1 de setembro de 2018

Capítulo 3

LYSANDRA
AURANOS

Lysandra bateu nas grades da cela até finalmente chamar a atenção de um guarda que passava.
— Quando Gregor vai voltar? — ela exigiu saber.
— Por que se importa? Cuide da própria vida, menina. Vai viver mais assim.
Por que ela se importava? Porque Gregor era seu irmão — algo que os guardas não sabiam. E porque ela o amava e queria que ele estivesse forte e em segurança para poderem fugir do calabouço superlotado que fedia a sujeira e morte.
Gregor tinha sido preso depois de tentar assassinar o príncipe Magnus em Limeros, durante a excursão de casamento. Ele contou que teve contato com uma vigilante imortal chamada Phaedra em seus sonhos — uma confissão que a maioria consideraria delírio de um louco. Mas parecia que o rei Gaius não compartilhava dessa opinião. Gregor não teria sido poupado da execução por tanto tempo se o rei não acreditasse que ele tinha valor.
O guarda ainda estava ali, olhando para Lysandra por entre as barras com grande interesse.
Ela olhou feio para ele.
— O que foi?
— Você é uma menininha bem bonita, não é? Tanta beleza em um lugar tão feio como este.
— Não sou uma menininha.
Continue olhando para mim desse jeito, ela pensou, e arranco seus olhos.
— Você é uma rebelde. — O guarda estreitou os olhos. — Não conheço muitas garotas que gostem de brigar.
Ela não lhe daria a satisfação de uma resposta e manteve a boca fechada até o guarda ir falar com um colega. Eles mantiveram a voz baixa, mas Lysandra viu sua expressão se tornar mais presunçosa e arrogante a cada palavra.
Iluminados apenas pelas tochas do corredor, a escuridão dos calabouços subterrâneos era opressiva. As barras de metal tinham uma camada de limo, as paredes estavam cheias de sujeira. O chão de terra batida, coberto de palha, fazia as vezes de cama desconfortável durante os poucos momentos em que Lysandra conseguira dormir desde sua chegada. Ecoando no fim do corredor, era possível ouvir os sons terríveis de outros prisioneiros, que riam para o nada, choravam por tudo ou falavam sozinhos como homens e mulheres que perderam a cabeça muito antes da vida.
Era um pesadelo.
Mas ela continuaria forte. Não tinha escolha.
O segundo guarda olhou para ela e meneou a cabeça.
— Muito bem. Precisamos de um pouco de diversão hoje. Vá buscá-la.
O primeiro guarda destrancou a cela e arrastou Lysandra brutalmente pelo cabelo. Seu primeiro instinto foi lutar, mas se conteve. Essa podia ser sua chance de escapar e, para isso, teria que fingir ser frágil e dócil. Trancada entre paredes de pedra e barras de ferro, não tinha a mínima chance, mas, se fosse levada para fora, podia tentar fugir — apesar de a ideia de partir sem Gregor a angustiasse.
Mas o guarda não a levou para fora. Ele conduziu Lysandra pelo corredor escuro e estreito até outra cela. Empurrou-a porta adentro, e ela caiu no chão com tanta força que machucou os joelhos.
Embora estivesse muito escuro, ela percebeu que havia mais alguém lá dentro. Os dois guardas ficaram parados do outro lado das barras de ferro, rindo. Um deles jogou algo metálico dentro da cela, que caiu no chão de terra a alguns passos dela.
Uma faca. Ela olhou rapidamente para o guarda.
— Gosta de brigar, rebelde? — ele perguntou. — Mostre para nós.
De repente, outra prisioneira surgiu da escuridão, levantando e empurrando Lysandra com força, fazendo-a cambalear para trás até bater na parede. Era uma garota mais alta e corpulenta, com o rosto sujo e os cabelos emaranhados. Ela logo pegou a faca e ficou olhando para Lysandra por um instante, com uma expressão selvagem nos olhos.
— Vamos lá — o guarda provocou. — Quem ganhar pode comer hoje. Queremos ver um pouco de sangue.
O olhar da outra menina encontrou o de Lysandra. Depois, com um grito, a prisioneira se lançou sobre ela com a faca em punho.
Lysandra estava faminta e fraca, mas não estava fora de si — não ainda. Tinha chegado dois dias antes, junto com três outros rebeldes sobreviventes da batalha — Tarus, Cato e Fabius. Sabia que o rei Gaius havia ordenado que fossem executados publicamente, para servirem de exemplo. Não esperava ser perdoada por seus crimes. E não esperava que nenhum cavaleiro de armadura brilhante fosse resgatá-la. Mas aquelas sempre foram suas expectativas. Era diferente das outras meninas que sonhavam com um marido forte e uma casa cheia de bebês babões. Lysandra sempre fora uma guerreira, desde o início. E seria uma guerreira até o fim.
E o fim não seria naquele dia.
Ela se esquivou com facilidade da faca e empurrou a garota.
— Qual é o seu nome? — Lysandra perguntou.
— Meu nome? — a menina respondeu, estreitando os olhos. — Por quê?
— O meu é Lysandra. Lysandra Barbas. — Apresentações podiam transformar inimigos em amigos. E aquela menina… não era sua inimiga. Ambas eram prisioneiras naquele lugar; tinham coisas em comum.
— Não me importa quem você seja. — A garota não era habilidosa, mas estava determinada nas tentativas de esfaquear Lysandra.
— Precisa de ajuda, rebelde? — O guarda abriu a porta e empurrou outro prisioneiro para dentro. Ele era baixo, magro e estava visivelmente assustado.
Era Tarus!
Antes que Lysandra pudesse dizer qualquer coisa, a garota não identificada atacou e cortou o braço de Tarus.
Ver o corte foi o suficiente para incitar Lysandra, que partiu para cima da menina e lhe deu um soco no estômago, fazendo-a gemer de dor.
— Você está bem? — Lysandra gritou para Tarus.
Ele segurava o braço ferido.
— Sim. Acho que sim. Cuidado!
A ponta da lâmina voou na direção do peito de Lysandra. Ela se esquivou e, dessa vez, deu um soco bem no rosto da garota. Sangue começou a escorrer de seu nariz.
— Pare — Lysandra sussurrou. — Você é melhor do que isso! Não dê a eles o espetáculo que querem. Não deixe que vençam!
Os olhos da menina estavam vermelhos, com lágrimas de raiva.
— Eu não como há vários dias!
— Derrube a menina — o guarda ordenou, ríspido. — Mate-a. Eu apostei em você, rebelde. Não me faça perder.
A garota continuou atacando-os sem parar até Lysandra finalmente arrancar a lâmina da mão dela. A garota caiu com tudo no chão e recuou para um canto, levantando as mãos para proteger o rosto quando Lysandra se aproximou.
— Por favor! Por favor, não! Poupe minha vida. Desculpe. Sinto muito!
— Mate-a! — o guarda exigiu.
Lysandra olhou para eles com ódio.
— Não.
— Ela teria matado você.
— Talvez. Mas ela não merece morrer só por tentar sobreviver mais um dia neste lugar imundo.
Os guardas invadiram a cela, desarmaram Lysandra e depois a arrastaram de volta para a primeira cela, jogando Tarus junto.
— Podem fazer companhia um ao outro enquanto esperam sua vez de morrer.
Na escuridão, Lysandra se encostou na parede, com Tarus ao lado. Ele começou a chorar baixinho, e ela colocou o braço ao redor de seus ombros para trazê-lo para perto.
— Sei que é difícil — ela sussurrou. — Mas vou tirar a gente daqui. Prometo que vou.
— Como?
Era uma boa pergunta.
— Estou pensando. Me dê algum tempo.
— Se Jonas souber onde estamos, ele vai nos salvar. Sei que vai.
— Jonas está morto. — As palavras eram tão amargas na língua quanto no coração. O pensamento frio e doloroso fazia seus olhos arderem com um sofrimento sem fim. — Se tivesse sobrevivido à batalha, teria sido capturado, e nós o teríamos visto ou ouvido falar dele.
Os olhos de Tarus ficaram sérios.
— Não acredito nisso.
— Também não quero acreditar, mas se apegar à esperança de que ele vai nos encontrar… — Ela soltou um suspiro trêmulo. Não se permitia acreditar em Jonas porque sabia que não conseguiria lidar com a decepção caso ele não aparecesse. Não; contaria apenas consigo mesma, como sempre tinha feito.
O silêncio recaiu sobre eles e permaneceu ali até Gregor finalmente ser trazido de volta à cela, vacilante. Ele caiu de joelhos, e Lysandra correu para o seu lado, segurando o rosto do irmão entre as mãos para fazê-lo olhar para ela. Estava confuso, com o rosto ferido e ensanguentado.
A fúria a devastou ao ver alguém que amava tão maltratado.
— Maldição! — Ela rasgou um pedaço de tecido de sua camisa e tentou limpar as feridas. — Malditos! Vou matar todos eles!
— Está tudo bem, pequena Lys. Logo tudo isso vai acabar.
As lágrimas começaram a escorrer de seus olhos, e ela as secou com raiva.
— Não diga isso! Vamos sair daqui e deixar este lugar nojento para trás. Nós nos encontramos de novo por um motivo. Não vamos morrer aqui. Apenas diga o que eles querem ouvir, assim vão parar de machucar você.
— Não existem verdades suficientes no mundo para fazê-los parar.
Doía ouvir a derrota na voz do irmão. Era tão diferente do garoto com quem ela tinha crescido — seu alicerce, alguém que mostrava força mesmo nos tempos mais difíceis. Ela sempre o invejara, com vergonha de sua própria fraqueza.
— O que queriam hoje? — ela perguntou.
— O mesmo que das outras vezes. — Ele encostou na parede de pedra. — O rei quer saber o que Phaedra me contou sobre a Tétrade. Ele me faz as mesmas perguntas repetidas vezes, mas minhas respostas nunca o satisfazem.
Pouco tempo antes, Lysandra não teria hesitado em dizer que Gregor era um tolo por acreditar em criaturas imortais de outro mundo ou cristais mágicos. Que piada.
Mas ninguém estava rindo agora.
— Ela vai me visitar de novo — ele sussurrou. — Sei que vai. E então me dirá o que fazer.
Lysandra baixou a voz.
— Você contou a eles o que Phaedra disse sobre a feiticeira?
Ela ficava aflita só de dizer algo assim em voz alta, mas era nisso que Gregor acreditava. Ajudá-lo a se agarrar às suas crenças podia lhe dar a força de que precisava para se agarrar à vida.
Ele fechou os olhos.
— Tentei dizer o mínimo possível. Preciso ter paciência. Phaedra vai me visitar de novo. Ela não me abandonaria desse jeito.
Se a tal Phaedra realmente existia, Lysandra a odiava pelo que havia feito com seu irmão. Pelo que havia dito a ele.
Quando o sangue da feiticeira for derramado, eles finalmente serão libertados.
E o mundo queimará.
Quem ascenderia? Não existia magia, apenas tolos que acreditavam em tolices para explicar aquilo que não conseguiam entender.
— Então conte isso ao rei, sobre essa feiticeira e seu sangue poderoso — Lysandra sussurrou. — Deixe que ele vá atrás de uma garota a quem culpar e desvie a atenção de você.
— Você desejaria algo tão horrível assim a alguém?
Lysandra se encolheu. Será que desejava que algo frio e brutal acontecesse a uma garota inocente só para salvar quem amava?
Já não tinha mais certeza.
Gregor tocou a testa, depois olhou para a mancha cor de carmim na ponta dos dedos.
— O sangue é a chave para tudo isso, pequena Lys. Lembre-se disso. Sangue é vida. Sangue é magia.
— Se é o que você acha… — Ela tentou não demonstrar frustração na voz. Gregor já havia passado por muita coisa; ela só queria que ele descansasse e recuperasse a força e a sanidade. — Você sabe a identidade dessa feiticeira mencionada pela garota do seu sonho? Tem alguma ideia?
— Não — ele admitiu. — Mas ela existe.
Lysandra soltou um suspiro trêmulo.
— Isso não ajuda muito.
Tarus falou do canto:
— Minha avó me contou de uma profecia sobre uma feiticeira capaz de dominar os elementia com mais força do que qualquer outra pessoa. É ela que pode recuperar a Tétrade.
— Sua avó deve ser uma grande contadora de histórias — Lysandra disse.
Tarus deu de ombros.
— Talvez não seja só uma história. Talvez seja o destino.
Os paelsianos podiam não acreditar em magia, mas acreditavam em destino. Acreditavam em aceitar a dura realidade da vida em uma terra que se desgastava mais a cada dia — estômagos vazios, crianças moribundas —, como se esses horrores não pudessem ser evitados.
Lysandra nunca concordara com crenças tão fatalistas. Ela sabia que havia apenas uma pessoa capaz de mudar seu destino, e essa pessoa era ela mesma.
— Phaedra vai me visitar de novo. Vai me dizer como ajudá-la. — Os olhos de Gregor brilharam, cheios de lágrimas, depois se fecharam de novo.
O coração de Lysandra estava apertado.
— Os vigilantes visitam os sonhos dos mortais — Tarus disse, chamando a atenção de Lysandra. — Às vezes. Raramente. Quer dizer, não acontece muito. Mas é possível.
Ele deve ter visto o ceticismo gravado no rosto dela. Mas Gregor parecia ter tanta certeza. Lysandra não podia simplesmente ignorar suas palavras como se fossem devaneios de um louco. Podia não acreditar em muita coisa, mas acreditava no irmão.
E estava claro que tudo aquilo era importante para o rei, o que o tornava importante para ela também.
— Por que acha que é possível? — ela perguntou.
Tarus ficou pensativo.
— Conheci uma bruxa, uma velha amiga da minha avó. Ela conseguia acender a lareira apenas com o olhar.
Lysandra já tinha ouvido relatos similares, mas nunca testemunhara nada assim com os próprios olhos.
— Quantos anos você tinha?
— Cinco; talvez seis. Mas sei que aconteceu.
Lembranças de infância não os ajudariam. Eles precisavam de fatos. Precisavam de ação, de um plano de fuga.
Seu irmão tinha caído no sono. Talvez estivesse sonhando com belas imortais, mas Lysandra ficou acordada em meio a mil perguntas e dúvidas.
— Esqueça os vigilantes, Lys. Jonas vai nos salvar — Tarus sussurrou. — Sei que vai.
Ela não tinha tanta certeza. Mas se houvesse alguma magia no mundo que realizasse desejos, era exatamente isso que desejaria.

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