1 de setembro de 2018

Capítulo 28

NIC
AURANOS

Quinhentos convidados compareceram ao casamento da filha do lorde Gareth, celebrado no palácio auraniano — auranianos importantes que juraram lealdade ao novo rei, além daqueles que vieram de Limeros. O convite para um evento tão importante não podia ser ignorado.
Até mesmo o príncipe Ashur e a princesa Amara estavam entre os convidados da cerimônia da garota sem graça com vestido bordado. Seu novo marido era um rapaz magro, mas bem-apessoado, do norte de Limeros, cuja expressão — Nic não podia deixar de notar de seu posto, na entrada da sala do trono — era de incômodo enquanto faziam os votos.
O banquete seria servido perto do grande salão, e os convidados teriam que se movimentar em massa de um local a outro, supervisionados pelos guardas do palácio.
Nic se aproximou do príncipe e da princesa de Kraeshia quando notou que andavam contra o fluxo da multidão, como salmões nadando contra a corrente.
— Já marcamos presença na cerimônia — Ashur informou um de seus guardas pessoais, de uniforme verde. — Desejamos voltar à quinta. Não há necessidade de estender nossa estadia aqui por mais tempo que o estritamente necessário. É provável que o rei nem perceba que partimos.
— Sim, alteza.
Sem dizer mais nada, nem mesmo olhar na direção de Nic, os kraeshianos saíram discretamente.
Sorte deles.
Nic então foi montar guarda na entrada do grande salão e, cansado, observou os convidados se empanturrando com montes de comida, escutando discursos entediantes e brindando a uma noiva e um noivo com quem não se importavam nem um pouco.
Cleo não estava em lugar nenhum. Pelo menos um deles tinha conseguido evitar o que prometia ser uma noite infinitamente árdua.
O rei Gaius fez seu pronunciamento para a noiva, dizendo que a conhecia desde menina, que a considerava tão importante quanto uma segunda filha. Quando os convidados fizeram um brinde aos recém-casados, Nic sentiu o jantar insosso e engolido às pressas revirar no estômago diante de tamanha falsidade. Terminado o discurso, o rei desceu da plataforma. Nic viu um guarda abordá-lo, aproximando-se o suficiente para revelar algo em confidência.
No rosto do rei, o sorriso perfeito se transformou em pedra.
Ele saiu do salão sem dizer uma palavra, seguido pelo guarda.
Certamente havia recebido más notícias.
Ótimo, Nic pensou, maldoso.
Logo depois, Nic notou vários guardas deixando o posto. Estranho — o casamento continuaria até mais tarde, e o rei havia insistido em proteção extra. Não queria arriscar uma repetição do massacre e da destruição que denegriram o casamento de Cleo e Magnus. Mas por que todos estavam saindo?
Nic logo se deu conta de que era um dos únicos guardas que permaneciam no salão.
— O que está acontecendo? — perguntou a Idas, um dos pouquíssimos guardas que não o tratavam como uma pilha de esterco. Idas não o tratava bem, mas, comparado a Burrus e Milo, que continuavam no calabouço por suspeita de auxiliar a fuga dos rebeldes, Idas era o mais próximo de um amigo que Nic tinha ali.
— Um problema — Idas respondeu.
— Que tipo de problema?
— Cronus está morto.
Nic respirou fundo.
— O quê?
— O corpo dele foi encontrado no calabouço, junto com o de outro guarda. Ambos perfurados.
— Quem fez isso?
— Aparentemente, um prisioneiro que conseguiu escapar. Mas nosso trabalho hoje é ficar de olho no casamento. Vamos deixar a caçada aos fugitivos para os outros.
Cronus? Morto por um prisioneiro comum? Cronus dera a Nic a impressão de ser quase imortal — um guerreiro habilidoso forjado em aço, aparentemente indestrutível.
Pelo visto, não passava de uma ilusão.
— Pode me fazer um favor? — Idas pediu. — Se por acaso localizar o príncipe Magnus entre os convidados, me avise. O rei vai querer contar a ele sobre Cronus assim que possível.
— Pode deixar.
Idas saiu para cochichar com outro guarda.
Um prisioneiro tinha escapado e conseguido matar dois guardas no processo? Essas coisas não aconteciam. Claro, de vez em quando havia tentativas de fuga — como a dos amigos de Jonas. Mas, até onde Nic sabia, nenhum prisioneiro tinha conseguido escapar do calabouço com sucesso.
Até aquele dia.
Mas quem era esse prisioneiro?
Quando Nic viu mais três guardas saindo do salão, percebeu que sua curiosidade estava aguçada o bastante para fazê-lo largar o posto. Não que importasse. Afinal, quem estava monitorando o trabalho dos guardas naquela noite? Com certeza não era Cronus.
Ninguém prestou atenção quando ele foi na direção da sala do trono. O rei Gaius estava na passagem arqueada, cercado por mais de uma dúzia de guardas.
— … além da busca principal, que deve ser priorizada — o rei disse —, vocês também precisam localizar o príncipe Ashur e a princesa Amara e, com a maior discrição possível para não perturbar o banquete, prendê-los enquanto ainda estão sob este teto. Estão me entendendo?
— Sim, vossa majestade — os homens responderam em coro.
— O imperador pensará duas vezes antes de chegar perto do meu reino quando souber que seus adorados filhos estão à minha mercê.
Nic duvidou do que estava ouvindo. Esperava escutar apenas a reação do rei à morte de Cronus, não uma ordem para prender os kraeshianos.
Não fazia sentido.
Ainda assim… se o rei Gaius acreditava que o imperador de Kraeshia pretendia destruí-lo, transformando Mítica no mais recente de uma longa lista de reinos conquistados, estava tomando uma atitude inteligente. Talvez a única possível.
No entanto, o rei parecia não saber que os kraeshianos haviam deixado o palácio fazia bem mais de uma hora.
Nic saiu sem ser notado pelo rei. Era apenas mais um guarda no grupo. Mesmo uniforme, mesmas tarefas.
Mas não a mesma lealdade.
Afinal, Nic agora era um rebelde.
Ele queria encontrar Cleo e contar seus planos, mas não havia tempo. Não demoraria até chegar ao rei a notícia de que Ashur e Amara não estavam mais no palácio. O rei então enviaria guardas direto à quinta para prendê-los. Nic saiu do palácio sem permissão, sabendo que todas as decisões que tomasse a partir de então mudariam seu futuro. Se para melhor ou para pior, ele não sabia ao certo. Só sabia que possuía essa informação, e que tinha aliados poderosos em potencial que precisavam dela para sobreviver.
Então havia o simples mas terrível pensamento de Ashur aprisionado no calabouço escuro, à mercê do rei, correndo o risco de nunca mais ser solto… Aquilo não aconteceria. Não se Nic pudesse evitar.
O percurso até a quinta levava uma hora. Até onde sabia, não estava sendo seguido. A escuridão era total quando chegou, exceto pelo brilho da lua no céu noturno.
Ele desceu do cavalo e se aproximou da entrada. Um guarda de uniforme verde parou em seu caminho, com a cara feia demonstrando desdém pelo garoto de vermelho.
— O príncipe já voltou? Preciso falar com ele imediatamente — Nic disse. — Tenho uma mensagem do rei.
Não era mentira, era uma mensagem. Embora com certeza não fosse algo que o rei desejasse informar antes da hora.
— Posso entregar a mensagem — o guarda resmungou, estendendo a mão. — Dê aqui.
— É muito importante, muito particular para ser escrita. — Nic cruzou os braços. Ele se recusava a ser intimidado por qualquer um naquela noite. — Sou o único que pode transmiti-la.
A expressão severa do guarda logo se transformou em tédio, e ele cedeu, deixando Nic entrar. Uma criada o conduziu ao mesmo pátio onde o príncipe e a princesa haviam proposto uma aliança, só que agora os belos jardins estavam sob as sombras.
Nic começou a andar de um lado para o outro enquanto milhares de pensamentos e preocupações giravam em sua cabeça — pensamentos e preocupações que ele não se permitira considerar durante o trajeto alimentado pela revolta.
Não demorou até o príncipe Ashur aparecer na extremidade do jardim com um sorriso nos lábios.
— Nic. Acabei de saber de sua chegada. Que surpresa agradável. Pensei que estivesse ocupado demais com o casamento para fazer uma visita.
A boca de Nic ficou seca, e o coração batia mais forte que um martelo.
— Estou ocupado, mas eu queria, não, eu precisava ver você.
— Que intrigante. — Ashur olhou para uma criada que esperava na porta. — Traga algo para bebermos.
A criada fez uma reverência e saiu.
— Por favor, sente-se. — Ashur apontou para o estofado de veludo do pátio, em uma área iluminada por tochas. — O guarda me disse que você tem uma mensagem do rei Gaius.
— Sim, é verdade… — Mas então as palavras lhe faltaram.
Traição contra a coroa. Era o que estava prestes a fazer.
Uma língua traiçoeira garantiria sua execução. Ter ido até ali colocava Cleo em perigo? Será que tinha cometido um erro terrível?
Ashur o observava com cuidado, com o rosto sério.
— Sinto que ficar perto de mim o deixa desconfortável, por isso nunca mencionei isso antes, mas o que aconteceu entre nós aquela noite na viela… sei que não foi bem recebido. Quero me desculpar por ter sido tão ousado.
Nic não queria falar sobre aquilo agora. Não sabia ao certo se algum dia gostaria de voltar a tocar no assunto. Mas ainda surgiam dúvidas dentro dele, questões que o atormentavam desde aquela noite e que não conseguia evitar. Não havia tempo para isso, mas ele não pôde deixar de perguntar:
— Por que eu? Por que você… bem, além de querer que eu revelasse o que sei sobre Cleo… essa parte eu entendo. Não é incomum por aqui alguém fazer o necessário para obrigar alguém a falar. Mas dei alguma impressão de que queria…? — Ele hesitou e descobriu que não conseguiria continuar.
Não era exatamente essa a razão da visita de Nic naquela noite.
Ele precisava se concentrar. Precisava decidir se contaria a Ashur os planos do rei e torceria para ser a decisão certa, ou se inventaria um recado qualquer e sairia de lá o mais rápido possível antes que alguém notasse sua ausência no palácio.
Mais guardas já deviam estar a caminho.
— Eu não devia ter tocado nesse assunto — Ashur disse, tenso. — Não há motivos para se sentir desconfortável perto de mim. Não quis fazer mal.
Nic suspirou, suas emoções tumultuadas.
— Não acho que queira me fazer mal. E está errado. Não fiquei aborrecido porque você me beijou.
— Não?
Droga. Já chega disso.
O rosto de Nic de repente ficou muito quente. Ele estava cansado de ser tímido, temeroso e inseguro. Talvez tivesse sido assim um dia, mas não mais.
Ele olhou bem nos olhos de Ashur.
— Escutei o rei dar ordens para os guardas prenderem você e a princesa Amara. Ele acha que ainda estão no banquete, mas os vi saírem, então vim até aqui avisar. Ele pretende prendê-los no calabouço por tempo indefinido para evitar que seu pai envie uma armada.
Pronto, estava feito.
E agora ele achava que ia vomitar.
— Certo. — Ashur se inclinou na cadeira, aparentemente inabalado pela informação monumental que tinha sido revelada a ele, obrigando Nic a cometer traição. — Por que você me contaria uma coisa dessas?
— Porque odeio o rei — ele respondeu com calma e honestidade. — Porque ele matou minha irmã. Porque destruiu tudo o que amo, e até hoje controla o destino de minha amiga mais querida. Ele é cruel. E precisa ser derrotado.
Ashur o observou com atenção por mais um longo instante, depois meneou a cabeça.
— Você tomou a decisão certa.
— Vocês precisam fugir agora.
— Kraeshianos não fogem. — Ele olhou para Nic com um sorriso calculado. — Jamais.
— Me perdoe por dizer, mas quando os guardas dele chegarem aqui, superando os seus em grande quantidade, vocês serão levados com facilidade. O rei vai vencer.
— Você me subestima. E subestima minha irmã. Sou muito grato, Nic, por vir atrás de nós com esse alerta. — Ele estendeu o braço sobre a mesa e colocou a mão sobre a de Nic. — Mais do que você imagina.
Nic ficou olhando para a mão de Ashur: escura e sem falhas, junto à sua pele clara e sardenta.
— Não precisa agradecer.
Ashur olhou para a porta quando a criada voltou trazendo uma bandeja com um jarro de sidra de maçã e dois cálices de prata. Nic afastou sua mão de Ashur, e ela serviu a bebida sobre a mesa que havia entre os dois. Quando a criada se retirou, outra figura passou por ela.
— Basta dizer seu nome — Ashur disse — e ela aparece como num passe de mágica.
Ao surgir no pátio, Amara olhou para Nic.
— A princesa Cleo decidiu se aliar a nós?
— Não é por isso que estou aqui.
— Não, Amara, Nic está aqui para nos alertar sobre os planos do rei. Era exatamente o que esperávamos. Ele pretende nos capturar hoje à noite.
Ela suspirou, aborrecida.
— Que inconveniente.
Por que nenhum dos irmãos parecia assustado com a possibilidade de passar o resto da vida no calabouço?
Ashur encheu os cálices com sidra e empurrou um na direção de Nic.
— Gostaria de fazer um brinde.
— A quê? — Nic perguntou. Ele ergueu a taça e descobriu que sua mão ainda tremia de ansiedade, apesar do inesperado clima de serenidade absoluta na quinta.
— Tenho uma sugestão — Amara disse. — Vamos beber à princesa Lucia, feiticeira renascida. A garota que nos levará à Tétrade.
O estômago de Nic revirou ao ouvir Amara repetir os mesmos segredos que Cleo havia lhe confiado.
— À princesa Lucia — ele sussurrou.
Ele tomou um pequeno gole da bebida doce.
— Magnus não serviu para nada — Amara disse, irritada. — É uma pena. Eu tinha planos para ele, mas agora terei de modificá-los. Ou ele não sabe de nada, ou não está disposto a compartilhar nenhuma informação.
— Parece típico do príncipe — Nic admitiu.
— Conte mais, Nic. Conte tudo o que sabe sobre a busca da Tétrade. — Amara sentou perto dele, segurou suas mãos, e olhou bem fundo em seus olhos. — O rei é nosso inimigo também. Ele teme nosso pai. Junte-se a nós, e ofereceremos proteção absoluta a você e a Cleo.
Ele já estava no meio do caminho. Podia muito bem continuar.
Depois de tomar um bom gole do cálice, respirou fundo e relatou tudo o que sabia, tudo o que Cleo havia lhe contado — sobre os cristais despertados, o ritual de magia de sangue necessário para reivindicá-los. Quando terminou, sentiu-se purificado.
— Então Cleo ainda não está de posse de nenhum cristal — Amara disse.
— Não, ainda não.
— Entendo. — Ela parecia refletir quando uma criada se aproximou e falou em seu ouvido. — Sim, muito bem. Pode pedir para ele entrar.
— Por favor, vossa graça — Nic falou de novo com Ashur. — Insisto que saia da quinta neste instante.
— Você se preocupa demais — Ashur respondeu com um sorriso.
— E você parece não se preocupar nem um pouco.
— Apenas escolho minhas preocupações com muito cuidado.
Um lampejo vermelho chamou a atenção de Nic. Ele se virou e viu quem tinha aparecido no pátio. Ao levantar, entornou o cálice e derramou o resto da sidra sobre a mesa.
Burrus, seu inimigo, estava parado na sua frente.
— O que está fazendo aqui? — Nic perguntou. — Devia estar no calabouço.
— Não mais — o valentão respondeu.
Uma ideia ocorreu a Nic como um golpe inesperado.
— Você é o prisioneiro que escapou, que matou Cronus. Não é?
Burrus riu.
— Que nada. Fui libertado ontem. Milo ainda está preso, e, por mim, pode apodrecer lá. Agora cale a boca, verme. Não vim aqui falar com você. — Ele olhou para a princesa. — Tenho informações.
— Muito bem — ela disse, com um aceno. — Diga.
Nic observou, em choque, enquanto lentamente se dava conta de algo desagradável.
Os kraeshianos tinham mais de um guarda do rei no bolso.
— No fim da tarde, o príncipe Magnus e a princesa Cleiona foram vistos entrando em um navio com destino a Limeros, seguindo o rastro da princesa Lucia, que fugiu com seu tutor.
— Limeros? — Ashur disse.
— Sim. Eles saíram às pressas. O que sei é que a princesa Cleo foi acusada de traição e aprisionada hoje mais cedo. Ela seria executada. Mas agora está a bordo de um navio, muito viva.
O mundo de Nic parou.
— O que quer dizer com “ela seria executada”?
— Por acaso falei grego? Você é burro? Ah, é, tinha esquecido que era. — Burrus revirou os olhos. — Princesa Amara, não se preocupe em tentar arrancar informações desse idiota inútil. Contarei tudo o que precisar saber. Pelo valor certo, é claro.
— É claro. — Amara sorriu para o guarda e lhe deu um tapinha no braço. — E fico muito grata por isso. O que mais você sabe?
— Por enquanto, mais nada, princesa.
— Então todos que estão à caça da Tétrade, com exceção do próprio rei, partiram para Limeros. Coincidência, não acha? — Ela olhou para Ashur.
— Não acho que seja coincidência nenhuma — ele respondeu.
— Perdão — Burrus disse —, mas você falou Tétrade? O tesouro lendário dos vigilantes?
— Guarda! — Amara gritou. Um instante depois, o guarda da entrada apareceu na passagem arcada.
— Vossa alteza — ele disse.
— Já terminamos com nosso amigo Burrus aqui. Ele sabe demais; não posso deixá-lo ir embora. Leve-o daqui e o mate da maneira mais silenciosa possível.
Burrus não conseguia respirar direito.
— O-o quê? Vossa graça, eu fiz tudo o que me pediu.
— E foi muito útil. Mas agora terminamos nosso assunto.
Dois outros guardas apareceram para ajudar a levar Burrus do pátio enquanto Nic observava, aturdido.
Odiava Burrus com todas as forças, mas nunca imaginaria uma coisa dessas.
Nic percebeu que Amara estava olhando para ele como se considerasse pintar um retrato.
— Diga, meu irmão — ela falou. — Ele teve utilidade para você?
— Alguma — Ashur respondeu. — Mas não tanta quanto eu esperava.
Seu tom de voz era estranhamente frio, deixando Nic muito confuso.
— O que está acontecendo? — ele perguntou.
Amara se levantou e apertou o ombro de Nic.
— Sei que deve ser difícil se dar conta de que as coisas nem sempre são como você acredita que sejam. E sei que meu irmão tem um charme devastador. Ele poderia fazer um javali se apaixonar, se quisesse. Você não foi praticamente desafio nenhum. Foi aquele primeiro beijo proibido que selou seu destino? Fez você sonhar com mais? — Ela se virou para Ashur com um olhar entretido enquanto Nic rangia os dentes em silêncio. — E agora? Devemos matá-lo também?
Nic estava prestes a saltar da mesa quando sentiu a pressão fria do aço afiado no pescoço, e Amara o puxou para perto.
Cleo ficaria tão decepcionada. Ele a havia traído na tentativa de salvá-la, compartilhando informações com aqueles dois. Era tudo culpa dele.
— Não. Ele ainda pode ser útil. — Ashur arrastou a cadeira para perto de Nic. — Se você estiver certa sobre Cleo e os outros, vamos precisar de algo na manga para convencê-la a nos ajudar, não vamos?
— Sim — ela disse depois de um instante. — Acho que tem razão.
Ashur enfiou a mão no bolso da sobreveste e tirou um pequeno frasco de vidro.
— Costumo ter isso à mão, para uma eventualidade.
Amara riu em voz baixa.
— Meu irmão, sempre preparado.
O príncipe levantou o cálice tombado de Nic e o encheu de sidra, depois tirou a rolha do frasco e verteu seu conteúdo.
— É uma poção sonífera. É muito poderosa, mas não tem gosto de nada. Beba, por favor.
Nic ficou olhando para ele, entorpecido pela descrença em sua traição. É claro que Ashur o manipulara o tempo todo. Tinha iniciado o jogo naquela noite na taverna, pretendendo plantar mais sementes aos poucos com o tempo. O príncipe lhe dera apenas o suficiente, um pequeno aperitivo, provando ser um especialista nisso.
— Beba, Nic — Ashur disse com calma. — Ou minha irmã vai cortar sua garganta.
Tremendo de raiva e com a dor da decepção, Nic pegou o cálice, virou-o e tomou tudo em três goles.
Sinto muito, Cleo.
— Ótimo. — Ashur acenou com a cabeça enquanto o mundo de Nic começava a escurecer. — Agora, vamos em frente?

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