29 de setembro de 2018

Capítulo 29

UM GRITO VEIO NO LUGAR DO DISPARO.
Senti o metal frio da arma se afastar da minha testa. Aproveitei o momento, me jogando na areia. Arranquei o sheema enquanto me movia. A visão que me aguardava era horrível e gloriosa ao mesmo tempo.
O general Dumas ardia em chamas. Queimava como Bahi. Quando caiu de joelhos, vi Noorsham atrás dele, a mão levantada, como um pai sagrado no meio da bênção. Os soldados gallans apontaram as armas para ele. Tiros ecoaram. A maior parte passou longe, sem causar dano, a mira imprecisa por causa do tiroteio frenético. Uma ou duas atingiram seu peitoral de aço, deixando uma marca e mais nada.
Mas o soldado gallan mais perto de mim não tinha pressa. Estava mirando com calma. Eu podia ver a linha do tiro. Ia atingir Noorsham em cheio.
Seu dedo estava apertando o gatilho quando levantei a mão rapidamente. A areia aos seus pés explodiu, tirando seu equilíbrio. Seu grito atraiu a atenção de Noorsham. Um segundo depois, transformou-se em um grito de dor enquanto o soldado queimava.
Um dos gallans se virou para mim, a arma já meio levantada. Gesticulei por instinto. Como se aquilo fosse tão familiar quanto apertar um gatilho.
Um corpo feito de areia surgiu em resposta. Mexi os dedos e seus braços agarraram o soldado pelo pescoço, puxando-o para o chão.
Outro corpo de areia se formou e entrou na luta. Um soldado atirou, mas a bala passou sem efeito por seu peito e logo a criatura de areia estava em cima dele, arrancando sua arma. E então outra criatura de areia surgiu, e outra, até que havia meia dúzia delas lutando contra os soldados enquanto Noorsham os queimava um a um. Eu me movia como uma tempestade de areia, como tinha visto Shazad fazer com uma espada. Só que era o deserto inteiro na ponta dos meus dedos, meus pés girando a areia que se movia comigo. Me esquivei de uma lâmina e ergui a mão abruptamente, a areia atingindo o rosto do soldado.
E então tudo ficou em silêncio.
Olhei em volta. Na confusão, percebi que a luta tinha nos levado para dentro dos muros de Fahali. Não havia soldados gallans ali. Só restaram Noorsham e eu. Nos encarávamos numa rua vazia, esvaziada pela luta. As pessoas tinham se escondido dentro de casa. Vi um rápido movimento em uma das janelas. Alguém nos observando.
O sol reluzia em sua armadura. Havia uma marca perto do coração onde minha última bala o atingira. Talvez ficasse roxo.
Sem o tumulto da areia, tudo parecia calmo demais, quieto demais.
— E agora? — Noorsham perguntou. O tom de sua voz lembrava o Último Condado. Tudo nele era familiar e doía em mim. A cidade que eu tinha deixado para trás. O calor do deserto que habitava minha pele. Nossos olhos que pareciam o céu limpo e ardente do deserto. A linhagem que compartilhávamos, que remontava a um céu sem estrelas e uma guerra antiga.
Eu podia ouvir o som de gente correndo. Não havia terminado ainda. Fahali era uma cidade de fronteira. Tinha um grande contingente de guarda. Noorsham levantou a mão, que já estava começando a brilhar, vermelha.
— Noorsham! Tem certeza de que quer fazer isso?
Meu coração ainda estava acelerado. Ele hesitou.
— Noorsham — uma voz chamou do alto. Ambos nos viramos ao mesmo tempo. Naguib estava de pé no portão da cidade. Havia se retirado da luta com os rebeldes para encontrar sua arma. — Você ainda não terminou o que tem que fazer.
Outras duas dúzias de soldados gallans surgiram correndo na rua, nos cercando, armas empunhadas, gritando em seu idioma gutural. Eu me concentrei na areia. O general deles estava morto. Não poderia mandar que atirassem. Mas um deles cederia à ansiedade de atirar em breve.
Naguib levantou a mão. Havia um anel de bronze brilhando em seu dedo, do mesmo material da armadura de Noorsham. No anel, palavras gravadas. O nome verdadeiro de Noorsham, percebi. Como Atiyah, que sabia o nome verdadeiro de seu amante djinni. Como em todas as histórias em que um comerciante ganancioso ou governante orgulhoso demais buscava controlar um djinni que encontrava por acaso no deserto. Os segredos que os djinnis guardavam cuidadosamente, mas acabavam revelando à mulher que amavam.
Aquele era meu sobrenome verdadeiro também, percebi. O sobrenome do nosso pai.
— Queime a cidade.
Os olhos azuis de Noorsham se voltaram para mim. Vi que entendíamos um ao outro. Ele não queria me matar. Levantou as mãos na minha direção, como se fosse me abraçar, abençoar ou queimar. O simples gesto já tornou o ar perto do meu rosto escaldante.
Eu sabia o que precisava fazer. E só tinha uma chance.
Havia areia nas minhas mãos. Mexi meus dedos sutilmente. Senti a areia responder enquanto o calor que irradiava de Noorsham aumentava, mesmo contra sua vontade, mesmo enquanto tentava contê-lo. Os gallans alternavam entre apontar as armas para mim e Noorsham, hesitantes. Seu fogo se aproximava de mim. Dos meus pés. Juntei a areia nos meus dedos em um projétil.
O mundo entrou num foco familiar. Como se eu fosse aquela garota desesperada na arena de Tiroteio novamente.
Eu tinha um último tiro.
E uma ótima pontaria.
Fiz um único movimento fluido, lançando a mão para a frente como se disparasse um tiro. A areia seguiu o movimento. Dessa vez não era uma explosão violenta e descontrolada.
Era uma bala certeira.
Ela atingiu o rosto de Noorsham, fazendo-o cambalear para trás com um grito, enquanto a bala se desintegrava e voltava a virar pó e o calor diminuía.
Prendi a respiração enquanto ele levantava a cabeça. O fecho na lateral da máscara estava solto por causa do impacto. Observei Noorsham levar as mãos ao rosto, tremendo. A máscara de bronze que cercava toda a sua cabeça foi retirada.
Ele parecia terrivelmente jovem sem ela. Tão novo quanto naquele dia na loja da Vila da Poeira, quando era apenas um garoto sarcástico de olhos azuis. Um garoto que eu achei que fosse frágil e humano e destinado a morrer cedo.
Eu estava errada em todos os sentidos.
— Não é a cidade que merece queimar — ele disse, apontando para Naguib.
O calor se projetou dele numa onda violenta, balançando tudo no caminho. As armas gallans foram apontadas para Noorsham. Levantei as mãos, erguendo o deserto comigo. Protegendo-o das balas enquanto seu fogo avançava em direção ao nosso inimigo.
Naguib gritou.

2 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!