16 de setembro de 2018

Capítulo 29

MAGNUS
PAELSIA

Magnus e Gaius passaram o dia todo acorrentados como prisioneiros comuns na parte de trás de uma carroça que partia de Basilia rumo à direção oeste.
Magnus sabia exatamente aonde estavam indo e, quando finalmente chegaram ao antigo complexo do chefe Basilius ao anoitecer, não sabia ao certo se veriam o sol nascer no dia seguinte.
O pequeno, mas impressionante, exército de Amara cercava o perímetro do complexo, e Magnus e seu pai foram levados portões adentro pelos guardas.
Lá dentro, foram empurrados e arrastados por um corredor estreito e comprido e jogados em uma sala com paredes de pedra e sem mobília. Guardas prenderam correntes novas em seus tornozelos. Não havia nada a fazer além de sentar e esperar no chão manchado de sangue.
A porta tinha uma trava que só abria pelo lado de fora.
Sim, Magnus pensou, isto aqui pode ser chamado de masmorra.
— Eu não queria isso — o rei disse quando ficaram a sós.
— Não? Não queria que fôssemos acorrentados e ficássemos à mercê dos caprichos de Amara? Soube como os kraeshianos lidam com os prisioneiros. Faz o tratamento que você dá a eles parecer quase benevolente.
— Este não será nosso fim.
— Que engraçado, pai, pois parece que será. Sabe o que seria muito útil agora? A ajuda de uma bruxa. Mas você também a mandou embora, não é?
— Sim. E não me arrependo. Minha mãe é uma mulher cruel.
— Então, acho que você nasceu dessa mesma crueldade naturalmente, sem precisar de poções.
Magnus tinha tido muito tempo para pensar durante o trajeto. Pensou principalmente em Cleo, e se perguntou se as coisas seriam diferentes se não tivesse mandado Nic atrás de Ashur.
Provavelmente não. Porque nesse caso, Cleo poderia estar com ele e com seu pai, e Magnus não conseguiria fazer nada para ajudá-la. O príncipe esperava muito que ela finalmente tivesse conseguido fazer o que deveria ter feito desde o começo: partido para Auranos em busca de aliados, rebeldes, ou qualquer outro tipo de ajuda.
Cleo estava muito melhor o mais distante possível dele.
O tempo passava devagar, e a noite voltou a ser dia quando os raios de sol entraram na masmorra escura por uma janela minúscula. O barulho de uma trava na porta chamou sua atenção, e Magnus protegeu os olhos da luz forte do sol quando a porta foi aberta e vários guardas entraram. Depois deles, a imperatriz apareceu.
Ela meneou a cabeça para ele.
— Magnus, que ótimo vê-lo de novo.
— Bem, para mim é muito desagradável revê-la.
Amara manteve o sorriso frio.
— E Gaius, estava muito preocupada com você. Não tenho notícias suas desde que partiu em busca de seu filho traidor para puni-lo. Não deu certo?
— Meus planos mudaram — o rei disse.
— Compreendo.
— É assim que você recebe seu marido, Amara? — Magnus perguntou. — Acorrentando-o em uma masmorra?
— Certa vez, minha mãe fugiu de meu pai. Soube que ele a arrastou de volta e a trancou em uma sala pequena e escura. Durante um ano inteiro, se não me engano. Ela também perdeu um dedo como castigo por tentar fugir. Foi obrigada a decepá-lo sozinha.
Ela contou a história sem nenhuma emoção.
— Esse será meu destino? — Gaius perguntou. — Perder um dedo?
— Não decidi o que gostaria de arrancar de seu corpo por todas as suas mentiras e trapaças. Mas tenho certeza de que pensarei em alguma coisa. Enquanto isso, trouxe alguém que tenho certeza de que vocês gostariam de ver.
Ela deu um passo para o lado, e Magnus, ainda protegendo os olhos do sol, percebeu, incrédulo, que Cleo estava parada na porta.
A expressão dela era totalmente indecifrável.
— Achei que você tivesse dito que havia rebeldes presos aqui — Cleo comentou.
Amara virou para ela.
— Eles são rebeldes, já que estão trabalhando contra mim para roubar o que agora me pertence. Estou errada?
— Não, acho que não. — Cleo inclinou a cabeça. — Mas é estranho pensar neles como rebeldes. A palavra não parece se encaixar.
— Se somos rebeldes, princesa — o rei sibilou —, o que você é, então?
— Uma prisioneira de guerra — Cleo respondeu com calma. — Forçada a me casar contra a minha vontade quando minha liberdade foi roubada junto com meu trono. Este ano tem sido muito longo e doloroso para mim.
Magnus não tinha dito nada desde que Cleo entrara na masmorra, surpreso com cada movimento e palavra dela. Aquela não podia ser a mesma garota que ele conhecia, cheia de entusiasmo e energia na noite em que seus caminhos se cruzaram no chalé da floresta tomado pela neve. A garota cheia de ódio e fúria quando soube da morte de Nic.
A impecável expressão de indiferença da princesa se opunha à dele.
— Eu lhe dei muitas chances de ir embora — Magnus disse. — Você não era uma prisioneira.
— Fui prisioneira das escolhas que seu pai tirou de mim. Quantas vezes ele teria gostado de ver essa mesma situação invertida, de me ver acorrentada e entregue à sua boa vontade? Boa vontade. — Ela riu. — Eu nunca usaria essas palavras para descrever seu pai.
— Você devia ter me acordado — Magnus disse. — Meu pai não devia ter mandado você embora. Sei que está brava comigo.
— Brava? Você acha que eu estava…
— Mas vir até aqui? — ele a interrompeu. — Para quê? Tentar uma aliança com Amara?
— Talvez — ela admitiu. — Ela é a única que tem poder aqui. Você me julgaria por isso?
— O que devo fazer com eles, Cleo? — Amara perguntou. — Quer que eu considere poupar a vida de Magnus?
— Vou pensar um pouco — Cleo respondeu.
Magnus a encarou com os olhos semicerrados.
— Pensar um pouco? A princesa precisa pensar um pouco para decidir se vou morrer ou não? Será que preciso lembrar que perdi a conta de quantas vezes salvei sua vida?
— Não é o momento para analisarmos essas coisas. Estamos em guerra. E na guerra, precisamos fazer o que for necessário para sobreviver.
Magnus olhou para ela e, em seguida, para Amara.
— Então, talvez, eu deva formar uma aliança com você.
Amara riu.
— É mesmo? Que tipo de aliança?
— Lembro muito bem da noite que passamos juntos. Você é… uma mulher incrível, que eu adoraria levar para a cama de novo.
De canto de olho, Magnus viu Cleo se mexer desconfortável.
— É mesmo? — Amara enrolou uma mecha de cabelo no dedo. — E você não se importa que eu tenha estado com outros homens desde que ficamos juntos? Incluindo seu pai?
— Prefiro mulheres experientes. Muitas são muito… desajeitadas e esquisitas em sua inocência. — Ele virou para Cleo para ver se suas palavras totalmente falsas surtiam algum efeito nela. — Não acha, princesa?
— Ah, sem dúvida — Cleo concordou, apesar do tom sarcástico. — Você deve procurar apenas as mulheres mais experientes. Talvez aprenda muito com elas.
Amara manteve um sorriso discreto.
— Acho que tais convites não cabem aqui, Magnus, mas agradeço pela oferta generosa. No momento, meu maior interesse é obter o cristal do ar. Eu quero o cristal.
— Imagino que queira — o rei disse. — Como sempre quis tudo o que tenho.
— Nem tudo. Não quero mais você como marido, por exemplo. Pode me dizer onde está?
— Não.
— Não tenho paciência para isso. — Amara fez um gesto aos guardas. — Levem os dois para o buraco.
— Sim, imperatriz.
As duas moças viraram para a porta.
— Princesa… — Magnus disse, detestando o tom fraco de sua voz. Os ombros de Cleo ficaram tensos quando ouviu a voz dele.
Ela olhou para trás.
— Achei que tivesse dito para você me chamar de Cleiona.
Magnus ficou observando Cleo e Amara saírem sem mais nenhuma palavra. Cleiona… Ela queria ser chamada de Cleiona.
O nome de uma deusa. Seu nome completo e correto, não um apelido. O nome que ele havia escolhido para mostrar que a desejava, que a amava.
Que ela o amava.
Podia ainda haver esperança de que ela não o tivesse abandonado àquele destino? De que tivesse perdoado seus muitos erros?
Os guardas soltaram Magnus e o rei e começaram a arrastá-los da masmorra até a luz. Eles entraram em uma construção e então caminharam por um corredor que fazia eco, sem teto.
Uma garota bonita com cabelo curto e preto e corpo bem torneado estava recostada na parede mais à frente.
— Olá — ela disse aos guardas. — Estou vendo que vocês têm os prisioneiros sob controle. Muito bem.
— Sim, Nerissa. Você está linda hoje.
— Você acha? — Ela sorriu de modo sedutor, e os guardas retribuíram.
— Está bem integrada aqui, pelo visto — Magnus comentou com frieza.
— Muito bem, obrigada. — Nerissa começou a caminhar para perto deles, e passou a mão pela manga do uniforme do guarda. — Preciso pedir um favor a você, meu querido.
O guarda de Magnus diminuiu o passo, enquanto os guardas do pai dele seguiam pelo corredor.
O guarda a olhou cheio de desejo.
— Sim?
Ela sussurrou alguma coisa em seu ouvido, e o homem riu.
— Esse é um favor que ficarei muito feliz em fazer, minha querida. Diga quando e onde.
O rei e os guardas sumiram mais adiante.
— Em breve. Talvez só um beijo por enquanto para você lembrar de mim.
— Como se fosse possível esquecer você.
A garota puxou o guarda e encostou os lábios nos dele. Magnus viu quando ela enfiou a mão entre as dobras do vestido. Nerissa encarou os olhos de Magnus enquanto cravava uma adaga na barriga do homem. O guarda imediatamente o soltou, levando a mão ao abdômen.
— O que você… — ele disse, ofegante.
Ela o apunhalou, rápido e fundo, várias outras vezes até o guarda cair no chão sobre uma poça de sangue.
Magnus olhou para a garota, chocado pelo que acabara de testemunhar.
Nerissa fez um gesto para alguém atrás de Magnus.
— Depressa. Solte o príncipe.
A pessoa cortou as cordas que amarravam os braços dele, e Magnus se virou. Encontrou um rosto familiar e irritado emoldurado por cabelos ruivos.
— Nic — ele disse.
Nic balançou a cabeça.
— Sou contra salvar sua pele, mas vamos lá.
Magnus não acreditou no que viu.
— Você deveria estar morto.
— E estaria, se não fosse a magia de sua irmã. Eu estava preparado para odiar vocês dois pelo resto da vida. Ainda não me decidi quanto a você. Mas quanto a ela… agora devo a minha vida. — Ele olhou para Nerissa. — O que vamos fazer com o guarda?
— Por aqui. — Ela pegou a manga do uniforme do guarda morto, e ela e Nic o puxaram pelo corredor, levando-o a uma alcova escura. — Isso deve bastar. Precisamos sair rápido.
Magnus, ainda assustado, se esforçou para recuperar a compostura.
— Aonde vamos?
— Vamos ao quarto de Amara pegar o cristal da água — Nerissa sussurrou. — Ela sabe realizar o ritual para liberar sua magia. Não sei como aprendeu, mas tem certeza de que vai funcionar. O sangue dos prisioneiros será usado para fortalecer a magia. Quero fazer o que puder para ajudá-los, mas, no momento, precisamos daquele cristal da Tétrade em nossas mãos, não nas dela.
Magnus assentiu.
— Então vamos parar de falar e começar a agir.
Nerissa atravessou o corredor às pressas, e Nic e Magnus a acompanharam. Por fim, chegaram a uma porta. Nerissa olhou para os dois lados do corredor antes de destrancar a porta. Os três entraram em uma sala elegante com várias outras salas interligadas, repletas de janelas com vista para a pequena cidade murada.
Nerissa foi direto ao armário, conferindo os bolsos de vários vestidos e casacos compridos.
— Procurem em tudo, ela pode ter trocado de lugar.
Magnus e Nic entraram em ação, conferindo estantes, armários e até embaixo das almofadas das poltronas.
— Tem certeza de que está aqui? — Magnus perguntou.
— Tenho certeza de que ela não estava com o cristal mais cedo.
— Como sabe?
— Eu a ajudei a se vestir, e com certeza não estava em nenhum dos bolsos. Procurem no outro quarto.
Magnus não sabia muito bem como se sentia recebendo ordens de uma criada, mas continuou obedecendo. Aquela garota tinha muitos outros talentos além dos de uma serva particular. Mas, claro, Magnus se deu conta de que Nerissa Florens não era apenas uma criada. Era uma rebelde.
Não encontrou nada na busca e voltou para o quarto, mas não viu Nic nem Nerissa.
— Aonde vocês foram? Nic? Nerissa?
Ele observou o espaço amplo até encontrar dois corpos no chão.
Os olhos de Nic estavam fechados, e ele tinha uma marca vermelha na têmpora. A alguns metros, Nerissa gemia de dor.
Ela encarou os olhos de Magnus e ficou aterrorizada no mesmo instante.
Magnus sentiu uma dor aguda na nuca e, então, tudo se apagou.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!