29 de setembro de 2018

Capítulo 2

EU JÁ TINHA PERDIDO A CONTA de quanto tempo fazia desde que começamos a atirar.
Tempo suficiente para o suor começar a se acumular no fim das minhas costas. Tempo suficiente para Dahmad, o Campeão, tomar três garrafas inteiras de bebida entre as rodadas. E tempo suficiente para a maior parte dos competidores ser eliminada do jogo. Mas eu seguia em frente.
O alvo me encarava do outro lado da arena: garrafas se movendo sobre uma placa de madeira que girava lentamente conforme um garoto acionava a manivela. Apertei o dedo com força no gatilho seis vezes. Não consegui ouvir o vidro estilhaçar de tanto que a multidão gritava.
Alguém colocou a mão no meu ombro.
— Os finalistas da noite! — Hasan gritou, perto do meu ouvido. — O campeão da casa, Dahmad! — O homem cambaleou por causa da bebida e ergueu os braços. — A Cobra do Oriente, desafiando-o mais uma vez. — O forasteiro mal registrou as provocações e os gritos; apenas curvou o canto da boca, sem erguer a cabeça. — E uma surpreendente revelação. — Ele levantou meu braço com força e a multidão enlouqueceu, gritando, batendo os pés e fazendo o celeiro tremer. — O Bandido de Olhos Azuis.
O apelido acabou com a minha animação. Senti um arrepio de pânico. Procurei por Fazim na arena. Mesmo que as pessoas acreditassem que eu era um garoto, eu não tinha como esconder meus olhos. Tudo em mim era tão escuro quanto deveria ser em qualquer garota do deserto, mas meus olhos azuis me destacavam. Apesar de burro, se Fazim estivesse ali, talvez fosse esperto o suficiente para somar dois e dois. Mesmo assim, sorri por trás do sheema e deixei o calor do público me tomar.
Hasan soltou meu braço.
— Dez minutos para fazer as últimas apostas, pessoal. A rodada final já vai começar.
Todos correram para os coletores de apostas. Sem mais nada para fazer, me agachei em um canto vazio da arena, apoiada contra as grades. Minhas pernas ainda estavam meio bambas por conta do nervosismo, minha camisa colava na barriga de tanto suor, e eu sentia o rosto vermelho por trás do sheema.
Mas eu ainda estava na disputa.
Fechei os olhos. Talvez realmente conseguisse sair dali com o prêmio.
Fiz as contas na cabeça. O prêmio era de mais de mil fouzas. Eu teria que roubar e economizar até morrer para conseguir juntar essa quantia. Especialmente com o desastre nas minas de Sazi algumas semanas antes. Um acidente. Explosivos mal colocados. Essa era a história oficial. Mas eu tinha ouvido rumores de sabotagem. Diziam que alguém havia plantado uma bomba. E o mais estranho: diziam que tinha sido um ser primordial. Um djinni punindo Sazi por seus pecados.
Mas não importava o que tinha acontecido, o fato era que, sem o metal das minas, não seriam produzidas armas, e sem armas não havia dinheiro. Todos estavam apertando o cinto. E eu não tinha nem dinheiro para comprar um cinto.
Mas com mil fouzas poderia fazer muito mais que isso. Escapar daquele deserto sem fim, cheio de fumaça de fábrica. Poderia correr direto para Izman. Tudo o que precisava fazer era chegar a Juniper na próxima caravana. De lá haveria trens para Izman.
Izman.
Eu não conseguia pensar na cidade sem ouvi-la sussurrada como uma prece esperançosa na voz da minha mãe. A promessa de um mundo maior. Uma vida melhor. Que não terminasse em uma queda breve e uma parada abrupta.
— Então, “Bandido de Olhos Azuis”. — Abri os olhos e vi o forasteiro agachando perto de mim, apoiando os braços nos joelhos. Ele não me encarou. — É melhor que “Cobra do Oriente”, pelo menos. — Ele estava segurando um odre. Até aquele momento eu não tinha me dado conta de como estava com sede. Meus olhos acompanharam enquanto ele tomava um longo gole. — E ainda tem um ar de desonestidade. — Ele olhou para mim com o canto do olho. Havia certo tom na sua voz que faria até a pessoa mais ingênua considerá-lo perigoso. — Você tem um nome de verdade?
— Claro. Mas você pode me chamar de Oman. — Meus olhos poderiam me entregar, mas meu nome verdadeiro, Amani Al’Hiza, entregaria muito mais.
O forasteiro deu uma risada curta.
— Engraçado, também me chamo Oman.
— Engraçado mesmo — concordei secamente, com um sorriso no canto da boca.
Metade dos homens nascidos em Miraji deviam se chamar Oman, em homenagem ao nosso aclamado sultão. Não sabia se os pais achavam que isso poderia favorecê-los aos olhos do governante — não que um dia fossem chegar perto dele — ou que Deus poderia favorecê-los por engano. O que eu sabia era que o forasteiro era tão Oman quanto eu. Tudo nele era estrangeiro, dos olhos aos ângulos do rosto e ao modo como usava aquelas vestes de deserto como se não fizessem sentido sobre sua pele. Ele até tinha um sotaque, embora falasse mirajin melhor do que muitos nativos.
— De onde você é, aliás? — perguntei, falando sem pensar.
Toda vez que abria a boca era mais uma chance de descobrirem que eu era uma garota. Mas era mais forte do que eu.
O forasteiro tomou um gole de água.
— Nenhum lugar específico. E você?
— Nenhum lugar interessante. — Eu também podia fazer aquele jogo.
— Com sede? — Ele me ofereceu o odre, sua atenção intensa demais. Eu estava morrendo de sede, mas não ousaria levantar o sheema nem um pouquinho. Além disso, estávamos no deserto. Era normal passar sede.
— Vou sobreviver — eu disse, tentando não passar a língua pelos lábios ressecados.
— Você que sabe. — Ele tomou um longo gole. Observei com inveja a água descendo por sua garganta. — Nosso amigo certamente parece estar. Com sede, quer dizer.
Me virei na direção para onde o forasteiro olhava. Com o rosto vermelho, Dahmad esvaziava outra garrafa.
— Assim é melhor pra você. — Dei de ombros. — Eu ia ganhar de qualquer jeito. Pelo menos agora seu segundo lugar está garantido.
O forasteiro caiu na risada. Eu me senti ridiculamente satisfeita de ter arrancado aquele riso dele.
Um dos homens tentando chegar aos coletores de aposta aos empurrões olhou em nossa direção, franzindo a testa. Como se estivéssemos conspirando.
— Gosto de você, garoto — disse o forasteiro. — E tem talento, então vou dar um conselho. Desista.
Tentei soar corajosa, me endireitando tanto quanto possível:
— Você realmente acha que esse papo vai funcionar comigo?
— Está vendo nosso amigo ali? — Ele indicou Dahmad com a cabeça. — Ele joga pela casa. Hasan fica rico com suas vitórias. Eles não gostam quando desconhecidos ganham.
— E como você sabe disso tudo se não é daqui?
O forasteiro se inclinou para perto, como se fosse revelar um segredo.
— Porque ganhei dele semana passada.
Observamos Dahmad cambalear e se apoiar na parede para não cair.
— Não parece tão difícil.
— Não é. Mas os dois homens que Hasan mandou para me encurralar em um beco e pegar o dinheiro de volta foram um desafio maior. — O forasteiro abriu e fechou a mão, e vi marcas em seus punhos. Ele me flagrou observando. — Não se preocupe — disse, piscando pra mim. — Você tinha que ver como os outros caras ficaram.
Tirei do rosto o que quer que ele tivesse identificado como preocupação.
— E aqui está você, para dar a eles uma segunda chance de te pegarem.
Ele se virou e concentrou toda a atenção em mim, sério.
— Quantos anos você tem? Treze? — Dezesseis, quase dezessete, como garota, mas como garoto parecia mais nova. — Alguém que sabe atirar como você pode ir longe se não morrer hoje à noite. Não seria nenhuma vergonha abandonar a competição. Todos nós sabemos que você é bom de tiro. Não precisa morrer para provar isso.
Eu o olhei com cautela.
— Por que você voltou se é tão perigoso?
— Porque preciso da grana. — Ele tomou um gole do odre antes de levantar. — E sempre escapei das encrencas vivo.
Senti uma pontada quando ele falou isso. Sabia o que era estar desesperada. Ele me ofereceu a mão para me ajudar a levantar. Não aceitei.
— Duvido que precise mais do que eu — eu disse em voz baixa.
Por um momento senti como se nos entendêssemos. Estávamos do mesmo lado. Mas ainda assim um contra o outro.
O forasteiro deixou a mão cair.
— Você que sabe, Bandido.
Ele saiu andando. Fiquei sentada lá por mais um instante, me convencendo de que ele só estava tentando me intimidar para que eu abandonasse a competição. Sabia que nós dois podíamos ganhar de Dahmad. O forasteiro era bom de tiro.
E eu era melhor. Tinha que ser melhor.
Os coletores de aposta estavam se livrando dos últimos clientes quando nos posicionamos de novo na linha. Quando a garotinha de pés descalços veio correndo, só trouxe uma bala. Na outra mão carregava uma tira de pano preto.
— A rodada final! — Hasan proclamou. — O blefe do cego.
Estiquei a mão para pegar a venda, mas parei quando ouvi o som de tiros.
Eu me abaixei antes mesmo de perceber que o som vinha de fora. Alguém gritou. Metade do público estava de pé, um tentando enxergar por cima do outro o que acontecia lá fora. Não consegui ver nada, mas ouvi o grito bem claro.
— Em nome do príncipe rebelde Ahmed! Uma nova alvorada. Um novo deserto!
Calafrios percorreram todo o meu corpo.
— Droga. — O forasteiro esfregou o punho no queixo. — Isso não foi inteligente.
Uma nova alvorada. Um novo deserto. Todo mundo já tinha ouvido o lema do príncipe rebelde, mas apenas em sussurros. Só um idiota proclamaria seu apoio ao filho rebelde do sultão. Havia homens demais com ideias velhas e armas novas para alguém abrir a boca contra o governante.
Fragmentos de vozes se destacaram no burburinho.
— O príncipe rebelde foi morto em Simar semanas atrás.
— Ouvi dizer que ele está se escondendo nas cavernas de Derva com sua irmã-demônio.
— Ele devia ser enforcado imediatamente!
— Está marchando em direção a Izman agora mesmo!
Eu já tinha ouvido metade daquelas histórias. E mais meia dúzia delas. Desde o dia dos jogos do sultim, quando o príncipe Ahmed reapareceu depois de quinze anos sumido para reivindicar o trono do pai, as histórias sobre ele ecoavam na fronteira entre mito e fato. Diziam que ele tinha vencido os jogos do sultim e o sultão mandara assassiná-lo, sem sucesso, em vez de nomeá-lo herdeiro. Diziam que ele tinha trapaceado, usando magia, e mesmo assim perdeu. A única parte que permanecia igual em todas as versões era que, depois de falhar em conquistar o trono nos jogos, ele tinha desaparecido no deserto para começar uma rebelião e tomar o poder.
Uma nova alvorada. Um novo deserto.
Senti uma onda de entusiasmo pelo corpo. A maioria das histórias que conhecia era sobre eventos que tinham acontecido muito tempo antes, com pessoas que já tinham morrido. O príncipe rebelde era uma história que estávamos todos vivendo. Ainda que ele pudesse ser morto a qualquer momento.
A briga lá fora foi curta, e então o segurança da porta entrou arrastando um garoto pelo colarinho. Ele devia ser tão novo quanto eu parecia com o disfarce. Vaias bêbadas ecoaram pela multidão conforme ele passava.
— Ora, ora! — A voz de Hasan retumbou sobre o burburinho, tentando recuperar a atenção da multidão. O garoto cambaleou, tentando ficar de pé, sangue escorrendo do rosto. Parecia que tinha levado pancadas fortes no rosto, mas nada pior do que isso. Sem buracos de bala ou ferimentos de faca até então. — Parece que temos um voluntário!
O segurança arrastou o garoto para a frente e empurrou-o em direção ao alvo. Colocou uma garrafa em cima da cabeça dele. Meu coração congelou.
— Temos um novo jogo então! O blefe do traidor — Hasan bradou, de braços abertos.
A multidão rugiu em resposta.
Eu conseguiria acertar o tiro sem machucar o garoto. O forasteiro também conseguiria. Mas o campeão estava cambaleando e esvaziando outra garrafa. Eu já nem tinha certeza se ele conseguiria acertar o chão caso tropeçasse.
O garoto tremeu um pouco, e a garrafa caiu com um baque na areia. A multidão reagiu com insultos. Parecia que ele ia começar a chorar quando o segurança de Hasan empurrou seu ombro com força até endireitá-lo e posicionou a garrafa novamente em sua cabeça.
— O garoto está machucado demais para ficar de pé, quanto mais manter a garrafa parada. — ouvi o forasteiro dizer a Hasan. — Não dá para atirar em um alvo assim.
— Então não atire. — Hasan fez um gesto de desprezo. — Se você e o Bandido forem covardes demais, podem virar as costas e ir embora. Deixem meu homem vencer.
Então era esse o plano. Forçar eu e o forasteiro a desistir e deixar Dahmad vencer. Só para salvar a vida de um garoto.
Um garoto que era mais novo que eu e já tinha os braços marcados com cicatrizes do trabalho na fábrica.
Não.
Era ele ou eu.
O garoto não ia mesmo sobreviver muito tempo no deserto falando de rebelião. Não quando metade do Último Condado estava disposta a destroçá-lo por traição. Que diferença faria se eu desse um tiro ou outra pessoa o matasse? Não seria minha culpa.
— Ou acertem o garoto na cabeça, já vai ser perto o suficiente — Hasan disse, jocoso. Apertei os punhos. — Não faz diferença para mim.
Era claro que fazia. Ele estava contando com a nossa desistência. Eu e o forasteiro sabíamos disso.
— Você não acha que vai parecer um pouco suspeito se desistirmos e deixarmos seu homem vencer? — perguntei, interrompendo o que o forasteiro estava prestes a dizer.
Hasan girou uma bala entre os dedos.
— Acho que meus bolsos ficarão cheios de ouro e o de vocês não.
— Claro — eu disse sem me virar, mantendo os olhos no rebelde patético com as costas contra o alvo. Ele não merecia ser mais uma vítima do deserto tanto quanto eu. — E você vai ter mais problemas do que ouro quando seus clientes perceberem que foram enganados. — Ficou claro pelo silêncio de Hasan que ele não havia pensado a respeito. Passei os olhos pela multidão, tentando parecer entediada, como se não precisasse daquilo. Como se eu não estivesse tentando manipulá-lo do mesmo jeito que ele tentava manipular a gente. — Você tem um celeiro cheio de bêbados que pagaram dinheiro suado pelo espetáculo. E são tempos difíceis, sem a matéria-prima de Sazi. Todo mundo anda bem irritado. Não notou?
Não precisei confirmar se Hasan olhava na mesma direção que eu; um cego enxergaria a multidão de operários sem dinheiro e rapazes famintos com punhos calejados ansiando por violência. Até o garoto com o lábio machucado posicionado como alvo estava inquieto. A diferença era que estava inebriado pela rebelião, e não por licor barato. Eu conhecia aquela sensação. Era o que me levaria até Izman.
— Viver sob este sol não deixa as pessoas de cabeça fria. Especialmente se, digamos, a Cobra do Oriente e o Bandido de Olhos Azuis começassem a inflamar os ânimos. — Olhei para Hasan com o canto do olho, rezando para que ele não ordenasse que atirassem em mim. — Mas quer saber de uma coisa? Posso ajudar você.
— Pode me ajudar, é? — Hasan disse em tom de escárnio, mas prestando atenção.
— Claro. Eu desisto da competição e troco de lugar com o garoto. Por mil fouzas.
O forasteiro se virou para mim e disse algo em um idioma que eu não conhecia, mas parecia um palavrão.
— Você está louco, garoto? Quer levar um tiro no lugar dele?
— Se eu tiver sorte, ele não vai me acertar.
Senti meu peito enchendo e esvaziando com cada respiração curta. O garoto oscilava para trás e para a frente na areia cheia de vidro. Estava descalço, mas não se queixou.
— A gente vai atirar ou o quê? — Dahmad vociferou, arremessando uma garrafa vazia na direção do garoto e errando por pouco.
Eu olhava fixamente para Hasan; ele não estava convencido.
— Se eu não tiver sorte, você não precisa me pagar nada, e a multidão ganha seu espetáculo sangrento.
Hasan curvou os lábios numa expressão cruel.
— E todos vão felizes para casa.
— Exceto você — o forasteiro disse, baixo o suficiente para que só eu escutasse. Então ele levantou a voz: — Vamos perder de propósito. — Os olhos do forasteiro continuavam fixos em mim, ainda que falasse com Hasan. Abri a boca para contestar, mas alguma coisa em seu olhar me fez parar. Estávamos do mesmo lado. — Se o Bandido de Olhos Azuis está com tanta vontade de ser o alvo, eu atiro primeiro. Posso errar a garrafa sem atirar na cabeça dele. Então você deixa o Bandido atirar. Comigo como alvo. Ele também vai errar. — Meus ombros ficaram tensos, como se meus braços soubessem que eu não aguentaria perder um tiro. Mas o forasteiro confiava em mim, então assenti com a cabeça, de forma discreta. — Seu campeão vence automaticamente. Vamos todos embora sem buracos de bala.
— E com dinheiro — acrescentei, antes que o forasteiro nos deixasse pobres, ainda que honrados. — Saímos daqui com mil, tirados dos ganhos da casa. Cada um.
— Posso oferecer cem para cada — Hasan disse.
— Oitocentos — retruquei.
— Quinhentos, e agradeça por eu não enviar alguém atrás de você para quebrar seus dedos e pegar meu dinheiro de volta.
— Feito.
Quinhentos não era mil, mas era melhor que nada. E talvez fosse suficiente para chegar a Izman.
A multidão estava inquieta. Um brado veio das arquibancadas.
— Que tal os covardes começarem a atirar? O garoto está prestes a mijar nas calças!
Hasan se virou e caminhou naquela direção.
— Cavalheiros! Alguém realmente quer ver esse pirralho rebelde levar um tiro? Ele é muito baixinho. — Hasan arrancou a garrafa de cima da cabeça do garoto. — Some daqui!
O garoto olhou fixamente para ele como se Hasan fosse um carrasco que tinha acabado de cortar o laço. Vá, implorei mentalmente. Ele começou a cambalear para fora dali.
Minha angústia diminuiu, mas um murmúrio de insatisfação começou a se propagar pela arquibancada. Hasan silenciou a multidão com a mão levantada.
— Não seria melhor ver esses três homens mirarem uns nos outros? — O rugido das arquibancadas foi ensurdecedor, os pés batendo tão forte que a estrutura inteira sacudia, até os pregos. — Sua vez, Bandido!
Dei um passo hesitante. Talvez eu devesse ter pensado naquilo com mais cuidado. Talvez devesse ter exigido os mil.
— Vamos lá, garoto — disse uma voz no meu ouvido. — Você confia em mim, não?
O forasteiro sorria, confiante.
— Nem te conheço.
Ele estendeu a mão e tirou o chapéu da minha cabeça. Por sorte, eu tinha enfiado o cabelo embaixo do sheema. Ainda assim, me sentia exposta sem o chapéu.
— Mais um motivo para confiar em mim.
A caminhada através da arena pareceu longa demais.
Hasan sorria enquanto equilibrava a garrafa no topo da minha cabeça.
— Faça por merecer seu dinheiro, garoto. Não deixe a garrafa tremer como uma mocinha no dia do casamento.
Minha raiva me manteve firme no lugar; a garrafa não se mexeu. Nem mesmo quando o forasteiro se posicionou na linha. Nem quando ele colocou uma única bala no tambor. Nem quando levantou a arma e apontou diretamente para a minha cabeça. Só que eu não podia respirar. Ele mirou cuidadosamente, ajustando o tiro. Estava levando o seu tempo, e eu estava ficando cada vez mais nervosa.
— Atira logo, seu covarde! — O grito saiu dos meus lábios no mesmo instante em que a arma disparou.
Não tive tempo de reagir.
Uma vaia ecoou da multidão. E eu ainda estava viva para ouvi-la.
Inclinei a cabeça e a garrafa caiu intacta nas minhas mãos. Me virei e vi que uma bala estava cravada na parede a um dedo de distância do meu crânio. Foi só então que comecei a tremer. Eu não tinha certeza se era o nervosismo ou a adrenalina. De qualquer forma, segurei a garrafa com força usando as duas mãos para esconder.
Em meio a uma onda de vaias, voltei para a linha. O forasteiro passou por mim no meio do caminho até o alvo e parou por um instante, colocando o chapéu de volta na minha cabeça.
— Você está bem? — ele perguntou.
— Foi por muito pouco. — Puxei o chapéu para baixo de novo.
— Qual é o problema, Bandido? — ele disse como se estivesse achando muita graça. — Está se sentindo um pouco menos imortal?
Empurrei a garrafa na direção dele.
— Eu não zombaria de alguém que está prestes a apontar uma arma para sua cabeça.
Ele riu e continuou andando.
E então eu era a única atrás da linha branca pintada, e ele era o alvo. Eu poderia acertar a garrafa sem problemas se quisesse. Quais eram as chances de Dahmad acertar um tiro fatal no forasteiro? E, mesmo se acertasse, o que o forasteiro importava para mim? Menos que o prêmio.
Atirei. A garrafa permaneceu intacta.
— O jogo terminou! — Hasan gritou, mais alto que o barulho do público. — Dahmad reivindica seu lugar como campeão! — Alguns comemoraram, provavelmente os que tinham apostado nele.
Mas, aos poucos, um novo coro surgiu da multidão:
— Atira! Atira! Atira!
O campeão estava cambaleando.
— É isso aí! Eu também quero uma chance de acertar o Cobra.
O forasteiro tinha tirado a garrafa da cabeça, mas agora o campeão cambaleava até a linha, mirando e gesticulando para que ele voltasse ao lugar.
— Eles estão certos! — disse Hasan. — Não podemos eleger um vencedor se Dahmad não atirar. — Ele olhou rapidamente para mim. Entendi bem o que estava querendo dizer. Sem vencedor a casa não ganharia nada. E isso significava que nós também não ganharíamos nada. — O que você diz, Cobra do Oriente?
Meu olhar encontrou o do forasteiro e balancei a cabeça. Ele manteve o olhar fixo no meu por um longo instante, sem traços do bom humor de antes. Então deu um passo para trás e posicionou a garrafa na cabeça.
O campeão andou trôpego até a linha. Ele mal se aguentava em pé. Apertou os olhos na direção do forasteiro, como se estivesse tentando entender onde exatamente ele estava. Na maior parte dos dias, quando voltava do trabalho na fábrica, meu pai estava tão bêbado quanto ele. Em uma dessas ocasiões, acabou botando as mãos numa arma. Minha mãe e eu teríamos morrido se ele tivesse acertado a mira.
Dahmad levantou a arma. De onde eu estava, dava pra ver que mirava no peito do forasteiro. Dahmad tinha sido vencido da última vez, e estava bêbado o suficiente para achar que vingança era melhor do que vencer. Um homem era um alvo grande o suficiente até para um bêbado acertar.
Quando o campeão fez menção de apertar o gatilho, lembrei das palavras de Hasan. Não havia segundas chances naquele jogo. Joguei o corpo para o lado sem pensar e esbarrei em Dahmad.
O empurrão fez o tiro desviar um metro para a esquerda. Bêbado, Dahmad desabou no chão enquanto eu cambaleava tentando recuperar o equilíbrio.
A multidão explodiu como um barril de pólvora que só precisava de uma centelha.
As pessoas sabiam que estavam sendo enganadas, mas ninguém parecia entender como. Alguns gritavam que o forasteiro e eu éramos parceiros; outros vociferavam que Hasan tinha enganado todo mundo. Em um instante estavam correndo pra cima dos coletores de apostas.
— Filho da puta! — Alguém me puxou pela camisa. Dahmad estava de pé de novo e tinha me erguido do chão, meus pés arrastando na areia. Tentei lutar, mas ele me empurrou com força contra a parede da arena, me deixando sem ar. E de repente havia uma faca em sua mão. Seu rosto estava próximo do meu, dentes à mostra, o bafo quente alcoólico na minha bochecha. — Vou te cortar do umbigo até o nariz e te deixar catando as tripas do chão, garoto.
O forasteiro agarrou os punhos do campeão e se moveu rápido demais para eu entender o que estava acontecendo. Só ouvi o estalo horrível. Desabei na areia enquanto o campeão caía de lado, rugindo de dor. Vi o osso saindo de seu braço e o forasteiro pegando rapidamente a faca do chão.
— Corre — ele ordenou.
O caos tomou conta do lugar.
Um bêbado colidiu com um lampião, que caiu nas arquibancadas, se estilhaçando e espalhando óleo e chamas.
Olhei para a saída, mas a briga já tinha se espalhado. Não tinha como escapar por ali. O forasteiro e eu levantamos, as costas contra a parede. Tinham nos esquecido — a confusão não era mais por nossa causa. O celeiro inteiro enchia de fumaça. Sufocaríamos em pouco tempo.
— Você não consegue voar, consegue? — ele gritou mais alto que o barulho, apontando com o queixo para cima.
Havia uma janela acima das arquibancadas, fora do nosso alcance por pouco.
Sorri mesmo que ele não pudesse ver.
— Não consigo voar, mas sou leve.
Ele me entendeu perfeitamente. Entrelaçando os dedos, criou um apoio. Enfiei a pistola que ainda carregava na roupa. Nunca abandonaria uma arma decente naquele lugar.
Dei alguns passos curtos para trás e corri. No terceiro passo, pisei com a bota direita nos dedos entrelaçados do forasteiro, e ele me impulsionou para cima. Meus braços colidiram com a beirada da janela com um baque que certamente deixaria marcas depois. As mãos do forasteiro estavam lá, embaixo de mim, me mantendo estável enquanto eu puxava o corpo para cima. Dali foi fácil descer para o telhado da casa de oração, e dentro de alguns segundos eu estava respirando o ar noturno, louca para sair correndo.
Em vez disso me virei, apoiando o pé no telhado enquanto puxava o forasteiro para cima. Saltamos da antiga casa de oração para o chão, rolando ao atingir a areia. Uma bala ricocheteou na madeira perto da minha cabeça.
— Certo, Bandido — ele disse, arfando. — Para onde, agora? — ele me perguntou, numa cidade cheirando a fumaça e com o caos flamejante pulsando na escuridão.
Sem dinheiro, eu tinha que voltar para a casa do meu tio. Precisava me livrar do forasteiro. Uma vez minha priminha Nasima recebeu vários tapas por levar para casa um rato que tinha encontrado perto da escola. O que aconteceria comigo se levasse o forasteiro? Isso sem falar o que ele faria quando descobrisse que eu era uma garota.
— Eu me viro daqui.
Ele olhou para os lados.
— Tem algum compromisso?
Eu já estava andando, de olho no bar onde tinha deixado Azul, rezando para que a égua ainda estivesse lá.
— Obrigado por tudo. — Forcei um sorriso, embora o forasteiro não pudesse vê-lo. — Mas preciso ir atrás de um cavalo.
Antes que ele pudesse dizer alguma coisa, corri.

8 comentários:

  1. karina não to entendendo quem tá narrando e Aspen ou a america ?

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    1. Ahn este é um capítulo de A Rebelde do Deserto, não de A Seleção

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    2. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

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    3. ta chapando,só pode

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    4. Aaaa MeeeuuuDeeeuuskkkkkkkkkkkkk Não acredito que li isso

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    5. SOS KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

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  2. Obrigado pelo capítulo, Karina! =)
    A Amina tem boca grande, mas pelo menos tem senso de humor. kkkk
    E acho que alguém está meio confuso sobre o que está lendo. kkkkk

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  3. to amando o livro!
    Amina ja conquistou meu coração!
    Então... Acho que ele errou de Livro!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!