3 de setembro de 2018

Capítulo 27

AMARA
MAR PRATEADO

Foi a linha do queixo familiar que chamou sua atenção. Os fios de cabelo escuro. O formato dos ombros.
Ashur?
O coração de Amara ficou leve de felicidade, mas imediatamente se fechou de terror.
Não pode ser possível.
Ela seguiu o jovem pelo convés do navio, fazendo a volta e seguindo na direção da proa. Finalmente, conseguiu segurar seu braço.
— Ash... — ela começou a dizer, mas o nome desapareceu quando o rapaz se virou. Era Milo, que a encarava com surpresa.
— Vossa alteza, precisa de alguma coisa?
Ela franziu a testa, olhando freneticamente para a esquerda e para a direita, mas não havia mais ninguém por perto.
— Não, nada — ela disse, fazendo sinal para Milo seguir seu caminho.
Amara desceu para o cômodo sob o convés que compartilhava com o rei e ficou aliviada ao encontrá-lo vazio.
Olhou pela escotilha e não viu nada além de mar — uma extensão interminável de azul cintilante.
Ela suspirou, ansiosa para chegar em Mítica. Precisava saber quão desonesto o rei estava sendo ao alegar possuir todos os cristais da Tétrade. Pelo menos sabia que ele estava blefando a respeito da esfera da água, que estava envolvida por um lenço de seda e escondia em segurança no meio de suas roupas.
A única coisa que sabia era que, com ou sem a ajuda de Gaius, logo teria os quatro. Aprenderia o segredo para libertar sua magia e ascenderia de imperatriz à deusa.
— Tudo está transcorrendo perfeitamente — ela lembrou a si mesma.
— Está mesmo? — Uma voz familiar soou do canto oposto de seus aposentos, atraindo seu olhar.
Ela ficou boquiaberta.
— Ashur.
Na penumbra, sorrindo para ela, estava o irmão que Amara havia matado fazia apenas algumas semanas.
— Saudações, irmã.
Amara cerrou os olhos, certa de que estava imaginando coisas.
Reunindo toda sua coragem, ela levantou e caminhou até o irmão. Estendeu o braço em sua direção, e ele desapareceu. Amara encostou a mão na parede onde ele estava, deixando uma mistura cruel de decepção e alívio tomar conta de seu corpo.
Mas quando se virou, lá estava Ashur de novo, sentado em uma cadeira perto da cama, olhando para ela como se estivesse se divertindo.
— Ah, Amara, não me diga que sentiu minha falta.
— O que é isso? Um espírito vingativo que veio bater papo?
— É isso que acha que sou? E eu que pensava que você acreditava em reencarnação, como todo bom kraeshiano.
— Se não é um demônio, então não passa de um produto de minha imaginação, o que significa que posso fazê-lo ir embora e me deixar em paz.
— Você matou todos nós, garota perversa — ele resmungou, mas continuou com aquele sorriso familiar e caloroso. — Pegou todos de surpresa com sua brutalidade. Valeu a pena? Agora não tem com quem compartilhar seus segredos.
— Tenho a vovó.
— Ah, sim, uma senhora amarga, tão velha quanto as colinas. Ela não vai ser sua companheira por muito mais tempo.
A ideia de perder Neela era dolorosa demais para contemplar, então Amara tentou tirar aquilo da cabeça e cerrou as mãos em punho.
— Eu não queria matá-lo. Você não devia ter me enganado.
— É isso que pensa que fiz?
— Houve um tempo em que éramos inseparáveis — Amara continuou falando. — Melhores amigos. Então você quis ir embora para explorar terras distantes, caçar tesouros, e me deixou para trás, sozinha.
Os olhos azul-prateados de Ashur refletiam um misto de tristeza e raiva.
— Não ouse me culpar por suas escolhas.
— Preferiu ficar ao lado de estranhos em vez da própria irmã!
— E suponho que tenha aprendido minha lição. Todo mundo que fica a seu lado, Amara, precisa saber que não pode virar as costas. Você fez coisas imperdoáveis, tudo em uma busca vazia pelo poder.
Ela virou para o espelho, tudo para não precisar mais encará-lo, e começou a pentear o cabelo vigorosamente.
— Quando os homens fazem o mesmo são considerados campeões — ela bufou.
— Você se considera uma campeã?
Aquele fantasma sarcástico não era o irmão de Amara, era apenas uma manifestação de sua culpa. Ela sabia que só tinha feito o que era preciso, nada além disso.
— Vou trazer para este mundo mudanças que vão beneficiar milhões de pessoas — ela disse para o próprio reflexo.
— Há muitas formas de fazer isso, minha irmã, mas você escolheu matar. Parece que é mais parecida com nosso pai do que gostaria de admitir.
Quando Amara se virou para encará-lo de novo, ele não estava mais lá.


Amara aproveitou para se recompor na cabine e, quando voltou para o convés, viu que o navio estava se aproximando da costa congelada de Limeros. Cobrindo-se melhor com o manto de pele que trazia nos ombros, sentiu o ar ainda mais frio do que da última vez em que esteve ali.
Ela olhou para a cidade coberta de neve. Era onde Felix tinha crescido. Seus pensamentos tinham se voltado para ele muitas vezes durante a viagem — para a dor que havia sentido ao abandoná-lo, fazendo-o levar a culpa por seu crime. Assim que uma pontada de dor começou a consumi-la, o rei Gaius se aproximou pelo lado esquerdo e encostou na amurada do navio, segurando um pedaço de pergaminho.
Ela endireitou a postura e foi até o marido.
— Você parece preocupado — ela afirmou.
O rei Gaius olhou para ela, surpreso, como se tivesse acabado de acordar de um sonho.
— Devo admitir que estou um pouco preocupado. — Ele apontou para o pergaminho que tinha nas mãos. — Pouco antes de partirmos de Joia, recebi esta mensagem. É de um informante no palácio limeriano. Já li muitas vezes, mas ainda acho difícil acreditar no conteúdo.
— É sobre Magnus? O príncipe está aproveitando seu lugar ao sol?
— Pelo jeito, até demais. Se o que está escrito aqui for verdade, parece que ele se encontrou várias vezes com rebeldes.
Amara apoiou a mão sobre a dele.
— Sinto muito. Mas, devo dizer, se for verdade, não me surpreende nem um pouco. Seu filho já cometeu traição contra você uma vez.
— Ele alega que tinha um bom motivo para fazer isso.
— Existe algum bom motivo para cometer traição?
— Diga você, imperatriz. Por que envenenou sua família inteira?
Ela já tinha quase esquecido como as pessoas de Mítica podiam ser sensíveis. Se quisesse virar a cabeça de Gaius sem que ele percebesse, teria que lembrar de usar uma mão mais gentil para conduzi-lo.
— Entendo que queira pensar o melhor sobre ele — Amara disse com doçura. — Afinal, é seu herdeiro. Mas fez demonstrações públicas de oposição a você mais de uma vez, posicionando-se contra tudo o que faz. Precisa pagar por seus crimes.
— Está sugerindo que eu execute meu único filho?
Surgiu uma angústia nos olhos escuros do rei, um alerta de que a mão de Amara não tinha sido gentil o bastante.
— Não, é claro que não. Não existe resposta fácil para isso. Não estou sugerindo que exista. Mas me importo mais com você. Conosco. Com nosso futuro. E se Magnus receber nossa chegada com violência, meus guardas não hesitarão em reagir. Quero uma transição pacífica tanto quanto você, mas se o palácio limeriano armar um levante, sangue será derramado.
— Pacífica... — Gaius repetiu, e então abriu um sorriso melancólico para ela. — Seu nome suscita muitas palavras, Amara, mas “pacífica” não é uma delas.
— Por que não? — ela perguntou, indignada. — Por que eu desejaria prejudicar a nova joia da coroa kraeshiana?
— Por que pediu para vinte navios nos seguirem e atracarem em todos os portos de Mítica? Para garantir que não encontremos nenhum tipo de resistência?
— Porque sou cautelosa. Só isso. Além do mais, você já tinha concordado com essa estratégia.
Ele suspirou.
— Sim, é verdade. Sei que temos que nos prevenir contra insurgentes e controlá-los.
A tensão no pescoço de Amara se dissipou, e ela finalmente se permitiu relaxar.
— Talvez seu retorno faça Magnus perceber que estamos fazendo isso com a melhor das intenções. Que fazer parte de Kraeshia só fortalecerá Mítica.
— Eu costumava duvidar que meu filho fosse se recuperar, que fôssemos nos encarar nos olhos de novo, que um dia ele assumiria suas responsabilidades como meu herdeiro com honra e orgulho. Mas um problema persistente atropelou esta crença. — Gaius fez uma pausa, observando a costa limeriana com os olhos semicerrados. — Cleiona Bellos. Assim que aquela criaturinha calculista entrou em nossa vida, um abismo intransponível pareceu surgir entre mim e meu filho. Eu o criei para ser grandioso, mas ela conseguiu corrompê-lo. Fui cego por não enxergar isso antes, mas não sou mais. Ele a ama. — As articulações dos dedos dele ficaram brancas ao apertar o peitoril do navio.
— Ele pode amá-la, mas Cleiona o ama também? — Amara argumentou. — Depois de tudo o que aconteceu com o antigo reino da princesa, como ela pode enxergá-lo como algo além de um inimigo?
— Não importa se ela corresponde ou não ao amor dele. Amor platônico ainda é amor. — Ele balançou a cabeça. — Conforme vou envelhecendo, estou começando a entender cada vez mais as escolhas de minha mãe. Eu não as perdoo, mas compreendo. Meu filho não percebe o quanto se parece comigo.
A curiosidade de Amara tinha sido bastante estimulada.
— Em que sentido? — ela perguntou.
Ele não respondeu.
Ela franziu a testa, ainda esperando tirar mais informações de Gaius.
— Está querendo dizer que já amou alguém como acredita que Magnus ama Cleo?
A boca do rei formou uma linha fina.
— Não importa. Foi muito tempo atrás. É insignificante.
— Você está pensando em Althea? — Amara não havia conhecido a antiga rainha, mas tinha visto retratos dela em poses austeras nos corredores do palácio limeriano.
— Não, não em Althea. — Gaius ficou olhando para o pergaminho. Justo quando Amara pensou que ele tinha encerrado o momento de desabafo, o rei começou a falar de novo, em um tom de voz que chegava a ser lamentoso e nostálgico. — Quando eu era jovem, ainda mais jovem que Magnus, fiz uma viagem para o exterior. Conheci uma garota. Uma garota linda, instigante e frustrante. Nós brigávamos, argumentávamos e discutíamos todos os assuntos imagináveis, e ela logo se tornou meu mundo. Eu queria passar o resto da vida com ela, tinha certeza disso. Mas minha mãe tinha outros planos para mim... planos que não incluíam minha profunda devoção a outra pessoa. “Amor é fraqueza”, ela me disse. “E deve ser destruído, ou criaturas enganadoras e perigosas vão explorar essa fraqueza em benefício próprio.”
— O que aconteceu? — Amara perguntou, aproximando-se de Gaius para reconfortá-lo.
— Minha mãe interveio. Ela envenenou esse amor com palavras e ameaças e uma obscuridade que eu não sabia que existia dentro dela, e logo a garota passou a me odiar. Depois de um tempo, ela se casou com outro e teve filhos lindos.
E você, por sua vez, tornou-se exatamente o monstro que ela acreditou que fosse, Amara pensou.
— E onde ela está agora? — Amara questionou em voz alta. — Você sabe?
Ele cerrou os dentes.
— Está morta.
— Sinto muito — ela respondeu, ainda sem conseguir acreditar que aquela história de amor e perda tinha saído da boca do próprio Rei Sanguinário.
— Eu não — ele respondeu, retomando o olhar frio. — Minha mãe estava certa sobre o amor. Sem sua intervenção, eu não seria o rei que sou hoje. E agora sei exatamente o que precisa ser feito para assegurar o destino de meu filho. Vou acabar com a tentação dele, de forma permanente, assim como minha mãe fez por mim.
Ele rasgou a mensagem e a jogou no mar.

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