23 de setembro de 2018

Capítulo 28

MAGNUS
AURANOS

Magnus e Cleo seguiram o curso do rio até o vilarejo mais próximo. Assim que chegaram, roubaram um par de cavalos e foram até Viridy, onde Magnus esperava que Ashur e Valia os encontrassem.
O peso do anel na mão do príncipe parecia maior do que antes. Ele sabia que era poderoso o bastante para salvar a vida de quem o usasse, mas não sabia que também era capaz de tirar uma vida…
O anel também tinha afetado Kyan, dando a Magnus a chance de fugir dele. O anel tinha causado dor em Cleo quando esteve em seu dedo por um instante.
O que mais ele pode fazer?, Magnus se perguntou, sério.
Quando se aproximaram do destino, Magnus percebeu que Cleo o observava, segurando com firmeza as rédeas do cavalo.
— Você está bem? — ela perguntou. — Depois… depois do que aconteceu com Kurtis?
— Se eu estou bem? — Ele arregalou os olhos. — Você está possuída por uma deusa da água maléfica que quer ajudar os irmãos a destruir o mundo, mas está preocupada comigo?
Ela deu de ombros.
— Acho que sim.
— Estou bem — ele garantiu.
— Ótimo.
Cleo tinha lhe contado no caminho que a deusa da água podia falar com ela e que pedia, dentro de sua cabeça, que deixasse as ondas a levarem durante os episódios de afogamento. Que cedesse o controle de seu corpo.
Magnus ficou furioso por não saber como salvá-la daquele demônio que queria roubar sua vida. Cleo também contara que Nic tinha recobrado a consciência o bastante para deixá-la escapar do templo. Que lhe dissera para destruir as esferas. Que as quatro eram as âncoras físicas da Tétrade no mundo. Que sem elas, os deuses seriam derrotados.
Magnus não acreditara a princípio, convencido de que tinha sido um truque de Kyan para manipulá-la. Mas Cleo tinha certeza de que era Nic. Tanto que Magnus interrompera a viagem para pegar a esfera de água-marinha que ela levava e tentar quebrá-la com uma pedra. Tinha tentado até as mãos sangrarem e os músculos ficarem doloridos, mas não adiantara. A esfera continuava intacta, sem nem mesmo uma rachadura. Ele tinha danificado o cristal da terra no passado, jogando-o contra uma parede de pedra do palácio limeriano em um acesso de raiva. Aquilo desencadeara um terremoto.
Mas, Cleo o fez lembrar, que tinha sido quando a deusa da terra estava dentro da esfera de obsidiana. Um cristal que tinha consertado os próprios danos depois que a deusa escapara de dentro dele.
Era mais que obsidiana, ele percebeu. Mais que água-marinha. As esferas eram elementos de magia.
E, apesar do desejo inicial de encontrar aqueles tesouros inestimáveis e onipotentes, Magnus odiava cada um deles, porque sua mera existência ameaçava a vida da mulher que ele amava mais do que tudo e todos no mundo inteiro.
Ele sabia que Cleo não era uma garota indefesa. Longe disso. Ele a vira se defender tanto verbal quanto fisicamente no passado. Mas a ameaça não era simples como escapar da lâmina de um assassino ou disparar flechas na garganta de inimigos à queima-roupa em uma busca desesperada por sobrevivência.
Eles precisavam de uma feiticeira.
Mas teriam que se contentar com uma bruxa poderosa.
Os dois entraram em Viridy assim que a luz do sol da manhã começou a se mover pelo grande vilarejo. Os cascos dos cavalos batiam nas pedras reluzentes da estrada, cercada por construções e quintas. Era muito parecido com o labirinto da Cidade de Ouro — era possível se perder, se a pessoa não prestasse atenção. Magnus se forçou a se concentrar, a se lembrar do caminho que deveria tomar para chegar a seu destino. Por fim, e felizmente, chegaram à hospedaria e taverna no centro do vilarejo, aquela com o nome gravado em dourado numa placa de madeira: Sapo de Prata.
Deixando os cavalos com um cocheiro, Magnus conduziu Cleo até a entrada da taverna, quase vazia, exceto por uma pessoa sentada à mesa no canto, perto da lareira. Ao vê-los, Ashur se levantou.
— Você conseguiu — ele disse para Cleo, segurando as mãos dela, aliviado.
— Sim — ela respondeu.
— E viu Kyan… — ele arriscou.
Cleo confirmou.
— Vi. E Nic… ele ainda está aqui, e consegui falar com ele por alguns instantes. Ele me ajudou a fugir. Está lutando com todas as forças.
Ashur desabou sobre a cadeira.
— Ele não se foi.
— Não. Ainda há esperança.
— Fico muito feliz em ouvir isso — ele sussurrou.
— Onde está Valia? — Magnus perguntou, observando a taverna escura. — Você reservou um quarto para ela na hospedaria?
— Ela não está aqui — Ashur respondeu.
Magnus encarou o kraeshiano.
— O quê?
Então notou as bandagens ensanguentadas enroladas nas mãos de Ashur.
— Tentei invocá-la — Ashur afirmou. — Várias vezes. Segui as instruções perfeitamente, mas ela não apareceu.
Magnus abaixou a cabeça, pressionando as mãos contra as têmporas.
— Onde está Bruno? — ele perguntou. — Está aqui?
Ashur assentiu.
— Está.
— Quem é Bruno? — Cleo perguntou.
— Bruno! — Magnus gritou a plenos pulmões.
O homem saiu da cozinha, secando as mãos num avental sujo. Linhas profundas saíam do canto de seus olhos quando abriu um sorriso ao vê-los.
— Príncipe Magnus, que prazer em vê-lo de novo! — Ele viu Cleo e arregalou os olhos. — Ah, e trouxe sua bela esposa desta vez. Princesa Cleiona, é uma grande honra.
Bruno fez uma reverência profunda diante da garota.
— É um prazer conhecê-lo também — Cleo disse com gentileza quando ele endireitou o corpo, ajeitando distraidamente uma mecha de cabelo atrás da orelha.
Magnus ficou consternado ao ver que as linhas azuis tinham avançado ainda mais ao longo da lateral esquerda da cabeça.
Ele alternou o olhar de Cleo para Bruno.
— Onde está Valia?
— O príncipe Ashur me fez a mesma pergunta ontem à noite — ele respondeu. — E tenho a mesma resposta: não sei.
— Ashur tentou invocá-la, mas não deu certo — Magnus disse.
— Às vezes não funciona. Valia escolhe quando e onde aparecer. — Ao ver a expressão de fúria no rosto de Magnus, o velho deu um passo para trás. — Peço desculpas, vossa alteza, mas eu não a controlo.
— Nem sabemos se ela poderia ajudar — Ashur disse. — Temos apenas esperança.
— Esperança — Magnus murmurou. — Aquela palavra inútil de novo.
— Não é inútil — Cleo disse. — Esperança é poderosa.
Magnus balançou a cabeça.
— Não, uma feiticeira é poderosa, e é disso que precisamos. Valia também foi inútil, uma perda de tempo. Preciso encontrar Lucia.
— Onde? — Ashur disse em um tom cortante. — Ela partiu há uma semana e não mandou nenhuma mensagem. Está seguindo sua própria jornada, Magnus, que não tem a ver com a nossa.
— Você está errado! — Magnus atirou as palavras em Ashur como armas, esperando machucá-lo. — Minha irmã não vai nos abandonar. Não agora. Não quando mais preciso dela.
Mas ele precisava admitir que, no fundo, não acreditava mais naquilo. Lucia tinha partido, e Magnus não sabia quando, e nem se, ela voltaria.
E Cleo…
Ele se virou para a esposa. Sua expressão sincera e esperançosa partiu o coração dele. Magnus soltou um grito de raiva, pegou uma pesada mesa de madeira e a virou.
Bruno cambaleou para trás, horrorizado.
A força aumentada de Magnus — a força que ele adquirira desde que saíra do próprio túmulo — era cortesia da pedra sanguínea.
Uma poderosa magia da morte existia dentro do anel que estava em seu dedo. Mas a magia da morte não podia ajudar Cleo.
— Magnus — ela disse com severidade, tirando-o de seus pensamentos. — Preciso falar com você em particular. Agora.
Magnus sabia que Cleo estava zangada com ele por assustar Bruno, por agir com desrespeito e ingratidão com Ashur. Por querer destruir tudo o que o estava impedindo de encontrar as respostas necessárias para salvar a garota à sua frente.
Que se o resto do mundo explodisse; ele só se importava com Cleo.
Emburrado, ele a seguiu até um quarto da hospedaria que Bruno havia rapidamente disponibilizado para eles.
— O que tem para me dizer em particular? — ele perguntou quando Cleo fechou a porta. — Quer me repreender por meu comportamento lá fora? Quer que eu seja racional e tenha esperança como você? Quer me fazer acreditar que ainda temos chance de consertar as coisas?
— Não — ela respondeu apenas.
Ele franziu a testa.
— Não?
Cleo balançou a cabeça.
— Não é nada disso.
Magnus respirou fundo.
— Eu fui um idiota com Bruno.
— Foi, sim.
— Acho que eu o assustei.
Ela concordou.
— Você pode ser bem assustador.
— Sim. E também posso estar assustado. E estou, neste instante. — Magnus segurou as mãos dela, encarando seus olhos. — Quero ajudar você.
Lágrimas se formaram nos olhos dela.
— Eu sei.
— O que vamos fazer, Cleo? — Ele odiava a fraqueza que transparecia em sua voz. — Como posso salvá-la disso?
Ela franziu a testa.
— Ela está falando comigo agora mesmo, a deusa da água. Quer que eu deixe você e volte para Kyan. Está dizendo que o deixei extremamente zangado ao fugir quando ele estava tentando me ajudar.
Magnus a segurou pelos ombros e encarou seus olhos verde-azulados.
— Escute aqui, demônia, você precisa sair da minha esposa agora mesmo. Saia por vontade própria e encontre outro corpo para sequestrar, não me importa de quem. Mas deixe Cleo em paz, ou juro que vou destruí-la!
Cleo franziu ainda mais a testa.
— Ela está achando engraçado.
Magnus nunca tinha odiado tanto algo em toda a vida, nem se sentido tão impotente.
— Não sei o que fazer.
Cleo segurou as mãos dele.
— Espere… Nic… ele me disse que, quando você encontrou Kyan na floresta, depois que escapou do túmulo, você encostou nele. E isso que você fez foi o que o despertou e permitiu que começasse a lutar com Kyan pelo controle. — Cleo levantou a mão de Magnus. — É por causa desse anel. Só pode ser.
— Sim — ele sussurrou, refletindo. — Eu sei.
— Os elementia são a magia da vida — ela disse. — E seja lá o que isso for e de onde vem, é o oposto.
Ele concordou.
— E daí? Vou pedir para Kyan colocar o anel e ver o que acontece?
— Não — ela disse no mesmo instante. — Ele o mataria antes que você se aproximasse.
Magnus a encarou.
— Pode valer o risco.
— Você não vai fazer isso — ela disse com firmeza. — Vamos encontrar outra forma.
— Acha que é simples assim?
— Sei que não é. — Ela mordeu o lábio, depois foi até a janela que dava para a rua de Viridy em frente à hospedaria, movimentada com cidadãos que saíam de casa para iniciar o dia. — Magnus, já desejou voltar no tempo, para antes disso tudo acontecer? Para quando a vida era normal?
— Não — ele respondeu.
Ela ficou surpresa.
— Apenas não?
— Apenas não.
— Por quê?
— Porque muitas coisas mudaram para que eu desejasse que tudo fosse exatamente como antes. — Magnus se permitiu refletir um momento na vida antes da guerra, antes da Tétrade e antes de Cleo. Ele não era feliz naquela época. Estava perdido, procurando dar sentido à vida, em parte querendo ser igual ao pai, em parte desejando que o pai estivesse morto. — Além disso, acho que nós dois não teríamos nos dado muito bem antes. — Ele arqueou a sobrancelha e olhou para ela. — Você era uma garota festeira, insuportável e vazia, pelo que ouvi dizer.
— É verdade. — Ela riu. — E você era um idiota frio e ressentido, apaixonado pela própria irmã.
Magnus ficou tenso.
— As coisas mudam.
— Mudam mesmo.
— Eu me lembro de você, sabia? — ele disse calmamente. — Quando éramos apenas crianças. Da visita em que ganhei essa… — Magnus passou os dedos pela cicatriz. — Você era uma luz radiante, mesmo com… o quê? Quatro ou cinco anos? — Ele imaginou a princesinha de cabelo dourado que tinha capturado sua atenção e seu interesse, mesmo quando era um garotinho. — Fantasiei por um tempo que iria viver com você e com sua família, em vez da minha.
Cleo arregalou os olhos.
— Sério?
Ele assentiu, e a lembrança reprimida fazia muito tempo voltou com nitidez.
— Na verdade, uma vez fugi de casa e me meti em uma grande confusão por ter aquele objetivo em mente. Meu pai… — Ele suspirou. — Meu pai não era bom. Nem em seu melhor dia.
— Seu pai o amava. A seu modo. — Cleo sorriu para ele. — E sei que sua mãe o amava muito.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Por que está dizendo isso?
— Ela me disse uma vez que me mataria se eu o magoasse.
Magnus a encarou, depois balançou a cabeça.
— Parece mesmo algo que minha mãe diria.
Uma sombra atravessou o rosto de Cleo, e o sorriso dela desapareceu.
— Acabei magoando bastante você.
— E eu fiz o mesmo, tantas vezes que perdi a conta. — Magnus pegou as mãos dela, puxando-a para perto. — Vamos dar um jeito nisso, Cleo. Eu juro.
Ele se inclinou para beijá-la, precisando sentir seus lábios, mas foi interrompido por um barulho alto do outro lado da taverna.
— Nossa conversa privada acabou — ele comentou, irritado.
Ele atravessou o quarto e abriu a porta, chocado com o que encontrou do outro lado.
Era Enzo, o rosto ensanguentado, metade dos cabelos queimados.
O guarda caiu de joelhos, tentando recuperar o fôlego, e um pedaço de pergaminho enrolado caiu de sua mão.
Cleo ficou ao lado dele em um instante, ajudando-o a se levantar. Magnus abaixou para pegar o pergaminho.
— Enzo! — Cleo exclamou. — O que aconteceu?
— Kyan sabe onde você está — Enzo disse. — Ele consegue sentir porque a deusa da água está dentro de você. Vocês estão todos conectados.
Com o coração disparado, Magnus atravessou o cômodo e olhou pela janela, procurando qualquer sinal do inimigo.
— Onde ele está agora?
— Não está aqui — Enzo respondeu. — Ele me enviou com essa mensagem. É para você, princesa.
Magnus desenrolou o pergaminho com rapidez, segurando-o para que Cleo pudesse ler junto.

Tentei ser paciente e gentil com você, mas não funcionou. Venha até mim imediatamente. Se não vier, todos em sua adorada cidade dourada vão queimar. Não há outra forma disso acabar. Não me obedeça, e prometo um sofrimento interminável para todos que ama.

Ao ouvir o suspiro aflito de Cleo, Magnus jogou o pergaminho longe.
— Ele está blefando — Magnus resmungou.
— Não está — Enzo disse com tensão na voz. — Vi o que ele pode fazer. Seu fogo… não é um fogo normal. É mais intenso, mais doloroso do que qualquer outra coisa que já senti. Nunca pensei que fosse possível.
— Você não está ajudando — Magnus rosnou.
— Magnus, sei que você quer me salvar — Cleo disse, os olhos cheios de lágrimas. — Mas não tem outro jeito. Estou muito perto de perder o controle. Se Taran não conseguiu resistir, não vou conseguir também. E acredito na ameaça de Kyan. Ele vai incendiar a cidade.
— Não, você não vai até ele. Vamos encontrar outra resposta.
— Mas ele vai destruir a cidade.
— Não me importo com a maldita cidade!
— Eu me importo — ela disse com firmeza.
— Droga! — Os olhos aflitos de Magnus encontraram os de Cleo. — Fique aqui. Preciso chamar Ashur. Temos que tentar invocar Valia de novo. — Ele olhou feio para Enzo. — Fique com ela.
Magnus saiu do quarto e desceu correndo as escadas, procurando Ashur. Encontrou o príncipe conversando com Bruno na cozinha.
— O que foi? — Ashur exclamou quando viu a expressão angustiada de Magnus.
— Custe o que custar — Magnus disse. — Precisamos da ajuda daquela bruxa. Kyan está na Cidade de Ouro, ameaçando queimar tudo se Cleo não se juntar a ele.
— Não — Ashur exclamou. — Precisamos de mais tempo.
— Não há tempo. — Ele olhou para as mãos enfaixadas de Ashur. — Vamos usar o meu sangue. Ou vamos encontrar uma dezena de tartarugas para oferecer em sacrifício àquela mulher. Mas precisamos ser rápidos.
— A princesa precisa ir conosco — Ashur disse, meneando a cabeça.
— Concordo. Enzo está aqui, ele entregou a mensagem. Ele tem muito sangue para ajudar. Venha comigo.
Com Ashur logo atrás, Magnus subiu as escadas até o segundo andar, dois degraus por vez, e entrou no quarto onde havia deixado Cleo.
Tudo o que havia no cômodo era um bilhete escrito às pressas em um pedaço rasgado de pergaminho deixado sobre a cama.

Sinto muito, mas preciso fazer isso. Amo você.

Magnus amassou o bilhete e o jogou no chão. Ashur o recolheu e leu a mensagem.
— Ela foi para a cidade, não foi? — ele perguntou.
Magnus já tinha saído do quarto, em direção à saída da hospedaria.
Precisava encontrá-la antes que fosse tarde demais.

3 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!