenso, e ambos olharam para a entrada. Encostado no batente da porta, agora aberta, estava Felix, de braços cruzados.
— Podem me confrontar — ele disse, sem uma pitada de humor na voz ou nos olhos. — O que estão esperando?
A raiva voltou, ardente como fogo diante dos olhos de Jonas.
— Por onde devo começar?
— Pode pular o resumo. Ouvi tudo pela porta. Percebi que meus dois amigos tinham desaparecido de repente, então fui procurá-los. E aqui estão vocês.
Jonas se afastou de Lysandra, se amaldiçoando por baixar a guarda. As paredes eram finas como papel; devia ter sido mais cuidadoso.
— Você mentiu para mim — Jonas vociferou.
— Nunca menti. Omiti a verdade? Talvez um pouco.
O olhar presunçoso nos olhos de Felix era suficiente para inflamar Jonas. Ele atacou, agarrando os braços do garoto e o empurrando para fora do quarto, no corredor.
Felix se desvencilhou com facilidade e deu um soco na cara de Jonas. Ele cambaleou, caindo no chão, mas Felix o agarrou pela camisa e o botou de pé.
— Vou matar você — Jonas bufou.
— Quero ver você tentar. Apesar de todos os rumores sobre você, nunca fiquei muito impressionado com suas táticas de combate. Eu, por outro lado? Nível profissional.
— Acho que é por isso que o rei o quer por perto.
— É, acho que sim.
Jonas olhou para ele com repulsa.
— Nerissa me contou que todos que são contratados pelo Rei Sanguinário têm uma marca para mostrar a quem são leais.
— Adorável Nerissa, cheia de adoráveis informações, não é? — Felix levantou a manga esquerda da túnica, e o olhar de Jonas recaiu sobre seu antebraço, onde havia uma tatuagem familiar, mas em que nunca tinha prestado muita atenção. Marcas na pele não eram raras em paelsianos.
Eram duas serpentes entrelaçadas.
— Serpentes para uma serpente — Jonas disse, com a boca seca. — Que apropriado.
— Parem — Lysandra gritou. — Vocês dois.
— Não — Felix disse, olhando para ela com frieza. — Jonas começou, e vou terminar. Não poderia ser diferente. Na verdade, estou surpreso por ter demorado tanto.
A presunção havia desaparecido, substituída pelo que Jonas via como uma dolorosa decepção.
Sem dizer mais uma palavra, Felix empurrou Jonas pela escadaria. Ele tropeçou e caiu, sem conseguir se equilibrar até ir parar no chão, batendo as costas. Jonas se levantou e cambaleou para dentro da taverna, seguido por Felix.
Jonas pegou a adaga, mas Felix chegou primeiro. Ele derrubou a arma e acertou Jonas no rosto enquanto tentava ficar de pé, depois lhe deu um soco forte no estômago. Jonas cuspiu sangue e viu que mal podia respirar; o ar tinha sido totalmente expulso de seus pulmões.
Lysandra desceu as escadas correndo, com uma faca na mão, mas Felix virou e a agarrou pelo pescoço, empurrando-a de costas sobre uma mesa.
Jonas tentou levantar, mas encontrou o joelho de Felix pressionado contra seu peito e a lâmina dele em sua garganta.
— Então aqui estamos — Felix disse. — Meu segredo foi descoberto. Que pena. Gosto de mantê-los em segredo.
— Eu confiei em você — Jonas gemeu.
— Confiança é uma via de mão dupla, amigo.
— Então me mate de uma vez.
— Você parou para pensar por um instante que talvez eu não seja tão ruim quanto pensa?
— Você trabalha para o rei.
— Eu trabalhava para o rei. Fiz muitas coisas ruins para o rei, na verdade, e fui bem pago por todas elas. Desde os onze anos de idade mato por ele. Eu era um menino gracioso. Podia entrar em muitos lugares onde seus outros assassinos não podiam. As coisas funcionavam à perfeição em Limeros, sem problemas. Mas tudo mudou depois da guerra. Eu mudei.
Jonas olhava com decepção — quase mágoa — para o garoto que passara a chamar de amigo.
— É mesmo?
— Eu contei como cresci, só não falei onde, ou quem era meu chefe. Nunca tive amigos. Fui criado para não confiar em ninguém, a menos que fizessem parte de meu clã. Passei a odiar aquelas pessoas. — O semblante de Felix parecia assombrado. — Recebi minha última missão do rei, rastrear você e me infiltrar em seu pequeno grupo de rebeldes. Mas, pasmem, quando o encontrei, você não tinha grupo. Estava sozinho como eu. Pode me chamar de louco, mas decidi mudar naquela mesma hora. Senti que era o momento certo para iniciar meu caminho de redenção.
Jonas franziu a testa, sem saber no que acreditar.
— É isso mesmo. Eu não pretendia trair nem matar você. — A voz de Felix estava cheia de convicção. — Mas no instante em que ouve algo que não gosta, você me trai, você decide me matar. Sem pensar duas vezes. Não me parece um amigo de verdade.
Jonas olhou para Lysandra e ficou consternado ao ver que ela estava inconsciente no chão. Felix acompanhou sua linha de visão.
— Eu não pretendia empurrá-la com tanta força. Mas às vezes machucamos as pessoas que amamos. A vida é assim.
Então ele afundou a adaga no ombro de Jonas, prendendo-o ao chão. Jonas gritou.
— Não se preocupe, você não vai morrer. Só vai sentir que vai. — Felix arrancou a bolsinha de couro amarrada no pulso de Jonas e pegou os cristais. Segurou-os como se os pesasse para determinar seu valor em ouro antes de fechar os dedos sobre a selenita.
— Meu sangue, meu cristal. É justo. — Ele jogou a esfera de obsidiana para Jonas; ela caiu pesadamente sobre seu peito e rolou para o lado. — Já terminamos aqui.
Jonas observou através de uma cortina de dor Felix se virar e sair da caverna sem olhar para trás.
Lysandra gemeu e começou a se mexer. Galyn surgiu de trás do bar e correu para ajudá-la a se levantar.
Jonas ficou imobilizado, literalmente preso ao chão, até Lysandra ajudá-lo a retirar a adaga de Felix e fazer um curativo sobre o ferimento.
— Está tudo bem — ela disse, angustiada. — Estamos melhor sem ele.
Jonas não tinha tanta certeza disso. Confiança era uma coisa frágil. E, naquele momento, não conseguia confiar nem em si mesmo.
Tinha aprendido algumas lições dolorosas, mas muito importantes, naquela noite.
A primeira era que estava em apuros.
A segunda, que amigos verdadeiros eram raros. E aqueles com passado sombrio nem sempre ansiavam por um futuro sombrio.
Podia ter dado a Felix uma chance de se explicar, dado a ele o benefício da dúvida depois das várias demonstrações de lealdade.
Agora parecia que Felix não era o único pronto a conquistar sua redenção.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!