23 de setembro de 2018

Capítulo 2

CLEO
PAELSIA

O guarda conduziu Cleo pelo corredor escuro e estreito até onde a imperatriz de Kraeshia, Amara Cortas, a aguardava.
Amara a recebeu com um sorriso.
Cleo não retribuiu. Em vez disso, seu olhar foi atraído para a tala na perna recém-quebrada da imperatriz e para a bengala em que Amara se apoiava. Cleo se contorceu ao lembrar do pavoroso rompimento do osso na noite anterior, quando Amara foi jogada em um fosso junto com o restante do grupo, realeza e rebeldes juntos esperando para morrer.
Carlos, o capitão da guarda da imperatriz, estava ao lado de Amara, como uma sombra protetora e ameaçadora.
— Como está se sentindo? — Amara perguntou, hesitante. — Não vi você o dia todo.
— Estou bem o suficiente. — Cleo fechou a mão esquerda, que agora tinha o desenho de duas linhas onduladas paralelas, o símbolo da água. A última pessoa que havia compartilhado a marca tinha sido uma deusa.
Mas Cleo não se sentia uma deusa. Ela se sentia uma garota de dezessete anos que não tinha dormido nada na noite anterior depois de acordar assustada de um sono extremamente realista em que estava se afogando. Sua boca, sua garganta e seus pulmões estavam cheios de água do mar. Quanto mais ela lutava, era mais difícil respirar.
Ela acordou pouco antes de se afogar.
Cleo indicou a porta de madeira à direita de Amara.
— Ele está lá dentro?
— Está — Amara respondeu. — Tem certeza de que quer fazer isso?
— Nunca tive tanta certeza. Abra a porta.
Amara fez um sinal para Carlos, e ele abriu a porta que dava para uma pequena sala de oito passos de comprimento por oito de largura.
Havia um prisioneiro lá dentro, as mãos acorrentadas sobre a cabeça, iluminado por duas tochas presas às paredes de pedra. Ele estava sem camisa, com o rosto barbado e o cabelo raspado bem rente ao couro cabeludo.
O coração de Cleo começou a bater mais forte ao ver o homem. Ela o queria morto.
Mas antes precisava de respostas.
— Deixe-nos a sós — Amara disse a Carlos. — Espere no corredor.
Carlos franziu as sobrancelhas grossas.
— Querem ficar sozinhas com o prisioneiro?
— Minha convidada de honra quer conversar com esse ex-guarda que preferiu cumprir as ordens de lorde Kurtis em vez das minhas. — Ela lançou um olhar com desdém para o prisioneiro. — Sim, quero que nos deixe a sós com ele.
Convidada de honra. Que descrição estranha para Amara usar ao se referir a alguém que tinha oferecido em sacrifício ao deus do fogo na noite anterior.
Claro, a noite não tinha sido tão tranquila quanto a imperatriz tinha antecipado.
Muito bem, vou fazer o papel de convidada de honra, Cleo pensou com malícia. Mas só enquanto for necessário.
Carlos fez uma reverência e gesticulou para o guarda que havia acompanhado Cleo até ali. Os dois saíram rapidamente e fecharam a porta.
O olhar de Cleo se manteve fixo no homem barbado. Ele tinha usado o mesmo uniforme verde-escuro da guarda, como Carlos e os outros, mas no momento suas calças sujas estavam em farrapos. A sala fedia a podridão e sujeira.
O símbolo na palma da mão de Cleo queimava.
— Como ele se chama? — ela perguntou com aversão.
— Por que não pergunta para mim? — O homem levantou os olhos vermelhos na direção de Cleo. — Mas duvido que se importe com meu nome, não é?
— Você tem razão, não me importo. — Ela levantou o queixo, ignorando o tremor momentâneo de desgosto e ódio cego em relação àquele estranho. Se não permanecesse calma, não conseguiria as respostas de que precisava. — Sabe quem eu sou?
— É claro que sei. — Os olhos do prisioneiro brilhavam sob a luz da tocha. — Cleiona Bellos. Ex-princesa, cujo trono foi roubado pelo Rei Sanguinário antes de ser forçada a se casar com seu filho e herdeiro. Como o rei perdeu seu precioso reino para o Império Kraeshiano, você não tem mais nada.
Se ele ao menos soubesse a verdade. Na realidade, ela tinha tudo o que sempre pensou que desejava. O símbolo na palma da mão esquerda continuava a arder, como se as linhas do desenho tivessem acabado de ser marcadas em sua pele.
Magia da água fundida com seu próprio ser.
Mas intocável como se uma parede a separasse do poder de uma deusa.
— Ele já foi interrogado, mas sem sucesso — disse Amara. — Isso pode ser uma perda de tempo.
— Você não precisa ficar — Cleo respondeu.
Amara ficou em silêncio por um instante.
— Quero ajudar.
Cleo riu, uma risada baixa vinda do fundo da garganta, sem achar graça.
— Ah, claro, você tem sido muito prestativa, Amara. Prestativa até demais.
— Não esqueça que todos nós sofremos por causa de Kyan — Amara disse desafiadoramente. — Até eu.
Cleo conteve uma resposta — fria, cruel e acusatória. Era um jogo de quem tinha sofrido mais entre as duas.
Mas não havia tempo para mesquinharias.
Amara tinha oferecido tudo, exceto a própria alma, para ajudar Kyan e ganhar poder. Cleo sabia como ele podia ser persuasivo, já que ela própria tinha experimentado a sensação quando o incorpóreo deus do fogo sussurrara promessas em seu ouvido na noite anterior.
Kyan queria seus três irmãos livres das prisões de cristal e em novos veículos de carne e osso, e Amara tinha providenciado uma variedade de sacrifícios.
Kyan teve êxito parcial.
Nic. Olivia.
Os dois se foram.
Não, ela refletiu. Não posso pensar em Nic agora. Preciso me controlar.
Cleo se forçou a se concentrar apenas nos ferimentos no rosto e no corpo do ex-guarda. Sim, ele tinha sido interrogado, como dissera Amara. Mas ainda não tinha entregado os pontos.
Ela não demonstrava nem um pouco de empatia por aquele prisioneiro e sua situação.
— Onde está Kurtis Cirillo?
Ela proferiu o nome como se o tivesse cuspido e esmagado com o salto da bota.
O homem nem piscou.
— Não sei.
— Não sabe? — Cleo inclinou a cabeça. — Tem certeza? É aquele cujas ordens você começou a seguir em vez de obedecer à imperatriz, não é?
Ele lançou um olhar depreciativo na direção de Amara.
— Não sigo ordens de nenhuma mulher, não importa quem seja. Nunca segui e nunca seguirei. Você tem um caminho árduo pela frente, princesa.
— Imperatriz — Amara o corrigiu.
— É oficial? — ele perguntou. — Mesmo com seu irmão mais velho ainda vivo? Acredito que o título de imperador seja dele por direito.
— Ashur assassinou meu pai e meus irmãos — ela respondeu sem rodeios. — Ele é meu prisioneiro, não meu rival.
Amara tinha uma capacidade de mentir inigualável, Cleo pensava.
— Responda às perguntas da princesa com honestidade — Amara disse —, e prometo que sua execução será rápida. Continue sendo evasivo e sofrerá muito.
— Como eu disse, não sigo ordens de mulheres. — O homem teve a audácia de sorrir para ela. — Tenho muitos amigos entre seus guardas. Acha que vão seguir suas ordens de tortura sem hesitar? Talvez se recusem. Alguns hematomas e cortes são apenas para manter as aparências, para fazer você pensar que está no controle. Talvez eles façam o contrário e me soltem para eu torturá-la. — Ele riu. — Você não passa de uma garotinha que se iludiu com a ideia de que tem poder.
Amara apenas balançou a cabeça.
— Homens. Tão cheios de si, independentemente da posição em que se encontram. Tão cheios pela ideia da própria importância. Não se preocupe. Eu ficaria feliz em deixá-lo aqui acorrentado, sem comida, sem água. Posso facilmente transformar isto aqui em uma sala do esquecimento, como temos na minha terra.
— O que é uma sala do esquecimento? — Cleo perguntou.
— Uma sala onde alguém é deixado no escuro, sozinho e em silêncio — Amara respondeu —, apenas com um pouco de alimento insosso para sustentar a vida.
Sim, Cleo tinha ouvido falar daquela punição. Prisioneiros eram deixados sozinhos até ficarem loucos ou morrerem.
Parte do deboche desapareceu do olhar do prisioneiro com a ameaça quando ele encarou Cleo. Menos deboche, mas ainda sem medo.
— Não sei onde está lorde Kurtis — ele disse devagar. — Então por que não vai embora agora, garotinha?
— Sei que você estava presente quando o príncipe Magnus desapareceu. — Cleo precisou falar devagar para sua voz não tremer com a frustração crescente. — Nerissa Florens confirmou que você estava lá. Que o deixou inconsciente com um golpe e o arrastou. Isso não está aberto a debate; é um fato. Diga para onde o levou.
Nerissa tinha falado para Cleo não ir até lá — para deixar outros procurarem Magnus e Kurtis. Ela queria que Cleo descansasse.
Era um pedido impossível.
Nerissa quis ficar com Cleo, mas a princesa insistiu para ela se juntar ao grupo que procurava por Magnus.
Apesar dos cortes e hematomas no rosto do prisioneiro, seu sorriso odioso voltou.
— Muito bem. Quer mesmo saber? Lorde Kurtis nos mandou trazer o príncipe para esta mesma sala. Bem aqui. — Ele observou as grossas correntes de ferro. — Usando essa mesma contenção. Mas depois lorde Kurtis me dispensou e me mandou voltar ao trabalho. E foi exatamente o que fiz. O que aconteceu depois disso, não sei. Mas sei de uma coisa.
Cleo tinha começado a tremer ao imaginar Magnus naquele lugar, acorrentado bem onde o prisioneiro estava. Seu rosto ensanguentado, machucado. O corpo quebrado.
— O que você sabe? — Cleo resmungou entredentes, se aproximando do prisioneiro. Tão perto que o cheiro azedo dele ficou quase insuportável.
— Lorde Kurtis está obcecado pelo príncipe. Obcecado em matá-lo, na verdade. Então, quer meu palpite? Acho que foi exatamente o que ele fez.
Uma dor ardente queimou Cleo por dentro, e ela conteve o ímpeto de chorar. Ela já tinha imaginado mil coisas horríveis que Kurtis poderia ter feito com Magnus. Mais motivos para continuar acordada. Mais motivos para brigar por respostas, porque ela não estava pronta para desistir.
— Magnus não está morto — ela vociferou. — Não acredito nisso.
— Talvez lorde Kurtis o tenha cortado em pedacinhos e espalhado por Mítica.
— Cale a boca — Cleo rosnou.
De repente, ficou difícil de respirar.
Estou me afogando, ela pensou com um pânico cada vez maior. Sinto que estou me afogando de novo, mesmo acordada.
Dentro da prisão do complexo murado, ela ouviu o barulho de um trovão.
— Kurtis prometeu algo em troca de sua lealdade — Amara disse. — O quê? Resgate, talvez? Fortuna?
Ela provavelmente estava certa. Kurtis precisaria de toda ajuda possível depois de se voltar contra Amara.
— Você deve saber onde ele está — Cleo disse. Sua voz não passava de um resmungo aflito. Cada respiração era difícil, e a sensação de ardor na palma da mão era impossível de ignorar.
O homem agora a encarava desconcertado.
— Garota idiota, seria melhor para você se aquela família estivesse morta. Você devia agradecer a lorde Kurtis. E a mim. — Ele voltou o olhar brilhante a Amara. — A coisa mais inteligente que você fez foi prender o rei Gaius. Ele teria cortado sua garganta assim que tivesse oportunidade.
— Talvez — Amara reconheceu.
— Ele vai morrer, assim como eu?
— Ainda não decidi.
Depois do desaparecimento de Kyan e Olivia na noite anterior, Amara tinha mandado jogarem o rei Gaius em uma cela assim como Felix e Ashur. Eram os três homens que representavam uma ameaça à imperatriz, de formas diferentes. Três homens que ela preferia manter separados, trancados em celas.
— Você disse que eu deveria… agradecer a você? — Cleo perguntou.
— Disse. E estou falando sério. — Ele riu, mas a risada soou áspera. — Alguns o chamavam de Príncipe Sanguinário, não é? Alguém que seguia os passos do pai? Seu sangue era tão vermelho ao cair sobre esse chão… E o estalo que seus ossos fizeram ao quebrar… foram como música para os meus ouvidos.
— Cale a boca! — Cleo gritou.
De repente, o prisioneiro arregalou os olhos. Sua boca se abriu, e movia os lábios como se quisesse respirar e não conseguisse.
— O quê? — ele disse. — O que… está acontecendo?
Cleo estava tentando manter a calma, mas ficava mais difícil a cada palavra de ódio que o prisioneiro proferia. Nerissa estava certa — tinha sido um erro terrível ir até lá. Ela precisava encontrar Taran. Ele tinha o deus do ar dentro de si, e lutava pelo domínio de seu corpo mortal. Ela o tinha ignorado desde a noite anterior, perdida na própria angústia, no próprio sofrimento. Não devia ter feito aquilo. Ela precisava dele. Precisava saber como ele estava lidando com os acontecimentos.
A mão de Cleo queimava. Ela observou o símbolo da água e arregalou os olhos. Pequenas e finas linhas azuis tinham começado a se espalhar a partir do símbolo.
— Você é uma feiticeira! — o prisioneiro exclamou.
Era isso que o homem achava? Que ela tinha desenhado um símbolo elementar na palma da mão, esperando invocar uma pequena parte da magia da água, como uma feiticeira comum?
Não sou nenhuma feiticeira, ela queria dizer.
Não sei mais o que sou.
Cleo analisou a cela pequena e escura. Era a mesma sala onde Magnus tinha sofrido.
— Ele está morto? — ela conseguiu perguntar de um jeito que mal se podia entender. Depois gritou: — Responda!
— A esta altura? — o prisioneiro perguntou. — Não tenho dúvida de que está.
Todo o ar saiu do corpo de Cleo enquanto encarava aquele monstro.
— Você já disse o bastante — Amara vociferou para o prisioneiro.
— Sim, disse — Cleo afirmou.
Então ela permitiu que o ódio e a dor se manifestassem. Em um instante, a sensação de ardência em sua mão esquerda se transformou em gelo.
Os olhos do prisioneiro ficaram esbugalhados, a boca escancarada, e ele soltou um grito de dor que silenciou abruptamente. Ficou paralisado, as mãos presas pelos grilhões de metal, a corrente pesada ligada à parede.
— O que está fazendo com ele? — Amara perguntou.
— Eu… eu não sei.
A dor e a raiva tinham despertado algo dentro dela que não conseguia controlar. Mas, por instinto, ela sabia o que estava acontecendo. Cleo sentiu toda a água do corpo do homem se transformar em gelo.
Um frio recaiu sobre a cela como uma mortalha. Quando Cleo expirou, o ar formou uma nuvem congelada como acontecia nos dias mais frios de Limeros. Então o corpo do prisioneiro se partiu em inúmeros pedaços de gelo.
Cleo ficou observando, em choque, o que restou do homem enquanto sua mente voltava ao lugar.
Um silêncio espantoso preencheu a cela.
— Você o matou — Amara sussurrou.
Cleo se virou devagar para Amara, esperando ser recebida com um olhar de terror ou medo. Talvez a imperatriz caísse de joelhos e implorasse pela própria vida.
Em vez disso, Amara a encarava com o que parecia… inveja.
— Incrível — Amara disse. — Você mostrou a todos nós um pouco de magia da água ontem à noite, então eu sabia que era possível. Mas assim? Realmente inacreditável. Talvez Gaius estivesse errado. Você… você e Taran podem usar os elementia da Tétrade que estão dentro de vocês sem destruir seus corpos mortais.
Cleo caiu de joelhos, apoiando-se nas mãos, como se cada resquício de força tivesse se esvaído às pressas. O chão estava úmido, os fragmentos congelados do prisioneiro já começavam a derreter. Ela tinha desejado aquilo por tanto tempo… possuir a magia da Tétrade.
Mas agora a Tétrade a possuía.
Cleo tocou o bolso do vestido, onde tinha guardado a esfera de água-marinha, a antiga prisão da Tétrade de água. Tinha tentado tocá-la na noite anterior, segurá-la nas mãos, mas fora impossível. A dor tinha sido tão imediata e intensa que ela gritara e derrubara a esfera.
Taran tinha vivenciado o mesmo problema. Não queria a esfera de selenita por perto, chamara-a de “bola de gude maldita” e a tinha arremessado ao outro lado da sala. Ele tinha se juntado ao grupo que procurava Magnus, junto com guardas indicados por Amara, além de Enzo — um ex-guarda limeriano — e Nerissa, o mais longe possível do complexo.
A selenita de Taran e a esfera de obsidiana que contivera a deusa da terra antes de ela possuir Olivia estavam trancadas em um armário, cuja chave Cleo trazia pendurada no pescoço em uma corrente dourada.
Mas Cleo tinha decidido carregar a esfera de água-marinha consigo, protegida em uma bolsinha de veludo. Resolveu seguir seu instinto ao tomar aquela decisão, e não o cérebro, que lhe dizia para jogar o cristal no Mar Prateado e deixá-lo afundar.
Amara estendeu a mão para Cleo. Depois de hesitar por um momento, a princesa aceitou a ajuda da imperatriz para se levantar.
— Isso que você acabou de fazer… se pudesse fazer quando quisesse, você seria invencível — Amara disse devagar. — Precisa aprender a controlar essa magia.
Cleo encarou a garota com ceticismo.
— Tome cuidado com seus conselhos, Amara. Sem querer, pode me ajudar a reconquistar meu reino.
Amara ficou pensativa.
— Só queria Mítica porque queria a Tétrade. Agora Kyan está por aí com Olivia. Não sabemos quando vão voltar, mas sabemos que vai acontecer. E quando voltarem, precisamos estar prontas para lutar.
Uma imagem de Nic surgiu na mente de Cleo. Seu cabelo ruivo desgrenhado e seu sorriso torto nunca deixavam de iluminar até mesmo os dias mais obscuros.
Kyan havia tirado Nic dela, como se tivesse cortado sua garganta.
Cleo odiava Kyan. E odiava a magia que havia dentro de si.
Amara encostou na parede, fazendo uma careta ao passar cuidadosamente a mão na perna quebrada.
— Tivemos nossos problemas, não vou negar. E você sem dúvida tem muitos motivos para me odiar. Mas agora temos um inimigo em comum, capaz de destruir tudo o que é importante para nós. Concorda?
Cleo assentiu devagar.
— Concordo.
— Tanto você quanto Taran precisam encontrar uma forma de usar a magia que existe dentro de vocês para derrotar Kyan e Olivia. — Amara parou para respirar. — Se conseguir, devolvo Mítica a você, e apenas a você.
Cleo não podia acreditar no que ouvia. Era a última coisa que esperava da imperatriz de Kraeshia.
— Você faria isso?
— Faria. Juro pela alma da minha mãe. — Amara assentiu com firmeza. — Pense no que eu disse. Em tudo.
Ela bateu na porta e Carlos a abriu. Ele analisou a sala e franziu a testa, confuso, ao ver pequenos pedaços de gelo derretendo sobre o chão de terra.
Amara o pegou pelo braço.
— Carlos, me ajude a sair. Terminamos por aqui.
Carlos encarou Cleo, estreitando os olhos, suspeitando da garota. Cleo levantou o queixo e manteve o contato visual até o guarda desviar o olhar. Ela não confiava nele. Não confiava em nenhum kraeshiano — principalmente os que lhe faziam grandes promessas. Derrotar Kyan e retomar seu reino. Eram apenas palavras.
Se ela usasse a magia de uma forma que pudesse derrotar Kyan sem se destruir no processo, não seria necessário que Amara lhe devolvesse o reino. Ela simplesmente o tomaria.
Cleo deu uma última olhada na cela antes de sair. Seu coração pesava no peito.
Vou encontrar você, Magnus, ela prometeu em silêncio. Juro que vou.
Ela seguiu Amara e Carlos pelo corredor, subiu um pequeno lance de escadas de pedra, e os três acabaram dentro do complexo que tinha sido lar de Hugo Basilius, líder de Paelsia. O complexo era como uma réplica pequena e humilde da Cidade de Ouro auraniana — mas com muito mais pedra e lama em sua construção do que joias e mármore branco imaculado importado.
A tempestade tinha lavado qualquer rastro de sangue das dezenas de cadáveres — guardas que Selia Damora tinha assassinado com sua magia para ajudar o deus do fogo — em volta do grande fosso de quase dez metros de profundidade bem no centro do complexo. A chuva tinha parado, mas as nuvens estavam carregadas e escuras, fazendo o meio-dia parecer o crepúsculo.
Cleo não podia simplesmente voltar para os aposentos que Amara havia lhe cedido e não fazer nada. A espera por notícias de Magnus a deixaria louca.
Se havia tanta magia dentro dela, por que se sentia tão impotente?
Então ela escutou um som. Uma batida alta.
Vinha dos portões fechados na entrada, que tinham seis metros de altura e demandavam o esforço de seis guardas para serem abertos e fechados.
Um guarda se aproximou correndo de Carlos.
— Temos um problema, capitão — disse, sem fôlego.
— O que foi? — Amara questionou antes que Carlos pudesse responder.
— Tem alguém nos portões, exigindo entrar. — O homem se contorceu quando ouviu a batida de novo. O chão tremeu com o estrondo.
— É Kyan, não é? — a imperatriz perguntou com a voz repleta de medo. — Ele voltou.
Pela deusa, Cleo pensou enquanto o pânico fechava sua garganta. Ainda não. Não estou pronta.
— Não é ele, imperatriz — o guarda respondeu.
O temor de Amara desapareceu em um instante.
— Bem, então quem é? Um ataque rebelde? Nossos sentinelas não teriam nos avisado?
— Não são rebeldes. — O guarda endireitou os ombros, mas aquilo não disfarçou seu nervosismo. — É… pior do que isso.
— Pior?
Mais duas batidas fizeram o chão tremer sob os pés de Cleo. O ar se encheu de sons de guardas gritando ordens. Centenas de homens, armas em punho, enfileiraram-se dos dois lados do portão quando seu centro se rompeu.
Intocado, o portão foi aberto por uma força invisível.
Guardas avançaram correndo, mas todos eles foram jogados para trás, abrindo caminho para os intrusos.
Duas figuras cobertas por mantos, uma armada com uma espada, entraram e caminharam diretamente na direção de Cleo, tensa, com Amara e Carlos ao lado direito.
Cleo percebeu, chocada, que um dos intrusos carregava um bebê. A pessoa tirou o capuz do manto preto e revelou um rosto familiar.
Lucia Damora.
— Onde está meu irmão? — ela quis saber.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!