3 de setembro de 2018

Capítulo 2

JONAS
AURANOS

Depois de um longo dia de trabalho no vinhedo paelsiano, o melhor amigo de Jonas sempre preferia tomar cerveja, e não vinho, enquanto relaxava na taverna local. A julgar pelas três canecas vazias ao lado de Brion, aquela noite não parecia diferente. Jonas se aproximou com cuidado, sentando na frente dele, perto da lareira.
— Boa noite — Brion disse com um sorriso tranquilo.
Jonas não retribuiu o sorriso. Em vez disso, ficou olhando fixamente para o amigo, desconfiado e cauteloso.
— O que significa isso?
— Como assim?
— Eu estou... morto? Ou estou sonhando?
Brion riu e terminou a quarta cerveja.
— Qual é o seu palpite?
— Sonhando, provavelmente. Esta cena é muito agradável para estar acontecendo nas terras sombrias.
— Você está tão sério hoje. — Brion fez bico e encarou Jonas com um olhar penetrante. — Dia difícil de trabalho?
Um sonho. Apenas um sonho. Ainda assim, Jonas tentou desfrutar da companhia de Brion Radenos. Ele tinha sido um amigo tão querido quanto um irmão, cuja morte ele mal teve tempo de lamentar.
— Pode-se dizer que sim.
— Está precisando de conselhos? — Brion perguntou ao fazer um sinal para a atendente trazer mais cerveja.
— Não seria má ideia.
— Tudo bem, lá vai. Você devia desistir.
Jonas franziu a testa.
— O quê?
Brion voltou a olhar para Jonas, e aquele tom familiar de humor desapareceu.
— Desistir. Acha que pode fazer mais alguma coisa no momento? Esqueça. Você fracassou várias vezes como rebelde e como líder. Estou morto por causa das suas decisões estúpidas e da sua teimosia. Assim como os outros: dezenas morreram por sua causa.
Jonas recuou como se tivesse recebido um golpe. Olhou para baixo e observou as tábuas de madeira.
— Fiz o melhor que pude.
— Você não entende? Seu melhor não é bom o bastante. Todos que confiaram em você morreram agonizando. Você é deprimente. Estaria fazendo um favor a todos se rendendo ao rei e se juntando a mim além da vida.
Não era sonho. Era um pesadelo.
Mas alguma coisa tinha mudado. No meio do discurso, a voz de Brion havia se alterado. Jonas levantou os olhos na direção dele e percebeu que estava encarando os próprios olhos.
— Isso mesmo — o outro Jonas o repreendeu. — Você é inútil. Decepcionou Tomas, decepcionou Brion, decepcionou seus camaradas rebeldes. E a princesa Cleo? Ela estava contando com você para levar aquela pedra mágica e salvá-la dos Damora. Agora é mais provável que também esteja morta. Felix não devia ter parado quando o feriu. Devia tê-lo matado e acabado com seu sofrimento.
As palavras eram golpes, cada uma um punho acertando suas entranhas. É claro que ele já sabia de tudo isso, e agora todos os seus fracassos e erros surgiam à sua frente como uma montanha de dor, tão alta que não dava para ver o outro lado.
Mas, com cada fracasso, ele havia aprendido alguma coisa. Havia crescido. Não era mais o idiota que seguira o chefe Basilius e o Rei Sanguinário em uma guerra de mentiras e traição, onde ele e seus companheiros paelsianos foram usados como peões. Ele havia se lançado à batalha quando nem ele nem seus rebeldes estavam totalmente preparados. Agora carregava as cicatrizes daquela batalha na mente e no corpo, uma mais profunda e sangrenta que a outra.
— Não — Jonas sussurrou.
O outro Jonas inclinou a cabeça.
— O que você disse?
— Não — ele repetiu mais alto. — Pode ser diferente. Eu posso ser diferente.
— Impossível.
— Nada é impossível. — Ele levantou a cabeça e encarou furioso seus próprios olhos castanhos. — Agora me deixe em paz para fazer o que preciso fazer.
Sua imagem espelhada deu um sorriso forçado e fez um leve gesto de aprovação antes de desaparecer no ar.
Jonas acordou sobre um catre, ensopado de suor, e ficou olhando para o teto preto. Quando tentou se mexer, o ombro esquerdo doeu muito.
Sob as bandagens apertadas que cobriam o ferimento havia uma camada de lama verde-acinzentada. Galyn, o dono da Sapo de Prata, tinha feito o curativo, dizendo a Jonas que uma vez seu pai, Bruno, havia aceitado a substância medicinal como pagamento de uma bruxa que se hospedara ali.
Seu corpo febril doeu quando ele se obrigou a sair da cama e atravessou o corredor devagar, passando por várias portas que emanavam apenas roncos e silêncio. Desceu com cuidado os frágeis degraus de madeira que levavam à taverna. Não sabia que horas eram, mas estava escuro, ainda era noite, e as únicas coisas que o impediam de tropeçar eram alguns candelabros acesos nas paredes. Suas pernas estavam fracas, e a náusea havia tomado conta de seu estômago, mas ele tinha certeza de que não conseguiria ficar na cama. Havia muita coisa para fazer.
Jonas começaria pegando algo para beber; sua boca estava seca como as terras desoladas do leste de Paelsia.
Ele parou ao escutar vozes abafadas dentro da taverna escura.
— De jeito nenhum. Ele não precisa saber — disse uma voz feminina.
— A mensagem era para ele, não para você — respondeu o companheiro.
— É verdade. Mas ele não está em condições de fazer nada sobre isso.
— Talvez não. Mas vai ficar furioso quando souber.
— Então que fique furioso. Você quer que ele saia correndo nas condições em que está e acabe morrendo? Ele não tem força suficiente para isso agora.
Jonas foi até o canto e encostou na parede até entrar no campo de visão de Lysandra e Galyn.
— Ah, Lys — ele disse com calma. — Adoro sua confiança ilimitada nas minhas habilidades.
Lysandra Barbas, sua amiga e última companheira rebelde restante, fez uma careta ao se virar, enrolando uma mecha do cabelo escuro e cacheado no dedo.
— Você está acordado.
— Estou. E espionando descaradamente os dois amigos que me restaram falando de mim como se eu fosse uma criança doente. — Ele esfregou a testa. — Há quanto tempo estou inconsciente?
— Três dias.
Ele ficou boquiaberto. Três dias inteiros?
Três dias desde que Felix enfiou aquela adaga em seu ombro, prendendo-o ao chão da taverna.
E, um pouco antes, Jonas havia beijado Lysandra pela primeira vez.
Duas lembranças — uma ruim e uma boa — gravadas para sempre em seu cérebro.
Galyn, alto, corpulento, com seus vinte e poucos anos, ergueu uma sobrancelha loira e espessa.
— O bálsamo medicinal está funcionando?
Jonas forçou um sorriso.
— Como mágica — ele mentiu.
Em toda sua vida, Jonas jamais acreditara em magia. Mas sua opinião havia mudado de maneira irrevogável quando foi trazido de volta da beira da morte por uma poderosa magia da terra. No entanto, esse suposto bálsamo medicinal... bem, ele não estava convencido que fosse algo além de lama comum.
O sorriso de Jonas se desfez quando notou as vestimentas de Lysandra. Ela usava calça, couro e uma bolsa pendurada num ombro, com seu arco e aljava de flechas no outro.
— Onde está indo a esta hora? — ele questionou.
Ela apertou os lábios e não respondeu, lançando-lhe um olhar desafiador.
— Está bem, vá em frente e seja teimosa. — Ele se virou para Galyn. — Que mensagem chegou para mim, e quem a enviou?
— Não responda — Lys murmurou.
Galyn alternou o olhar entre os dois, sem saber o que fazer, com os braços cruzados diante do peito. Finalmente, suspirou e virou para Jonas.
— Nerissa. Ela passou aqui ontem.
Nos últimos meses, Nerissa Florens havia se provado uma espiã rebelde valiosa. Ela trabalhava no palácio auraniano e tinha a rara habilidade de conseguir informações importantes exatamente quando era necessário.
— O que dizia a mensagem?
— Galyn... — Lys resmungou.
Ele fez cara feia.
— Sinto muito, Lys. Você sabe que tenho que contar a ele. — Galyn virou o rosto calmo para Jonas novamente. — Jonas, o rei mandou preparar um navio. Nerissa não sabe ao certo para onde ele está indo, mas sem dúvida irá em questão de dias.
Um rei se preparando para viajar normalmente não se qualificaria como notícia importante. Mas o rei Gaius estava isolado no palácio havia meses, sem colocar o pé para fora das muralhas desde o desastroso casamento de Cleo e Magnus. Diziam que ele temia outro ataque rebelde, e Jonas não tinha certeza se isso o tornava um homem covarde ou inteligente.
Então o Rei Sanguinário estava não apenas saindo do palácio, mas saindo para uma longa viagem de navio, isso era uma notícia importantíssima.
O coração de Jonas começou a acelerar.
— Ela disse para onde ele está indo? Voltando para Limeros? — Era possível chegar no reino ao norte por terra, mas era muito mais confortável e digno de um rei ir de navio pela costa ocidental.
— Não. Nerissa só sabe que ele está se preparando para viajar para algum lugar, mas ninguém sabe para onde, nem quando.
Jonas olhou mais uma vez para Lys, cujos olhos ainda apontavam para Galyn, com o rosto vermelho de raiva.
— Não olhe assim para ele — Jonas disse. — Você mesma devia ter me contado tudo isso.
— Quando? Você passou dias inconsciente.
— Sim, mas agora estou acordado e me sentindo muito melhor. — Era mentira. Ele se sentia fraco e instável, mas não queria que Lys soubesse. — E então? Seu plano é sair sozinha e assassinar o rei assim que ele botar a cabeça para fora do palácio?
— Essa era a ideia, basicamente.
— É um plano idiota. — Uma fúria frustrada tomou conta dele, anulando a dor no ombro. — Você faria isso, não é? Fugiria e acabaria sendo morta tentando aniquilar o Rei Sanguinário.
— Talvez. Ou talvez eu tivesse sucesso e acertasse uma flecha bem na testa dele, botando um fim nisso de uma vez por todas!
Jonas olhou feio para ela, as mãos cerradas, furioso por Lys estar disposta a se arriscar desse jeito sem ninguém para ajudar.
— Por que você faria isso? Por que sairia sozinha?
Com os olhos em chamas, ela soltou a bolsa, o arco e a aljava no chão. Foi na direção de Jonas com tanta rapidez que ele achou que ia levar um soco. Em vez disso, a garota parou pouco antes de tocá-lo, e seu olhar se suavizou.
— Achei que você estava morto — ela afirmou. — Quando vi você ali, preso ao chão com aquela adaga... — As palavras desapareceram quando seus olhos escuros se encheram de lágrimas, e ela os esfregou com raiva. — Que droga, Jonas. Primeiro meus pais, depois Brion e meu irmão, e... e então pensei que tinha perdido você também. E mesmo quando soube que você não tinha sido morto por Felix, você ainda estava muito doente. Com uma febre tão alta... Eu... Eu não sabia o que fazer. Me senti impotente e odeio me sentir impotente. Mas agora, com a notícia da viagem do rei... Tenho uma chance de fazer alguma coisa, de fazer a diferença. De... — Sua voz ficou aguda. — De proteger você.
Jonas tentou encontrar as palavras, mas descobriu que não tinha uma resposta imediata. Não conhecia Lysandra havia tanto tempo — pelo menos em comparação ao quanto conhecia Brion. O amigo havia se apaixonado por ela de imediato, perdidamente, mesmo com aquele comportamento abrasivo que ela usava como autodefesa. Jonas precisara de um pouco mais de tempo para se afeiçoar a ela, mas finalmente tinha acontecido, e agora...
— Também não quero perder você — ele conseguiu dizer.
— Verdade?
— Não fique tão surpresa. — Ele parou de fitar o chão, e os olhares dos dois se encontraram. — E saiba que, qualquer dia desses, pretendo te beijar de novo.
Lysandra corou de novo, mas dessa vez Jonas não achou que fosse de raiva.
— Devo deixar os dois sozinhos? — Galyn perguntou.
— Não — Lys respondeu rápido, pigarreando. — Hum. Bem, por falar em Felix...
Jonas se contorceu ao ouvir aquele nome.
— O que tem ele?
— Ele se foi. Não temos notícias. Nem Nerissa, nem ninguém — Lys disse. — Mas se eu o vir de novo, vou acertá-lo com uma flecha também, pelo que fez com você.
— Ele podia ter me matado. Mas não matou.
— Você está defendendo ele? Preciso lembrar que ele também roubou o cristal do ar de nós?
— E vamos pegá-lo de volta. — Jonas ainda estava com o cristal da terra escondido em segurança no quarto. Não que soubesse o que fazer com ele. Para uma pedra brilhante que supostamente tinha poderes mágicos suficientes para abalar o mundo, ela ainda não havia se provado muito útil. Mas o cristal não era para ele, tinha sido prometido a outra pessoa. — Galyn, Nerissa disse mais alguma coisa? Algo... sobre a princesa? Ela foi encontrada?
Galyn negou.
— Não. A princesa Cleiona ainda está desaparecida, assim como o príncipe Magnus. Há rumores na vila, no entanto, de que a princesa Lucia fugiu para se casar com seu tutor. Talvez estejam todos juntos em algum lugar.
— Esqueça a princesa — Lys disse, voltando a ficar com a voz aguda. — Que diferença faz ela estar viva ou morta?
Jonas rangeu os dentes.
— Ela estava contando comigo para levar o cristal. Confiou em mim.
Lys resmungou.
— Não tenho tempo para ficar ouvindo isso. Preciso ir. — Ela pegou o equipamento. — Volte para a cama, Jonas. Vá se recuperar. Podemos falar sobre o paradeiro da sua princesa dourada mais tarde.
— Espere.
— O que foi? Não podemos ignorar essa chance de acabar com o Rei Sanguinário. Vai mesmo tentar me impedir?
Ele a observou em silêncio por um instante.
— Não. Vou com você.
Lysandra franziu a testa e levou o olhar preocupado até o ferimento dele.
— Eu dou conta — Jonas afirmou. — Você não vai me convencer do contrário.
Jonas estava esperando que ela começasse uma briga — uma briga que ele sabia que provavelmente não teria forças para encarar. Tudo o que podia fazer era tentar parecer o mais forte e determinado possível.
Mas em vez de resistir, ela apenas suspirou, resignada.
— Tudo bem. Mas você não vai a lugar nenhum assim.
— Assim como? Eu pareço muito doente?
— Não, é que... — Ela olhou para Galyn.
— Todo mundo sabe quem você é — Galyn disse, gesticulando para Jonas. — Seu rosto é famoso por aqui, lembra?
É claro. Os cartazes espalhados por toda a Mítica, oferecendo uma bela recompensa pela captura de Jonas Agallon, líder rebelde e assassino (falsamente acusado) da rainha Althea Damora, garantiam isso. Ele tinha sido reconhecido várias vezes nas últimas semanas, sobretudo em Auranos.
— Está bem. Preciso de um disfarce — ele disse, levantando a sobrancelha e olhando para Lysandra. — Mas você também precisa. Muita gente deu uma boa olhada em você na execução interrompida.
Ela soltou o equipamento mais uma vez.
— Talvez você tenha razão.
Jonas tocou o cabelo castanho-escuro, longo o bastante para formar cachos em volta das orelhas e cair em seus olhos se não o jogasse o tempo todo para trás.
— Vou cortar o cabelo.
— É um começo — Galyn disse. — E você está com sorte. Tenho um tapa-olho que você pode usar. Fui picado por um escorpião d’água há alguns anos e tive que usar por meses.
Um tapa-olho? Jonas tentou não fazer cara feia diante da ideia de perder metade da visão, mesmo que temporariamente.
— É... parece, hum, ótimo. Eu acho. Obrigado.
Lysandra tirou uma adaga da bolsa.
— Vou cortar seu cabelo assim que terminar de cortar o meu.
Ela levou a lâmina a uma das mechas longas e cacheadas, mas Jonas segurou sua mão.
— Você não vai cortar o cabelo.
Ela franziu a testa quando ele a desarmou com rapidez.
— Por que não?
Ele não conseguiu evitar um sorriso.
— Porque gosto do seu cabelo como ele é. Lindo e indomável, exatamente como você.
Lysandra estava com as mãos na cintura, e Jonas notou que ela tentava conter um sorriso.
— Então que tipo de disfarce sugere para mim?
Ele abriu um sorriso largo.
— Simples. Um vestido.
Ela arregalou os olhos.
— Um vestido?
— Um bem bonito. De seda, se possível. Galyn? Alguma hóspede esqueceu alguma roupa por aqui?
O dono da hospedaria riu.
— Na verdade, acho que tenho um dos antigos vestidos da minha mãe em algum lugar por aqui.
— Ótimo — Jonas disse, achando graça do olhar de ultraje no rosto de Lys. — Parece que logo vamos estar prontos e irreconhecíveis. Vamos lá.

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