16 de setembro de 2018

Capítulo 2

MAGNUS
LIMEROS

O sol nascia no leste enquanto Magnus esperava o pai morrer ao pé do íngreme penhasco. Ele observava tenso enquanto a poça de sangue que se formava ao redor da cabeça do rei aumentava, tornando-se uma enorme mancha carmesim sobre a superfície do lago congelado..
Magnus tentou invocar algum sentimento além do ódio que tinha por Gaius Damora. Mas não conseguiu. Seu pai tinha sido um tirano sádico durante toda a vida. Tinha entregado seu reino para um inimigo como se não passasse de uma bugiganga sem importância. Tinha ordenado em segredo o assassinato da própria esposa, mãe de Magnus, porque ela estava no caminho do poder que ele ansiava. E, pouco antes de cair do penhasco, o rei estava prestes a acabar com a vida do próprio filho e herdeiro.
Magnus deu um pulo quando a mão de Cleo encostou nele.
— Não podemos ficar aqui — ela disse em voz baixa. — Não vai demorar até sermos descobertos.
— Eu sei. — Magnus olhou para os quatro guardas limerianos que estavam por perto, aguardando ordens. Queria saber exatamente o que dizer a eles.
— Se nos apressarmos, podemos chegar às docas de Pico do Corvo no fim do dia. Chegaremos a Auranos em uma semana. Lá podemos conseguir a ajuda dos rebeldes que não vão ficar parados enquanto Amara tira tudo de nós.
— Isso faz de mim um rebelde também? — ele perguntou, quase conseguindo achar graça daquela declaração.
— Acho que você é um rebelde há mais tempo do que gostaria de admitir. Mas, sim, podemos ser rebeldes juntos.
Algo se agitou dentro de Magnus ao ouvir as palavras dela, um calor que ele reprimia havia muito tempo.
O rei — com a ajuda de Magnus — tinha destruído a vida de Cleo, e ainda assim ela ficou ao lado dele.
Destemida. Corajosa.
Esperançosa.
Magnus se perguntava se aquilo não passava de um sonho febril, se aquela versão perfeita da princesa podia desaparecer assim que o sol surgisse no céu.
Mas quando amanhecia, ela ainda estava a seu lado. Cleo não era um sonho.
Magnus olhou para ela. O dia anterior tinha sido uma mistura de desespero e medo. Tinha sido o pior dia de sua vida, virado de cabeça para baixo no momento em que ele finalmente a encontrou no bosque, viva e lutando com todas as forças para sobreviver.
Ele tinha confessado seu amor por Cleo em um conjunto patético de palavras confusas, e ela não dera as costas a ele enojada. A linda princesa dourada que tinha perdido tanto… ela tinha dito que o amava também.
Ainda não parecia possível.
— Magnus? — Cleo o chamou gentilmente quando ele não respondeu de imediato. — O que você acha? Devemos ir para Pico do Corvo?
Ele estava prestes a responder, quando o rei soltou um suspiro trêmulo.
— Magnus…
Ele se virou imediatamente para o rosto do pai. Os olhos do rei estavam abertos, e o braço, alguns centímetros levantados, como se tentasse alcançar o filho.
Impossível. Magnus se obrigou a não cambalear para longe do homem em choque.
— Você já devia estar morto — Magnus disse, a garganta dolorosamente apertada.
O rei emitiu um som estranho, parecido com uma tosse, e se Magnus não estivesse vendo a situação, juraria que parecia uma risada.
— Receio… que não seja… tão simples — o rei disse, nervoso.
Magnus podia ver os olhos de Cleo queimando de ódio ao virar para o homem.
— Por que disse o nome da minha mãe?
O rei virou para ela com os olhos semicerrados. Ele passou a língua sobre os lábios secos, mas não respondeu.
Magnus olhou para Cleo surpreso. O rei tinha dito o nome de Elena no que pareciam seus últimos suspiros. Será que estava mesmo se referindo à rainha Elena Bellos?
— Responda — ela exigiu. — Por que disse o nome dela quando olhou para mim? Você disse que sentia muito. Sente muito por quê? O que fez com ela para precisar se desculpar?
— Ah, querida princesa… se você soubesse… — As palavras do rei já não soavam como suspiros moribundos, e sim como uma declaração letárgica de alguém que estava acordando de um sono profundo.
Os guardas tinham se aproximado ao ouvir a voz do rei.
Enzo ficou boquiaberto quando o rei Gaius pressionou as mãos contra a neve manchada de sangue e levantou a cabeça do solo gelado.
— Que magia negra é essa? — O guarda virou os olhos arregalados para Magnus e abaixou a cabeça imediatamente. — Peço perdão, vossa alteza.
— Não é necessário se desculpar. É um questionamento excelente. — Relutante, Magnus puxou a espada e a segurou com o máximo de firmeza possível junto ao peito do rei. — Você deveria estar irreparavelmente acabado, como um pássaro que bateu no vidro de uma janela. Que tipo de magia negra é essa, pai? E é forte o bastante para salvá-lo de uma lâmina de aço afiada?
O rei o encarou com um sorriso forçado.
— Você acabaria tão facilmente com um homem cuja vida está por um fio?
— Se esse homem for você, sim — Magnus respondeu.
Seu pai estava indefeso, fraco, machucado e ensanguentado. Seria a morte mais fácil da vida de Magnus.
E merecida. Muito merecida.
Um golpe, um pequeno gesto, poderia acabar com aquilo. Por que, então, o braço com que segurava a espada parecia preso a uma pedra, incapaz de se mover?
— O cristal da terra… — Cleo sussurrou, tocando o bolso do próprio manto, onde havia guardado a esfera. — Ele o curou. É isso que ele faz?
— Eu não sei — Magnus admitiu.
— Acho que a magia da Tétrade não tem nada a ver com isso. — O rei já estava sentado, as pernas esticadas. Ele olhou para as próprias mãos arranhadas, ensanguentadas por segurar a beirada do penhasco. Gaius tirou um par de luvas pretas do manto rasgado. Vestiu-as, fazendo uma careta pelo esforço. — Quando caí, senti as terras sombrias tentando me alcançar, prontas para reivindicar outro demônio para o lado delas. Quando cheguei ao chão, senti meus ossos estilhaçando. Você tem razão: eu deveria estar morto.
— Mas, ainda assim, está sentado e falando — Cleo disse sem rodeios.
— Estou. — O rei se virou para ela. — Você deve estar se esforçando muito para se conter nesse momento, princesa, para não implorar para meu filho acabar com a minha vida.
Ela franziu a testa.
— Se eu não achasse que seus guardas o matariam logo depois, faria isso.
Magnus olhou para os guardas silenciosos que os cercavam. Todos tinham a espada em punho e uma expressão tensa.
— Belo argumento. — O rei respirou fundo. — Guardas, ouçam: vocês vão obedecer aos comandos de Magnus Damora a partir de agora. Ele não será considerado responsável por nada que aconteceu, ou vai acontecer, comigo.
Os guardas se encararam, confusos, até que Enzo assentiu.
— Muito bem, vossa alteza — ele disse.
— Que farsa é essa? — Cleo vociferou. — Acha que nós vamos acreditar em alguma coisa que diz?
O rei sorriu.
— Nós. Que adorável que vocês dois tenham atravessado esse perigoso labirinto juntos e saído dele de mãos dadas. Há quanto tempo estão tramando contra mim? Não tinha ideia de que fui tão cego.
Magnus ignorou a tentativa do rei de desestabilizá-lo.
— Se isso não tem a ver com a magia da Tétrade, o que é?
Desconsiderado a espada que Magnus segurava, o rei, trêmulo, levantou-se devagar.
— Melenia disse que eu estava destinado à imortalidade, que eu seria um deus. — Ele soltou uma risada curta e amarga. — Por um tempo, realmente acreditei nela.
— Responda à droga da minha pergunta — Magnus resmungou. Ele forçou a lâmina para a frente, deixando um leve arranhão no pescoço do rei.
Gaius recuou, e sua expressão ficou sombria por um instante.
— Existe apenas uma pessoa responsável pela magia que me ajudou a sobreviver hoje. Sua avó.
Magnus não acreditou nele.
— Que bruxa comum poderia possuir uma magia tão forte assim?
— Nunca houve nada comum em Selia Damora.
— Espera que acreditemos em alguma coisa que diz? — Cleo perguntou.
O rei olhou para a garota sem um pingo de bondade nos olhos.
— Não, eu não esperaria que uma criança entendesse as complexidades da vida e da morte.
— Ah, não? — Ela estava com os punhos cerrados. — Se tivesse uma espada neste momento, eu o mataria com minhas próprias mãos.
O rei riu.
— Você com certeza poderia tentar.
— Você já parece morto. — Magnus se deu conta da verdade de suas palavras enquanto as pronunciava. Seu pai estava pálido como um cadáver. A pele solta, em tom acinzentado, os hematomas em matizes de marrom e roxo, o sangue tão escuro que parecia preto. — Acho que a magia de cura da minha avó não era tão forte quanto você gostaria de acreditar.
— Isso não é magia de cura. — Sua testa brilhava com suor, apesar do ar gelado da manhã. — Apenas prolongou o inevitável.
Magnus franziu a testa.
— Explique.
— Quando o pouco de magia que resta em mim desaparecer, vou morrer.
A declaração direta de seu pai o deixou ainda mais confuso.
— Ele está mentindo — Cleo disse por entre os dentes. — Não se deixe enganar. Se não é magia da terra, então é magia de sangue que mantém o coração dele batendo.
Magnus virou para os guardas e observou as expressões confusas antes de voltar sua atenção ao pai.
— Se isso é verdade, quanto tempo ainda tem?
— Não sei. — Ele inspirou, e Magnus ouviu de novo indícios de dor em sua respiração. — Com sorte, tempo suficiente para consertar alguns erros que cometi. Pelo menos os mais recentes.
Magnus virou o rosto, indignado.
— Infelizmente, não temos tempo para repassar uma lista interminável como essa.
— Você tem razão. — Gaius encarou Magnus por sobre a espada. — Talvez eu só consiga consertar um, então. Para derrotar Amara e recuperar Mítica, vamos precisar liberar o poder total da Tétrade.
— Precisamos do sangue de Lucia e do sangue de um imortal para isso.
— Sim.
— Não tenho ideia de onde encontrá-la.
A decepção tomou conta do rosto pálido do rei.
— Preciso visitar minha mãe imediatamente. Ela vai usar sua magia para encontrar Lucia. Eu não confiaria em nenhuma outra bruxa.
— Visitá-la imediatamente? Como? — Magnus franziu a testa. — A vovó está morta há mais de doze anos.
— Não, ela está bem viva.
Ele olhou para o rei, em choque. As lembranças que tinha de sua avó eram escassas, vislumbres indistintos de sua infância e de uma mulher com cabelo preto e olhar frio. Uma mulher que tinha falecido pouco depois da morte de seu avô.
— Ele está tentando confundir você. — Cleo pegou a mão de Magnus, afastando-o do pai o suficiente para que ele e os guardas não pudessem ouvi-los. — Precisamos ir para Auranos. Lá vamos conseguir ajuda. Ajuda de quem podemos confiar, sem questionamentos nem dúvidas. As pessoas leais ao meu pai não vão considerá-lo culpado pelos crimes do rei, eu prometo.
Ele balançou a cabeça.
— Esta não é uma guerra que pode ser vencida por alguns rebeldes. Amara se tornou muito poderosa, conseguiu muita coisa sem esforço. Precisamos encontrar Lucia.
— E se conseguirmos encontrá-la? O que vai acontecer? Ela nos odeia.
— Ela está confusa — Magnus disse, com o rosto de sua irmã mais nova em mente. — Sofrendo. Ela se sente traída e enganada. Se souber que seu lar está em risco, ela vai nos ajudar.
— Tem certeza?
Se Magnus fosse sincero consigo mesmo, teria de admitir que não tinha certeza de mais nada.
— Você deve ir para Auranos sem mim — ele pronunciou as palavras, ao mesmo tempo desagradáveis e necessárias. — Ainda não posso ir. Preciso cuidar disso até o fim.
Ela assentiu.
— Parece um bom plano.
O coração dele se contorceu em um nó odioso.
— Estou feliz que tenha concordado.
— Está mesmo, não está? — Os olhos azul-celeste de Cleo brilhavam um fogo frio, e Magnus quase se assustou com as duras palavras que vieram em seguida. — Você acha que depois de tudo isso…? — Ela jogou as mãos para o alto em vez de finalizar a sentença. — Você é completamente impossível, sabia? Não vou sair daqui sem você, seu idiota.
Ele arqueou as sobrancelhas.
— Idiota?
— E estamos conversados. Entendeu?
Magnus a encarou, mais uma vez perplexo com a garota e tudo o que ela dizia.
— Cleo…
— Não, chega de discussão — ela o interrompeu abruptamente. — Agora, se me der licença, preciso esfriar a cabeça. Longe dele. — Cleo lançou a última palavra para o rei e, com um olhar feroz, foi embora com os braços cruzados.
— Agora vejo a paixão que existe entre vocês — o rei disse ao se aproximar do filho, retorcendo os lábios de desgosto. — Que adorável.
— Cale a boca — Magnus vociferou.
O rei manteve o olhar na princesa, que andava de um lado para o outro, nervosa, mas perto. Depois, virou-se para os guardas.
— Preciso falar com meu filho em particular. Saiam.
Os quatro guardas obedeceram a ordem imediatamente e se afastaram.
— Em particular? — Magnus zombou. — Não acho que nada que me disser agora vá ficar entre nós.
— Não? Mesmo se for a respeito de sua princesa dourada?
Magnus levou a mão ao punho da espada no mesmo instante, tomado pela fúria.
— Se ousar ameaçar a vida dela de novo…
— É um alerta, não uma ameaça. — Seu pai o observava com pouca paciência. — A garota é amaldiçoada.
Magnus teve certeza de que não tinha ouvido direito.
— Amaldiçoada?
— Muitos anos atrás, o pai dela se envolveu com uma bruxa poderosa. Uma bruxa que não aceitou muito bem a notícia do casamento dele com Elena Corso. Ela a amaldiçoou e a seus futuros filhos com a morte no parto. Elena quase morreu dando à luz a primeira filha.
— Mas não morreu.
— Não, ela morreu no parto da segunda.
Magnus já tinha ouvido sobre o trágico destino da ex-rainha de Auranos e visto retratos da linda mãe de Cleo nos corredores do palácio dourado. Mas aquilo não podia ser verdade.
— Dizem que ela sofreu muito até finalmente falecer. — A voz do rei estava extremamente rouca. — Mas ela foi forte o suficiente para ver o rosto de sua recém-nascida e dar a ela o nome de uma deusa desprezível e hedonista antes de ser levada pela morte. E a maldição da bruxa sem dúvida foi passada para a filha.
Magnus encarou o pai com total descrença.
— Você está mentindo.
O rei franziu a testa para Magnus.
— Por que eu mentiria?
— Por que você mentiria?! — ele repetiu, com uma risada seca subindo pela garganta. — Ah, não sei. Talvez porque deseje me manipular constantemente, apenas para sua satisfação?
— Se é o que pensa… — O rei apontou na direção de Cleo, que conversava com Enzo e lançava olhares impacientes para Magnus e ele. A barra do vestido vermelho que usava aparecia sob o tecido verde-escuro do manto roubado de um guarda kraeshiano na noite anterior. — Engravide-a e vai testemunhar sua morte agonizante, deitada sobre uma grande poça do próprio sangue, ao trazer ao mundo sua prole.
Magnus quase parou de respirar. O que o pai afirmava não podia ser verdade. Mas e se fosse?
Cleo começou a andar na direção deles, sem capuz, o longo cabelo loiro sobre os ombros.
— Bruxas lançam feitiços — Gaius disse a Magnus em voz baixa. — Mas bruxas também são conhecidas por quebrar feitiços. Mais um motivo para vocês virem visitar sua avó comigo.
— Você tentou nos matar.
— Sim, tentei. Então a decisão do que fazer cabe a você.
Cleo parou ao lado de Magnus com Enzo e franziu a testa, alternando o olhar entre pai e filho.
— O que foi? Sem planos para me esconder em Auranos, espero.
A terrível imagem de Cleo deitada sobre lençóis ensanguentados não saía da cabeça de Magnus. Ela com o olhar vidrado, sem vida, enquanto um bebê de olhos azul-celeste não parava de chorar pela mãe.
— Não, princesa — Magnus disse. — Você deixou sua opinião sobre isso bem clara, mesmo que eu discorde completamente. Quero reencontrar minha avó depois de todos esses anos. Ela vai usar sua magia para nos ajudar a encontrar Lucia, o que vai nos ajudar a recuperar Mítica. Está de acordo?
Cleo não disse nada por um instante, pensativa.
— Sim, acho que faz sentido procurar a ajuda de outra Damora, embora a ideia me cause extrema repulsa. — Ela piscou. — Magnus, você ficou muito pálido. Está tudo bem?
— Está — ele disse com rigidez. — Vamos partir agora.
— Amara com certeza vai querer saber onde eu fui parar — disse o rei. — Isso pode causar problemas.
Magnus suspirou.
— Muito bem. Invente desculpas para deixar a companhia de sua noiva. No entanto, se tentar me enganar, pai, garanto que sua morte virá muito antes do previsto.

4 comentários:

  1. AI MEU DEUS QUE O CU FICA NA MAO.... NÃO MORRE SUA DESGRAÇADINHA MARAVILHOSA
    SABS

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  2. E eu aqui achando que tinha me livrado desse rei Gaius aí vem o peste e volta dos mortos

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  3. Credo esse primeiro comentário foi tão chulo. Se fosse eu o retiraria.
    Reveja isso Karina!!! :/

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Boa leitura, E SEM SPOILER!