3 de setembro de 2018

Capítulo 29


LUCIA
PAELSIA

No andar de baixo da hospedaria, Lucia se forçou a comer um pouco de pão e mel, mastigando cada pedaço de forma lenta e metódica antes de engolir.
— Noite difícil? — a atendente perguntou enquanto trazia sidra para Lucia. — Exagerou na bebida, não? Sei como é. Fique no vinho paelsiano e não sofrerá no dia seguinte.
— Obrigada pelo conselho — Lucia respondeu, e a garota saiu para servir outra mesa de viajantes que atravessavam as planícies estéreis de Paelsia.
Ela tentou negar de início, mas agora sabia que era verdade.
Estava grávida de Ioannes.
E nunca tinha se sentido tão confusa, assustada e sozinha em toda sua vida.
Kyan aproximou-se devagar da mesa e sentou na cadeira do lado oposto. Ela tomou um gole da sidra, sem se importar em olhar para ele.
— Preciso me desculpar com você, pequena feiticeira.
Lucia molhou um pedaço de pão seco no mel e o enfiou na boca.
— Meu comportamento na noite passada... — Kyan continuou. — Meu comportamento nos últimos dias tem sido imperdoável.
— Fico feliz por ouvir você admitir isso — Lucia disse, seca.
— O fato de ainda estar aqui esta manhã, de não ter me abandonado, é um milagre.
Lucia finalmente olhou para ele.
— Acha que tenho outro lugar para ir? — ela perguntou, com um tom de repreensão. Kyan estava com as mãos entrelaçadas sobre a mesa, e tinha uma expressão extremamente séria.
— É insuportável ficar perto de mim, eu sei. Sempre fui assim. É minha natureza. Fogo, você sabe.
— Ah, eu sei. Agora sei muito bem. — Ela soltou um longo suspiro e encostou na cadeira. — Então, o que propõe que façamos?
— Você é importante para mim, pequena feiticeira. É o único ser vivo no planeta que ainda me conecta à minha família. Você é minha família.
Ela sentiu um nó na garganta.
— É assim que trata sua família? Com crueldade e insultos?
— Está certa. Está absolutamente certa. Sinto muito. — Kyan se inclinou para a frente até ela não ter escolha e encarar seus sinceros olhos cor de âmbar. — Minha proposta é a seguinte: não há sentido em continuar uma busca em vão por um portal para o Santuário. Em vez disso, precisamos encontrar aquele garoto de novo, aquele do mercado da vila. Tem certeza de que ele está com a esfera de obsidiana?
Lucia sentiu uma pontada na barriga quando se lembrou de Jonas Agallon e da garota que Kyan havia matado.
— Não tenho como ter certeza absoluta — ela disse, em tom solene. — Pensei que estava com ele, mas talvez estivesse errada. Podemos procurá-lo. Mas, se o encontrarmos, deixe-me lidar com a situação, entendeu? Não vou deixar que perca o controle de novo.
Um sorriso forçado saiu dos lábios de Kyan.
— Lucia Damora, protetora mágica dos mortais indignos.
— Só porque você não me dá outra escolha, oh, temível deus do fogo. — Ela suspirou e lutou contra um sorriso. — Eu o perdoo desta vez. Mas, se perder a cabeça de novo, se fizer qualquer coisa que me faça sentir que não sou digna de sua companhia por não passar de uma mortal imunda, eu e você vamos ter um grande problema.
— Entendido — disse Kyan, colocando as mãos sobre as dela. — Então, agora que todo o mal-estar entre nós está resolvido, diga-me, pequena feiticeira, como se sente a respeito deste — ele virou e olhou pela janela, para o céu cheio de nuvens cinzentas de chuva — dia paelsiano um tanto quanto lúgubre e desagradável.
Ela tinha ouvido que era sempre lúgubre e desagradável nas cercanias das Montanhas Proibidas.
— Como me sinto? — ela repetiu.
Grávida, ela pensou. Estou grávida e minha magia está enfraquecendo por causa disso.
Lucia não conseguia esquecer do aviso que a rainha Althea tinha feito quando tinha pouco mais de doze anos.
Homens contarão mentiras para levá-la para a cama, para usá-la para o próprio prazer, e vão descartá-la logo em seguida. Não deve deixar que isso aconteça. Se deixar, acabará com uma criança indesejada, uma vida perdida e um potencial desperdiçado — tudo por causa da decisão estúpida de compartilhar a carne antes do casamento. E, se seu pai ficar sabendo desse comportamento, não hesitará em matá-la.
Que conselho útil e maternal da mulher que se ressentia da existência de Lucia desde o dia em que Gaius a trouxera para casa.
Ioannes tinha usado Lucia por diversas razões pérfidas, mas não por seu corpo. Ela havia se entregado a ele por vontade própria, porque acreditava estar apaixonada.
Talvez realmente estivesse.
— Pequena feiticeira — Kyan chamou, inclinando-se para a frente. — Ainda está aqui comigo?
Ela afastou seus pensamentos.
— Sim, estou. Onde mais estaria?
Parte dela queria compartilhar sua preocupação com o que crescia dentro de seu corpo, mas conteve a língua. Era melhor manter segredo por mais um tempo, especialmente de Kyan. Ela tinha conseguido esconder tão poucos segredos do deus do fogo que se permitiria guardar aquele para si.
Lucia olhou para as montanhas ao longe. Como eram altas, pontiagudas rochas negras serrilhadas que se espalhavam de norte a sul ao longo da fronteira ocidental de Paelsia. Ela tinha lido sobre essas terras do interior, textos antigos que proclamavam que o Santuário poderia ser encontrado por alguém que se aventurasse nas profundezas daquelas montanhas.
— O que sabe sobre as Montanhas Proibidas? — ela perguntou.
— Apenas que mortais lhes deram esse nome idiota, e que é um tanto quanto desagradável olhar para elas.
— Você é um deus elementar eterno e todo-poderoso. Isso é mesmo tudo o que sabe sobre as célebres montanhas que muitos tolos acreditam levar diretamente ao Santuário?
Ele deu de ombros.
— Não me interesso por geografia. Meu irmão é o perito nessa área. A minha é um pouco mais interessante. — Ele estendeu a mão e gerou uma chama que dançava sobre a palma.
Ela gargalhou, surpresa.
— Muito impressionante.
— É possível que eu seja ainda mais talentoso que a Deusa das Serpentes, não acha? — Ele fechou o punho para extinguir a chama quando a atendente voltou.
— O que posso servir para o senhor? — ela perguntou a Kyan.
— Apenas um pouco de informação. — Ele indicou a janela com a cabeça. — Me conte sobre as Montanhas Proibidas. Por que são tão agourentas?
Ela deu um sorriso largo.
— Quer mesmo saber?
— Ah, sim, quero mesmo.
— Bem, ninguém sabe qual é de fato a verdade, mas minha avó costumava me contar histórias sobre elas. Sobre como, na realidade, não são montanhas, mas gigantescos guardiões que protegem o Santuário do resto do mundo. E que qualquer bruxa ou Vigilante exilado que se aventurar por lá não apenas perderá sua magia, mas também ficará cego, para que não veja os perigos que o ameaçam diante dos próprios olhos. Ela conhecia muitas histórias como essa. — Os olhos da garota brilharam. — Sinto tanta falta dela...
— Onde ela está? — Lucia perguntou.
— Faleceu há pouco tempo. Eu morava com ela no extremo oeste. Ela cuidou de mim depois que meus pais morreram. Agora tenho que trabalhar aqui. — Ela olhou ao redor da hospedaria. — Odeio ficar presa no meio desta terra desolada.
Lucia escutou com atenção, percebendo só naquele momento que não precisava usar nem um pouco de magia para extrair a verdade daquela garota.
— Como você chama? — ela perguntou.
— Sera — disse a garota, e depois balançou a cabeça. — Desculpem, não deveria atormentá-los com meus problemas.
— Não é um tormento. — Lucia encarou a garota nos olhos. Ela podia ser uma rica fonte de informação. Lucia nunca a deixaria ir embora sem primeiro arrancar cada detalhe que pudesse com sua magia. — Sera, sua avó contava histórias sobre portais para o mundo imortal? Sobre rodas de pedra em vários locais espalhados por Paelsia?
Sera respirou fundo, como se alguém estivesse apertando sua garganta.
— Não. Ela nunca disse nada do tipo.
— Sua avó era uma bruxa?
A garota hesitou, ganhando uma expressão tensa e aflita.
— S-sim. — Seu lábio inferior começou a tremer. — Mas havia rumores de que era muito mais que uma bruxa. Havia boatos de que ela costumava ser uma imortal que se autoexilou para se casar com meu avô. Parece tolice, eu sei. E é claro que ela nunca admitiu isso para mim. As pessoas falavam, e vovó simplesmente ignorava.
A bruxa da noite anterior tinha sido muito forte e lutado contra a influência da magia enfraquecida de Lucia. Esta garota, entretanto, não resistiu, o que mantinha o desconforto dela em um nível mínimo.
Lucia se concentrou e reforçou a mortalha de magia que envolvia Sera.
— O que mais sua avó contou sobre as montanhas? Algo sobre a magia delas?
— Ela... ela sempre fez questão de nos lembrar de que as montanhas não são mágicas sozinhas. Elas apenas protegem outra coisa que é mágica. Bem no meio delas é onde se pode encontrar a magia.
Kyan ouviu com atenção, apegando-se a cada palavra que Sera dizia.
— Muito obrigada por sua ajuda, Sera — Lucia disse. — Pode ir agora.
Sera assentiu, balançou a cabeça como se tivesse acordado de um sonho desconcertante e desagradável, e então se afastou da mesa deles.
— Não foi muito longe daqui que fui despertado e consegui assumir uma forma mortal — Kyan disse. — Achava que Melenia tinha sido responsável por isso, mas agora não tenho tanta certeza. — Ele olhou para as montanhas mais uma vez, com muito mais interesse do que antes. — Há alguma coisa lá fora, pequena feiticeira. Algo poderoso o bastante para me tirar de minha jaula, algo que me libertou sem que sua magia tivesse papel nisso.
— Podem ser apenas histórias, como Sera disse. O tipo de histórias que avós contam para as netas para ter certeza de que não sairão andando sozinhas pelas montanhas.
— Talvez não passe de uma história. Mas talvez seja a resposta que estou procurando este tempo todo. — Kyan a encarou e franziu a testa. — Sei que eu disse que deveríamos parar de procurar o portal de pedra...
Lucia levantou da mesa, encorajada pela experiência com Sera e pronta para entrar de cabeça de novo na missão de Kyan.
— Você está certo. Pode ser nossa chance. É isso que as Montanhas Proibidas guardam, a magia de que precisamos para tirar Timotheus do Santuário, e para libertar seus familiares.
— Então temos um acordo.
— Temos. Vamos ao centro das Montanhas Proibidas.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!