23 de setembro de 2018

Capítulo 29

AMARA
KRAESHIA

— Vamos ver se eu entendi — Felix disse quando Amara terminou de explicar tudo para ele e Nerissa. — Sua avó sequestrou Lyssa bem debaixo do nariz de Lucia para usar o sangue da criança em poções mágicas, e Mikah, líder da revolução, vai ser executado em sua cerimônia de Ascensão. E você não concorda com nenhuma dessas coisas.
Como ele podia se manter tão calmo quando Amara tinha acabado de compartilhar tanta coisa que estava exausta com a confissão?
— Isso mesmo.
Felix lançou um olhar para Nerissa.
— Agora vou matá-la.
— Felix — Nerissa rosnou. — Tente pensar. Pode ser?
— Eu estou pensando. Ela já provou que é mentirosa e manipuladora, uma pessoa que usa os outros em benefício próprio. — O lábio superior dele se retraiu, mostrando dentes brancos e alinhados enquanto observava Amara. A mente dela foi parar em uma época não muito distante em que Felix a desejava. A julgar pelo seu olhar, nenhum daqueles sentimentos ainda existia. — E no momento em que o jogo termina e ela não tem mais para onde sair mancando, de repente resolve ser uma heroína? Que conveniente.
— Não sou nenhuma heroína — Amara disse, recusando-se a demonstrar mais medo.
Ela estava farta de ter medo e dúvidas. Tinha apenas certezas no momento: de que a bebê deveria ser devolvida a Lucia e de que Mikah não morreria naquele dia.
Ela ficou surpresa com a necessidade que sentia de que Mikah vivesse. Ele era um rebelde que a mataria em um instante se tivesse a oportunidade, assim como Felix.
Mas o que ele tinha dito na sala do esquecimento sobre sua avó, sobre a ideia distorcida de Amara de conquistar um mundo pacífico e benevolente por meio da força de um governo autoritário…
Ele estava totalmente certo.
Um homem estava certo ao dizer que Amara estava errada.
Que percepção irritante. Mas não a tornava menos verdadeira.
— Eu sei o que fiz — Amara disse. — Não estou em busca de redenção, sei que é impossível. Mas vocês estão aqui, e são capazes de me ajudar com essas tarefas.
— Tarefas? Você fala como se fosse muito simples. — Nerissa balançou a cabeça ao se mover pelos amplos aposentos de Amara, passando a mão no encosto de uma chaise de veludo verde. — Está sugerindo que planejemos o resgate imediato de dois prisioneiros extremamente bem protegidos, mas somos apenas duas pessoas. Foi difícil o bastante chegar a esta ala do palácio.
— Nem tão difícil assim — Felix resmungou.
— Vocês vão ter minha total cooperação. — Mas até Amara precisava concordar que o que estava propondo não seria simples. — Ainda assim, hoje é o dia da minha Ascensão… então, sim, vai ser complicado. A segurança foi reforçada na Lança.
— Ah, sim, excelente plano — Felix disse. — Você vai nos mandar para a morte para não atrapalharmos sua bela cerimônia.
Ele não ia escutar, não importava o que dissesse. E Amara sabia disso. Mas não podia deixar que aquilo a impedisse de tentar.
— Nerissa — Amara pediu. — Você precisa acreditar que eu quero ajudar.
— Eu acredito em você — Nerissa respondeu. — E concordo que garantir a segurança de Lyssa deve ser prioridade. Ela precisa retornar para a mãe imediatamente.
— Ótimo. Então por onde sugere que comecemos? — Amara sentou para aliviar a pressão de sua perna. O sol entrava pela janela do lado oposto do quarto. Pelo vidro, dava para ver as águas cristalinas do Mar Prateado.
— Digamos que eu concorde com isso — Felix disse, andando de um lado para o outro sobre o piso de cerâmica dourada dos aposentos de Amara como uma fera aprisionada. — Posso fazer uma busca na cidade, verificar os antigos esconderijos de Mikah a procura de rebeldes vivos e chamá-los para participar do resgate. Depois disso, tiramos a bebê das garras da vovó malvada. E então? O que acontece com você?
— Então… — Amara considerou cuidadosamente o que ia dizer. — Eu ainda governo como imperatriz.
Felix resmungou.
— Não é muito conveniente?
O coração de Amara disparou.
— Eu sou capaz! Enxerguei os erros em meu modo de pensar, vi que minha avó teve grande participação em minhas decisões mais sombrias. Não coloco a culpa apenas nela, é claro. Eu escolhi fazer o que fiz, assim como meu pai ouvia seletivamente seus conselheiros. — Ela se contorceu ao pensar que tinha se tornado exatamente igual ao homem que odiou durante a vida toda. — Mas eu posso mudar, posso melhorar. E agora que descobri que minha avó está me manipulando em benefício próprio, ela não vai mais ter tanta influência sobre mim.
Felix arqueou sua única sobrancelha visível.
— Você acredita mesmo em todo esse esterco que está saindo da sua boca, não é?
Ele falou com tanto desrespeito que Amara teve um ímpeto incontrolável de gritar para que seus guardas entrassem e o prendessem.
Então a imperatriz se forçou a lembrar, mais uma vez, tudo o que Felix tinha passado por culpa dela. A maioria dos homens não estaria mais em pé, muito menos respirando. Ele era forte. Ela precisava daquela força, principalmente naquele momento.
— Não é esterco — Amara insistiu com firmeza. — É a verdade.
Felix lançou um olhar para Nerissa, balançando a cabeça.
— Não consigo ouvir isso por muito mais tempo.
Amara percebeu que Nerissa não tinha desviado a atenção dela em nenhum momento. Sua antiga criada a observava com cuidado, os olhos escuros semicerrados, os braços cruzados diante do peito.
— Não há tempo para debate — Nerissa disse por fim. — Felix e eu vamos procurar os rebeldes locais, e estou rezando para encontrarmos gente suficiente disposta a ajudar.
Felix finalmente guardou a adaga, mas sua expressão não estava mais suave que antes.
— Se os encontrarmos, sei que vão ajudar. Mikah foi um grande líder. — Ele franziu a testa. — É um grande líder. Nada mudou.
— Vou com vocês — Amara disse, querendo ajudar de todas as formas.
— Não — Nerissa respondeu. — Você vai ficar aqui e se aprontar para sua Ascensão. Aja como se tudo estivesse normal.
A frustração tomou conta de Amara, que levantou meio sem jeito da chaise macia.
— Mas não está tudo normal… longe disso!
— Mais um motivo para fingir que está. Não queremos levantar mais suspeitas para sua avó. Se isso acontecer, ela não vai deixar ninguém chegar perto de Mikah nem Lyssa. E Mikah vai morrer, executado em um quarto escuro sem ninguém para ajudá-lo.
Amara queria discutir mais, mas enxergou sabedoria nas palavras de Nerissa. E finalmente assentiu.
— Muito bem. Por favor, voltem o mais rápido possível.
— Voltaremos. — Nerissa caminhou em direção à porta sem hesitar.
Felix se afastou devagar de Amara, como se esperasse que ela enfiasse uma adaga em suas costas assim que se virasse.
— Se estiver mentindo de novo — ele disse antes de sair do quarto —, vai se arrepender. E muito. Está me ouvindo?
E então eles se foram, e Amara ficou sozinha, perguntando a si mesma se tinha tomado a decisão certa. Até aí, qualquer outra decisão teria terminado com seu corpo sangrando sobre o chão, lutando para dar um último suspiro.
Tinha sido a coisa certa a fazer.
Ainda assim, parecia tão anormal e estranho quanto tentar caminhar com uma perna quebrada.
Amara fez o possível para passar o resto do dia de acordo com o plano original. Ela meditou, tomou banho e fez uma refeição ao meio-dia, composta de frutas e massas leves, nas quais mal tocou. Ela precisava fazer a prova final de um novo suporte para a perna que lhe permitiria andar sem o auxílio da bengala. Era melhor, mas ainda não conseguiria esconder que mancava.
Então esperou o quanto pôde antes de permitir que uma criada maquiasse seu rosto, contornando os olhos com carvão preto, pintando os lábios com uma tintura que os deixava vermelhos como rubis. Outra criada fez um penteado em seu longo cabelo preto, criando um labirinto intricado de tranças.
Finalmente, elas ajudaram Amara com o vestido da Ascensão, com a supervisão de Lorenzo, orgulhoso de sua magnífica obra de arte.
— Está bela como uma deusa hoje, vossa majestade — ele disse quando as pesadas asas foram colocadas em seus ombros.
Amara encarou seus olhos exageradamente maquiados no espelho. A cor da íris era do mesmo azul-acinzentado dos olhos de Ashur.
E desejou muito o que Lorenzo dissera. Ser uma deusa. Ter o poder supremo a qualquer custo — absolutamente qualquer custo.
Parte dela ainda desejava aquilo. Ainda desejava aquela bobagem brilhante e sofisticada que agora estava fora de seu alcance.
Posso ter as duas coisas, ela pensou em silêncio admirando o reflexo dourado. Posso ter poder e tomar as decisões certas. Hoje é o primeiro dia da minha nova vida.
Depois que deixou Lorenzo, ela se livrou de todos os guardas que queriam escoltá-la até o salão da cerimônia.
— Eu sei o caminho — ela lhes disse. — E quero ficar sozinha e em silêncio para organizar meus pensamentos.
Eles não a questionaram. Os guardas se curvaram, deixaram-na passar e não a seguiram.
É claro que me obedeceram, ela pensou. Eles sabiam que poderiam ser punidos com severidade se não o fizessem.
O medo era um arma poderosa, forjada com o tempo e o exemplo.
Gerações temendo as punições ordenadas pela família Cortas resultaram na obediência total e completa.
Será que as pessoas podiam ser governadas sem o uso do medo? Seria possível? Ela não tinha certeza, e aquela dúvida a perturbava profundamente.
Amara seguiu o longo caminho para o salão onde, naquele momento, todos os kraeshianos que receberam um convite pessoal para o evento do século estavam enfileirados no cômodo enfeitado onde seu pai e sua mãe tinham se casado. Onde seus três irmãos — mas não ela, a irmã “inferior” — tinham sido oficialmente apresentados para amigos importantes do imperador depois do nascimento. Onde sua mãe tinha sido exibida após a morte, totalmente maquiada e penteada, usando seu vestido de casamento, para todos verem.
Mil pessoas estariam no salão quando Amara recebesse o cetro com a cabeça de uma fênix dourada esculpida — um símbolo de poder para um governante kraeshiano desde sempre. Um símbolo da vida e do poder eternos.
Dentro do cetro havia uma lâmina afiada.
E com essa lâmina, o governante ascendente faria um sacrifício de sangue para trazer boa sorte ao reino. Nessa ocasião, seria o sangue de Mikah, a menos que Felix e Nerissa tivessem sucesso em sua empreitada.
Amara não se apressou para chegar ao salão da cerimônia. Ela percorreu o palácio e passou pelas grandes janelas que davam para o pátio. Fez uma pausa. Sabendo exatamente o que a acalmaria, ela foi até seu jardim de pedras.
Para sua surpresa, esperando por ela sobre uma mesa, havia uma garrafa de vinho com dois cálices, como no dia de sua chegada.
E uma mensagem:

Dhosha,
Imaginei que visitaria seu local favorito antes de se juntar a mim e aos demais. Por favor, pare um momento para apreciar o quanto conquistou e quanto apreço tenho por você.
Sua Madhosha

Sim. Um gole de um vinho doce podia ser exatamente do que precisava para acalmar os nervos e enfrentar o que estava por vir. Sua avó a conhecia muito bem mesmo. Ela serviu um pouco do líquido dourado em um dos cálices e então o levou aos lábios.
— Imperatriz!
Ela se sobressaltou ao ouvir a voz.
Costas se aproximou dela com uma expressão de desgosto.
— A rainha mandou você vir me buscar? — ela perguntou da forma mais severa possível. — Ou você resolveu interromper minha privacidade por conta própria?
— A rainha Neela me mandou encontrá-la. A cerimônia já vai começar.
— Sei disso. Também sei que ela não pode começar sem mim.
Ele deu um passo à frente. Parecia aflito.
— Sei que está zangada comigo por tudo o que aconteceu.
— Zangada? — ela disse, inclinando a cabeça. — Que motivos eu teria para ficar zangada com você, Costas? Por me espionar descaradamente para minha avó durante meses? Por sequestrar a filha de uma feiticeira que poderia nos matar com um simples gesto?
— Sim, tudo isso. Mas preciso que saiba… — O guarda olhou para trás como se quisesse ter certeza de que estavam a sós. — Não fiz nada disso com intenção de desrespeitá-la, imperatriz. Sei que conquistei sua confiança, e eu valorizava isso.
— E, mesmo assim, destruiu essa confiança em um instante — Amara afirmou. — O que foi um grande erro, posso lhe garantir.
Ele tentou encará-la nos olhos.
— Preciso explicar por que fiz isso.
— Olhe para o chão — ela ordenou bruscamente. — Não tem mais permissão para olhar para mim de nenhuma outra forma a não ser como um empregado.
Costas seguiu o comando.
— A rainha Neela ameaçou minha família, disse que mataria todos eles se eu não seguisse suas ordens. E disse que, fazendo o que ela estava mandando, eu estaria ajudando você, e não a magoando. Senti que não tinha escolha.
Amara não sabia ao certo por que aquela explicação a surpreendia. É claro, fazia muito sentido.
— Os guardas reais não podem ter famílias por esse motivo, para que não possam ser usadas contra eles.
— Eu sei. Pensei que podia esconder a existência de minha esposa e meu filho, mas não consegui. Quebrei as regras, sei disso, e aceito esse fato. Mas isso explica por que não tive escolha. Tive que fazer o que a rainha Neela mandou.
— Você devia ter me procurado antes. Bem antes.
— Eu sei. Só posso suplicar por seu perdão e garantir que eu morreria para protegê-la, imperatriz. Minha vida pertence a você.
Aquilo explicava tudo. Não justificava o que ele tinha feito, mas Amara entendia os motivos. Não foi porque ele tinha decidido deixar de ser leal a ela e escolhera sua avó. Costas tinha agido por medo.
— Precisamos levar sua família para um lugar mais seguro. — Amara disse. — Um lugar onde minha avó não consiga encontrá-los.
Costas soltou um suspiro, e Amara viu seus ombros relaxarem um pouco.
— Muito obrigado, imperatriz.
Amara pegou a garrafa de vinho e serviu outro cálice.
— Beba comigo. Rápido, antes de irmos para a cerimônia.
Costas olhou surpreso para o cálice que ela lhe entregava.
— Eu, vossa graça?
Ela assentiu.
— Pode fazer um brinde? Um que me dê forças para continuar esse dia cheio de desafios.
— Claro. — Ele ergueu a taça e franziu a testa, pensativo. — Ao reinado de Amara Cortas, a primeira imperatriz da história. Que seja um reinado de luz, esperança e felicidade para todos os seus súditos.
Ele tomou um grande gole do cálice.
Amara fez uma pausa para refletir sobre aquelas palavras.
Será que de fato podia fazer aquilo? Podia ser a primeira imperatriz do mundo, alguém que governaria com uma mensagem de esperança, e não de medo? Ela precisava tentar. Se tivesse sucesso, poderia realmente ser a lendária fênix trazida à vida.
Amara levou o cálice aos lábios justo quando Costas caiu de joelhos.
Seu rosto tinha ficado vermelho-arroxeado, com manchas brancas. Escorria sangue de seu lábio.
— Costas! — ela gritou, soltando o cálice. — O que está acontecendo com você?
Ele não conseguia falar. Levou as mãos à garganta e caiu de lado, os olhos vidrados.
Amara cambaleou para trás, afastando-se do corpo, da garrafa de vinho que tinha caído no chão coberto de musgo do pátio, vertendo seu conteúdo dourado.
No espaço de alguns batimentos cardíacos, algo terrível ficou claro para ela.
O vinho estava envenenado.
Com o mesmo veneno dado por Neela para Amara colocar no vinho que dera a seu pai e seus irmãos. Costas estava morto.
Mas Amara sabia que ele não era a vítima pretendida.
Deixou Costas ali, desviando de seu corpo para não sujar a saia dourada de sangue. Ela reuniu todo o autocontrole que tinha para impedir que lágrimas se derramassem. Não queria estragar a maquiagem dos olhos, a tintura dos lábios. O cabelo perfeito, as asas perfeitas e o dia perfeito.
Ela achou que seu pai ficaria orgulhoso de como tinha conseguido se recompor e seguido para as grandes portas cor de esmeralda do salão de cerimônias, onde um grupo de guardas esperava para escoltá-la. Ela permitiu.
Amara entrou no salão, e as mil pessoas que tinha deixado esperando se levantaram dos resplandecentes bancos de madeira. Ela caminhou pelo corredor até a frente, onde dez degraus levavam a um palco elevado.
Naquele palco havia três pessoas: o Grande Profeta, vestindo uma magnífica túnica roxa de veludo; sua avó, usando um vestido prateado quase tão belo quanto o de Amara; e Mikah, de joelhos, as mãos amarradas nas costas.
Ela se forçou a não hesitar. A dar cada passo com a confiança esperada por todas as testemunhas. Finalmente, parou ao lado da mulher que tinha acabado de tentar assassiná-la e tomar seu poder.
Depois de Amara, Neela era a primeira na linha de sucessão ao título de imperatriz.
— Está linda — Neela comentou. Se Amara esperava surpresa por parte de sua avó com sua chegada, não viu nenhum indício. — Ainda mais linda do que eu esperava. Devíamos manter Lorenzo em Kraeshia para sempre, não acha?
Amara forçou um sorriso nos lábios.
— Ah, sim. Com certeza.
Como se desvencilharia daquela criatura sombria, enganadora e mentirosa e faria tudo ficar bem de novo?
Agora não, ela pensou. Depois. Vou pensar nisso depois.
Tudo o que podia fazer no momento era esperar que Nerissa e Felix tivessem cumprido sua promessa.
Ela mal ouviu uma palavra do que o Grande Profeta disse durante a cerimônia de Ascensão com que sonhara a vida toda. Foi algo sobre história e família e honra e os deveres de um governante.
Tudo o que sabia era que o discurso tinha acabado rápido demais.
Agora Neela segurava o cetro dourado, de frente para Amara no palco.
— Você é digna de empunhar isso, dhosha — disse ela, um sorriso fixo em um rosto muito mais jovem do que deveria ser possível. Amara se perguntou se seu misterioso boticário era responsável pelos venenos, além dos elixires rejuvenescedores.
Amara observou a avó com atenção, procurando sinais de culpa, mas não encontrou nenhum. Será que Neela esperava que Amara aparecesse? Era apenas um palpite que ela iria para o pátio e encontraria o vinho? Quantas outras armadilhas tinham sido tramadas por alguém que ela amava e em quem confiava?
— Agora — disse o Grande Profeta, abrindo bem os braços ao se dirigir ao público silencioso e obediente —, a última parte dessa Ascensão deve acontecer: um sacrifício de sangue. Um rebelde que tentou destituir a família real, que conspirou para o assassinato do ex-imperador e dos príncipes. Hoje seu sangue deve ser derramado para lavar o passado e dar as boas-vindas ao futuro da imperatriz Amara Cortas.
Amara chegou perto de Mikah, separando, sem muita atenção, o cetro que segurava em duas partes: bainha e lâmina.
Mikah não se encolheu, não tentou escapar.
— Faça o que tem que fazer — ele lhe disse com desprezo. — Prove que é tão má quanto seu pai.
Apesar daquela demonstração de valentia, ele respirou fundo quando Amara pressionou a ponta da lâmina em seu pescoço.
Um simples golpe, e ela se tornaria oficialmente imperatriz. Ninguém poderia se opor a ela nem controlá-la.
Era muito tentador. Então ela poderia mandar sua avó para bem longe, onde nunca mais teria notícias dela.
Amara poderia ter todo o poder que sempre desejara e fazer com esse poder tudo o que sempre sonhara.
Mas antes que pudesse decidir que caminho tomar, o salão irrompeu em caos. Um grupo de figuras armadas e mascaradas surgiu, lutando contra os guardas em um emaranhado de braços, pernas e armas. O som das lâminas batendo umas nas outras logo se tornou ensurdecedor.
Com o coração disparado, Amara virou para Mikah bem a tempo de receber um chute forte em sua perna quebrada. A dor chegou à sua coluna. Ela derrubou a arma e caiu no chão. E Mikah se foi, desapareceu. Ela procurou sua avó, mas também não a viu.
Amara virou e viu uma espada apontada para seu rosto, e o olhar sombrio e odioso de um rebelde. O homem deu um passo à frente, movendo a lâmina para o pescoço dela, mas, no mesmo instante, foi empurrado para o lado. A espada bateu no chão quando o rebelde caiu. Felix apareceu na frente dela, oferecendo-lhe a mão.
— Eu devia ter deixado ele matar você. Mas prefiro guardar essa honra para mim mesmo, um dia.
— Não hoje? — ela perguntou, tensa.
Ele franziu a testa.
— Infelizmente, não.
Nerissa surgiu do lado de Felix enquanto a batalha entre rebeldes e guardas continuava atrás deles. Convidados fugiam para a saída, desesperados e com medo.
— Fizemos nossa parte — Nerissa disse, abrindo caminho com os cotovelos pela multidão. — Vai ser uma excelente distração para chegarmos até Lyssa.
Amara assentiu. Sem tempo para falar nem fazer sugestões ou qualquer outra coisa além de evitar ser derrubada pela lâmina de algum rebelde, ela conduziu Nerissa e Felix para fora do salão, até o quarto de bebê que a avó tinha lhe apresentado.
Cada passo com sua perna recém-ferida doía. Ela esperava que o suporte durasse enquanto mancava o mais rápido possível, corredor após corredor, passando por multidões de guardas que iam na direção oposta.
Claro que Amara seria reconhecida na Lança mesmo sem o vestido dourado. Ela sabia que não podia se esconder dos guardas enquanto se apressava na direção de seu destino, então nem tentou.
— Vamos controlar a situação, imperatriz — um guarda lhe disse. — Não há o que temer.
Uma promessa adorável, ela pensou. Mas impossível, a essa altura.
Ela tinha medo. Tinha muito medo do resultado daquele dia.
Depois de subir as escadas com dificuldade até o andar onde ficava o quarto da bebê, Amara levou sua dupla de rebeldes pelo último corredor até a porta desprotegida.
— Lyssa está lá dentro. — Ela apontou para a porta enquanto observava o entorno. — Os guardas devem ter sido chamados para ajudar na luta, mas a porta deve estar trancada.
— Isso não é problema — Felix disse. Ele deu um chute na porta, que abriu.
Amara entrou no quarto primeiro, esperando encontrar apenas uma ama assustada.
Mas, claro, as coisas não podiam ser tão simples.
Neela já estava no quarto, sozinha, com a bebê nos braços.
— Que bom que vieram se juntar a nós — Neela disse, mal tirando os olhos da menina depois do arrombamento da porta.
Amara sentiu o coração afundar no peito. Ela tentou falar, mas nenhuma palavra saiu. Nerissa deu um passo para a frente.
— Solte-a agora mesmo — Amara exigiu.
Neela sorriu.
— Eu não conheço você, conheço?
— Não, mas eu conheço a senhora. E vai deixar essa bebê de volta no berço e sair deste quarto agora mesmo.
— Não, na verdade acho que não vou fazer isso.
Felix se aproximou.
— Sabe, eu de fato não costumo mexer com velhinhas, mas algumas merecem. — Ele mostrou a adaga a Neela. — Afaste-se da criança, e ninguém vai se machucar.
Neela o analisou.
— Reconheço você, não? Felix Gaebras, um dos guarda-costas de Gaius Damora. O que minha neta levou para a cama na primeira oportunidade. E que foi preso por envenenar o imperador e meus netos. Estou surpresa em vê-lo de novo.
Felix olhou fixamente para ela.
— E a senhora é a vovó malvada responsável pela dor e pelo sofrimento de todos por aqui. Todo reino tem uma, ao que parece.
Neela continuou sorrindo.
— Aconselho que fique exatamente onde está, Felix. Não queremos que essa adorável criança se machuque, não é?
Lyssa fez um barulho e levantou os bracinhos sobre a cabeça. Amara olhava para ela com desconforto.
— Precisamos devolver a bebê para Lucia Damora, madhosha — ela disse em voz alta. — Felix e Nerissa vão levá-la.
Neela não fez nenhuma menção de soltar a bebê.
— Dhosha, está sendo obrigada a obedecer esses rebeldes? Seja sincera comigo. Há consequências para mentiras, como você já sabe, sem dúvida.
A boca de Amara ficou seca.
— Por que envenenou o vinho, madhosha?
Neela arqueou uma sobrancelha.
— O que está dizendo?
— O vinho que deixou para mim no jardim de pedras do pátio. Você deixou vinho envenenado porque esperava que eu tomasse uma taça antes da cerimônia.
— O quê? Admito que deixei uma garrafa de vinho, mas não estava envenenado! Se estava, a culpa é de outra pessoa. Você é minha joia, dhosha. Meu tesouro, acima de todos os outros, desde o dia em que nasceu.
Amara estudou o rosto dela, agora em dúvida. Poderia ser verdade? Que outra pessoa teria encontrado o vinho e o envenenado?
— Sei que chamava minha mãe assim. De sua joia. E sei que ela morreu por mim… por causa da poção. Talvez me culpe por isso.
— Não, eu não a culpo. — Neela semicerrou os olhos. — Sua mãe morreu porque seu pai era cruel e sem coração. E agora ele está morto, e posso dançar sobre seu túmulo. E sobre o túmulo de todos os homens como ele. Vou perguntar mais uma vez: esses rebeldes a estão forçando a fazer alguma coisa?
Amara olhou para o rosto tranquilo de Lyssa, aninhado nos braços de Neela. Sem dúvida, sua avó a havia segurado daquela forma, cuidado dela quando era apenas uma bebê — uma bebê cuja mãe tinha sido levada antes da hora.
E então as nuvens se abriram do lado de fora. Um raio de sol brilhou por uma janela do outro lado do quarto. Amara notou algo brilhante na mão de Neela, parcialmente escondido sob o cobertor e pressionado à barriga da criança.
Uma faca.
Amara respirou fundo.
— Sim — ela forçou a palavra a sair. — Estão me ameaçando. Resgataram Mikah e me disseram que se não os trouxesse até aqui, me matariam.
— Eu sabia! — Felix gritou. — Vou matar você antes de sair desse quarto, sua imprestável mentirosa.
— Não vai, não — Neela disse, revelando a faca para que todos vissem.
— Por favor, não! — Nerissa levantou as mãos e balançou a cabeça. — Não machuque a criança!
— Se eu fizer isso, vai ser apenas porque vocês não me deram outra escolha. Será culpa de vocês. — Neela balançou a cabeça. — É um desperdício derramar uma única gota do precioso sangue dessa bebê. Então vou explicar o que vamos fazer. Vocês dois vão sair daqui imediatamente e voltar para seus amigos lá embaixo que, sem dúvida, já devem ter sido capturados como foram da última vez que tentaram fazer um cerco à Lança. Depois todos serão executados. Quanto mais sangue derramado na Ascensão de minha neta, mais memorável será.
Amara não se mexeu, mal respirou, enquanto escutava a avó explicar calmamente tudo aquilo.
— E você… — Neela agora se dirigia a Amara. — Preciso dizer que suas ações de hoje me preocupam.
Amara balançou a cabeça.
— Não deveriam. Ainda estou com a senhora de todas as formas, madhosha. Se não fosse pela senhora, eu não teria tudo o que tenho hoje. — Ela precisava fingir, precisava convencer a avó de que era confiável.
E uma parte horrível dela, uma parte assustada e sombria de que não sentia orgulho, queria apagar o acordo que fizera com Felix e Nerissa e fazer tudo voltar a ser como antes, quando o mundo lhe pertencia e ela podia fazer o que quisesse, já que tinha poder suficiente para isso.
— Fui sua melhor conselheira — Neela disse. — Sei que se debateu com algumas decisões que teve que tomar, como o que fez com Ashur. Mas você optou por matá-lo, assim como matou seu pai e seus dois outros irmãos. Você fez aquilo, não eu.
— Eu sei — Amara sussurrou.
Neela deu um passo para a frente. Com Lyssa em um braço, estendeu o outro e acariciou o rosto de Amara.
— Você precisa de mim, dhosha. Eu lhe dei tudo o que desejou e, ainda assim, me encara com uma dúvida que parte meu coração. Mas as coisas ainda podem ficar bem.
— Não dê ouvidos a ela — Nerissa disse. — Está enchendo sua cabeça com mentiras.
Amara tentou ignorá-la, tentou se concentrar apenas no rosto da avó.
— Podem? — ela sussurrou.
— Sim. No entanto, infelizmente, parece que hoje você perdeu a cabeça, dhosha.
Amara negou.
— Eu não perdi a cabeça.
— Perdeu, sim — Neela insistiu. — Vejo essa loucura se aproximar de você desde que perdeu seu adorado pai e seus irmãos. Documentei tudo, mas tinha esperança de que não chegasse a esse ponto.
— Do que está falando? — O coração de Amara começou a bater mais rápido. — Não estou louca!
— Encontrei um lugar para você, um lugar seguro, onde pode recuperar a razão. Vai ser tranquilo, muito tranquilo, e prometo visitá-la sempre. Existem outros como você lá, outros afligidos por essa confusão que a fez machucar tantas pessoas que ama, incluindo eu. Espero que minhas ações a ajudem a se curar, minha amada dhosha. E durante sua ausência, pelo tempo que for preciso, vou governar no seu lugar.
Amara ficou encarando a avó enquanto o resto do mundo começava a desabar à sua volta.
— Estava tudo planejado — ela disse, e as palavras foram como pedras ásperas em sua garganta.
As pessoas de classes mais baixas, se perdessem o juízo, podiam partir daquela vida com suavidade, com a esperança de voltarem curadas na próxima. Mas membros da família real tinham a oportunidade de se curar durante a vida presente. Trancados em uma sala do esquecimento dentro de um hospício, onde se dizia aos prisioneiros que tudo lá era para o próprio bem deles, não por causa de um crime específico que tinham cometido.
Mas Amara sabia que a experiência era a mesma.
A pessoa ficava esquecida durante anos, décadas.
Às vezes até sua morte natural.
Neela olhou feio para Felix e Nerissa, que ainda a observavam em silêncio.
— Soltem as armas e saiam, ou temo que minha neta machuque essa criança. E não posso fazer nada. — Ela moveu a ponta da lâmina para cima, perto do pequeno e vulnerável pescoço de Lyssa.
Nerissa e Felix finalmente fizeram o que Neela mandou, com expressões sombrias e aflitas. Caminharam de costas até chegar ao outro lado da porta.
— Eu venci — Neela disse. — Admita, e tudo vai correr bem, dhosha. Prometo que não precisa sentir dor.
Amara sentiu o amargor da tintura vermelha ao passar a língua nos lábios, tentando encontrar forças para responder, para dizer o que sabia que precisava dizer. Sua avó controlava sua vida — sempre tinha controlado. Amara só não tinha se dado conta daquilo até então.
— Você venceu — Amara sussurrou. — Agora, por favor, por favor, coloque a bebê de volta no berço.
— Muito bem. — Neela sorriu e soltou Lyssa com gentileza. — Agora quero que me agradeça pelo belo presente que lhe dei.
Amara alisou as laterais da saia dourada.
— Obrigada pelo belo presente que me deu.
— Um presente valioso e precioso.
— Sim, ele é mesmo.
— Ele, não, minha querida. Ela. E ainda precisamos escolher um novo nome para a criança.
— Ah. — Amara franziu a testa. — Eu não estava falando desse presente.
Neela inclinou a cabeça.
— E de que presente estava falando?
— Deste. — Amara tirou sua adaga nupcial debaixo das dobras da saia e puxou a avó em um abraço. — Obrigada, madhosha. Muito obrigada.
Ela então cravou a ponta da lâmina no peito de Neela. A velha ficou ofegante, seu corpo, tenso, mas Amara não a soltou.
— A senhora envenenou o vinho — Amara sussurrou em seu ouvido. — Sei que foi você. E mesmo que não tenha sido, isso ainda precisava acontecer.
Ela arrancou a lâmina. A parte da frente do vestido dourado agora estava manchada com o sangue de sua avó.
Neela ficou ali com a mão contra o peito, os olhos arregalados e descrentes.
— Fiz tudo por você — ela disse.
— Então acho que sou uma neta ingrata — Amara respondeu quando Neela caiu de joelhos. — Sempre pensando em mim mesma e em mais ninguém.
— Isso ainda não acabou — Neela disse com dificuldade, mas as palavras ficaram mais fracas enquanto o sangue escorria pelo chão. — A poção… a poção de ressurreição. Eu a tomei. Vou voltar a viver.
— Aquela poção exige que alguém que a ame mais do que qualquer pessoa sacrifique a própria vida em troca da sua. — Amara empinou o queixo. — Seria eu, até ontem. Mas não mais.
Neela caiu de lado, e a vida se esvaiu de seus olhos cinzentos.
Então Amara virou para Felix e Nerissa, parados na porta, olhando fixamente para ela como se a imperatriz tivesse executado o mais incrível truque de mágica que já tinham testemunhado.
— Realmente odeio ter que admitir, mas acho que estou impressionado — Felix disse, balançando a cabeça.
Nerissa não teve essa reação, apenas correu para o berço e pegou Lyssa.
— Pegue-a e vá — Amara disse, surpresa por estar tão calma. A adaga que segurava ainda tinha o sangue de sua avó, que pingava no chão. — Preciso limpar umas coisas por aqui.
Nerissa balançou a cabeça, depois abriu a boca para esboçar uma resposta.
Amara levantou a mão para impedi-la.
— Por favor, não diga mais nada. Apenas vá. Leve Lyssa de volta para Lucia e diga a ela… diga a ela que sinto muito. E, se virem meu irmão, digam que sei que ele me odeia e sempre vai me odiar, mas que eu… eu espero consertar as coisas um dia, mesmo não tendo ideia de como fazer isso. Agora vão embora antes que desperdicemos mais tempo.
Os olhos de Nerissa ficaram molhados. Ela engoliu em seco e assentiu.
— Adeus — ela disse.
Então ela e Felix desapareceram com a bebê.
Sozinha no quarto com o corpo da avó, Amara esperou para ver quem chegaria primeiro.
Um rebelde para matá-la.
Ou um guarda para prendê-la.
Ela sabia que merecia qualquer uma das opções.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!