1 de setembro de 2018

Capítulo 29

CLEO
LIMEROS

Cleo não teve tempo para encontrar Nic e contar o que estava acontecendo antes de fugir do palácio.
Pensar que o amigo não fazia ideia se ela estava viva ou morta lhe causava dor. Ela rezava para que Nic estivesse em segurança. Tinha que se apegar ao fato de que ele era tão esperto quanto leal, de que encontraria uma maneira de sobreviver até se encontrarem de novo.
Sem a companhia de guardas, que podiam avisar ao rei sobre os planos de última hora, o príncipe e a princesa logo chegaram às docas de Porto Real. Depois de oferecer uma quantidade de ouro para um estivador, Magnus ficou sabendo que Lucia e Ioannes tinham passado por lá algumas horas antes e embarcado num navio com destino a Limeros.
Era a confirmação de que precisavam.
Mais ouro garantiu uma viagem para eles, programada para percorrer a costa na direção do reino mais ao norte de Mítica.
O capitão do navio reconheceu Magnus de imediato. O príncipe confidenciou que ele e Cleo estavam indo atrás de Lucia, para evitar que fugisse para se casar com seu tutor, e que a informação deveria permanecer em segredo.
Várias vezes durante a viagem, Cleo tentou encurralar Magnus para uma conversa particular sobre o ocorrido no calabouço, mas, apesar de estarem em um navio pequeno, ele sempre conseguia evitá-la.
Dias depois da partida, o navio chegou ao destino. O capitão pegou o Canal Niveus, que atravessava Limeros na direção leste, e atracou em Pico do Corvo, a maior cidade do reino.
Finalmente. Mais um dia naquele navio lotado, com a companhia apenas de seus pensamentos, e ela enlouqueceria de vez.
Cleo desembarcou e se enrolou ainda mais no manto cinza-escuro, puxando o capuz com beirada de pele para ocultar sua identidade. Sua respiração se condensava em nuvens à sua frente.
Em todos os lugares era pleno verão, mas, em Limeros, o inverno parecia se estender para sempre. Embora à primeira vista fosse lindo, tão imaculado de branco, seria horrível viver em um lugar onde fazia tanto frio o tempo todo. Tinha acabado de começar a nevar, e o chão estava escorregadio sob a sola lisa dos sapatos de Cleo, feitos para caminhar em lugares muito mais quentes.
— Vamos — Magnus disse. Ele também estava de capuz, cobrindo a maior parte do rosto. Embora tivessem um motivo legítimo para estar em Limeros, seria melhor evitar ao máximo serem reconhecidos.
Quando estavam prestes a seguir viagem, um chamado os interrompeu:
— Príncipe Magnus? Minha nossa! É você mesmo? Aqui? Que prazer voltar a ver você e sua adorável esposa!
O anonimato tinha durado pouco.
Magnus resmungou, diminuindo o passo conforme uma senhora — coberta de pele dos pés à cabeça — se aproximava. Cleo a reconheceu da excursão do casamento. As duas tinham se encontrado rapidamente no palácio limeriano antes do discurso de Magnus, mas ela não conseguia lembrar o nome da mulher.
Lembrar o nome dos nobres sempre tinha sido o forte de sua irmã mais velha, não o seu.
— Lady Sophia — Magnus disse, mostrando os dentes em uma tentativa razoável de sorriso. — É um prazer, como sempre.
As bochechas de lady Sophia estavam vermelhas do frio, e seu sorriso era amplo, fazendo rugas se formarem no canto dos olhos.
— Não fazia ideia de que estavam na cidade.
— Acabamos de chegar.
— Para ficar, espero? Ou está tão acostumado aos climas mais quentes de Auranos que abandonou seu verdadeiro lar? — ela perguntou com leveza, sem nenhuma ponta de acusação.
— Eu nunca abandonaria Limeros para sempre.
Magnus parecia muito controlado, mas não podia estar. Os dois haviam sido reconhecidos, e Cleo sabia que era a última coisa que ele queria.
— Onde vão ficar? A noite está caindo e a neve está ficando mais densa. Muitos acreditam que uma tempestade terrível está chegando.
Os céus escuros pareciam, de fato, sinistros. Se uma tempestade se formasse, viajar a pé seria quase impossível.
Cleo se assustou quando lady Sophia pegou suas mãos e as apertou em um cumprimento.
— Princesa! — ela exclamou antes de Cleo conseguir reagir. — Suas mãos estão tão geladas! Vossa alteza, sua esposa está congelando aqui fora! Precisamos levá-la a algum lugar mais quente agora mesmo. Estava visitando minhas irmãs e vou passar a noite em minha quinta aqui na cidade. Por favor, permita-me lhes oferecer a hospitalidade de meu lar. A menos que já tenham outro local em mente?
Cleo não pôde deixar de se encantar com a oferta exuberante e generosa de lady Sophia. E com a iminência de uma tempestade, onde Magnus proporia que dormissem? Ao relento, onde se transformariam em blocos de gelo?
— É muita generosidade sua — Cleo afirmou quando Magnus permaneceu em silêncio. Cabia a ela tomar essa decisão. — Sim, é claro, aceitamos sua gentil oferta. Muito obrigada. No entanto, temos que partir ao amanhecer.
— Certamente. — Lady Sophia ficou radiante, depois fez um gesto para seus criados trazerem a carruagem. — Onde estão seus baús?
— Ficarão no navio, por enquanto — Magnus respondeu. O pouco que haviam conseguido pegar antes de partir quase não ocupava espaço. — Trouxe minha esposa aqui para conhecer as lojas locais, e mostrar a ela que os estilistas auranianos não são os únicos capazes de criar vestidos maravilhosos.
Sua esposa? Aquela palavra, saída dos lábios de Magnus, sempre provocava um arrepio na garota.
E, Cleo tinha que admitir, ele sabia mentir muito bem — quase tão bem quanto ela mesma.
— É verdade. — Lady Sophia concordou com entusiasmo. — Ah, que divertido! Adoro receber convidados de honra em minha quinta!
Ah, sim. Muito divertido.
A quinta de lady Sophia era muito mais grandiosa do que Cleo esperava. Era tão grande quanto a maioria das quintas da Cidade de Ouro, só que a decoração era bem menos elaborada. Paredes pintadas de branco, poucas obras de arte, pisos lisos não adornados. Mas era confortável.
E aconchegante. Ela tinha esquecido como um exterior frio podia fazer alguém apreciar o calor do lado de dentro. Era um pensamento que nunca havia lhe ocorrido em Auranos, onde lareiras eram usadas apenas para decoração.
Os dois logo foram conduzidos por criados até a sala de jantar, onde se sentaram a uma grande mesa.
— Humm. Senti falta do sabor do kaana todos esses meses — Magnus disse durante o jantar, com uma expressão um pouco dura.
— Minha cozinheira se preocupou com isso — lady Sophia disse da outra ponta da longa mesa. — Sei que seu pai ficaria satisfeito em saber que continuamos incluindo a iguaria oficial limeriana na maioria das refeições. O que achou, princesa?
Cleo olhou para a meleca amarelada que adornava seu prato, ao lado de um frango que havia passado do ponto e aspargos molengas. Iguaria limeriana? Kaana tinha gosto de alga podre.
— Delicioso — ela respondeu.
— Como está sua irmã, príncipe Magnus? — lady Sophia perguntou enquanto as criadas completavam os cálices com néctar de pêssego.
Magnus limpou o canto da boca com o guardanapo.
— Encantadora, como sempre.
— Ainda não está prometida a ninguém?
Ele ficou sério.
— Pode-se dizer que não.
Era verdade. Casamentos às escondidas dispensavam noivado.
Cleo tentou comer mais um pouco do repulsivo kaana, forçando-se a engolir.
— Meu filho Bernardo continua solteiro, acredite se quiser — ela disse, com um sorriso vivaz. — Nunca desistirei de meu sonho de unir nossas famílias pelo matrimônio.
— Nem eu, lady Sophia.
Cleo achou a mulher muito divertida. Ela parecia completamente alienada a tudo e todos ao seu redor. Ainda assim, era totalmente sincera em seus comentários e suas perguntas. Cleo precisava de mais ladies Sophia em sua vida.
O semblante da mulher se transformou de repente, como se uma nuvem encobrisse a luz de seu sol interno.
— Quero oferecer minhas mais profundas condolências pelo falecimento de sua mãe, vossa alteza. A rainha Althea foi uma querida amiga durante muitos anos e, tenho certeza, uma mãe maravilhosa e dedicada para você e para a princesa Lucia.
Magnus assentiu, rígido, concentrando-se apenas no prato.
— Obrigado pelas gentis palavras. Ela era mesmo uma mulher especial.
Cleo o observou do outro lado da mesa. A menção à rainha fizera surgir uma ponta de sofrimento em seus olhos, mas era algo contido, assim como todo o resto.
Ela ainda acreditava que o mandante da morte da rainha só podia ter sido o rei. Será que Magnus também achava? E, se sim, teria confrontado o pai? Se tivesse, não havia resultado em nada. Ela imaginava que apenas mais mentiras haviam saído dos lábios do rei para dissipar as suspeitas de Magnus.
O rei mentia para conseguir o que queria, para todos e qualquer um.
Cleo só mentia para proteger a si mesma e aqueles com quem se preocupava. E continuaria fazendo isso pelo tempo necessário, sem constrangimento nem remorso.
O que fosse preciso para sobreviver. Sua luta ainda não havia chegado ao fim. Estava longe disso.
— Espero que não considerem muito displicente — lady Sophia disse enquanto acompanhava Cleo e Magnus a seus aposentos. O rosto um pouco enrugado da mulher finalmente começava a mostrar sinais de preocupação, e ela passou as mãos com nervosismo pelo cabelo grisalho ao chegar à porta. — Se eu soubesse que viriam, teria feito preparativos muito mais adequados.
— Não, está perfeito. — Cleo segurou as mãos de lady Sophia e as apertou. — Obrigada pela maravilhosa hospitalidade.
— Fique à vontade, princesa. Volte sempre que quiser! — Lady Sophia ficou radiante. — Boa noite.
— Boa noite.
Ela fechou a porta, deixando-os a sós.
— Isso é absolutamente ridículo — o príncipe resmungou. — Nem devíamos estar aqui. Estamos desperdiçando um tempo precioso.
— Está nevando. — Cleo lembrou a ele.
Ele olhou pela janela.
— Está sempre nevando em Limeros.
— Vamos encontrar Lucia amanhã de manhã. Além disso, tenho certeza de que ela e Ioannes também pararam em algum lugar para se abrigar.
— Sim, muito obrigado por me lembrar que minha irmã está em algum lugar sozinha com ele.
Seria ciúme? Ou apenas preocupação com a segurança dela? Cleo não tinha certeza.
— Está ficando tarde. Não quero atrapalhar seu sono de beleza. — Magnus deu uma olhada no quarto, parando ao ver a cama com dossel. — O chão é todo seu.
Ela tinha certeza de que lady Sophia não imaginava que a decisão sobre quem ficaria com a cama era algo que jovens recém-casados teriam que discutir, mas sem dúvida seria um problema.
Quando Cleo não respondeu, Magnus franziu a testa.
— Não vai retrucar, princesa? Estou decepcionado.
Discutir não resolveria nada no momento, e só os faria perder tempo.
— O que vai acontecer amanhã? — ela perguntou.
— É simples. Vamos encontrar Lucia. Vamos impedi-la de cometer o terrível erro de se casar com Ioannes ou ajudá-lo a invocar o cristal. E depois vou matá-lo.
Ela o encarou. Essa era a solução de Magnus para todos os problemas?
— É um pouco precipitado, não acha?
— É mesmo? Ele está usando a Lucia. Sempre esteve, esse tempo todo. Acho que pelo menos nesse ponto concordamos.
— Isso não quer dizer que ele merece morrer.
— Bem, nisso temos que discordar.
Ele estava sendo tão desagradável naquela noite, mais do que de costume, o que já era bastante.
— E o cristal?
— Eu não saio de Limeros sem ele.
— Você.
— Sim, eu. O que foi? — Ele inclinou a cabeça. — Achou que ia ganhar o cristal de presente? É meu. Sempre foi meu.
— E do seu pai, você quis dizer.
— Não. Dele não. — Magnus foi até a janela e olhou para fora. — Parece que lady Sophia estava enganada. As nuvens estão indo embora, a neve está parando de cair. E a lua cheia está aparecendo. Ela vai ajudar a iluminar nosso caminho quando partirmos para o templo hoje à noite. Lady Sophia terá que conviver com minha grosseira falta de consideração por sua hospitalidade.
De repente, Cleo se deu conta de que ela e Magnus finalmente estavam sozinhos, sem ninguém escutando. Privacidade total.
Era hora de chegar à verdade dos fatos.
— Por que fez isso? — Cleo perguntou, com o estômago embrulhado, e não só por causa da refeição que tinha se forçado a engolir para ser educada.
Ele nem se virou.
— Fiz o quê, princesa?
Ela se obrigou a soar confiante, mantendo o queixo elevado.
— Não consigo entender. Estou pensando nisso há dias, e ainda não faz sentido. Com base em seu comportamento ressentido e por mal ter olhado na minha cara desde que saímos de Auranos, só sei com certeza que se arrependeu de salvar minha vida. Claro, por que não se arrependeria? Foi a decisão mais idiota e mais irresponsável que poderia ter tomado, e sei que seu pai nunca vai perdoá-lo.
Magnus se virou e a encarou de frente. Em seu rosto, uma irritante máscara de indiferença, como se estivesse discutindo algo tão sem importância quanto o clima.
— Meu pai me perdoará por qualquer coisa, se lhe for dado tempo suficiente. Os filhos são uma de suas poucas fraquezas. É uma coisa que só percebi recentemente.
Na opinião de Cleo, Magnus superestimava muito a capacidade de perdão do rei.
— Você assassinou Cronus. O rei o valorizava mais do que qualquer outro guarda.
— Eu não tive outra escolha. Ele não pouparia sua vida, mesmo com ordens minhas. Cronus já tinha recebido um comando direto do rei e nunca deixaria de obedecer meu pai. Jamais. E o outro guarda… bem, estava no lugar errado, na hora errada. Teve azar. — Magnus sacudiu a cabeça. — Não quero falar sobre isso.
Para ela, não importava se ele queria ou não falar sobre o assunto. Precisava de respostas e não ia desistir.
— Por mais que seja doloroso admitir, sua vida seria muito melhor se tivesse deixado ele me matar. Nada mais de casamento falso, preocupações de que seus segredos sejam expostos, ameaças ao trono roubado por seu pai.
Ele se concentrou na manga do casaco, tentando pegar um fio invisível como se fosse a tarefa mais importante do mundo.
— Você sabia onde eu poderia encontrar Lucia e o cristal da água. Eu precisava da informação. E, quando voltar com ambos, meu pai vai entender por que fiz o que fiz.
— Só contei do cristal depois.
— Então não tenho mais nenhuma explicação que a satisfaça.
Cleo resmungou.
— Você é a pessoa mais frustrante que conheço.
— Mais frustrante que Jonas Agallon? — Magnus franziu a testa. — Eu o conheci, sabe, então acho difícil acreditar. O rebelde é um tanto quanto frustrante.
Ele ainda acreditava que Cleo tinha se encontrado com Jonas, que ajudara o líder rebelde, apesar das firmes recusas. Ela não podia revelar a verdade agora; não serviria para nada. Suas negociações com os rebeldes seriam seu segredo… e de Nerissa e Nic.
— Você acha que ajudei um rebelde e ainda assim poupou minha vida. Deve querer alguma coisa, alguma coisa além do cristal. Além de minha ajuda para encontrar Lucia.
Os olhos dele foram tomados por uma raiva repentina.
— Por que se importa com Lucia? Você disse que ela tentou matá-la.
Quando esteve nos aposentos de Lucia, Cleo teve certeza de que ia morrer. Não conseguia respirar nem se mexer; estava indefesa diante da fúria da feiticeira. Ainda assim, não conseguia odiar Lucia. Na verdade, sentia muita pena da garota. Havia tanta magia dentro dela, o suficiente para afogá-la se não tomasse cuidado.
— Eu me importo com Lucia. E não quero que nada ruim aconteça com ela. Agora, me responda, Magnus. O que quer de mim?
— Absolutamente nada.
— Então por quê? Me dê um bom motivo para não deixar Cronus me matar.
Ao contrário do que ela esperava, Magnus não saiu do quarto, não a arrastou para fora nem bateu a porta. Simplesmente ficou ali parado, com os braços ao lado do corpo, a atenção fixa em alguma coisa na parede, atrás do ombro dela.
Seu semblante era de dor, como se não suportasse olhar diretamente para ela.
— Quer mesmo saber? — ele perguntou.
— Sim. Quero muito.
Ele ficou em silêncio por tanto tempo que Cleo não sabia se algum dia ele voltaria a falar.
— A vida toda, tudo o que sempre quis foi ser igual ao meu pai — ele começou a relatar em tom monótono. — Queria seguir seus passos, ser forte. Inteligente. Astuto. Perspicaz. Intimidante. Implacável. Queria ser respeitado e temido. Ter seu poder e sua influência. O que mais haveria para alguém como eu, herdeiro de seu trono? Sem isso a que aspirar, não tenho nada. Não sou nada.
Aquilo não era coisa que se dissesse. Ele fora criado como um príncipe, crescido com privilégios, precisava ter mais autoestima.
— Você está errado.
Ele ergueu a mão para silenciá-la.
— Sempre me disseram que eu parecia com ele, falava como ele… eu, basicamente, sou ele. Mas por mais que eu tente, sempre fracasso. Porque, no fundo, nos aspectos em que preciso ser mais forte, sou fraco.
Cleo permaneceu em silêncio, ouvindo com atenção. Quase sem respirar.
— Quer saber por que fiz aquilo? — Suas sobrancelhas escuras se uniram como se só agora se permitisse pensar no assunto. — É bem simples, na verdade. É que, sem sua coragem diante do que aconteceu com você, sem suas tramas constantes pelas minhas costas, sem aquele fogo de ódio e desprezo e esperança em seu rosto quando olha para mim… — Ele soltou um suspiro. — Debaixo da sombra que meu pai sempre fez sobre mim, você é a única luz que consigo enxergar. E, custe o que custar, me recuso a deixar essa luz se apagar.
Cleo só conseguiu olhar para Magnus, até que ele fez uma careta e se virou.
— Satisfeita, princesa? Agora pare de me fazer perguntas idiotas.
Assim que o choque começou a passar, um ataque incontrolável de riso escapou da garganta de Cleo. Enquanto a princesa ria, Magnus olhava para ela, e um lampejo de dor passou por seu rosto antes que ele pudesse contê-lo.
— Isso mesmo, princesa. Ria de mim. Afinal, é engraçado.
Ela riu até lágrimas começarem a escorrer por seu rosto, histérica. Respirando fundo, disse:
— É que… Nic disse uma vez…
— O que foi que Nic disse? Pode me contar?
Cleo se recompôs rapidamente quando uma mão invisível agarrou seu pescoço, apertando com força, quase impedindo-a de respirar.
— Que achava que eu estava me apaixonando por você.
Magnus olhou fixamente para ela.
— Que coisa mais idiota para se dizer.
— Eu sei. Porque não estou. Jamais. Como poderia? Odeio você.
No instante seguinte, ela estava beijando Magnus, sem nem ao menos saber quem tinha dado o primeiro passo. Tinha acontecido tão rápido, e não havia como parar. Os lábios dele pressionavam os dela, as mãos de Cleo apressavam-se sob a camisa dele, passeando pelos ombros e subindo para o cabelo. Magnus a puxou para mais perto, até que não houvesse mais nenhum espaço entre os dois.
O beijo era desesperado. Até mesmo violento.
Mas com razão. Fazia muito tempo que uma tensão se formara entre eles, conforme a batalha interna sobre esse garoto que havia destruído sua vida se tornava cada vez mais furiosa dentro dela. Esse garoto que salvara sua vida, que era cruel e gentil, forte e fraco. Que era egoísta e altruísta ao mesmo tempo. Esse garoto que havia, em um único momento de medo e fraqueza, tirado algo tão especial dela. Cleo sabia que nunca poderia perdoá-lo por isso. Era o garoto com quem fora obrigada a se casar em um templo destruído, cercada por cadáveres e um oceano de sangue. Era o garoto que agora a beijava sem restrições, como se estivesse morrendo e ela fosse o ar que podia respirar.
Uma batida forte na porta a assustou e a fez se afastar dele. Cleo olhou nos olhos de Magnus e tocou os próprios lábios inchados. Ele retribuiu o olhar, sem nenhuma máscara invisível para encobrir seu estado de choque.
Finalmente, ele se virou e foi até a porta. Abriu-a com tanta força que ela ficou surpresa por não ter quebrado as dobradiças.
A princesa Amara estava na porta, com um sorriso no rosto. Ela olhou para Cleo, atrás de Magnus.
— Interrompi alguma coisa? — ela perguntou. — Peço desculpas, é claro, mas isso não podia esperar.
Cleo demorou um instante para registrar completamente que a princesa estava ali parada, bem na sua frente. Ali, do outro lado de Mítica, na casa de uma mulher que tinham encontrado por acaso.
Não podia ser real.
— O que está fazendo aqui? — Magnus perguntou. — Como nos encontrou?
Ela deu de ombros.
— Tenho muito talento para negociações. As pessoas revelam muitos segredos pela quantia certa de ouro. E aqui estamos. Seria adorável se vocês dois pudessem me acompanhar até o andar de baixo.
— Que andar de baixo? — Cleo perguntou com cuidado, embora soubesse que não podia ser nada bom.
Sabia que Amara os seguira, assim como tinham seguido Lucia.
— Venham ver.
Cleo não estava gostando daquilo, mas não tinha escolha além de fazer o que a princesa estava pedindo.
No salão central de lady Sophia estavam seis guardas kraeshianos de uniforme verde, juntamente com o príncipe Ashur e… Nic?
Lá estava ele, encurvado, as mãos amarradas nas costas.
— Nic! — Cleo tentou se aproximar, mas um guarda estendeu o braço para impedir que chegasse muito perto. — O que fizeram com você? Está tudo bem?
— Cleo — ele conseguiu dizer, olhando com ódio para Ashur e Amara. — Estou vivo, o que já é um começo.
Outro guarda segurava lady Sophia, trêmula e pálida, pelo braço. O coração de Cleo se contorceu pela mulher gentil que não tinha feito nada para merecer um tratamento tão grosseiro.
— O que é isso? — Magnus perguntou com um tom de alerta na voz.
— Mais uma de minhas negociações. — Amara se aproximou de Ashur. — Uma questão que viemos até Limeros para discutir, infelizmente. Não é um lugar que escolheria visitar, se dependesse de mim. Mas aqui estamos.
— Que tipo de negociação?
— Tentamos fazer da maneira agradável. Oferecemos uma aliança a Cleo, mas não podíamos esperar para sempre uma resposta, não é? E, Magnus, fiz o possível para conquistar sua confiança, mas sabia que seu coração não estava presente. Uma pena. Não perco meu tempo nem minha atenção com rapazes que não posso manipular. Acho que até poderia ter conseguido uma poção do amor, mas qual seria a graça disso?
— Estamos todos aqui em busca da mesma coisa — Ashur disse. Seus olhos azul-acinzentados estavam duros e fixos em Cleo. — A Tétrade.
O príncipe era tão frio e calculista quanto a irmã, e ganancioso na mesma medida. Mesmo se Cleo tivesse concordado com os termos deles, não poderia confiar naqueles dois. Assim que conseguissem o que queriam, com certeza a trairiam.
Ela olhou para Nic e observou seu rosto em busca de ferimentos, mas não viu nada. Até os hematomas e cortes da surra terrível que tinha levado dos guardas tinham desaparecido nesse meio-tempo.
Sinto muito, Nic, ela disse em silêncio. É tudo culpa minha.
Os kraeshianos sabiam como ele era importante para Cleo. Agora usariam isso sem nenhum escrúpulo para manipulá-la.
— A Tétrade? — Magnus disse. — Sinto decepcioná-los, mas estamos atrás da minha irmã que, num ato insensato, resolveu fugir com seu tutor. Queremos impedir que ela faça algo de que se arrependa para sempre.
— É claro. O tutor. — Amara assentiu. — Primeiro, vamos esclarecer uma coisa: sei o que Lucia é e o que pode fazer. Sei sobre o cristal da terra no Templo de Cleiona, e que vocês não conseguiram chegar a tempo de reivindicá-lo primeiro. Então… podemos prosseguir?
— Nic… — Magnus disse com calma. — Você não é muito bom em guardar segredos, é?
Nic o ignorou.
— Soltem Cleo. Faço o que vocês quiserem.
— Você já cumpriu sua função — Ashur disse com frieza. — Já não tem mais serventia.
— Agora — Amara disse, voltando a sorrir. — Não há por que discutir. Temos certeza de que estão aqui em busca de outro cristal localizado por Lucia. Nós o queremos, e vocês nos levarão até ele.
— Nic vai ficar aqui com essa mulher — Ashur disse, indicando lady Sophia com a cabeça. — Vamos deixar um guarda para vigiá-los e garantir que não causem problemas.
— Falando em guardas — Magnus disse —, também tenho alguns, sabia? Eles devem chegar a qualquer momento.
Cleo olhou para ele, mas ficou em silêncio. Estava blefando. Nenhum guarda os acompanhara de Auranos até ali. Os dois estavam por conta própria, sem proteção.
— Deixe que venham — Amara disse. — Vou oferecer tanto ouro a eles que posso garantir que não me darão motivos para derramar mais sangue do que o necessário esta noite.
A expressão de Magnus se tornou sombria, mas ele não retrucou.
— Vamos logo com isso — Ashur acenou para um guarda.
O guarda colocou a ponta da espada no pescoço de Nic, e Cleo não pôde conter um grito.
— Não! Poupem a vida dele. Por favor.
— Vocês vão nos levar até o cristal? — Ashur perguntou.
Ela estava prestes a falar, a contar tudo para salvar seu amigo, mas Magnus falou primeiro.
— Muito bem. Saímos assim que amanhecer — ele afirmou.
— Não — Ashur respondeu. — Vamos sair agora. Só precisamos saber para onde.
O olhar de Magnus era afiado o bastante para matar, mas ele não disse nada.
Amara fez sinal para o guarda que estava com Nic.
— Corte o pescoço dele.
— Não, espere! — Cleo berrou. — Não o machuque, por favor! O Templo de Valoria, é lá que está o cristal. Mas saibam que não temos nenhuma garantia de que Lucia já não tenha chegado lá e o invocado.
— É um risco que estamos dispostos a correr. — Ashur acenou para o guarda, que finalmente soltou Nic.
Ela teve que contar, teve que revelar o que queriam saber. A vida de Nic valia mais do que um cristal.
— Então vamos indo. — Amara foi até Magnus, estendeu o braço para tocar seu queixo e puxou seu rosto para baixo até olhar em seus olhos. — Não subestime o que estou disposta a fazer para conseguir o que quero. E o que quero é a Tétrade. Mesmo um quarto dela serve por enquanto. Eu mataria para conseguir. Entendeu?
— Ah, sim, princesa — ele respondeu por entre os dentes. — Entendo mais do que imagina.
Amara olhou feio para Cleo.
— Viu como seria muito melhor ter me recebido como amiga?
— Prefiro receber um porco coberto de furúnculos — Cleo respondeu. — Seria uma alternativa mais agradável do que você.
Amara riu, depois apontou para o guarda que segurava lady Sophia.
— Você fica. Os outros nos acompanham. E Cleo, Magnus… se vocês se comportarem, pode ser que vivam para ver o nascer do sol.

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