29 de setembro de 2018

Capítulo 28

HAVIA AREIA SOB MINHAS COSTAS, e eu fitava o céu. A mesma cor dos meus olhos, dos olhos de Noorsham. Ele tinha me derrubado da montanha.
Era uma queda de seis metros. Eu deveria estar morta. Mas lembrei da areia subindo para me pegar, justo quando estava perdendo a consciência.
Me arrastei até me apoiar nos cotovelos, meu corpo todo protestando. Acima, podia ver Jin e Shazad esticando o pescoço. Ele avançou como se fosse saltar em minha direção, mas Ahmed o puxou, tirando-o do caminho de uma bala. Ahmed e Maz tinham aterrissado com segurança. Por que não estavam correndo? Por que não estavam voando para longe? Os gêmeos estavam feridos demais?
Outra bala acertou perto do meu cotovelo.
Rolei por instinto. Procurei minha arma com dificuldade. Provavelmente tinha deixado cair na queda.
O pequeno exército de Naguib subia a montanha, em direção ao nosso bando. Não seria uma luta justa mesmo sem um demdji, mas eles ainda tinham Noorsham. Eu podia vê-lo agora. Seria uma linha direta de tiro se eu tivesse uma arma.
Mexi meus dedos doloridos. O sheema vermelho ainda estava amarrado na minha mão direita como uma atadura. Eu o desatei rapidamente, enrolando-o em torno do pescoço. Senti a areia se mexer à minha volta em resposta a cada movimento. Eu não tinha a menor ideia do que estava fazendo. Passara os últimos dezesseis anos armada, não como uma demdji. Vira o que Hala fazia, criando mundos novos dentro da cabeça das pessoas. Delila dobrando a realidade. Noorsham transformando o mundo em fogo.
Como se fosse algo instintivo.
Usar uma arma era instintivo para mim, mas aquilo não. Era um poder bruto que fazia parte de mim, não algo que eu havia aprendido. Algo muito antigo que me atraía em direção à areia. A linhagem do meu pai, que se prolongava até uma época anterior à morte.
Através da areia, meus olhos encontraram os de Noorsham. Ele estendia uma mão flamejante em direção aos meus amigos. Ia queimá-los vivos.
Levantei as mãos em um gesto rápido, canalizando cada fiapo de energia e concentração para meu recém-descoberto poder. A areia se levantou como uma parede, separando Noorsham do resto dos homens de Naguib e dos meus amigos.
A euforia me percorreu. Eu tinha conseguido. Meu corpo todo estava tremendo. O suor do esforço descia pelo meu rosto. Eu sentia o gosto de bile subindo na minha garganta. Noorsham estava certo. Eu era como ele. Aquele era o tipo de poder capaz de destruir cidades. Um poder que eu não conseguia dominar. Que poderia sair do controle facilmente, acabando com uma cidade retrógrada do Último Condado. Capaz de encher um mar de areia por rancor.
Levantei a areia ainda mais alto, isolando definitivamente Noorsham e eu. Estávamos de um lado, o exército de Naguib e os rebeldes do outro.
Agora a luta era justa.
Noorsham ergueu as mãos e o chão aos meus pés ficou preto. Cambaleei para trás. Além da barreira de areia ouvi o som de um tiro e um grito. Rezei para que a bala tivesse encontrado um dos homens de Naguib.
Noorsham se virou em direção ao som. Calor irradiou dele, atingindo a parede de areia revolta.
Levantei os braços, fechando os olhos com força mesmo quando a areia virou vidro, salpicando meus braços, minha cabeça e minhas pernas. Quando abri os olhos, meus braços estavam sangrando.
— Amani. — A voz de Noorsham ecoava de dentro da armadura de bronze. — Por que está lutando contra mim? Não é atrás de você que estou. É deles. — Ele abriu bem os braços, abrangendo os soldados gallans e a rebelião.
— Eles e uma cidade inteira do seu próprio povo.
Eu tinha que levá-lo para longe dali. Dei um passo vacilante para trás, arrastando a parede de tempestade de areia comigo, forçando Noorsham para a frente. Afastando-o da luta. Aquilo se resumia a nós dois.
Aquilo era assunto dos demdji. Nós cuidávamos uns dos outros.
Senti uma dor lancinante na perna, onde uma bala havia acertado minha panturrilha de raspão.
Gritei e caí de joelhos.
Só o toque de ferro foi suficiente.
Perdi o controle sobre a areia. A tempestade nos separando desabou. Prendi a respiração, tentando sustentá-la, mas não consegui.
Eu podia ver a luta agora. Rebeldes contra o exército de Naguib. Metade dos inimigos lutava contra oponentes invisíveis, que só existiam graças a Hala. Os gêmeos mudavam de uma forma para outra, de grandes animais com pele de couro para pequenos pássaros cravando as garras nos olhos de alguém. Shazad lutava com dois homens ao mesmo tempo, suas espadas girando rápido num borrão que ia do aço ao vermelho. Jin e Ahmed estavam de costas um para o outro, movimentando-se em sincronia como se tivessem feito aquilo a vida toda. Provavelmente tinham mesmo. Eles estavam se virando bem. Mas Noorsham já fazia menção de ir até eles, pronto para aniquilar o campo de batalha. Chamei meu poder novamente. O cano de uma arma na nuca me interrompeu. O toque do ferro me tornou humana novamente.
— Coloque as mãos na cabeça. — Reconheci o sotaque carregado do general Dumas sem nem precisar olhar.
Obedeci.
Foi uma questão de instantes até ser cercada por duas dúzias de soldados gallans, armados e protegidos por armaduras. Prontos para a batalha.
Meus olhos estavam fixos em Noorsham. Ele estava de pé, completamente imóvel a alguns passos de distância. Por sorte, ainda estava de costas para a luta entre seu exército e meu bando de rebeldes. Inclinava a cabeça para o lado enquanto me observava com os gallans.
O general Dumas me rodeou devagar, sem nunca afastar o cano da arma da minha pele, até que estivesse apontada diretamente para a minha testa. Naquele instante ele bloqueava minha visão da luta. E também não me deixava ver Noorsham.
O general arrancou o sheema do meu pescoço e o passou a alguém, para me vendar.
A última coisa que vi antes de o mundo desaparecer foi o general erguendo a arma para me matar.
Fechei os olhos.

5 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!