16 de setembro de 2018

Capítulo 28


CLEO
PAELSIA

Amara encarou Ashur em silêncio por tanto tempo que Cleo pensou que ela tinha virado pedra.
— Irmã, tenho certeza de que está surpresa em me ver — ele disse antes de levantar uma sobrancelha para Cleo. — Você também está aqui.
— Sim, estou aqui — Cleo confirmou, o coração batendo rápido. — Acho que cheguei antes de você.
— Chegou. Mas não me apressei. Precisava de tempo para pensar.
— Que estranho. Os ladrões costumam ter muito mais pressa.
Ele franziu a testa.
— Sim, com certeza.
— Imperador Cortas, o que deseja que eu faça com a prisioneira? — o guarda perguntou.
Prisioneira. Cleo sentiu o estômago revirar quando pensou que sua viagem seria interrompida antes que pudesse fazer qualquer diferença. Ela precisava pensar, encontrar uma maneira de lidar com esse resultado. A manipulação era sua melhor arma. Precisava ganhar a confiança de Amara, se aproximar da mulher mais poderosa do mundo para conseguir destruí-la.
— Quero que você… — Amara começou e franziu a testa. — Você disse “imperador”?
O guarda a ignorou, voltando sua completa atenção para Ashur.
— Imperador?
— Deixe-nos conversar a sós — Ashur respondeu.
O guarda se afastou, fazendo uma reverência até sair.
Ashur olhou para a irmã.
— Parece que agora que nosso pai e nossos irmãos morreram, sou o próximo da linha de sucessão. Você sabe muito bem que nunca quis essa responsabilidade, mas farei o que for preciso. — Ela não respondeu, e Ashur continuou: — Não tem nada a dizer para mim depois de todo esse tempo, minha irmã?
Amara balançou a cabeça devagar.
— Não é possível.
Cleo quis morder a língua para não dizer qualquer coisa que pudesse chamar atenção e fazer Amara lembrar que desejava sua morte.
Mas não conseguiu.
— É possível, sim — Cleo disse. — Ashur está vivo e bem. Foi uma surpresa para mim, mas tenho certeza de que é um choque para você. Afinal, você o matou a sangue-frio, não?
— Claro que não — Amara disse, as palavras mais frias e duras do que Cleo esperava, levando em conta a expressão assustada da imperatriz.
— Matou — Ashur confirmou, passando a mão no peito, distraído. — Não houve como não sentir a dor da lâmina cortando minha pele e meus ossos. Seu olhar frio que eu já tinha visto direcionado a outros, mas nunca a mim. A terrível sensação de traição que despedaçou meu coração quando você me apunhalou sem hesitar.
— Como? Diga como isso pode ter acontecido!
— Preciso dizer que não estou aqui por vingança. Apesar de suas decisões precipitadas e questionáveis, compreendo muito mais do que você pode pensar. Você não é a única de nossa família que foi deixada de lado por nosso pai por diferenças inaceitáveis.
— Elan era diferente — ela sussurrou.
— Elan olhava para nosso pai como quem olha para um deus. Acredito que isso perdoava muitas de suas imperfeições.
— Isso está acontecendo mesmo? — Os olhos de Amara ficaram marejados. — Você não vai acreditar em mim, mas só me arrependo de uma de minhas decisões: o que fiz com você. Eu estava irritada, me sentindo traída… por isso reagi.
— Sim, reagiu.
— Não o julgaria se quisesse minha morte.
— Não quero sua morte, Amara. Quero que você continue viva, bem e disposta a ver tudo neste mundo com mais clareza do que nunca. O mundo não é um inimigo a ser derrotado a qualquer custo, não importa o que nossa madhosha possa tê-la feito pensar.
— Nossa madhosha foi a única pessoa que acreditou em mim. Ela tem me guiado e tem sido minha mais importante conselheira.
— Então foi ela quem aconselhou você a acabar com minha vida.
Amara entrelaçou os dedos.
— Mas fui eu quem agiu guiada por esse conselho. Por um tempo, pensei que você estaria ao meu lado, mas você escolheu aquele garoto… aquele garoto ruivo… depois de ter se apaixonado por ele por quanto tempo? Um mês?
— Nic — Cleo disse, a garganta apertada. — O nome dele era Nic.
Ashur a encarou sério.
— Como assim, o nome dele era Nic?
Cleo se controlou para não chorar. Ela se recusava a demonstrar fraqueza ali, a menos que fosse em benefício próprio. Queria odiar Amara, fazer aquele ódio servir de combustível para fortalecê-la, mas naquele momento, só queria machucar Ashur.
— Quando você partiu, ele o seguiu — ela disse com calma. — Ele estava aqui no complexo quando um conflito começou.
— E daí? — ele perguntou em voz baixa.
— E… ele morreu. — Parecia horrível demais dizer em voz alta, mas ela precisava fazer aquilo. Queria fincar as palavras em Ashur para ver se o príncipe era mesmo feito de aço, alguém que não se importava com quem feria, usava ou abandonava.
— Não. — Ashur balançou a cabeça, franzindo a testa. — Não pode ser.
— É verdade. — Amara confirmou. — Eu vi acontecer.
— Você mesmo disse — Cleo falou, com um nó na garganta. A confirmação roubou qualquer esperança que ela ainda tinha de que aquilo fosse mentira. — Todo mundo que se importa com você acaba morrendo. Não acredito que esteja tão surpreso.
Não — Ashur repetiu ao pressionar as costas da mão contra os lábios e fechar os olhos com força.
— Ah, por favor, Ashur. — Amara o ignorou com um aceno. — Você mal conhecia aquele garoto! Está tentando me dizer que está chateado com essa notícia?
— Cale a boca! — Cleo vociferou, surpresa com a própria raiva repentina. Amara a encarou, chocada. — Ele era meu amigo, meu melhor amigo. Eu o amava, e ele me amava. Ele era a minha família, e por causa de você e de seu irmão, Nic está morto!
— Por causa de nós? — Amara repetiu com a voz baixa. — Você tentou impedi-lo de ir atrás de meu irmão como um ex-namorado ridículo e descartado?
— Eu só soube quando ele já tinha partido!
— Talvez você devesse ter cuidado melhor de alguém que afirma ter amado.
Cleo partiu na direção dela, querendo arrancar todos os fios de cabelo de sua cabeça, mas Ashur estava atrás, segurando seus braços e mantendo-a sob controle.
Ela lutou, como tinha feito antes com os guardas, tentando arranhar o rosto do príncipe também.
— Me solte!
— Violência não se responde com violência — ele disse, soltando-a para que sentasse em uma cadeira. — Sente e fique quieta, a menos que queira ser retirada desta sala.
Cleo fez o melhor que pôde para se controlar, amaldiçoando o dia em que aqueles irmãos horrorosos pisaram em solo mítico.
— Quer saber por que estou vivo, irmã? — Ashur perguntou, rangendo os dentes. — Porque soube o que aconteceu com você na infância. Sei que nosso pai tentou matar você. E não sou nem surdo nem cego; já ouvi você e nossa avó conversando, planejando o que aconteceria e definindo quem estava atrapalhando. Quando percebi que minha vida podia estar em perigo, apesar de não acreditar totalmente que você faria algo assim, não comigo, fui ao boticário de nossa avó…
Uma brisa quente soprou pelos braços nus de Cleo.
Minha nossa, que drama, não é, pequena rainha? — uma voz sussurrou no ouvido dela.
Ela se assustou.
— Seria melhor não reagir. Não quero interromper o príncipe e a princesa nesse encontro tão esperado. Ou seriam o imperador e a imperatriz?
Cleo ficou observando Amara e Ashur enquanto o rapaz explicava por que tinha sido ressuscitado e por que acreditava ser a fênix lendária que traria a paz.
— Quem é você? — ela sussurrou.
Shiu. Não fale nada. Amara vai sentir muito ciúme se souber que estou conversando com outras garotas bonitas sem que ela saiba. Mas talvez eu não me importe com o que ela pensa sobre mim. Ela tem sido uma decepção agora que a tempestade se aproxima. — Ele fez uma pausa. — Sou o deus do fogo, pequena rainha, liberto de minha prisão, finalmente.
Cleo começou a tremer.
Não precisa ter medo de mim. Agora percebo que deixei de ver muitas coisas em nosso último e breve encontro. Eu estava prestando atenção em Lucia e no irmão dela, e na busca de minha roda especial e mágica. Mas você… seus olhos…
Ela sentiu o calor no rosto e seus músculos ficaram tensos.
São da cor da água-marinha. Da cor da esfera de cristal de minha irmã. Por favor, balance a cabeça se consegue me entender.
Ela meneou discretamente, quase sem conseguir respirar.
— Há poder dentro de você, pequena rainha. E um desejo por mais. Você sabia que descende de uma deusa? Você gostaria que eu desse a você toda a magia com a qual sonhou?
Cleo sabia muito bem o que Kyan tinha feito com Lysandra e o que ele e Lucia tinham feito com muitos vilarejos em Paelsia. Apesar de seu medo e ódio por aquela criatura que não conseguia ver, parecia não haver outra resposta no momento que o satisfizesse e a mantivesse ilesa.
Então, ela assentiu.
Amara não vale nada, consigo perceber agora. Ela só quer poder, mas se engana dizendo que quer mais do que o pai queria. Mas você sacrificaria a si mesma para salvar aqueles que ama, não é mesmo?
Cleo se forçou a assentir de novo, apesar de sentir um arrepio na espinha.
Com o que estava se comprometendo?
Será que o deus do fogo de fato via algo nela, algo especial, poderoso e que valesse a pena para ter magia de verdade?
Talvez seu desejo finalmente fosse se realizar.
Vou voltar com a tempestade. Está muito perto agora, pequena rainha. Não conte a ninguém o que contei a você. Não me decepcione.
O calor que a fez começar a suar desapareceu, e Cleo percebeu que Amara estava falando com ela.
— Cleo — ela chamou. — Está me ouvindo?
— Sim, estou.
— Você também ouviu o que o Ashur sugeriu?
— Não — ela admitiu.
— Ele acredita que juntos, ele e eu podemos governar Kraeshia pacificamente. O que você acha? É um bom plano?
Cleo se viu momentaneamente sem voz, mas então algo começou a subir por sua garganta… uma risada.
— Perdoe-me por dizer isso, Amara, mas que plano absurdo. Duas pessoas não podem governar em igualdade. É impossível.
Amara arqueou as sobrancelhas.
— Agradeço pela sinceridade.
— Discordo muito — Ashur resmungou.
Cleo levantou da cadeira, usando sua raiva, seu pesar e sua necessidade de sobrevivência para ganhar força.
— Onde está, Ashur?
Ele franziu a testa.
— O quê?
— O que você roubou de mim.
— Não roubei nada de você. — O príncipe contraiu a mandíbula. — Sei que você me culpa pela morte de Nicolo. Também me culpo. Se pudesse voltar e fazer as coisas de outro jeito, eu voltaria.
— A partir de quando? De quando você tomou a poção de ressurreição ou quando forçou Nic a beijar você aquela noite em Auranos? Os dois erros foram terríveis, na minha opinião.
— Palavras cruéis e insensíveis não combinam com você, princesa. — Ashur se virou para a irmã. — A decisão está em suas mãos, Amara, e sei que você vai escolher bem. Vim aqui para mostrar outro caminho, diferente daquele em que está. Um melhor.
— E mostrou. — Amara assentiu. — Pude escolher o caminho de ser gentil, doce e mais agradável, como todas as moças boazinhas deveriam ser, certo?
— Você fala com sarcasmo, mas uma visão mais delicada poderia lhe trazer mais do que pensa. Podemos governar Kraeshia juntos ou governarei sozinho como imperador.
— Se você acha que eu concordaria com isso, irmão, então não me conhece nem um pouco. Guardas!
Os olhos arregalados de Cleo se voltaram para a porta quando vários guardas entraram na sala, olhando para Ashur e para Amara, sem saber para quem voltar a atenção.
Amara apontou para Ashur.
— Meu irmão confessou que conspirou com o rebelde que matou nossa família. Ele deseja ajudar a rebelião a acabar com o Império Kraeshiano que meu pai construiu.
— Não fiz nada disso — Ashur disse, indignado.
— Errado — Cleo disse, enojada com as mentiras de Ashur. Ele tinha escondido os cristais da Tétrade em algum lugar, guardando-os para seu próprio benefício. — Confessou, sim. Eu mesma ouvi.
Ashur encarou a princesa furioso.
Apesar de ter desejado que Ashur fizesse Amara ouvir a razão, tal desejo parecia ser em vão. Amara tinha a brutalidade que faltava ao irmão. Ela era a predadora, e Ashur, naquele dia ou dali a um ano, acabaria sendo a presa dela de novo.
Ainda que fosse apenas um conflito temporário, Cleo tinha que se alinhar com a força, agora mais do que nunca.
Ela tinha que se alinhar com Amara.
— Você não está mais tão pacífico, não é, Ashur? — Cleo perguntou com firmeza. — Engraçado como isso muda depressa.
— Deixem-no com os outros prisioneiros — Amara disse aos guardas.
— Amara! — Ashur vociferou. — Não faça isso!
A imperatriz manteve a calma.
— Você veio aqui para me dizer, com orgulho, que é a fênix da lenda, mas está enganado. Eu sou a fênix. — Ela sinalizou para os guardas. — Levem-no daqui.
Os guardas tiraram Ashur da sala enquanto Amara sentava na cadeira.
— Você mentiu sobre Ashur para os guardas — ela disse.
Cleo mal conseguia acreditar.
— Menti.
— Ele poderia ter tirado tudo de mim: meu título, meu poder. Tudo. Porque é meu irmão mais velho.
— Sim, poderia ter feito isso. — Cleo manteve o olhar firme. — E agora, o que pretende fazer comigo?
— Para ser sincera, ainda não decidi.
Cleo mordeu o lábio, tentando manter a confiança diante de tamanha incerteza.
— Você acredita mesmo que é a fênix?
Amara levantou uma sobrancelha.
— Isso importa?
Um guarda continuava na porta. Quando Amara virou, ele endireitou os ombros.
— Imperatriz, tenho informações para a senhora.
Amara o encarou com impaciência.
— O que é?
— Os rebeldes foram capturados. Esperam ser interrogados.
Cleo ficou zonza. Seriam Jonas e Felix? Taran? Quem mais?
— Cleo, quero que você venha comigo interrogá-los — Amara disse. — Quero que você me prove que é capaz de recuperar um pouco de minha confiança, quem sabe? Pode fazer isso?
O deus do fogo tinha feito uma promessa tentadora. Mas ela daria as costas para Jonas, Felix e Taran se, com isso, pudesse reaver o trono?
Se não desse, haveria uma maneira de convencer Amara a soltá-los antes de roubar o cristal da Tétrade dela?
Não havia tempo para essas decisões no momento, não sobre algo tão importante. Ela só podia ganhar o máximo de tempo possível.
Cleo assentiu.
— Claro que posso fazer isso, imperatriz.

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